É oito ou 80. Gonzalo Rubalcaba toca com rapidez estonteante, a ponto de nos deixar tontos, ou toca tão lentamente, que nos causa sono. Claro. Há exceções, dentre elas seu último Suite Caminos, um retorno às raízes cubanas. É um CD um tanto esquisito, na acepção do termo em português, e não na que nomeia alguns bons charutos cubanos – “exquisitos” –, termo usado quando o objeto é de grande refinamento ou de muito bom gosto.
Rubalcaba é o nome do tornado vindo de Cuba e arrebatou críticos e amantes do jazz. Todos foram pegos de surpresa. Quem era aquele pianista que tocava tão bem e parecia ter surgido do nada? Sua apresentação em Montreux, em 1990, virou disco e, apropriadamente chamou-se Discovery. O trio era ele, Charlie Haden e Paul Motian. O baixista o conhecia desde que havia se apresentado em um festival de música em Cuba.
A amizade musical entre Haden e Rubalcaba persistiu por muitos anos. Depois de Montreux, reencontraram-se em várias oportunidades. Haden participou de The Blessing (Blue Note, 1991), Suite 4 y 20 (Blue Note, 1992), Imagine (Blue Note, 1994). Rubalcaba participou das gravações de Nocturne (Verve, 2001), Land of the Sun (Verve, 2004) e de The Montreal Tapes, registrado em 1989 e lançado em 1994. A série The Montreal Tapes é composta de gravações feitas na ocasião em que Haden era o homenageado. Em cada noite o convidado (ou convidados) era algum músico que tocara anteriormente com ele.
Depois da morte dele, em julho do ano passado, foram lançados alguns discos com registros mais antigos. O primeiro foi Goodbye (ECM, 2014), duo com Keith Jarrett, depois foi a vez de Charlie Haden – Jim Hall (Impulse, 2014). Agora, em junho, sai Tokyo Adagio, duo com Gonzalo Rubalcaba. Os registros foram retirados de duas apresentações no Blue Note de Tóquio em 2005.
Naturalmente, não faltam números latinos. Além de En la orilla del Mundo e Solamente Una Vez, temos um standard (My Love and I), uma composição de Ornette Coleman (When Will the Blues Leave), um tema do cubano (Transparence), e Sandino, dos dois.
En la Orilla del Mundo e Transparence são de Nocturne, e Solamente Una Vez, de Land of the Sun. Até um tema de andamento médio, como When Will the Blues Leave, de Coleman, fica lento. O “adagio” do título até poderia ser trocado por “largo”. O tom das músicas segue o gosto de Haden. Ele sempre gostou de andamentos lentos que tendem à melancolia. É só ouvir os álbuns do Quartet West, a sua banda retrô.
E não é à tôa que a melhor faixa é My Love and I, anteriormente gravada em Always Say Goodbye (Verve, 1993), com o Quartet West. O tema do filme Apache, é de Johnny Mercer, David Raksin. Ouça.
Ouça Sandino.
Tokyo Adagio é o segundo lançamento de Charlie Haden do selo Impulse, que estava desativado há um bom tempo, depois de ter sido responsável – há muito tempo – de gravar o melhor John Coltrane. O primeiro foi o duo com o também falecido Jim Hall. Os dois álbuns não são os únicos lançados por este selo. Liberation Music Orchestra, de 1969, é um dos grandes discos do baixista. Este faz parte de sua faceta “engajada”. Seu engajamento político de inclinações esquerdistas resultou em grandes discos. Além deste, o grande destaque é The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Dizem que arte engajada nem sempre dá em grande coisa. Nesse caso, deu certo. Leia mais sobre essa fase de Charlie Haden em http://bit.ly/1SF0SV8.
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terça-feira, 23 de junho de 2015
terça-feira, 25 de março de 2014
Tragam-me o piano de Alfredo Rodriguez
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| O pianista Alfredo Rodriguez, a mais nova revelação |
Não sou fã de rum depois da monumental ressaca com que fui acometido em razão de algumas doses do nobre destilado, envelhecido por 12 anos em barricas de carvalho, trazidas por uma amiga que recebera de presente do staff do então governante Fidel Castro. Os charutos, infelizmente, fumo-os por vício e não especificamente por prazer. É, no mínimo, um por dia; isso porque estou em processo de tentar parar.
Mas, vamos falar de um produto de exportação de valor universal: a música. Devido a proximidade geográfica, Cuba era importante ponto turístico pela beleza da paisagem e os clubes noturnos. Ricaços possuíam luxuosas residências, com direito a campos de golfe, outros eram donos até de plantações de tabaco. Até o genial pianista Arthur Rubinstein, bon-vivant, apreciador de boas bebidas e charutos possuiu a sua.
Quando o ditador Fulgêncio Batista caiu, os cassinos e clubes foram fechados. Um sem número de músicos, que tocavam nesses lugares, viram-se sem trabalho da noite para o dia. Alguns como Bebo Valdés saíram do país. A maioria ficou por lá e deixaram de ter suas vidas de fausto e foram obrigadas a encarar até trabalhos braçais. No meio deles, estavam Compay Segundo, Pio Leyva, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rubén González e outros que, antes tarde do que nunca, foram “redescobertos” após a exibição do documentário Buena Vista Social Club.
Rubén González tinha se retirado da cena musical. Quando convidado a participar da gravação de Afro-Cuban All Stars, por Juan de Marcos Gonzalez, recusou alegando sofrer de artrite e não mais chegar perto do piano há 11 anos. Acabou por topar em razão da insistência. Na mesma época, Ry Cooder estava em Havana para gravar Buena Vista Social Club. Ouviu González tocando no estúdio da Egrem. Ficou impressionado com sua versatilidade. Antes, chegara a trabalhar como engraxate.
Como consequência do sucesso do álbum organizado por Cooder e do documentário, vários de seus participantes lançaram discos solo. Um deles foi Introducing… Rubén González. Ironia o “introducing”: tinha 77 anos a era uma das revelações da música. Ry Cooder afirmara que ele era o maior solista de piano que já ouvira em sua vida.
Ouça Sibonney, de Ernesto Lecuona, com González.
Outro grande pianista cubano seria “revelado” por meio de um documentário: Bebo Valdés. Poucos anos depois de Buena Vista Social Club, o espanhol Fernando Trueba realizou Calle 54, abordando o jazz latino-americano. Alguns dos participantes, como Eliane Elias, Gato Barbieri e Paquito D’Rivera, este, um refugiado do regime castrista, eram conhecidos, mas Bebo, não. Pouco após a queda de Batista, foi para os EUA, México e, por fim, fixou-se em Estocolmo. Suecos gostam de jazz mas, convenhamos, seria difícil que alguém fosse se lembrar de Bebo “escondido” em um lugar como lá.
Trueba realizou outros documentários tendo como protagonista Bebo. Num deles, o cubano vai parar na Bahia (El Milagro de Candeal, 2004). Nele é mostrado o belo trabalho social de Carlinhos Brown com os meninos do Candeal. O outro é estritamente musical. É o encontro de El Cigala e o cubano e o show Lágrimas Negras, que fizeram juntos.
Vejo El Cigala e Bebo em Veinte Años.
Pianistas pós-revolucionários
Como Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba é filho de pianista, o primeiro, de Bebo, e ele, de Guillermo Rubalcaba. Um jornalista brasileiro desavisado, na ocasião em que veio ao Brasil (sua relação com o país tornou-se estreita e chegou a gravar com Ivan Lins), escreveu que era filho de Rubén González. Pode se perdoado pelo engano em razão do número de “dinastias” musicais em Cuba.
Gonzalo Rubalcaba não viveu a época dos velhos mestres, tampouco o de Chucho. Nasceu em 1963. Outro bom tecladista é Roberto Fonseca, de 1975. A mais nova revelação no piano é Alfredo Rodriguez, de 1985. Circunstancialmente, pode-se imaginar que nasce um grande talento nesse instrumento de dez em dez anos. Os três vieram de famílias de músicos, como foi dito no parágrafo anterior, e estudaram em conservatórios.
O primeiro álbum que tornou Rubalcaba conhecido foi Discovery, registro ao vivo de apresentação no festival de Montreux, de 1990, lançado pelo selo Blue Note. Os músicos que o acompanha são Charlie Haden e Paul Motian. Extremamente ágil, técnica impecável, não tinha como não impressionar o mundo do jazz.
Ouça Well You Needn’t, de Thelonious Monk.
Veja uma apresentação do quinteto de GR no Festival de Vitoria-Gasteiz, em 2013.
Roberto Fonseca é outro pianista que merece atenção. Menos pirotécnico do que Rubalcaba, prefere valorizar a melodia e, como os outros, não foge dos ritmos cubanos que o mundo bem conhece desde que Dizzy Gillespie os apresentou ao mundo. Um pouco diferente de Rubalcaba, adiciona vozes. Em Zamazu (2007), Omara Portuondo é a vocalista na bela Mil Congojas, e na faixa que abre o disco – Misa Popular –, é Mercedes Cortes Alfaro, sua mãe. Fonseca teve alguns CDs lançados no Brasil, provavelmente, por ser o produtor Alê Siqueira, que participou de discos de Marisa Monte
Ouça Tierra en mano, do álbum Zamazu.
Veja Roberto Fonseca tocando Llego Cachaito, composta em homenagem ao baixista Cachaito Lopez.
Alfredo Rodriguez é o nome da vez do piano cubano. Jovem ainda – nasceu em 1985 –, arrumou um bom padrinho: Quincy Jones. Teve seu primeiro disco lançado pela Quest, gravadora do americano responsável pelo estouro de vendas de Michael Jackson. Agora no início de 2014, acaba de ser lançado The Invasion Parade. Nele estão incluídos alguns clássicos latinos: Guantanamera, Quizás, Quizás, Quizás e Veinte Años. As interpretações de Rodriguez para esse álbum já é uma grande recomendação.
Veja Rodriguez com seu quarteto em ação no Festival de Montreux de 2012 tocando Guantanamera.
No primeiro álbum – Sounds of Space –, Rodriguez conta com vários músicos diferentes em cada faixa. Em Invasion, é um quarteto: ele ao piano, Esperanza Spalding no contrabaixo e vocais, Henry Cole na bateria e Pedrito Martinez na percussão e vozes.
Ouça a bela Quizás, Quizás, Quizás.
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