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quinta-feira, 16 de julho de 2015

A melancolia singela de Erik Satie

Aquarela de Julius Bissier
Do pouco que entendo de música, minha opinião sobre a obra de Satie se resume a dizer que gosto muito mais de Claude Debussy e Maurice Ravel, e talvez, de Gabriel Fauré. Seu trabalho – ou sua imagem? – está associada à avant-garde, a uma certa iconoclastia, enfim, a de um artista a frente do seu tempo. Era amigo de Tristan Tzara e de outros artistas ligados ao dadaísmo, tinha ligações com nomes do cubismo, compondo peças com cenários de Braque e Picasso, e colaborou também em obras de Jean Cocteau.

Houve um tempo em que gostar de Satie era o máximo. Acho que ainda é. Mas, perto das composições de Debussy e Ravel, suas composições soam um tanto primárias e muito pouco “vanguarda” perto de peças como La cathédrale engloutie, do compositor de Jeux. Ser considerado um dos precursores do minimalismo é outra coisa que escrevem sobre Satie. Pode ser. Na minha opinião, faço questão de ressaltar, não é minimalismo: é singeleza, se existe esse estilo, ou até mais, se existe essa expressão em português.

É por essa singeleza que reside a grandeza de Satie. Que belas peças curtas e mínimas como as Gnossiennes ou as Gymnopédies! São suas obras primas e estão entre as minhas preferidas de todo o repertório popular ou erudito. São demonstrações de que não é necessário complexidade para se atingir a beleza. Talvez, quem sabe, o sublime esteja nos poucos elementos, e isso pode ser, genericamente, o “minimalismo” e não a da música de Steve Reich ou de Philip Glass, a beleza suprema da arte, como em uma pintura de Barnett Newman, ou na “singeleza” – de novo a expressão – de um trabalho de Julius Bissier.


Audições
Os meus “gnossiennes” e “gymnopédies” preferidos até hoje, quem sabe, porque foi a primeira, são os de Reinbert de Leeuw.

Ouça a Gnossiènne no.1 com ele.




Ouça a Gymnopédie no.1 com o mesmo pianista.




Dentre as mais recentes, e já que falamos de inoconoclastia também, uma boa é a da “iconoclasta” – nem tão iconoclasta aqui – Joanna McGregor. Ouça a Gymnopédie no.1.




As Gymnopédies foram orquestradas por Claude Debussy. Nada como ele para dar um colorido especial a essas obras. Ouça aqui com interpretação da Orpheus Chamber Orchestra.




Elas serviram a uma variedade enorme de interpretações com outros instrumentos. Ouça esta da Royal Philharmonic Orchestra, com Ophelie Gaillard no violoncelo.




A Gnossienne no.3 no acordeon, com Richard Galliano.




E, finalmente, a razão de ter lembrado de Erik Satie: Lavinia Meijer. Em seu CD Voyage (Sony, 2015), Meijer explora o repertório impressionista de Satie e Debussy. Ouça a Gnossienne no.2.




Bônus: veja Lavinia Meijer executando Clair de lune, de Debussy.




quinta-feira, 10 de julho de 2014

As transcrições para o violão de obras dos impressionistas por Diogo Carvalho

Diogo Carvalho (ph Divulgação)
Juntou a fome com a vontade de comer. Ouvir Claude Debussy, Maurice Ravel e Igor Stravinsky foi algo como uma iluminação. Ao ouvir o CD Impressionism, de Diogo Carvalho, me vem essa lembrança.

A música erudita sempre teve um público cativo; pequeno e fiel, coisa de elite branca, como se refere a ela o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva a essa classe que ele pode estar confundindo com sua, a dos enriqueceram financeiramente sem ampliar seus horizontes culturais. Essa sim talvez seja a tal da elite branca mal educada, e em um país como o Brasil, em que as possibilidades de mobilidade são grandes, principalmente para os desonestos, é uma classe cada vez mais numerosa.

Um público com certo refinamento cultural – o que não significa que são endinheirados –, sem desmerecer os incultos, sustentava o pequeno mercado da música erudita, aqui, praticamente dominado por um grupo responsável pelos lançamentos da Philips e da Deutsche Grammophon. Seu concorrente maior era dona dos selos EMI, Odeon, Decca e Angel. A CBS, apesar de possuir um bom acervo clássico, para a nossa infelicidade, tinha Roberto Carlos entre seus contratados. Moral da história: nem precisava de Bob Dylan para ganhar dinheiro. Já naquela época seus discos anuais, invariavelmente, lançados perto do Natal, vendiam como água.

Uma loja de São Paulo, a Bruno Blois, resolveu lançar alguns títulos exclusivos do selo. Na primeira leva incluíram A Sagração da Primavera, de Stravinsky, La Mer, Jeux e L’après-midi dun faune, de Debussy, e outro de Ravel com, se não me engano, Le Tombeau de Couperin, Ma mère l’oye e Pavane pour une enfant défunte. Os selos tradicionais preferiam lançar Vivaldi, Bach e pouco ousavam em territórios contemporâneos. Era uma boa novidade: música do século XX. E todos os registros eram regidos por um maestro incensado pela crítica: Pierre Boulez.

Muito tempo depois, e coloque-se tempo, outros compositores entraram na minha lista de preferidos. Ravel e Debussy continuaram nela. Minha diversão é comparar diferentes interpretações sobre um mesmo compositor. E gosto de transcrições, peças concebidas de uma forma e “refeitas” por outrém.

Em posts passados comentei sobre algumas transcrições. Duas foram sobre releituras do acordeonista francês Richard Galliano sobre obras de Johann Sebastian Bach e Vivaldi, e também das “recomposições” de Max Richter das Quatro Estações, de Antonio Vivaldi. Por coincidência, Matias José Ribeiro enviou-me o CD Calavento, de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani. Dentre as músicas, constavam composições de Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti. Gostei tanto que fiquei interessado pelo CD com obras dos impressionistas que fiquei sabendo que Diogo havia lançado.

Lançado em 2009 pelo selo Azul Music, Impressionism encontra-se esgotado. Para a minha sorte, sem sequer conhecê-lo pessoalmente, recebo o CD pelo correio. O disco é o resultado da defesa de seu mestrado na ECA-USP. Das quatorze faixas, a metade são de composições de Claude Debussy, em sua maioria, de Children’s Corner, cinco de Maurice Ravel, e duas de Erik Satie. Golliwogg's Cake Walk serve como brilhante abertura.

Veja Diogo interpretando-a.




O resto?… o resto é muito bom, tudo muito bom. Além de curtir música tocada com maestria, a diversão – ou o prazer – é ficar analisando as transcrições, puxando pela memória os originais. Veja por você alguns “Debussy” de Diogo.

La plus que lente.




La petit negre.




Diogo brilha também com Ravel. Um dos temas mais conhecidos dele é a Pavane pour une infante défunte. O título é curioso pela sonoridade das sílabas finais: “ane”, ”ante”, “funte”. A transcrição de Carvalho não é a primeira. Outros violonistas, como Larry Coryell, gravaram-na. O do americano está no LP Restful Mind (Vanguard, 1974). Aliás, Coryell é outro que fez transcrições de obras para o violão.

As duas transcrições de obras de Satie vão pelo óbvio (Gymnopédie no.1 e Gnossiène no.1), o que não significa que não sejam brilhantes. Como prova, ouça a primeira.