A vida era muito chata naquela pequena cidade de pouco mais 20 mil habitantes. Brittany não vislumbrava nada de interessante no horizonte. Tinha sido motorista da caminhão, trabalhado em uma loja de quadros e molduras e, agora, estava nos Correios. Achava que nem chegaria aos 22 anos. Cantava: “Eu não sei para onde vou; o que eu devo fazer? Deve ter alguém lá em cima dizendo – Vamos, Brittany, você tem que vir para cima.” Com quatro amigos formara uma banda e apresentavam-se em Athens e arredores, quando surgia algum convite. Era desanimador, às vezes, tocarem para meia dúzia de gatos pingados. Mas adorava tocar guitarra e cantar.
Por várias semanas, Steve, Heath, Zac, Ben e Brittany, depois do expediente, pegaram o carro e dirigiam 160 quilômetros, atravessavam a fronteira do Alabama com o Tennessee até chegar em um estúdio de Nashville e levarem em frente o projeto de gravar um álbum. Quando lançaram Boys & Girls, em 2012, o sucesso imediato. Hold on, a primeira do CD, foi considerada pela revista Rolling Stone a canção do ano.
Athens ficou pequena. Agora tocavam para milhares de pessoas e eram adorados por milhões. Havia a expectativa de um segundo álbum. Mas eles não tinham pressa. Viviam em hotéis e aeroportos e, tocavam, tocavam. E foram se aprimorando. Tocavam cada vez melhor. E sabiam que teriam de fazer um disco melhor que Boys & Girls.
Preparados para o desafio, entraram no estúdio e o resultado – Sound & Color – está aí para que fãs, críticos e ouvidos distraídos possam ouvir, criticar ou elogiar. Há sempre o receio, depois de uma estreia tão retumbante, de que decepcionem. Ficou claro, no entanto, de que o que o início brilhante era um aviso de que poderiam brilhar mais ainda. Brittany tem a voz mais poderosa da atualidade, e já foi comparada à de Janis Joplin, mas Janis é Janis e Brittany Howard está viva, muito viva, e conseguiu sobreviver aos 22 anos, a idade que imaginava não conseguir passar.
Brittany, depois de conhecer o mundo, percebeu que Athens não era um lugar tão ruim. Comprou uma casa nos arredores, bem maior e melhor do que a anterior.
Assista ao vídeo oficial de Sound & Color, a música título, que abre o disco.
A segunda, Don’t Wanna Fight, é um grande número. Assista ao vídeo oficial. É uma das melhores.
Gimme Your Love.
Assista a uma apresentação deles interpretando Gimme Your Love no Saturday Night Live.
Miss You é outra de Sound & Color.
Gemini é excepcional. É uma das minhas preferidas.
Nenhum reinado é para sempre. O de Cassandra Wilson termina com a rápida ascensão de Cécile McLorin Salvant, o que não quer dizer nada. Amanhã Salvant pode ser “destronada” por outra, e assim por diante. Difícil mesmo é manter-se o tempo em que foi considerada como a melhor vocalista feminina. Sua voz é a mais espetacular dos últimos 30 anos. Difícil alguém como Cassandra. A Cassandra mitológica ouvia as vozes dos deuses. A Cassandra cantora nos lembra nos lembra da possibilidade de Deus existir.
A voz de contralto, tépida, sem arroubos e gritos, é única. Além de original, consolidou um estilo único, inimitável. Se começou interpretando standards como a maioria, enveredou-se em composições próprias e alheias do cancioneiro popular com The Weight (Robbie Robertson/The Band), Love Is Blindness (U2), Harvest Moon (Neil Young), Black Crow (Joni Mitchell) e tantas outras, explorando até o repertório country. O que a caracteriza não é apenas isso. Mesmo cantando standards como You Don’t Know What Love Is, é especial, muito em razão dos arranjos que sempre fogem do lugar comum.
Não poderia ser diferente, mesmo quando homenageia Billie Holiday. Mas alguma coisa ficou pelo caminho. Sim, aquele jeito soporífero de cantar de Wilson que, em vez de ser um defeito, é uma característica que a diferencia, se mantém, mas algo se perdeu. É uma hipótese que pode se originar de um certo cansaço por parte de seus ouvintes. Podemos enjoar até das melhores coisas. E, nesse cansaço, procuramos uma novidade. E, nesse momento, Cécile McLorin Salvant, com seu estilo jovial, pode se transformar em um novo alento ou uma variação.
A magia do som de Wilson estava em fundir o velho e o novo. A partir de Blue Light ’til Dawn (Blue Note, 1993) acontece uma transformação. Sua voz, entre o frio e o tépido, se junta a uma concepção sonora totalmente original. São paisagens sonoras, singulares, com arranjos econômicos em que se privilegia instrumentos de cordas pouco comuns como os banjos, resophonic guitars (são violões feitos com metal e madeira, e assim o som fica mais forte do que o do violão comum), muito usadas no bluegrass, pedal steel guitars, slide guitars, bazouki (uma espécie de bandolim com oito cordas, de origem grega) e mandocello (parece um bandolim, de origem italiana), utilizando mais percussões que a bateria.
Uma razão possível de que Cassandra tenha deixado de ser considerada a melhor vocalsta feminina é a de que seus dois últimos discos sejam relativamente fracos em comparação aos anteriores, também. Neste Coming Forth by Day, agora lançado, coicidindo com a efeméride dos 100 anos de nascimento de Lady Day, redime-se razoavelmete dos dois últimos “equívocos”, mas fica longe de álbuns como Blue Light ’till Dawn (Blue Note, 1993) e New Moon Daughter (Blue Note, 1995) em que, aliás tem uma das canções emblemáticas de Billie – Strange Fruit – repetida no mais recente disco.
Compare as duas. Ouça a de New Moon Daughter. Aqui, conta com Chris Whitley na resophonic guitar, Lonnie Plaxico no contrabaixo acústico, e Graham Haynes no cornet.
Ouça a do mais recente álbum.
A homenagem a Eleonora Fagan
A faixa que abre o tributo é Don’t Explain. Para quem quiser saber da “inspiração” da música, leia em http://bit.ly/1EWl1ms. Ouça. Aqui, a instrumentação lembra bem antigos arranjos, econômico e minimalista.
Outra indissociável à figura de Lady Day é Good Morning Heartache. O arranjo é um tanto grandiloquente. Não combina com Wilson. Nick Launay, produtor de Nick Cave, é o mesmo de Shadows in the Night, de Bob Dylan, e agora, do primeiro disco de Cassandra na sua nova gravadora. É uma mistura e tanto: arranjos orquestrais de Van Dyke Parks, dois membros de The Bad Seeds, Nick Zinner, dos Yeah Yeah Yeahs, T Bone Burnett, e o bom pianista (de jazz) Jon Cowherd. Quer saber? Questão de gosto, reafirmo. Tem vezes que não combina. Um dos números mais pavorosos de Coming Forth by Day é You Go to My Head. Parece orquestra de Percy Faith ou qualquer coisa do gênero. Em situação de quase empate, em termos de ruindade, é All of Me.
Ouça Good Morning Heartache.
Crazy He Calls Me é outra que é muito associada a Billie.
A orquestra funciona parcialmente bem em The Way You Look Tonight. Ouça.
Um dos artífices do som tão especial de Wilson é Kevin Breit, que a acompanha faz tempo tocando todos os tipos de instrumentos de cordas citados acima. É o único remanescente das melhores formações dos álbuns da cantora. As duas últimas faixas lembram um pouco o clima dos antigos. A penúltima, I’ll Be Seeing You, é uma das melhores. Bem climática, é espetacular.
Ouça.
Last Song (for Lester) é a homenagem de Cassandra Wilson ao grande parceiro dos melhores anos de Billie. Ela foi a única paixão feminina do homossexual Lester Young.
O melhor tributo a Holiday
José James acabou de lançar Yesterday I Had the Blues, em homenagem a Lady Day. Esse sim é um grande disco. Leia sobre ele e ouça algumas canções em http://bit.ly/1Are1GR
Outro lançamento relacionado a Billie é Because of Billie, de Molly Johnson, lançado ano passado. Não é ruim.
Um mais antigo é Eleonora Fagan (1915–1959): To Billie with Love from Dee Dee, de Dee Dee Bridgewater, de 2010. Não é todo mundo que gosta do estilo um tanto “excessivo” de Dee. Sou um deles, o que não quer dizer nada.