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| Vincent Courtois e seu “violão” |
Nem tão incomum, é a presença de músicos franceses no jazz. De lendas como Stephane Grappelli e Django Reinhardt, fundadores do Quintette du Hot Club de France, antes ainda da eclosão da Segunda Guerra Mundial, aos conhecidos Martial Solal, Eddy Louiss, Richard Galliano e Michel Petrucciani, até os contemporâneos como Sylvie Courvoisier, Louis Sclavis, Florent Nisse, Michel Godard, Jean-Louis Matinier, Vincent Peirani, Bruno Ruder, Jeanne Added, Virginie Teychené e Vincent Courtois, a França sempre cultuou o jazz.
Um dos, ou talvez, o pioneiro do uso do violoncelo foi Oscar Pettiford, exímio também no contrabaixo. Outro músico que chegou a usá-lo é Ron Carter. É decididamente quase que um estranho no jazz. Dois nomes na atualidade se destacam não apenas como violoncelistas, mas como compositores: Vincent Courtois e Erik Friedlander. Esta último é mais conhecido, e nos últimos anos, é presença constante como um dos melhores na categoria que designam como “miscellaneous instruments”.
O autor de Too Much Water So Close to Home é, pois, Vincent Courtois. Escolheu um instrumento menos característico do jazz e nasceu no país cuja tradição é forte e no entanto é pouco difundido. Aliás, os franceses gostam do gênero, porém gostam também de ser diferentes. Jean-Louis Matinier e Vincent Peirani tocam acordeão, como Galliano, e Godard toca tuba e serpent – ou serpentão –, um instrumento inventado por volta de 1500 e tem o som parecido com o da tuba, mas não possui válvulas, e sim orifícios. Tem esse nome devido ao formato de serpente.
Os que conhecem o trabalho de Louis Sclavis, cujos discos são lançados pela ECM, devem ter prestado atenção em Courtois. Participou de algumas gravações também de sua conterrânea, a pianista Sylvie Courvoisier, que parece gostar de violoncelistas. Em Abaton, CD duplo de 2003, quem toca cello é Friedlander. Os dois costumam gravar juntos (são casados, se não me engano). O último se chama Birdies for Lulu (2014).
Too Much Water So Close to Home é a faixa de abertura de West. Curiosa: no início, toca o cello como se fosse um violão de grandes dimensões. Ele constrói várias camadas de sons com o arco. A base rítmica dedilhada fica em primeiro plano em acordes repetidos enquanto que, ao fundo, o arco constrói uma outra, melódica, em sons que se repetem e intercaladas por pequenas variações, algo que lembra um pouco Tehilim, Different Trains e Music for 18 Musicians, de Steve Reich.
Courtois faz soar pelos seus dedos notas melancólicas até o terceiro minuto da longa e contemplativa 1852 metres plus tard. Daí em diante, em sutis camadas, o arco faz as cordas gemerem em um lamento que se tinge de tons dramáticos. É a peça mais longa do disco (8:23 min.). O mesmo tema se repete em versão mais curta no fim.
Assista ao clipe oficial de 1852 metres plus tard.
Modalité é a primeira faixa que conta com outros componentes além de Vincent, assim como em Nowhere, West, Freaks, Tim au Nordic e Désarçonné: Daniel Erdmann (sax tenor), Robin Fincker (clarinete, sax tenor), e Benjamin Moussay (piano, harpsichord, celesta, toy piano).
Destas, as melhores, na minha opinião, são Freaks (belo duo de saxofones e acompanhamento do cello) e Tim au Nordic, peça vigorosa, sofisticada e rica em sonoridades, e a melancólica Nowhere.
Coisa difícil é classificar certos músicos e compositores em gêneros específicos. Hoje, é cada vez mais comum intérpretes até do que é considerado “segunda linha”, como o pop e o rock, estarem compondo e gravando por selos especializados em música erudita (Deutsche Grammophon). Três deles são de conjuntos consagrados: Johnny Greenwood (Radiohead), Bryce Dessner (The National) e Richard Reed Parry (Arcade Fire). Um reparo: impossível dizer-se que essas bandas são de “segunda linha”.
O violoncelo é, essencialmente, um instrumento do erudito. Natural que as composições de Courtois bebam dessa fonte. Mistura com outras águas provenientes da música instrumental e de improviso. Suas influências mais vigorosas, naturalmente, originam-se da música do século XX e do XXI. Alguns processos composicionais se assemelham bastante aos de Steve Reich.
West é uma das grandes surpresas do ano. É ótimo, original e, acima de tudo, belo.
Ouça um trecho de Semaphore. Você pode ouvir as faixas na íntegra abaixo.
West é uma das grandes surpresas do ano. É ótimo, original e, acima de tudo, belo.
Ouça um trecho de Semaphore. Você pode ouvir as faixas na íntegra abaixo.

