quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Martha Argerich, ou o que são e o que achamos que são

Temos o costume de colocar os gênios em panteões. Assim, tornam-se inatingíveis e guardamos uma distância respeitosa e, ao mesmo tempo, temerosa. E o medo faz coisa. Ninguém é deus e muito menos, inatingível. A revelação dos deslizes do ídolo do golfe Tiger Woods, em atitudes absolutamente humanas – traía intencional e determinadamente sua esposa com mulheres menos belas que ela e com profissionais do sexo –, fez com que, de quase deus virasse o que, no fundo, todos são: “ordinários”, no sentido da palavra em inglês, que significa “simples”. Sim, simples humanos.

Sim, gênios são peculiares e, incluídos nesse gênero, os prodígios. Em algumas especialidades as tendências manifestadas cedo são essenciais ao posterior desenvolvimento de suas características especiais. Mas não basta o prodígio. Mais que ele é preciso muita disciplina e treino. No tênis, para citar um caso célebre, temos o de Björn Borg, que, prematuramente, aos 26 anos abandonou as quadras para viver a “high life” a que todo milionário poderia se permitir. Descobriu que, além da férrea disciplina a que era submetido, “lá fora” existiam mulheres lindas, drogas e muita festa. Outro tenista, “muy” amigo, Vitas Gerulaits, foi um dos responsáveis por esse “desvio” em sua vida. E, afinal, não foi muito feliz nesse “novo mundo”. Gastou todo o dinheiro que ganhou, entrou em empreendimentos que lhe custaram a falência e tentou o suicídio uma vez.

Esse caso de desvio, por outros caminhos, aconteceu com o maior enxadrista brasileiro de todo os tempos, Henrique da Costa Mecking, o “Mequinho”, terceiro no ranking mundial. Conheceu o ocaso por conta de uma doença rara – a miastenia – e algumas excentricidades toleradas apenas nos gênios.

Argerich, grande virtuose, grisalha e feliz
No entanto, é na música que o pendor parece indispensável, principalmente no piano. A maioria dos grandes virtuoses deste instrumento mostrou seus talentos muito cedo, alguns com apenas três anos de idade. É o caso do brasileiro Nelson Freire. O mineiro, que grava pela Decca, uma das maiores do repertório clássico, é hoje um dos maiores pianistas vivos. Acontece o mesmo com sua grande amiga, a argentina Martha Argerich.

Dizem que genialidade não escolhe lugar para nascer. Pode sugir um gênio musical nos confins da mata amazônica? Pode ser? Improvável? E depois, nada acontece se não houver um pequeno “empurrão” do destino… ou do governo. Um caso exemplar – vamos ficar circunscritos à América Latina – é o de Claudio Arrau. Prodígio – fez sua primeira apresentação pública com cinco anos –, filho de família tradicional, com menos de dez anos, foi enviado junto com sua mãe – o pai morreu quando tinha um ano –, financiado pelo governo chileno, para estudar na Alemanha com Martin Krause. Isso se deu nos anos 1910.

Bom tempo depois, sucedeu-se algo parecido com outro prodígio: Martha Argerich. Juan Perón, presidente à época, subsidiou sua ida para a Europa para estudar com Friederich Gulda na Áustria, empregando seus pais em embaixadas. Até hoje, de uma geração de ouro em que se destacam Maurizio Pollini, Alfred Brendel, András Schiff, Stephen Kovachevich – que era Bishop e trocou o nome por causa de um astro de rock homônimo – e o brasileiro Nelson Freire, a argentina é pianista do primeiro time.

Está disponível em streaming na Prime Video o belo documentário Martha Argerich – Conversa Noturna, de 2003, direção de Georges Gachot, pelo selo EuroArts, que, desde o ano passado, está lançando uma série de títulos de música clássica no mercado brasileiro. Vemos os gênios como pessoas inatingíveis, como disse inicialmente. A Martha que imaginei, deveras, não existe. Aquela mulher que tinha um certo ar existencialista, com bastos cabelos negros, olhos levemente amendoados, fumante, era a “dama inatingível”. É possível que essa imagem tenha se sedimentado por conta do incidente em que, como protesto, abandonara o júri de um desses concursos de piano, quando um competidor, o croata Ivo Pogorelich, fora eliminado. Dizendo que Ivo era um gênio, foi embora. Parecia atitude de “prima-dona”.

No documentário de Gachot, essa impressão vai embora. Primeiro pelo seu jeito de “não estar nem aí” para a aparência visual. Em vez da senhora cheia de “pancake” no rosto, de cabelos cuidadosamente cofiados, estamos à frente de alguém que não se preocupa em tingi-los e muito menos de penteá-los mais cuidadosamente. Suas mãos – invariavelmente belas, produzem sons tão sublimes – carecem de nuanças que as enfeitem. Sem um traço de maquiagem, fala, e muito. É um susto. Achava até que não falava! Conta histórias engraçadas como a de Friederich Gulda que, ao conhecer o inexcedívell jazzista Erroll Garner, disse-lhe que seu piano lembrava a música de Ravel. Erroll respondeu: “Quem é esse cara?”. Mais ou menos assim.

O aparente “estrelismo” se explica pela timidez. Imagine-se uma menina de pouco mais de dez anos fora de sua terra natal, viajando sem parar, sem poder fazer amigos ou brincar como qualquer criança. É o sacrifício dos gênios. A quase criança, com dezessete anos sentia-se uma mulher solitária de 40. Argerich sobreviveu à disciplina a que se submeteu e parece feliz tocando piano. É o que passa o bom documentário de Gachot.

A naturalidade das mãos de Argerich passeia pelas teclas do piano em suave dança, enérgicas quando necessária, pelas composições mais difíceis de Liszt, de Prokofiev, por atmosferas diáfanas como a de Mamãe Gansa – que toca a quatro mãos com Nelson Freire –, de Ravel, são pura magia. Se o homem normal vir alguns objetos como inatingíveis, os gênios também. Martha, logo no início do documentário, fala de quando foi assistir a uma apresentação de Claudio Arrau, bem menina, com sua mãe: “Foi a emoção mais forte que senti com a música. Eu tinha seis anos, lembro-me bem. Foi com o 4º de Beethoven [4º Concerto para Piano e Orquestra, op. 58]… que eu não toco.” Pois é, Martha nunca tocará esse que, com o terceiro, são dos mais belos de todo o repertório bethoveniano.

Veja e ouça:
Ravel – Jeau d’eau.



O link para assistir ao vídeo é https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Martha-Argerich---Conversas-Noturnas/0N31V4C0827WBDLSROLD4BNNFN

Publicado em 17/3/2010 pela primeira vez

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mel Tormé, Carlos Conde, Alberico Cilento e Siero

Carlos Conde foi uma referência para muitos de nós quando o assunto é jazz. Por muitos anos, até pouco antes de adoecer, manteve seu programa na Rádio Cultura, sempre trazendo novidades do gênero, adquiridas em suas viagens semestrais a Nova York e a outros lugares. Em cada viagem comprava cerca de 200 CDs. Para que não fossem apreendidos pela alfândega, jogava fora as caixinhas (jewel boxes), trazia os disquinhos em porta CDs da Case Logic, as capas e encartes em um envelope. 

Apesar da diferença de idade, ficamos amigos. Minha timidez impedia de abordá-lo e me apresentar. Outro grande especialista e colecionador era o Alberico Cilento. Via-o sempre na Grammophone, uma loja cuja matriz era no Rio de Janeiro, na avenida Juscelino Kubitshek, em São Paulo, e também na Edgar Discos, na rua Lacerda Franco, Pinheiros, que vendia mais discos usados do que novos. Não lembro direito de como ficamos amigos. Frequentei muito sua casa no Jardim Marajoara. Gostava de mostrar trechos de música com solos que considerava memoráveis. Aprendi muito com ele.

Por várias décadas, Alberico foi um dos bam-bam-bam do atendimento da DPZ. Ganhava muito bem mas nunca trocou seu Fiat 147; seus amigos diziam, “troca por um carro mais decente, mais de acordo com a sua posição”. Preferia ter um Steinway de um quarto da cauda do que se exibir andando em carrões. Na verdade, tinha dois pianos de um quarto de cauda. O Steinway da sala era para seus amigos músicos, como João Donato, tocarem. O Blüthner, que ficava na sua sala de música, onde ficava seu aparelho de som, os milhares de LPs e CDs, era para ele se exercitar como mero amador.

Não lembro também como foi a primeira vez em que conversei com o Carlos Conde. É bem provável que tenha sido na Grammophone. Vários compradores compulsivos de LPs, CDs e fitas de vídeo cassete (depois surgiram os Laser Discs, que eram caríssimos e tiveram vida curta) baixavam aos sábados de manhã na loja. É possível que Alberico tenha me apresentado ao Conde. Um outro colecionador que estava sempre lá era o Sieiro, um espanhol de voz forte, como a do Conde. Era mais eclético; gostava de todos os gêneros musicais, fora o sertanejo, certamente. Para se ter uma ideia, quando resolveu vender seus LPs que se encontravam no sítio em Mairiporã, entrou em contato com o músico e cantor Ed Motta e este arrematou 800 LPs de uma vez.

Apesar da diferença de idade, uns 25 anos, ficamos amigos. Do seu círculo de amizade de apaixonados por jazz eu era o mais novo. O negócio dele era o jazz trio, mais do que qualquer outra formação. Odiava jazz latino, vibrafones e congas. Nem podia ouvir falar de Tito Puente. Sendo um adolescente na década de 1970, fui iniciado no que chamavam de rock progressivo (Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Van der Graaf Generator). Daí, passar a me interessar pela música estritamente instrumental foi um passo natural. Conheci Weather Report, Soft Machine, Chick Corea e Miles Davis. 

Conde, Russell Malone e eu
Meu gosto se inclinava aos mais modernos também, como John McLaughlin, Miles Davis elétrico, Weather Report e outros, apesar de gostar muito dos mais antigos, como Duke Ellingotn, Coleman Hawkins, Lester Young e tantos outros, muitos deles a partir das dicas dos meus amigos jazzófilos. Como todo bom colecionador, Conde gostava de bisbilhotar o que os outros estavam comprando. Olhava os que tinha separado e dizia: Chick Corea? “Mas você é jovem, então, tudo bem”.

Com o tempo fomos ficando próximos. Como ganhava muitos convites para shows por conta de seu programa, passou a me convidar para vários deles. Os melhores eram os do Bourbon Street. Sentávamos sempre na primeira fileira. Assim, assisti às apresentações de Bucky Pizzarelli (umas três vezes), Carol Welsman, Nnena Freelon, John Carter, Russell Malone, Karyn Allyson e outros mais. Depois dos shows, íamos ao camarim e ele sempre pedia que os artistas autografassem os CDs e LPs que levava. Todos os que tenho autografados, consegui-os porque ia na cola dele.

A história do disco com assinatura falsa. Acho que existe ainda a Jazz Record Center, uma loja que fica no oitavo andar de um prédio na West 26th Street. Conheci por causa dele. Além de venderem discos novos, a especialidade são itens de colecionadores e uma vasta memorabilia como pôsteres, livros, camisetas e revistas. Um dos itens são LPs e CDs autografados. Foi aí que descobri que o Conde não pedia autógrafos apenas porque era fã. Ele levava para Nova York e vendia. 

Certa vez, logo depois de voltar de Nova York, Conde disse com a maior alegria de que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 120 dólares. Daí Alberico contou que ele e um outro amigo resolveram pregar uma peça nele dando o LP em que eles próprios falsificaram o autógrafo, sabendo da idolatria que elnutria pelo cantor. Nunca imaginariam que ele levasse o disco para vender. Resposta do Conde: “Agora já foi; está vendido”.

Um último parágrafo. Nos Estados Unidos, muitos discos são anunciados nas revistas com datas de lançamento determinadas. Desafortunadamente, o CD “The Classic Concert”, com Mel Tormé, Gerry Mulligan e George Shearing, gravação de um show de 1982 no Carnegie Hall, sairia alguns dias depois que Conde já não estaria em Nova York. Ele ficou louco. Como sabia que eu estava indo para lá pouco depois, ligou para mim pedindo que comprasse o disco. Disse que assistiu ao show e era importante tê-lo. Claro, comprei para ele e para mim na J&R. Ouça o CD.