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terça-feira, 11 de junho de 2013

James Farm, Esperanza Spalding, Egberto Gismonti, as atrações do BMW Jazz Festival

O saxofonista Joshua Redman
Os tais “festivais de jazz” no Brasil trocam de patrocinadores, mas o nível tem se mantido alto. O público teve oportunidade de ouvir desde músicos de vanguarda como Cecil Taylor, consagrados, como Ahmad Jamal, e novos, como Ambrose Akinmusire. Toy Lima, o programador anterior, trouxe vários músicos que, dificilmente viriam ao Brasil. Neste BMW Jazz Festival, a produção foi da Duetto, de Monique Gardenberg. A edição de 2013 não fugiu à regra de trazer nomes novos, ou menos conhecidos do público brasileiro em geral e também os consagrados. As atrações de sexta-feira, único dia que fui, são um bom exemplo dessa diversidade.


James Farm
A curiosidade que não foi citada em nenhum momento – não sei se é importante, porém – é a de que o nome James Farm não se refere a uma pessoa, e sim a um grupo de instrumentistas que têm as suas iniciais no nome James: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. Citei isso no post sobre o álbum Walking Shadows, de Redman (leia http://bit.ly/1jphgFQ). Teoricamente, o líder seria Joshua, pelos vários álbuns lançados com seu nome. Mas James Farm, como o próprio saxofonista tem feito questão de frisar, é um projeto coletivo. E, realmente, foram executados na noite de sexta composições de todos os membros, inclusive uma do baterista Eric Harland. Aliás, este foi uma atração à parte. É um grande baterista. Pela segunda vez, vem ao Brasil. Toca usualmente na banda de Charles Lloyd, que se apresentou no ano passado (leia http://bit.ly/MxItaq). De Joshua, nem é preciso falar. É um dos melhores saxofonistas da atualidade. Com solos vigorosos, estraçalhou.

Veja a apresentação do James Farmer no Jazz Standard tocando Chronos. Este tema foi um dos destaques da sexta-feira.




Esperanza Spalding
Das três atrações, a principal era a de Esperanza Spalding, pelo menos quanto às expectativas. Nem tem 30 anos, já lançou três álbuns e é bem conhecida no Brasil, até por ter gravado Ponta de Areia, de Milton Nascimento. Ela faz parte de uma geração que tem fundamentos baseados no jazz e pés em outros gêneros musicais. Exemplos: Cassandra Wilson (leia http://bit.ly/1152miO e http://bit.ly/12gBEoV), Lizz Wright (leia http://bit.ly/WkImI5), Norah Jones (leia http://bit.ly/KDx20a) e Jamie Cullum. Celebrada, não apenas pelo público geral, mas pela crítica especializada, é um fenômeno em vários sentidos. Vá, é um charme especial ver uma mulher com menos de 1,70 m tocando um contrabaixo. E mais: bem. Se não fosse não teria feito parte da banda do consagrado Joe Lovano. Não tocou muito o acústico, privilegiando o elétrico, mas manda muito bem nos dois. O Radio Music Society conta com dois trombonistas, dois trompetistas, três saxofonistas, um guitarrista, um tecladista, um baterista e um vocalista. Posso estar esquecendo de algum músico. Eram muitos. Alguns se destacam: o guitarrista Ricardo Vogt, não por ser brilhante, mas por ser (foi o que ficou subentendido), namorado de Esperanza, o tecladista, o argentino Leo Genovese, a trompetista Leala Cyr, pelo belo vocal que fez com a baixista, lembrando vocalises de Bobby McFerrin, e, principalmente, Tia Fuller, arranjadora e saxofonista alto. Fez solos eletrizantes.

O cabelo de Esperanza, na apresentação, estava menos Angela Davis (para quem não conhece essa ativista, veja em http://bit.ly/H2pvtr). É uma moça miúda, bela, carismática e, antes disso, talentosa. Evidente que fez o maior sucesso. Simpaticíssima, declarando várias vezes amor pelo Brasil e por sua música, falando um pouco de português, não tinha como deixar de cair nas graças do povo. Não cantou nenhuma de seu compositor favorito – Milton Nascimento –, mas Inútil Paisagem, de Jobim, fez parte do set.

Na última votação da Downbeat (60th Annual Critics Poll), como contrabaixista ficou em terceiro, deixando Dave Holland, Stanley Clarke e Ron Carter para trás. No baixo elétrico ficou em segundo, atrás apenas do genial Christian McBride, deixando para trás Stanley Clarke, Marcus Miller e Steve Swallow. Como cantora, ficou em terceiro, à frente de Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewater, Diana Krall e outras de mesmo calibre. A moça está com prestígio, sem dúvida. Estou achando que sou o único neste planeta que não acha tudo isso dela. É, sem dúvida, muito boa, mas considero-a superestimada (overrated).

Para discordar de mim, assista a uma apresentação dela com o Radio Music Society no prestigiado Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, de 2012.




Egberto Gismonti
Qualquer apresentação de Egberto Gismonti é um acontecimento. Vi dezenas do multinstrumentista e compositor. A primeira foi em um parque nas proximidades do Jóquei Clube de São Paulo. Em meados dos anos 1970, todos os domingos, aconteciam apresentações, em sua maioria, de música instrumental. Foram manhãs maravilhosas em que ouvi Hector Costita, Johnny Alf e João Bosco cercado de árvores e trilhas.

O carioca de Carmo é um músico que não parou no tempo. Sempre surpreendente. Dentre os brasileiros é quem, na música instrumental, arrematou maior prestígio internacional, juntamente com Hermeto Pascoal.

A genialidade de Gismonti não está apenas em suas composições ou na maestria com que toca piano, violão e flautas. Gravou em todos os formatos possíveis usando seu talento como arranjador. O último álbum lançado pela ECM, em 2009, o duplo Saudações, Sertões Veredas - tributo à miscigenação, é com a Camerata Romeu, orquestra cubana. Antes, gravou com orquestra Academia de Danças (EMI-Odeon, 1974), Corações Futuristas (EMI-Odeon, 1976), Nó Caipira (Carmo/ECM, 1978), New Tango, Brazilian Touch (Milan, 1991) e, mais recentemente, Meeting Point (ECM, 1997), com a Lithuanian State Symphony Orchestra.

Na apresentação no BMW Jazz Festival, Gismonti veio com mais uma surpresa. A educadora e diretora Tina Pereira formou uma orquestra de jovens. Em 2008 EG passou a colaborar com a orquestra. Com a morte súbita de sua diretora, deu continuidade ao projeto. Essa formação, constituída por 22 jovens passou a se chamar Orquestra Corações Futuristas. E foi com ela que Gismonti se apresentou como regente. Em apenas um pequeno trecho do show sentou-se ao piano. Grande apresentação. É emocionante ver a energia que emana de jovens encantados com a oportunidade de estarem com o mestre.

Impressionante a rapidez com que se registram apresentações no youtube. O show foi agora e um trecho já está lá. Veja.




Veja uma outra apresentação, desta vez no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A viagem de Naná Vasconcelos

Da esquerda para a direita, Naná, Don Cherry e Colin Walcott
Na matéria publicada na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo (12/5/2013), assinada por Carlos Bozzo Junior, Naná Vasconcelos conta sobre suas experiências com o LSD: “Foi bom tomar. Nunca tomei sozinho, mas em companhia de meus instrumentos. […] Quando a reação vinha, a primeira coisa que eu queria era tocar. Minha sensibilidade aflorava e eu ficava concentrado só na música.”

Antes dessas viagens fizera outras. No Recife ainda, conhecera um bailarino brasileiro radicado em Portugal. Com outros músicos montou o Quarteto Yansã e partiram, meio na louca, para Lisboa. Não encontraram o tal bailarino que prometera ajudá-los. Casualmente, encontrou Agostinho dos Santos, que também andava “perdido” por lá. Eles se conheciam por canta de ter participado de programas de televisão. Cantava em um navio. Com o pretexto de que precisava comprar alguns dólares, pediu ao comandante que lhe desse o passaporte e deu no pé. Andaram fazendo alguns shows. Agostinho, nessa época, já tinha participado da trilha sonora de Orfeu Negro, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, cantando A Felicidade.

Voltou para o Recife, mas já tinha pegado o gosto pela estrada. Foi para o Rio de Janeiro. Fez um “arranjo” com mestre Capiba, convencendo-o a representar Pernambuco no Festival “O Brasil Canta no Rio”, que pagou-lhe uma passagem de ida e volta. Sem muito dinheiro, no Rio, marotamente misturou-se aos integrantes do grupo Titulares do Ritmo e conseguiu hospedagem. Detalhe: os Titulares era um conjunto vocal liderado por Chico Nepomuceno de Oliveira e eram todos cegos.

O maracatu de mestre Capiba não ganhou. Conheceu o também pernambucano Geraldo Azevedo e foi parar em uma festa na casa de Milton Nascimento. Depois disso, o resto é história. Participou de grupos como A Sagrada Família, de Luiz Eça, e do Som Imaginário. Conheceu o saxofonista Gato Barbieri, autor da trilha de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e lá foi Naná para outra viagem.

Ficou por cerca de um ano em Nova York. Em turnê com Gato na Europa, resoveu estabelecer-se em Paris. Gravou Africadeus, seu primeiro disco como líder. Dois anos depois, em 1973, lançou pela Philips, Amazonas. Esse é antológico. Naná nem pode ser classificado como percussionista. Naná inventa sons, não apenas com o berimbau, com seu modo único de executá-lo, mas com vozes e consegue até fazer uma música que é feita apenas de risadas, como é Um Minuto, a faixa que fecha o LP.

Ouça Cara com Cara, do álbum Amazonas.




Além dos álbuns como líder, participou de gravações antológicas com Milton Nascimento. Seu trabalho em Milagre dos Peixes é algo que foge de qualquer classificação. Um álbum que abriu-lhe efetivamente as portas para o mercado internacional foi Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, para a gravadora ECM. Caindo nas graças de Manfred Eicher, gravou Saudades (1979) e participou de inúmeros trabalhos com Jan Garbarek, Pierre Favre e Pat Metheny.

O melhor de Naná, na minha opinião, está contido em três álbuns lançados pela ECM, Da reunião de três grandes músicos, resultou um grupo chamado Codona. Correspondem às duas letras iniciais de cada um deles. “CO”, de Colin Walcott, excepcional percussionista e citarista, membro da melhor formação do Oregon (ele, Ralph Towner, Glenn Moore e Paul McCandless), morto precocemente em um acidente besta (estava dormindo no ônibus e na colisão bateu a cabeça); “DO”, de Don Cherry; e “NA”, de Naná.

Como o mundo é constituído por infinitos círculos e por isso, pequeno, Gato Barbieri havia participado de algumas formações com Cherry. Gato tinha levado Naná consigo para os EUA e Europa. É provável que tenham se conhecido assim; ou por outras vias. Dança das Cabeças, de Gismonti e ele, foi gravado em novembro de 1976; Don Cherry participou da formação do Old and New Dreams, com Charlie Haden, Dewey Redman e Ed Blackwell; os quatro se conheciam há muito tempo: todos tocaram com Ornette Coleman. O quarteto lançou o primeiro disco pela italiana Black Saint, o segundo, em 1979, na ECM. No mesmo ano, por esta gravadora saiu o primeiro Codona. Os outros dois sairam em 1981 e em 1983.

Dos milhões de rótulos que surgem, esteve em voga o termo “world music”. Mais genérico impossível: pode ser música japonesa, árabe, africana, paquistanesa, indiana? O cantor e compositor fundador da banda de rock progressivo Genesis criou um selo chamado Real World e gravou músicos africanos, latinos, árabes e até da Oceania. Muitas vezes, o tipo de música produzida pelo Codona ficou assim rotulado. Esqueça. Considere apenas que é música de primeira, tocada e composta por três artistas geniais. Quando se mescla o pocket trumpet, flautas, doussn’gouni (o som lembra o da kalimba) e melodica de Cherry, tablas e cítaras de Colin Walcott, berimbaus, cuícas e vozes de Nana, realmente, fica difícil de classificar o som resultante.


Veja os três em apresentação em Nova York.




Ouça Que Faser (foi grafado com “s” mesmo), de Naná Vasconcelos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Egberto Gismonti e Charlie Haden sem Jan Garbarek

Gismonti e Haden
Sem a “interferência” de Jan Garbarek, aconteceu uma apresentação de Egberto Gismonti e Charlie Haden, lançada pela ECM com o título In Montreal. Faz parte de uma série de apresentações acontecidas em 1989, em que o homenageado foi o baixista. Em dias diferentes, Haden dividiu o palco com Joe Henderson e Al Foster (30/6), Geri Allen e Paul Motian (1/7), Don Cherry e Ed Blackwell (2/7); Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (3/7), Pat Metheny e Jack DeJohnette (5/7), Gismonti (6/7), Paul Bley e Paul Motian (7/1), e o Liberation Music Orchestra (8/7). Todas, com exceção da apresentação com Metheny e Jack DeJohnette, foram lançadas em CD ou DVD (o do Liberation Music Orchestra). 

A de Montreal, certamente, não foi a única vez em que tocaram apenas os dois. Presenciei, uma vez, apresentação de Haden com seu Quartet West, no Teatro Alfa, em São Paulo, em que Gismonti tocou alguns números como convidado especial. Foi em 1999.

Haden era a estrela, mas a maioria das composições é de Gismonti. Haden tem poucas e ótimas composições. As duas do CD – First Song e Silence –, para quem conhece a discografia de Haden, são conhecidíssimas. As sete restantes são do brasileiro: Salvador, Maracatú, Palhaço, Em Família, Lôro, Frevo e Don Quixote.

A música de improviso tem uma qualidade: mesmo que os temas não sejam inéditos, é sempre possível uma leitura diferente, porque depende do momento e da interação dos músicos. O entendimento entre os dois parece, a meu ver, mais natural sem Jan Garbarek, um pouco em razão de o piano e o violão de Gismonti brigarem menos com uma certa estridência do saxofone do norueguês. É uma combinação mais harmônica. Questão de gosto, como disse dezenas de vezes, e está sujeita a discordâncias.

Os temas de Gismonti são bem conhecidas pelos brasileiros. Então, vamos ouvir um de Haden: Silence. Essa música foi gravada pela primeira vez em The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Não tenho absoluta certeza sobre essa informação, mas meu palpite é de que foi em 1982 mesmo.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja Gismonti em duo com Haden em São Paulo, no Heineken Concerts, tocando Palhaço.


Outros sobre Haden no blogue:
“Jasmine”, o duo de Keith Jarrett e CH: http://bit.ly/Qs0QEe
“Sophisticated Ladies”: http://bit.ly/T9fqNd 
CH e Rachmaninoff: http://bit.ly/10lYR5a
Hank Jones e CH, O último disco de Hank: http://bit.ly/OlS6MD
Os duos de CH: http://bit.ly/UcDyS0
O post anterior, sobre “Carta de Amor”: http://bit.ly/Wt424a

Bom, deu para perceber que sou fã de carteirinha do baixista, não?



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A “Carta de amor” de Gismonti

Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM)
Quem é fã de Egberto Gismonti vai comprar o álbum duplo Carta de Amor, lançado pela gravadora internacional do brasileiro, a ECM. São registros de uma apresentação no Americanhaus, em Munique, acontecidas em abril de 1981. A Borandá tem distribuído alguns bons CDs da ECM, poucos, é certo. Os CDs físicos são importados e o encarte e o box são produzidos aqui mesmo. Sai um pouco mais barato. Por este álbum duplo paguei 69 reais. Com a facilidade de se baixar de graça, sai caro. Tenho minhas dúvidas se deveria ter esperado um pouco e deixar de gastar meu precioso dinheirinho. Vi, em pelo menos dois sites, disponível para ser baixado em mp3 “de grátis”, como dizem por aí.

A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)

Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.

Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.

Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.

Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.

Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).

Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.

Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.

Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Os duos de Charlie Haden

Haden e o baixo
O lugar do contrabaixo, ou baixo, como é chamado com maior frequência, é na “cozinha”; como a bateria. Quem sola é o piano, a guitarra, o sax ou alguns outros instrumentos. Cabem ao baixo e à bateria solos no meio das músicas, mas, quase sempre, a primazia é dos outros instrumentistas. Isso não tira a importância de um Oscar Pettiford, um Ray Brown ou um Jaco Pastorius. Um formato, no entanto, propicia maior presença ao baixo: os duos, principalmente, se os músicos forem Charlie Haden, Red Mitchell ou David Friesen. Dos três, Haden é o que mais gravou discos nesse formato.

Os primeiros que lançou como solista foram Closeness (A&M, 1976) e Golden Number (A&M 1977). Não é mera coincidência que os dois consistam de duetos com alguns expoentes do jazz com quem já havia tocado (Ornette Coleman, Don Cherry, Paul Motian e Keith Jarrett). Quando Closeness foi lançado, o conhecia pelos discos que havia feito como sideman de Keith Jarrett, e mais tarde, pelo álbum Free Jazz (de 1961), de Ornette Coleman.

Fiquei ‘paralisado” ao ouvir a primeira música de Closeness: Ellen David, em homenagem à mulher com quem era casado. Muitos amigos conheceram Haden por essa música. Todos os que vinham em casa eram “obrigados” a ouvir esse maravilhoso dueto com Keith Jarrett. Das três restantes, a outra preferida era For Turiya, com Alice Coltrane na harpa. A com Ornette Coleman, não gostava; a com Paul Motian era interessante, mais pelo viés político.

Curiosamente, o comunismo (naquele tempo existiam muitos militantes de esquerda, de variados matizes) de Haden era específico, voltado mais aos países latinos Espanha, Portugal e América Central. Na época, o General Franco era um cadáver ambulante, mas teimava em não morrer. António Salazar estava morto (1889-1970), mas o salazarismo não. Portugal era um dos últimos países a viver do colonialismo, com braços na África e no Oriente. Era dirigido por Marcelo Caetano quando aconteceu o que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974.

No crepúsculo do regime salazarista, Haden se apresentou no primeiro Cascais Jazz, em novembro de 1971. As atrações eram de primeira: Miles Davis, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey, Phil Woods e Dexter Gordon. Charlie Haden (estava tocando com Ornette Coleman) dedicou Song for Che aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Delírio: os portugueses não aguentavam mais. Viam-se faixas com a inscrição “Abaixo a Guerra Colonial”. Apesar de a apresentação não ter sido interrompida, Haden foi interrogado pelo Pide, a versão lusa do nosso Dops, e de lá, mandaram-no direto para o aeroporto.

Pois, a última faixa de Closeness – For a Free Portugal – é uma colagem com percussões de Paul Motian e cantos da guerrilha angolana. Percebemos perfeitamente sons de tiros e vozes cantando palavras de ordem, na língua portuguesa, contra o colonialismo.

Mais ou menos nessa época, a amiga Lucila Wroblewsky, que sempre viajava para fora do país – coisa que não era tão fácil como é agora –, me emprestou um LP de Haden com o pianista Hampton Hawes: As Long A Thre’s Music (1978). Virei fã definitivo do baixista: tenho quase tudo dele, principalmente, as gravações em duos, que não são poucos. Além dos citados acima, gravaram com Haden, Chris Anderson, John Taylor, Hank Jones, Kenny Barron, Denny Zeitlin (pianistas); Antonio Forcione, Christian Escoudé, Carlos Paredes, Pat Metheny (violões e guitarras); e, Egberto Gismonti (violões e piano).

O último disco lançado foi Come Sunday, comentado anteontem (http://bit.ly/A2oxHE). Antes dessa gravação com o pianista Hank Jones, lançou Jasmine (ECM, 2010), com Keith Jarrett (sobre esse disco, leia http://bit.ly/rLYSsm), Foi considerado um dos melhores do ano pela crítica especializada, em revistas de jazz.

Ouça a bela Ellen David, com Haden e Keith Jarrett.



Haden e Gismonti
Egberto Gismonti e Charlie Haden. O primeiro disco gravado por Egberto Gismonti pela alemã ECM foi um sucesso. Dança das Cabeças, em duo com o percussionista Naná Vasconcelos, recebeu 5 estrelas – cotação máxima – da revista Downbeat, em 1977. Dança propiciou ao brasileiro uma longa cooperação com a gravadora de Manfred Eicher. Nos álbuns colaborativos que a ECM costuma produzir, Egberto gravou Sol do Meio Dia (1978), com Collin Walcott, Ralph Towner e Jan Garbarek. Depois disso, lançou Solo (1979), e em 1979, dois discos com Jan Garbarek e Charlie Haden: Mágico (1980) e Folk Songs (1981).

Em 1989 aconteceu uma série de apresentações de Charlie Haden no Festival de Montreal. Paulatinamente, foram lançados discos em que foram (re)unidos músicos que colaboraram com o baixista durante a carreira. Em 30 de junho, apresentou-se com Joe Henderson e Al Foster (Verve, 2004); em 1º de julho, com a pianista Geri Allen e o baterista Paul Motian (Verve, 1998); em 2 de julho, com Don Cherry e Ed Blackwell, velhos parceiros musicais da banda de Ornette Coleman e do Old and New Dreams (Verve, 1994); em 3 de julho, com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (Verve, 1997); no dia 5, com Pat Metheny e Jack DeJohnette (não foi lançado); no dia 6, com Egberto Gismonti (Verve, 2004); com Paul Bley e Paul Motian, no dia 7 (Verve, 1994); e em 8 de julho com o Liberation Music Orchestra (Verve, 1999).

Em 1999, por ocasião da apresentação de Charlie Haden e seu Quartet West, no Teatro Alfa, São Paulo, Egberto Gismonti foi o convidado especial. É desse show que você vai ouvir Palhaço.



Como sou fã de carteirinha de Haden, tem sido assunto recorrente nas minhas publicações.
Leia sobre o CD Sophisticated Ladies: http://bit.ly/ycnxYm
Haden toca Moments musicaux, de Rachmaninov: http://bit.ly/wVnmDW,
além dos que foram assinalados no meio do texto.