quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

No reino dos homens barbudos

Não sei se, devido à proximidade do Natal, e à de outra efeméride, o centenário da morte de Tolstoi, veio-me à  ideia uma coisa, digamos, meio-besta:  falar de alguns barbudos célebres. Barbudos, digo; não barbas ou barbichas; como as do escritor… e de Papai Noel.

Liev Tolstoi
Liev Tolstoi, que no meu tempo era chamado de “Leão” e não “Lev” ou “Liev” – e possuía acento agudo no Segundo “o” –, em novembro de 1910, fez o que muitos homens ficam a vida inteira pensando em fazer e não fazem: fugir de casa. Pois, com 82 anos nas costas, saiu escondido da mulher. A notícia correu feito rastilho de pólvora e foi coberta pelas publicações europeias. Foi um frenesi. Dez dias depois, em 20 de novembro, 6h05 da manhã, o escritor russo morreu em consequência de uma pneumonia e, vá lá, tinha uma idade avançada, pelo menos para os padrões da época. Aproveitando a efeméride – o centenário –, o jornalista e escritor Pavel Basinsky escreveu o livro Fuga do Paraíso.

Tolstoi era considerado deus, guardadas algumas proporções. O paraíso a que se refere Pavel é a propriedade do escritor: Iásnaia Poliana. Distante 200 quilômetros de Moscou, o lugar era quase um santuário. Pessoas de todos os lugares que para lá acorriam eram acolhidas pelo escritor. Observou a jornalista Tatiana Shebaeva: “Em Iásnaia Poliana, Tolstoi estava aberto ao mundo, acessível a todo viajante, admirador, bandido ou miserável. Ao mesmo tempo, voltava-se cada vez mais para si próprio e, dando ouvidos à voz da alma, dolorosamente percebia com sofrimento toda e qualquer injustiça ou brutalidade.” (FSP, 22/10/2010, Gazeta Russa, p.8). A imensa barba branca e roupas simples – botas, batas largas – davam-lhe aparência de um mujique. “Tolstoi acreditava que o homem tinha sido feito para a felicidade. Ele mesmo aspirava à felicidade e ao paraíso – não para desfrute individual, mas para o maior número de pessoas possível.” (id. FSP, p.8). Amealhou um sem-número de fanáticos seguidores. A corte czarista torcia o nariz e chegou a censurar publicações do russo.

Iásnaia Poliana ainda hoje atrai muitos visitantes e funciona como um polo aglutinador não só de tolstoístas (“não comem carne, não consomem álcool ou tabaco e procuram não utilizar animais na lavoura. Numa fase mais avançada, além de plantar o próprio alimento e fabricar suas roupas e sapatos, Tolstoi chegou a abdicar do sexo.” – FSP, 21/11/2010, em Ilustríssima, assinado por Mariana Darmaros), mas de eventos literários como a Conferência Acadêmica Internacional Liev Tolstoi.

O Nobel de Literatura, Bernard Shaw
Se barbas longas não são requisito primário para ser um bom escritor, existe a coincidência de outros dois possuírem essas características: o dublinense George Bernard Shaw (1856-1950) e o americano Walt Whitman. Um terceiro, Herman Melville, autor do clássico Moby Dick e da breve narrativa (genial) Bartleby, o escrivão, possuía longas barbas também, mas, ao contrário dos três citados anteriormente, tinha vasta cabeleira. Com algumas diferenças, eram calvos, o menos talvez, era Whitman, apesar das acentuadas entradas.

O autor de O Socialista Insociável era ótimo frasista e autor de cerca de 60 peças teatrais, dentre as quais, a mais conhecida é Pigmaleão. Em outra seara, em outro continente e em outro século viveu Walt Whitman (1819-1892). Sua obra mais conhecida é Folhas de Relva (Leaves of Grass), que a cada nova edição foi se ampliando. Começou com 12 poemas, na primeira edição. Na última, tinha mais de 300.

Walt Whitman, em montagem, como Papai Noel
A razão de juntar os três escritores é mais que casual. Não tem o propósito de fazer comparações ou suscitar discussões que possam resultar em ensaios teóricos. Vale mais como uma constatação e um fato episódico. Outros barbudos famosos como Karl Marx e Deus (se bem que a ciência não tenha provado se tinha barba ou não) ficam de fora.

Barbas longas são marcantes visualmente e podem tornar-se “maiores” do que seus possuidores. Uma vez que voltava de Paris, tinha pedido um táxi que me levasse até o aeroporto. O motorista vestia uma camisa azul-clara, de mangas curtas, usava óculos de grau forte e tinha longas barbas grisalhas. Lembrei-me do brasileiro Paulo Freire. Era a cara do educador. Isso ficou na lembrança.

Mark Twain, um bigodudo célebre
Mudando de assunto, mas nem tanto, por outra coincidência, 2010 é o centenário da morte de outro grande escritor: Mark Twain. No mês de seu falecimento (abril), não lembro que tenha recebido tantas referências como Tolstoi. Twain é um clássico, inventor de personagens conhecidos como Huckleberry Finn e Tom Sawyer. As narratives das aventuras dos dois eram parte constante dos livros da União Cultural Brasil-Estados Unidos, em São Paulo. Foi desse modo que tive o primeiro “contato” com Twain. O americano ficou famoso em vida e, ao contrário de muitos, e como Tolstoi, desfrutou a condição de celebridade, quando sê-lo não era tão comum como sói ser nos dias. Andy Warhol, ao afirmar que todo mundo teria direito aos seus quinze minutos de fama, antecipou, em alguns anos, o que vivemos atualmente. Uma vez, e olhe que foi há mais de dez anos, um artista austero e sério, arquiteto, como o ex-guerrilheiro urbano Sérgio Ferro, militante da ALN de Carlos Marighella, apareceu em seis páginas – não lembro o número de páginas – da revista de amenidades Caras, vi que o mundo mudara bastante.

A referência ao escritor Mark Twain é pela comemoração dos cem anos de seu falecimento, e não por ser barbudo. O americano usava mesmo era um vasto bigode, daqueles de fazer inveja a Friedrich Nietzsche. Bem, mas aí é outro assunto.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Stanley Kubrick, o mestre da música

Alguns devem lembrar-se da proibição de vários filmes perpetrados pela censura na época do governo militar, década de 1970. Filmes de cunho político-social como Mimi, o Metalúrgico (Lina Wertmüller), A Classe Operária Vai ao Paraíso (Elio Petri), Sacco e Vanzetti (Giuliano Montaldo), Queimada (Gillo Pontecorvo); ou Sopro no Coração (Louis Malle), Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci), Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor) e Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), esses, por abordarem temas polêmicos, foram proibidos pelo Conselho Superior de Censura. Não sei se alguém se lembra que, antes da exibição de um programa, uma novela, aparecia uma ficha com carimbo da Censura e uma voz em off dizia algo como “Esse programa está liberado para exibição a partir das 22h.”

A censura, no entanto, não é exclusividade brasileira. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) causou muita polêmica em 1971, quando foi lançado. Como Sob o Domínio do Medo, do americano Sam Peckinpah, era um filme que abordava a “ultraviolência”. Foi proibido no país de origem de seu diretor, a Inglaterra. Posteriormente, o próprio Stanley Kubrick proibiu a exibição e comercialização em vídeo. Os ingleses que queriam assistí-lo, tiveram de recorrer às cópias piratas.

Kubrick: retrato do artista quando jovem
Anthony Burgess, autor do romance que deu origem ao filme, escreveu o livro a partir de uma experiência que viveu: o estupro sofrido por sua mulher em um assalto. Uma das passagens mais chocantes é a de quando a gangue de Alex entra na residência onde moram um escritor e sua mulher. Alex canta e dança como Gene Kelly em Cantando na Chuva. Em vez do guarda-chuvas, tem um bastão na mão; enquanto canta Singin’ in the Rain, em vez de chutar as poças-d’água deixadas pela chuva, acerta violentas botinadas no escritor, imobilizado pelos comparsas. É uma cena antológica, apesar de capaz de causar enjoos nos de estômago mais delicado.

Parece que a ideia de usar Singin’ in the Rain é de McDowell, e não do diretor. Isso, no entanto, não tira os méritos do bom gosto de Kubrick no uso da música em seus filmes. Em Laranja Mecânica, Beethoven é arranjado pelo organista Walter Carlos (que, mais tarde, mudaria seu nome para Wendy Carlos). Bem capaz que os puristas tenham odiado as versões eletrônicas de Carlos.

Antes desse filme, Kubrick já tinha demonstrado o quanto uma música, incidental ou não, é um fator gerador ou complementar para as cenas, potencializando o que vemos na tela. É sempre interessante ver aqueles que sabem mesclar o antigo  com o novo, a música mais popular (brega, até) com a informação erudita mais sofisticada. Alguém no Brasil é tão requintado quanto o britânico: Júlio Bressane.

O filme 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968) consagrou a abertura de Also Spracht Zarathustra, de Richard Strauss. Tornou-se tema de publicidade, e massivamente conhecida por um público que nem sabia que havia um outro Strauss além de Johann, que, aliás consta no filme com a conhecidíssima Danúbio Azul. Also Spracht… mereceu até adaptação do brasileiro Eumir Deodato, excelente arranjador e músico ligado ao jazz e à bossa-nova. Aproveitou a “onda” e vendeu milhares de discos pela gravadora que, nos anos 1960 e 70, entrou de sola no mercado tentando vender um “jazz” (as aspas são porque nem sempre se podia considerar jazz) mais palatável ao público médio, a CTI Records, de Creed Taylor. Ele fez com que nomes consagrados como Paul Desmond, saxofonista de Dave Brubeck, registrasse interpretações canhestras de sucessos da música pop.

A trilha de 2001 é complementada pelo russo (armênio) Aram Khachaturyan e György Ligeti (Lux aeterna, Atmospheres, Requiem e Adventures). A música climática do húngaro era perfeita para um filme de ficção científica. Mais tarde, Kubrick voltaria a usar a música de Ligeti (Musica ricercata) em De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999). Nesse filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, a música vanguardista de Ligeti, e Jazz Suite, de Shostakovich, são complementadas por alguns temas da inglesa Jocelyn Pook (o tema do Masked Ball é de sua autoria) e por standards como If I Had You, Strangers in the Night e Blame It on My Youth ou até músicas de Chris Isaak.

Outro filme em que é evidente a sofisticação do gosto musical do cineasta é Barry Lyndon (1975). Sendo filme de época, as escolhas recaem em Vivaldi (3º movimento do Concerto de cello em ré menor), Bach (Adagio do Concerto para 2 cravos e orquestra, BWV 1062), Handel (Sarabanda da Suíte para cravo nº 4 in ré menor, HWV 437), Giovanni Paisiello (O Barbeiro de Sevilha), Mozart (Idomeneo) e Schubert. O romance de Tackeray, no qual se baseia Kubrick, é de 1840, sucesso nas “paradas literárias” da Inglaterrra. Mais que perfeito é a utilização do Segundo movimento do belíssimo Trio nº 2, opus 100 (violino, cello e piano) na cena que se inicia na mesa de jogo e termina num beijo. Anos depois, Tony Scott iria utilizar a mesma música em Fome de Viver (The Hunger, 1983), filme protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon.

Veja a cena de Barry Lyndon com o segundo movimento (Andante con moto) do Piano Trio opus 100.



Outro exemplo da maestria de Kubrick na utilização da música: cena final de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), com a música We’ll Meet Again, cantada por Vera Lynne.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dilermando Reis: no tempo em que se escrevia “majestade”com “G”

Dilermando nasceu em Guaratinguetá (Guará, como os nascidos lá gostam de dizer), interior de São Paulo, que fica mais ou menos na metade do caminho, na Via Dutra, para o Rio. Entre uma cidade e outra, preferiu ir para a capital; não a de seu estado natal, mas para a capital do Brasil.

Dilermando e o violão
O amigo Armênio Guedes deu-me um presente valoroso: o Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, organizado por Ricardo Cravo Albin. É a quem recorro para saber que nasceu em 1916  e faleceu no segundo dia do ano de 1977. A curiosidade é a de que foi professor de violão do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Curiosidade mesmo. Sabe-se que o criador de Brasília era um pé de valsa (meu pai, fotógrafo por profissão, sediado à época em Passos, MG, tirou uma foto de Juscelino dançando com uma moça, em São Sebastião do Paraíso), e tornou, pelo menos, uma música famosa: a canção folclórica Peixe Vivo. O JK brasileiro, pelo que parece, antecipou o JK americano em alguns anos quanto ao interesse “exacerbado” por pessoas do sexo feminino.

Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.

Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:




Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.

Descalço com Kim Novak
Kim Novak e JK: descalços
Ninguém mais antipresidencial. Ele trouxe a gargalhada para a Presidência. Nenhum outro chefe de estado, no Brasil, teve essa capacidade de rir – e nos momentos mais inoportunos, menos indicados. Dir-se-ia que ele tinha sempre um riso no bolso, riso que ele puxava, escandalosamente, nas cerimônias mais enfáticas. Os outros presidentes têm sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Cada qual se comporta como se fosse a estátua de si mesmo. Não Juscelino. Quando ele tirou os sapatos para Kim Novak (que achado genial! que piada miguelangesca!), ele foi o antipresidente, uma espécie de cafajeste dionisíaco. Eu diria que jamais alguém foi tão brasileiro. O novo Brasil é justamente isso: – um presidente que tira os sapatos para uma beleza mundial. (Nelson Rodrigues no jornal Brasil em Marcha, 10/2/1961)