Uma linha tênue separa o colecionador do acumulador. Meu receio é o de não saber de que lado estou. Sempre comprei em quantidade, vinhos, charutos, sabonete, azeite de oliva, em suma, qualquer coisa.
Mais por distração, presumo, lembro de o acúcar está acabando. Vou ao mercado e, ao guardá-lo, vejo que tinha um pacote fechado na despensa. Nesses dias, além do açúcar, vi tenho em dobro, feijão carioca.
Não acho que meu caso seja patológico, apesar de ter mais que três mil DVDs e Blu-Ray e mais de sete mil CDs, além de milhares de livros espalhados pela casa em prateleiras, inclusive no banheiro, esta, destinada à música e ao cinema, o que pode me classificar no gênero “colecionador”, mas não no de “acumulador”.
Nessa classificação, não conheci alguém que ganhasse, se houvesse um concurso, do seo José. Tendo convivido durante anos com ele, passando muitos fins de semana no sítio perto de Campinas, fiquei sabendo de muitas histórias, contadas pelos seus filhos, e algumas, que presenciei. Lembro de uma vez em que comprou um quilo de orégano. Dona Palmira, sua mulher, distribuiu saquinhos de orégano para quem aparecia na sua casa.
No tempo em que a linha telefônica era cara e difícil de se adquirir, tinha mais de dez. Bom, aí existia uma coisa objetiva: alugava e levantava um bom dinheiro. Com isso, alguns imóveis e uma boa aposentadoria como funcionário público, pode-se dizer que conseguia viver confortavelmente.
Ele tinha uma maneira sui generis de complementar a aposentadoria. Um exemplo: quando o metrô foi inaugurado, em 1974, comprou 1.000 bilhetes. Li em algum jornal, talvez há cerca de dez anos, em que se dizia que o preço do bilhete valorizou mais que qualquer aplicação financeira, mais que poupança ou ações. Não sei se ele tinha essa visão de grande investidor ou estrategista financeiro. Como bom descendente de português, acumulava e gastava pouco.
| O famoso “tijorola” |
Logo que o telefone celular foi lançado, quando você tinha ficar na fila para conseguir comprar um, ser José comprou duas linhas. Lembro que sua filha foi uma das primeiras pessoas que conheci que possuía o que era conhecido como “tijorola”. Explico: a primeira marca a surgir foi a Motorola, que dominou por anos o mercado, junto com a Nokia, que veio logo a seguir. O aparelho era enorme. Lembro também que os exibidos de plantão adoravam se mostrar com eles presos na cintura. Sempre tem um metido por mór. O ex-deputado federal Carlos Benevides, filho de Carlos Mauro Cabral Benevides, que foi senador entre nas anos 1970 e 80, ficou famoso porque gostava de se exibir com dois celulares, um em cada lado da cintura. Deram-lhe o apelido de “o mais rápido do Oeste”, remetendo aos pistoleiros dos westerns americanos.
Muitos leitores provavelmente nem vão saber dos famosos orelhões da Telesp. Foi uma criação genial de uma designer brasileira, uma derivação das cabines telefônicas de antigamente. Para utilizá-los eram necessárias as fichas telefônicas, de formato redondo, como as moedas, com uma ranhura no meio. Você inseria as fichas para poder fazer a ligação. Todo mundo andava com essas fichas no bolso para o caso de terem que ligar para alguém. Digo todo mundo porque todo mundo andava mesmo com as tais fichas porque era o único modo de se telefonar quando se estava na rua. Pois então, sei José tinha 1.500 delas em casa. Quando ficaram obsoletas, com o surgimento dos telefones móveis, algo tinha que ser feito. Um dos filhos levou-as até uma central da Telefônica e recebeu o valor correspondente em dinheiro.