Mostrando postagens com marcador kd lang. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador kd lang. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não fume na cama com kd lang

Aparentemente, lang não fuma
Uma das minhas canções favoritas é Don’t Smoke in Bed. Esse texto é antigo e foi publicado no blogue do Paulo Moreira Leite, quando era chefe da sucursal de Brasília da revista Época, portanto, há um bom tempo. Lembrei-me da música ao ver uma foto de Marilyn Monroe fumando na cama (veja a foto no fim do post). Fiz alguns acréscimos como, por exemplo, a de Nina Simone.


A cruzada de José Serra contra fumar em locais fechados, transformada em lei, junto com a possibilidade de multa e cadeia por dirigir alcoolizado resultou em grandes mudanças em São Paulo. Isso muda a paisagem, com pessoas andando nas ruas com cigarros na mão, braços para fora dos carros com aqueles tocos brancos fumegantes, pequenas aglomerações na frente de prédios comerciais. Sem tomar partido e saindo do real e entrando um pouco na fantasia, que belas imagens o cigarro nos deu no cinema! Cenas inesquecíveis de Humphrey Bogart com o cigarro pendurado no canto da boca, belas mulheres segurando-o sensualmente suas piteiras e aqueles desenhos sinuosos que as cinzas construiam de encontro com a luz e fundos escuros. Era um “chiaroscuro” muito diferente das que vemos nas pinturas renascentistas de um Caravaggio ou de um Rembrandt. A fumaça é o elemento de contraste, por excelência, dos filmes “noir” dos anos 1950.

A cantora kd lang não está no meu panteão de cantoras, certamente. No entanto é autora de versões definitivas de algumas músicas, principalmente daquelas que foram cantadas por outras: comparações são um bom parâmetro de avaliação. Na minha opinião, não existe melhor versão de Don’t Smoke in Bed, um clássico das “torch songs”, composta por Willard Robison. A dramaticidade com o que ela canta é do tamanho da dor que a letra passa. Na hora em que canta “don’t look for me / I’ll get a hand / Remember darling / Don’t smoke in bed”, arrepia. Cometo a imprudência de dizer que sua versão é melhor do que a de Nina Simone. A letra é um primor do abandono simbolizado pelo anel de casamento deixado e pela advertência: “não fume na cama” (reproduzo a letra no fim do texto). Outras conhecidas são cantadas por gente do calibre de Julie London, Peggy Lee, e das “modernas” Holly Cole, Patti Smith e Carly Simon, de quem falo mais adiante.

Simon, vestida para matar
Todas as canções de Drag referem-se ao cigarro. É uma espécie de “disco-conceito”, como é também o pioneiro álbum Only the Lonely, de Frank Sinatra. A capa é uma grande sacada: é kd, meio andrógina, vestida com um um costume masculino em pose de quem segura um cigarro, mas sem ele.

Outra versão que, se não é definitiva, está entre as melhores – e olhe que existem centenas ou até milhares de registros dela –, é a de So in Love, contida no dvd e cd Red, Hot + Blue, gravado em prol das pesquisas para a cura da Aids. Com algum esforço, ainda é possível encontrar o dvd, que tem vários clássicos da música americana dirigidos por gente como Wim Wenders, Percy Adlon, Jim Jarmusch e Neil Jordan e interpretados por David Byrne, Aztec Camera, Sinead O’Connor, Debbie Harry, Tom Waits, U2 e Annie Lennox. Não é pouco. Outro cd de lang, Hymns of the 49th Parallel, contém apenas canções de seus conterrâneos canadenses Neil Young, Leonard Cohen, Jane Siberry e Joni Mitchell. A Case of You, de Mitchell, Helpless, de Young e Hallelujah, de Cohen, valem uma atenciosa audição.

Quase tão bom quanto o registro de kd lang de Don’t Smoke… é o de Carly Simon. Nessa onda que se torna maçante, que é a de se gravar álbuns com clássicos americanos – Rod Stewart parece ter esquecido que é um cantor pop e, pensando na grana, gravou vários cds após o sucesso de sua primeira investida no gênero –, uma das primeiras cantoras do universo pop a embarcar nessa ideia foi ela. Torch, gravado em 1981 pela Warner Bros Records, possui preciosidades como I’ll Be Around (Alec Wilder), de 1942, o clássico ellingtoniano, I Got It Bad and That Ain’t Good, de 1941, I Get Along without You Very Well (Hoagy Carmichael), de 1939, Spring Is Here (Rodgers & Hart), de 1938, e Body and Soul (Heyman, Sour, Eyton e Green), de 1930, além de músicas da década de 1950 como Pretty Strange (Jon Hendricks e Randy Weston) e Not a Day Goes By (Stephen Sondheim), da década de 1980. Numa roupagem que pode assustar os mais empedernidos fãs de jazz, com arranjos de Mike Manieri, que toca marimba em algumas faixas e Warren Bernhardt no piano elétrico e sintetizadores, mesmo assim, agrada aos ouvidos de bom gosto. Tudo bem, tem o sax alto chatinho de David Sanborn, mas, em contrapartida, tem o do brilhante Phil Woods. Torch, como como nos induz o título, é um disco de dor de cotovelo e de corno, como as músicas rodrigueanas – refiro-me a Lupicínio e não ao grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Bem nesse espírito, a composição da própria, From the Heart, é uma peça que merece estar no repertório desse gênero. Amigão, se você não se emocionar com essa música, corra para o seu psiquiatra, pois você está arriscado a estar sofrendo de palidez afetiva.

Além de Torch, não sei se por motivos comerciais ou emocionais, gravou mais um álbum com conceito semelhante: Film Noir, em 1997, pela Arista. Pelo título já dá para desconfiar. O clima do disco remete à fatal Gilda – “nunca houve uma mulher como Gilda” – a Lauren Bacall, a Humphrey Bogart e seu indefectível – já que o título se refere a ele – cigarro, à cara “feia” de Robert Mitchum surgindo das trevas e aos heróis amargurados e atormentados do cinema “noir”, estilo que dominou os anos pós-Segunda Guerra. No CD estão presentes a música tema do filme Laura, protagonizado pela inesquecível Gene Tierney e dirigido por Otto Preminger, o clássico alemão desse período, Lili Marlene e I’m a Fool to Want You, música símbolo de “dores de amores” e que se encaixa bem à fase em que Frank Sinatra viveu a perda de Ava Gardner; esta música está em Where Are You?, que com Only the Lonely, são daqueles discos para ouvir e sentar na sarjeta ou recostar-se no poste e chorar convulsivamente.

Para quem se interessar, transcrevo a letra de Don’t Smoke in Bed:

I left a note on his dresser
And my old wedding ring
With these few goodbye words
How can I sing
Goodbye old sleepy head
I’m packing you in like I said


Take care of everything
I’m leaving my wedding ring
Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed

Veja kd lang cantando Don’t Smoke in Bed, em 2001, no programa de Jools Holland. Preste atenção no piano. Muito bom.




Carly Simon canta Don’t Smoke in Bed




Ouça também a de Nina Simone, considerada por seus fervorosos fãs, a melhor. Eu discordo. kd lang é imbatível.




A inesquecível Marilyn na cama… fumando.




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O bardo canadense Leonard Cohen revisitado

Esse texto é uma republicação, com algumas mudanças em relação ao original publicado no blogue “Vamos Combinar”, de Paulo Moreira Leite, no site da revista Época (8/10/2009). A razão de ser republicado é que as colaborações de PML para essa revista não estão mais disponibilizadas.

Acho que todo mundo já notou que o ar em contato com a superfície quente do asfalto cria um efeito de “miragem”, que é como se estivéssemos a “ver” o ar em movimento. É possível ver tal fenômeno logo antes da largada de corridas de Formula 1, por causa do calor das pistas, dos motores e dos gases que saem dos escapamentos. Isso acontece em superfícies quentes e também em superfícies gélidas como as das regiões polares. Variações abruptas da temperatura do ar causam uma espécie de refração. Isso tem um nome: “fata morgana”, expressão que vem do italiano em referência à meia-irmã do Rei Arthur que, “segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência ‘criando’ um efeito de ilusão óptica” (as aspas são porque tirei essa definição da Wikipédia”).

Werner Herzog fez um filme em 1971 com esse nome. Acho que poucas pessoas o assistiram. O cineclube da Faculdade de Arquitetura da USP promovia com frequência sessões de filmes de pouco apelo comercial, raramente exibidos em sessões comerciais. A primeira cena é a de um avião pousando num aeroporto no meio do nada. A câmera fixa “vê” a imagem sob o efeito da fata morgana. Essa cena se repete várias vezes “anunciando” que estamos chegando em um lugar de clima tórrido, no caso, ao deserto do Saara.

Veja Cohen em Suzanne, no festival da Ilha de Wight.



O filme, na época, impressionou-me. A trilha musical combinava perfeitamente com as cenas de paisagem desolada e despovoada. A amiga Ruth Klotzel disse que as canções eram de um cantor chamado Leonard Cohen. Procurei nas melhores lojas de São Paulo e não encontrei nada dele. Na primeira viagem que fiz a Nova York comprei o LP Songs of Leonard Cohen. E todas as músicas do filme estavam lá: Suzanne, So Long, Marianne, Hey, That’s No Way to Say Goodbye e Sisters of Mercy. Tornou-se meu disco predileto por muito tempo. A voz de Cohen era meio grave, melancólica e triste. Sem entender direito as letras, “via” as tais paisagens desoladas de Fata Morgana e imaginava que eram palavras de dor e abandono. No mesmo ano de 1971, Robert Altman dirigiu o filme McCabe and Mrs. Miller (Onde os Homens São Homens; no DVD trocaram o título para Jogos e Trapaças). Warren Beatty era um jogador de cartas profissional que vagava de cidade em cidade atravessando regiões nevadas e desoladas. Eram viagens solitárias – ele e o cavalo – por lugares em que não se via uma vivalma. As canções que os acompanhavam também eram solitárias – a voz e o violão. Logo identifiquei que era Cohen. Provavelmente, nem Altman tinha visto o filme de Herzog e nem o contrário, mas era uma coincidência muito grande. No mesmo ano!

O canadense Leonard Cohen quando se tornou músico já era um escritor com algumas obras publicadas, o que explica a qualidade de suas letras, em contraste com a pobreza característica da maioria das canções pop/rock.

O melhor intérprete de Leonard Cohen é ele mesmo. Com quase 50 anos de carreira está sendo descoberto pelas novas gerações e estamos sempre a tomar conhecimento de intérpretes regravando-o. Sua voz, nos anos 1960, não era tão grave como agora. Mais áspera, perdeu um certo brilho. Devido a pequena amplitude de sua voz, o tom é sempre meio monocórdio. Pode-se dizer que inventou um estilo de cantar à sua medida. Suas limitações como cantor são camufladas pelos “backing vocals” femininos, violões acústicos ou esporádicas intervenções de algum outro instrumento. No século XXI a cozinha aumentou: presença maior de baterias, órgãos eletrônicos, saxes, gaitas e até algo parecido a uma guitarra portuguesa. Não dá para dizer que piorou. Pode-se dizer que, como todo mundo, transformou-se. Continua interessante. Alguns o compararão a Serge Gainsbourg ou ao australiano Nick Cave.

Vamos a Leonard Cohen pelos outros. Na área jazzística, Suzanne foi cantada por Dianne Reeves, René Marie e pelo novo darling do show business, Michael Bublé. No pop/rock temos First We Take Manhattan com o R.E.M., Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com IanMcCulloch, vocalista do Echo & The Bunnymen, So Long Marianne com a banda inglesa James, Chelsea Hotel com Lloyd Cole, Hallelujah com John Cale, ex-membro do Velvet Underground, Suzanne com Nick Cave e uma estonteante Who by Fire pela banda underrated House of Love. Sua conterrânea kd lang, como de costume, interpreta um irretocável Hallelujah e um belo Bird on a Wire em seu último CD Hymns of the 49th Parallel. Num terreno que nem é pop nem é música erudita, a canadense Patricia O’Callaghan no CD Real Emotional Girl interpreta várias de seu repertório: Hallelujah, I’m Your Man, Take This Waltz e A Singer Must Die. Vale a pena ouvir.

Ouça O’Callaghan em Hallelujah.



O Hallelujah de kd lang. Veja.



Uma sugestão para se conhecer todos os sucessos de Cohen é Live in London (2009). Ele fala um pouco demais no show, mas está perdoado depois de tanta coisa boa que compôs.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Apaixonado por kd lang

kd lang emociona cantando So in Love
Ouvir um belo So in Love com Philip Catherine, no CD Plays Cole Porter (Challenge, 2011), me faz pensar em outros “so in love”, não o estado emocional, mas na música. E a primeira de que me lembro é uma que não se insere em seu terreno “confortável” e natural, que é o jazz. Refiro-me à tocante interpretação de kd lang, que faz parte do projeto Red Hot & Blue.

Na década de 1980, uma parcela considerável de pessoas do meio artístico estava morrendo em decorrência do vírus da AIDS. John Carlin trabalhava em um escritório de advocacia especializado em negócios ligados à área do entretenimento. Como muita gente naquela época, percebendo o poder de letalidade da doença, queria fazer alguma coisa. Carlin começou a pensar em alguma coisa que pudesse “fazer o mundo prestar atenção e interromper essa coisa terrível que estava se espalhando silenciosamente. […] Um dia, então, tive uma ideia.”

Quando estava no escritório de advocacia, trabalhava em um contrato cuja proposta era a de se realizar um disco com cantores de ópera interpretando Cole Porter. No conceito de Carlin, Porter era um compositor da música popular, e não da música clássica. Ele começou “sonhando com David Byrne, U2 e Annie Lennox cantando essas músicas.” Para ele, a música de Porter era “um perfeito veículo” para um projeto voltado à causa da AIDS: “Porter era um homossexual que escondeu esse fato nos repressivos anos 1920 da América”.

Da ideia à realização, a distância é grande: “um projeto beneficente envolve muito mais do que sonhar com ideias”. No terreno das ideias, passou a ter a cooperação de Leigh Blake, uma “especialista em causas perdidas”, segundo ele. Ela propôs que se fizesse algo que combinasse músicos e cineastas. Na parte operacional, contou com Rick Papas.

Imagine um projeto em que, além de músicos como Neneh Cherry, David Byrne, Jimmy Sommerville, Salif Keita, Sinead O’Connor, Tom Waits, entre outros, contou com cineastas como Neil Jordan, Wim Wenders, Percy Adlon e Jim Jarmusch. Não foi fácil. O resultado ficou de acordo com a qualidade do projeto: venderam-se mais de um milhão de discos e o especial para a TV com os curtas rodou o mundo. A mensagem estava dada. Depois, vieram vários “filhotes” com o nome Red Hot + “alguma coisa” (Rio, Lisbon, Riot, Country, etc.)

Por sorte, temos o vídeo de So in Love, com kd lang, dirigido por Percy Adlon, no YouTube. Veja aqui.