quinta-feira, 10 de abril de 2014

Jimmy Scott antes de ser ressuscitado

Scott, aos 84 anos, em Las Vegas, onde mora (ph: Jamie-James Medina)
As vozes da Sarah Vaughan madura, de Carmen McRae e de Cassandra Wilson são mais graves do que a de Little Jimmy Scott. “Little” porque nasceu com uma problema que comprometeu-lhe o crescimento. Não completando o ciclo da puberdade por conta da síndrome de Kallmann, deixou de crescer em altura. Tirou o “Little” do nome artístico, mas continuou pequeno e com voz de menino.

Em tempos imemoriais retiravam-se os testículos de meninos com boa voz para que não engrossassem. Era procedimento comum no Império Bizantino, em 400 AC. Os eunucos eram serviçais da corte, que se prestavam a trabalhos domésticos e um deles era o de cantar para os seus senhores.

Ao longo do tempo, essa tradição de se cortar os canais que vinham dos testículos não era considerado criminoso ou um absurdo. No Renascimento esses cantores ficaram conhecidos como “castrati”. Uma justificativa razoável para o que hoje consideramos uma aberração é a de que não se permitia que mulheres participassem de ritos religiosos, inclusive de coros. Eram eles quem faziam as vozes femininas.

Longe de ser considerado anormal, muitos dos castrati ficaram famosos e eram admirados pelo talento e por suas vozes. O mais famoso, ou o mais conhecido, foi Farinelli, que viveu no século XVIII. Virou até filme, dirigido por Gerard Corbiau. Essa prática passou a ser considerada ilegal apenas em 1870, na Itália. Em 1902, o papa Leão XIII proibiu terminantemente que os castrati participassem de coros de igrejas. Não faz tanto tempo.

Mesmo assim, sem serem castrados (nunca se sabe), apesar de raros, existem cantores com vozes mais agudas e que são classificados como contratenores ou contraltos masculinos, casos do célebre Alfred Deller e, atualmente, de Philippe Jaroussky. Na música popular intépretes como Edson Cordeiro, Ney Matogrosso e Ian Anderson possuem vozes que se aproximam dessa classificação. Um amigo garante que Michael Jackson era “castrati”. Coitado. Deixem-no em paz.

O pequeno Jimmy

Depois de ter caído no esquecimento, Jimmy “reapareceu” cantando no funeral de Doc Pomus, de quem era amigo. Quando Lou Reed gravou Magic and Loss (1992), em homenagem a Pomus, convidou-o para participar dos vocais em Power and Glory. O show do mesmo nome foi gravado e está disponível em DVD, se alguém tiver curiosidade.

O dono da Sire Records estava presente no funeral de Doc Pomus. Deu que convidou-o para gravar. Foi sua rentrée no business da música e em grande estilo. Seymour Stein arregimentou um grande produtor – Tommy Lipuma – e este colocou Jimmy ao lado de Kenny Barron, Ron Carter, David “Fathead” Newman e craques do arranjo como Johnny Mandel e John Clayton. All the Way é um grande disco e foi seu cartão de apresentação para muitos, inclusive para mim. Pela Sire ainda gravou Dream e Heaven. Depois de Holding Back the Years, pela Artists House, lançou vários pela Milestone Records. Não lança nada desde 2003, provavelmente, pela idade avançada. Os melhores são os primeiros. Algumas leituras de canções mais recentes como Heaven, dos Talking Heads, Holding Back the Years, de Mick Hucknall, Nothing Compares 2U, de Prince, Jealous Guy, de John Lennon, Almost Blue, de Elvis Costello, e Slave to Love, de Bryan Ferry, são geniais.

Ouça Nothing Compares 2U.




Ouça Heaven.




Ouça a belíssima Almost Blue, composição de Elvis Costello, em homenagem a Chet Baker.




Jimmy Scott viu sua carreira ir para o ralo, mais especificamente por culpa de Herman Lubinsky, conhecido por seus contratos “one-sided”, em que os músicos sempre saiam perdendo. Esse “aprisionamento” obrigou-o a gravar discos pavorosos, com arranjos orquestrais vagabundos ou cantando temas do ainda incipiente rock’n’roll, que não eram bem sua especialidade. Vagou por aí cantando em clubes e acabou voltando para Cleveland, trabalhou em hospitais e até em um hotel como ascensorista. Que vida, não?

A carreira artística de Scott começou de maneira curiosa. Participou de um tour com a contorcionista Estela “Caledonia” Young. Achavam que era uma criança, mas quando começava a cantar, a audiência ficava selvagem. Segundo Jimmy McDonough, autor das liner notes do álbum All the Way, “as mulheres desmaiavam e queriam aconchegá-lo; os homens choravam. E os outsiders adoravam Jimmy Scott: cafetões e prostitutas iam atrás de onde se apresentava, jogando-lhe moedas de prata.”
Scott ficou conhecido em 1948, quando entrou na banda de Lionel Hampton. O produtor Quincy Jones, na época, era um dos membros tocando trompete disse que ele “cantava como um trompete – ele cantava com o conceito melódico de um instrumento. É muito emocional, um estilo profundo. Jimmy costumava fazer meu coração sangrar todas as noites.” Desde o tempo em que atraía cafetões e prostitutas em pequenos clubes, Jimmy mostrava-se o mestre das canções de amores perdidos ou não correspondidos. Nunca deixou de ser assim. Quando voltou aos palcos, a voz de criança era a mesma com pitadas de dores a mais.

Há alguns anos, foi lançado The Essential Jimmy Scott. São interpretações antigas, algumas pavorosas por culpa dos arranjos e problemas técnicos, mas a voz de Jimmy já era grande, um pouco mais infantil, se isso é possível,  e às vezes, um tanto over.

Ouça  duas músicas menos óbvias do cancioneiro americano.

Please Be Kind.




Laughing on the Outside.

terça-feira, 8 de abril de 2014

O quase ocaso de Macy Gray

Quando On How Life Is foi lançado, em 1999, algo mudava no cenário da música americana. Macy Gray surgiu para desafinar o coro dos contentes. Tinha uma voz um tanto estranha para os padrões, algo parecida com a de Pato Donald. Mas foi fazendo tremendo sucesso e logo ganhando um Grammy em 2001 como “melhor vocalista pop feminina”. Lançou Id, que não vendeu tanto, mas era muito bom. O seguinte foi The Trouble with Being Myself. Os dois títulos eram sinalizadores de uma personalidade complexa. Macy fugia do modelo boa menina. Meio gordinha, não exatamente bonita, com penteado de fazer inveja à ativista Angela Davis e, dizia-se, um tanto chegada aos excessos etílicos. Foi vaiada em certa ocasião depois de esquecer a letra do hino americano em um evento esportivo. Continuou fazendo das suas: expulsaram-na de Barbados por soltar alguns palavrões em um show.

Uma ou outra música emplacando nas paradas, mas parecia que a carreira de Macy não estava indo tão à altura de seu talento. Lançando discos com periodicidade irregular, hoje, não se fala mais tanto dela. Lançou, entretanto, coisas boas como The Sellout, lançado em 2010 pelo prestigiado selo de jazz Concord, não tão grande como a Epic, sua gravadora anterior. Em 2012 saiu Covered. Como o título sugere, é um álbum de covers. Mas discos assim são, muitas vezes, vistos como sinal de esgotamento de um intérprete/compositor. Bom, mas existem tantos discos bons desse gênero que desmentem isso. Basta lembrar-se de dois da também america Cat Power: The Covers Records (2000) e Jukebox (2008).

The Sellout é um bom disco. A crítica se dividiu, mas possui boas canções como Beauty in the World, Real Love, onde divide vocais com Bobby Brown, Help Me e Kissed It. É esta última a que você vai ouvir.




Covered é um disco interessante pelas canções escolhidas. Canta Creep, do Radiohead, Here Comes the Rain Again, do Eurythmics, e Wake Up, do Arcade Fire.

Veja Macy cantando Creep em apresentação no North Sea Jazz, que acontece na Holanda.




Ouça Wake Up, com Gray.




Outro álbum de covers?

Mas, aí, Macy resolve fazer outro álbum de covers. Será que ela está decadente? Não dá para falar isso. Para comemorar os trinta anos de Talking Book, 15º álbum de Stevie Wonder, Macy e seus produtores gravaram o repertório na íntegra no CD. São as mesmas canções, na mesma ordem. Esse álbum é um dos mais importantes de Wonder e representa uma virada na sua carreira, iniciada quando tinha onze anos. O de Macy, em vez de ser uma simples álbum de covers, na verdade, é uma coleção de interpretações muito originais e com sua marca. Algumas são deveras boas.

Ouça Superstition. É muito boa.




Outra? Tem uma versão matadora de Blame It on the Sun.




Ao contrário do que se imagina ou parece, Macy está ativa e operante. Gravou recentemente com o saxofonista David Murray e sua banda. Apresentaram-se no ano passado no Sesc Fábrica, São Paulo. Depois de amanhã, 10 de abril, estará se apresentando no Circo Voador, no Rio de Janeiro. E, veja: a moça não tem nada de superstar; pediu para que tenha no seu camarim apenas uma garrafa de vodca, uma de Cointreau e chá de camomila. A mistura deve ser boa e Macy deve entrar no palco com tudo.