terça-feira, 11 de junho de 2013

James Farm, Esperanza Spalding, Egberto Gismonti, as atrações do BMW Jazz Festival

O saxofonista Joshua Redman
Os tais “festivais de jazz” no Brasil trocam de patrocinadores, mas o nível tem se mantido alto. O público teve oportunidade de ouvir desde músicos de vanguarda como Cecil Taylor, consagrados, como Ahmad Jamal, e novos, como Ambrose Akinmusire. Toy Lima, o programador anterior, trouxe vários músicos que, dificilmente viriam ao Brasil. Neste BMW Jazz Festival, a produção foi da Duetto, de Monique Gardenberg. A edição de 2013 não fugiu à regra de trazer nomes novos, ou menos conhecidos do público brasileiro em geral e também os consagrados. As atrações de sexta-feira, único dia que fui, são um bom exemplo dessa diversidade.


James Farm
A curiosidade que não foi citada em nenhum momento – não sei se é importante, porém – é a de que o nome James Farm não se refere a uma pessoa, e sim a um grupo de instrumentistas que têm as suas iniciais no nome James: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. Citei isso no post sobre o álbum Walking Shadows, de Redman (leia http://bit.ly/1jphgFQ). Teoricamente, o líder seria Joshua, pelos vários álbuns lançados com seu nome. Mas James Farm, como o próprio saxofonista tem feito questão de frisar, é um projeto coletivo. E, realmente, foram executados na noite de sexta composições de todos os membros, inclusive uma do baterista Eric Harland. Aliás, este foi uma atração à parte. É um grande baterista. Pela segunda vez, vem ao Brasil. Toca usualmente na banda de Charles Lloyd, que se apresentou no ano passado (leia http://bit.ly/MxItaq). De Joshua, nem é preciso falar. É um dos melhores saxofonistas da atualidade. Com solos vigorosos, estraçalhou.

Veja a apresentação do James Farmer no Jazz Standard tocando Chronos. Este tema foi um dos destaques da sexta-feira.




Esperanza Spalding
Das três atrações, a principal era a de Esperanza Spalding, pelo menos quanto às expectativas. Nem tem 30 anos, já lançou três álbuns e é bem conhecida no Brasil, até por ter gravado Ponta de Areia, de Milton Nascimento. Ela faz parte de uma geração que tem fundamentos baseados no jazz e pés em outros gêneros musicais. Exemplos: Cassandra Wilson (leia http://bit.ly/1152miO e http://bit.ly/12gBEoV), Lizz Wright (leia http://bit.ly/WkImI5), Norah Jones (leia http://bit.ly/KDx20a) e Jamie Cullum. Celebrada, não apenas pelo público geral, mas pela crítica especializada, é um fenômeno em vários sentidos. Vá, é um charme especial ver uma mulher com menos de 1,70 m tocando um contrabaixo. E mais: bem. Se não fosse não teria feito parte da banda do consagrado Joe Lovano. Não tocou muito o acústico, privilegiando o elétrico, mas manda muito bem nos dois. O Radio Music Society conta com dois trombonistas, dois trompetistas, três saxofonistas, um guitarrista, um tecladista, um baterista e um vocalista. Posso estar esquecendo de algum músico. Eram muitos. Alguns se destacam: o guitarrista Ricardo Vogt, não por ser brilhante, mas por ser (foi o que ficou subentendido), namorado de Esperanza, o tecladista, o argentino Leo Genovese, a trompetista Leala Cyr, pelo belo vocal que fez com a baixista, lembrando vocalises de Bobby McFerrin, e, principalmente, Tia Fuller, arranjadora e saxofonista alto. Fez solos eletrizantes.

O cabelo de Esperanza, na apresentação, estava menos Angela Davis (para quem não conhece essa ativista, veja em http://bit.ly/H2pvtr). É uma moça miúda, bela, carismática e, antes disso, talentosa. Evidente que fez o maior sucesso. Simpaticíssima, declarando várias vezes amor pelo Brasil e por sua música, falando um pouco de português, não tinha como deixar de cair nas graças do povo. Não cantou nenhuma de seu compositor favorito – Milton Nascimento –, mas Inútil Paisagem, de Jobim, fez parte do set.

Na última votação da Downbeat (60th Annual Critics Poll), como contrabaixista ficou em terceiro, deixando Dave Holland, Stanley Clarke e Ron Carter para trás. No baixo elétrico ficou em segundo, atrás apenas do genial Christian McBride, deixando para trás Stanley Clarke, Marcus Miller e Steve Swallow. Como cantora, ficou em terceiro, à frente de Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewater, Diana Krall e outras de mesmo calibre. A moça está com prestígio, sem dúvida. Estou achando que sou o único neste planeta que não acha tudo isso dela. É, sem dúvida, muito boa, mas considero-a superestimada (overrated).

Para discordar de mim, assista a uma apresentação dela com o Radio Music Society no prestigiado Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, de 2012.




Egberto Gismonti
Qualquer apresentação de Egberto Gismonti é um acontecimento. Vi dezenas do multinstrumentista e compositor. A primeira foi em um parque nas proximidades do Jóquei Clube de São Paulo. Em meados dos anos 1970, todos os domingos, aconteciam apresentações, em sua maioria, de música instrumental. Foram manhãs maravilhosas em que ouvi Hector Costita, Johnny Alf e João Bosco cercado de árvores e trilhas.

O carioca de Carmo é um músico que não parou no tempo. Sempre surpreendente. Dentre os brasileiros é quem, na música instrumental, arrematou maior prestígio internacional, juntamente com Hermeto Pascoal.

A genialidade de Gismonti não está apenas em suas composições ou na maestria com que toca piano, violão e flautas. Gravou em todos os formatos possíveis usando seu talento como arranjador. O último álbum lançado pela ECM, em 2009, o duplo Saudações, Sertões Veredas - tributo à miscigenação, é com a Camerata Romeu, orquestra cubana. Antes, gravou com orquestra Academia de Danças (EMI-Odeon, 1974), Corações Futuristas (EMI-Odeon, 1976), Nó Caipira (Carmo/ECM, 1978), New Tango, Brazilian Touch (Milan, 1991) e, mais recentemente, Meeting Point (ECM, 1997), com a Lithuanian State Symphony Orchestra.

Na apresentação no BMW Jazz Festival, Gismonti veio com mais uma surpresa. A educadora e diretora Tina Pereira formou uma orquestra de jovens. Em 2008 EG passou a colaborar com a orquestra. Com a morte súbita de sua diretora, deu continuidade ao projeto. Essa formação, constituída por 22 jovens passou a se chamar Orquestra Corações Futuristas. E foi com ela que Gismonti se apresentou como regente. Em apenas um pequeno trecho do show sentou-se ao piano. Grande apresentação. É emocionante ver a energia que emana de jovens encantados com a oportunidade de estarem com o mestre.

Impressionante a rapidez com que se registram apresentações no youtube. O show foi agora e um trecho já está lá. Veja.




Veja uma outra apresentação, desta vez no Rio de Janeiro.

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