quinta-feira, 30 de abril de 2015

A beleza pura do violoncelo de Vincent Courtois

Vincent Courtois e seu “violão”
Um título como “Tanta água e tão perto de casa” é um tanto estranho. Tão estranho quanto é o violoncelo no jazz. São poucos o que se destacam no gênero. Na música erudita, ao contrário, protagoniza peças belíssimas como as Seis Suites BWV 1007-1012, de Johann Sebastian Bach, as Suítes de Cello e Piano de Beethoven e Brahms, e os trios opus 99 e 100 para piano, cello e violino. O parente mais próximo é o contrabaixo, esse sim, onipresente nas formações jazzísticas.

Nem tão incomum, é a presença de músicos franceses no jazz. De lendas como Stephane Grappelli e Django Reinhardt, fundadores do Quintette du Hot Club de France, antes ainda da eclosão da Segunda Guerra Mundial, aos conhecidos Martial Solal, Eddy Louiss, Richard Galliano e Michel Petrucciani, até os contemporâneos como Sylvie Courvoisier, Louis Sclavis, Florent Nisse, Michel Godard, Jean-Louis Matinier, Vincent Peirani, Bruno Ruder, Jeanne Added, Virginie Teychené e Vincent Courtois, a França sempre cultuou o jazz.

Um dos, ou talvez, o pioneiro do uso do violoncelo foi Oscar Pettiford, exímio também no contrabaixo. Outro músico que chegou a usá-lo é Ron Carter. É decididamente quase que um estranho no jazz. Dois nomes na atualidade se destacam não apenas como violoncelistas, mas como compositores: Vincent Courtois e Erik Friedlander. Esta último é mais conhecido, e nos últimos anos, é presença constante como um dos melhores na categoria que designam como “miscellaneous instruments”.

O autor de Too Much Water So Close to Home é, pois, Vincent Courtois. Escolheu um instrumento menos característico do jazz e nasceu no país cuja tradição é forte e no entanto é pouco difundido. Aliás, os franceses gostam do gênero, porém gostam também de ser diferentes. Jean-Louis Matinier e Vincent Peirani tocam acordeão, como Galliano, e Godard toca tuba e serpent – ou serpentão –, um instrumento inventado por volta de 1500 e tem o som parecido com o da tuba, mas não possui válvulas, e sim orifícios. Tem esse nome devido ao formato de serpente.

Os que conhecem o trabalho de Louis Sclavis, cujos discos são lançados pela ECM, devem ter prestado atenção em Courtois. Participou de algumas gravações também de sua conterrânea, a pianista Sylvie Courvoisier, que parece gostar de violoncelistas. Em Abaton, CD duplo de 2003, quem toca cello é Friedlander. Os dois costumam gravar juntos (são casados, se não me engano). O último se chama Birdies for Lulu (2014).

Too Much Water So Close to Home é a faixa de abertura de West. Curiosa: no início, toca o cello como se fosse um violão de grandes dimensões. Ele constrói várias camadas de sons com o arco. A base rítmica dedilhada fica em primeiro plano em acordes repetidos enquanto que, ao fundo, o arco constrói uma outra, melódica, em sons que se repetem e intercaladas por pequenas variações, algo que lembra um pouco Tehilim, Different Trains e Music for 18 Musicians, de Steve Reich.

Courtois faz soar pelos seus dedos notas melancólicas até o terceiro minuto da longa e contemplativa 1852 metres plus tard. Daí em diante, em sutis camadas, o arco faz as cordas gemerem em um lamento que se tinge de tons dramáticos. É a peça mais longa do disco (8:23 min.). O mesmo tema se repete em versão mais curta no fim.

Assista ao clipe oficial de 1852 metres plus tard.




Modalité é a primeira faixa que conta com outros componentes além de Vincent, assim como em Nowhere, West, Freaks, Tim au Nordic e Désarçonné: Daniel Erdmann (sax tenor), Robin Fincker (clarinete, sax tenor), e Benjamin Moussay (piano, harpsichord, celesta, toy piano).

Destas, as melhores, na minha opinião, são Freaks (belo duo de saxofones e acompanhamento do cello) e Tim au Nordic, peça vigorosa, sofisticada e rica em sonoridades, e a melancólica Nowhere.

Coisa difícil é classificar certos músicos e compositores em gêneros específicos. Hoje, é cada vez mais comum intérpretes até do que é considerado “segunda linha”, como o pop e o rock, estarem compondo e gravando por selos especializados em música erudita (Deutsche Grammophon). Três deles são de conjuntos consagrados: Johnny Greenwood (Radiohead), Bryce Dessner (The National) e Richard Reed Parry (Arcade Fire). Um reparo: impossível dizer-se que essas bandas são de “segunda linha”.

O violoncelo é, essencialmente, um instrumento do erudito. Natural que as composições de Courtois bebam dessa fonte. Mistura com outras águas provenientes da música instrumental e de improviso. Suas influências mais vigorosas, naturalmente, originam-se da música do século XX e do XXI. Alguns processos composicionais se assemelham bastante aos de Steve Reich.

West é uma das grandes surpresas do ano. É ótimo, original e, acima de tudo, belo.

Ouça um trecho de Semaphore. Você pode ouvir as faixas na íntegra abaixo.





terça-feira, 28 de abril de 2015

Branford Marsalis rumo aos clássicos

Com tantos CDs e tantas ofertas em mp3 ou em streamings, os prazeres se diluem em audições desatentas. Ficamos como um rei com 40 mulheres em seu harém e está à procura da quadragésima primeira. Na história desse rei, o resgate do grande prazer pode estar naquelas que já estão com ele.

Ao ouvir o último CD de Branford Marsalis – In My Solitude –, um solo registrado na Grace Cathedral, San Francisco, CA, lembrei-me de um álbum seu com temas da música erudita. Como o tempo é célere, percebo que Romances for Saxofone foi lançado há quase trinta anos, mais exatamente, em 1986, pelo selo CBS, atual Sony. Em uma estimativa bem otimista, devo ter ouvido esse CD, pela última vez, há uns 25 anos. É muito tempo.

O irmão mais famoso
Em um show que a família Marsalis se apresenta, um dos dois brinca com a história de Caim e Abel. Em 1980, Wynton Marsals, o irmão mais novo, participava da banda de Art Blakey, e no ano seguinte, contratado pela Columbia, lançaria seu primeiro solo. Incensado pela crítica, devido ao enorme talento, sua gravadora resolveu lancá-lo também como intérprete de música clássica. Com convidados de peso como Kathleen Battle e Yo-Yo Ma, Wynton gravou o repertório mais conhecido para o trompete, explorando composições de Mozart, Hummel, Haydn, Purcell, Teleman, Pachelbel, Vivaldi e Biber.

Wynton, carismático e falante, tornou-se o porta estandarte da geração chamada pela crítica de “Young Lions”. Sua música e a de outros que emergiam na mesma época, retomavam a linguagem do bebop e do hard bop, ou seja, tornavam-se baluartes da retomada do jazz que havia saído dos trilhos no fusion jazz e no free jazz de Cecil Taylor e Ornette Coleman. Ao mesmo tempo em que conquistavam fãs nostálgicos e puristas do mainstream, inimigos declarados da “desvirtuada” de Miles Davis, ele passou a ser visto como um “careta”, o que não deixa de ser verdade. O tempo, no entanto, tem mostrado que é importante uma figura que resgata certos valores que não devem ser relegados. Mal comparando, Wynton é o Tinhorão do jazz.

O irmão mais velho, e nesse sentido que surge a história de Caim e Abel, vai por outra seara. Menos careta e aberto às influências do rock e de outros gêneros “pobres”, comete o despautério de acompanhar o mais que pop Sting, criador de uma das grandes bandas dos anos 1980, o The Police. Aliás, que beleza a intervenção de Branford em Every Breath You Take, no Live Aid, em 1985.

Assista à apresentação, com Sting.




Veja também Branford com Sting em Roxanne.




O irmão moderninho
Branford gravaria seu primeiro álbum apenas em 1986, apesar de ser mais velho que Wynton. Scenes in the City, lançado pela mesma CBS, não tinha nada a ver com o que o irmão trompetista estava fazendo. Na música título, funde música e narração. Apesar do estilo coxinha, bem vestido, terno e gravata, por dentro, o primogênito dos Marsalis parecia mais aberto ao contemporâneo. O pai, Ellis, abençoado pianista disse sobre ele: “Branford era um abençoado. Poderia tocar um blues e dizer para ele: ‘toque o que você ouve’, e ele tocava. Então eu tocava uma linha de baixo de blues para que ele pudesse ouvir todas as doze notas e dizer-lhe para elaborar sobre isso, e ele fazia. Às vezes, tentava enganá-lo, mas não conseguia.”

Desassossegado, Branford, aventuraria-se por outras searas. Montou o Buckshot LeFonque, fundindo jazz, rhythm’ and blues, hip hop e rock. Tocou ainda com o Grateful Dead. E continuou lançando bons discos mais voltados ao jazz: Bloomington (1991), The Dark Eyes (1996), Loved Ones (1996), Requiem (1998), e Eternal (2004). Loved Ones é especial, pois é um duo com o pai Ellis.

Ouça, com os dois, Laura.




De Eternal, ouça a emocionante Gloomy Sunday.




Ouça outra especial, de Eternal: The Last Goodbye.





Aos clássicos
Enquanto o repertório para o trompete, na música erudita, é razoável e permite o brilho de estrelas como Alison Balsom e Håkan Hardenberger, o do saxofone é praticamente inexistente, principalmente como instrumento principal. Uma das razões é a de que foi inventado em meados o século XIX. Se foi para ser usado em orquestras, fato é que deu mais certo em bandas militares e, depois, no jazz. Os compositores mais conhecidos a usar o sax foram Georges Bizet (L’arlesienne), Maurice Ravel (Bolero), Debussy (Rapsodie pour Orchestre et Saxophone), Rachmaninov (Symphonic Dances). Outros que compuseram para o instrumento foram Vaughan William, Benjamin Britten, Darius Milhaud, Heitor Villa-Lobos e Paul Hindemith.

Se o saxofone pouco protagonizou no terreno dos clássicos, não se pode pensar no jazz sem ele. Mas é bem razoável que saxofonistas queiram tocar temas da música erudita. Não são muitis os que fizeram. Além de Branford Marsalis, lembro agora apenas de Grover Washington, Jr. que gravou Aria (Columbia, 2000). Este registra temas eruditos em um contexto mais jazzístico que Branford, que optou por usar o sax soprano, e o tenor menos, em transcrições para orquestra.

Dentre os compositores escolhidos estão Villa-Lobos, Ravel, Debussy, Stravinsky, Rachmaninov, Fauré, Colombier, Satie e Mussorgsky. O repertório é bem conhecido, mas é um CD muito prazeroso de se ouvir e Branford não fica nem um pouco atrás do irmão em termos de talento e técnica.

Vamos ouvir a Bachiana no. 5.



Veja Branford executando a Pavane, de Gabriel Fauré.



Ouça Vocalise, de Serguei Rachmaninoff.