Para nós brasileiros, a imagem que temos do ano de 1968 não é das melhores. Fui o autor do catálogo “68 - Utópicos e rebeldes”, por ocasião dos 40 anos dessa data, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. No texto de apresentação do então ministro da Cultura, Gilberto Gil – “1968: uma ferida ou uma flor” –, ele observa que “se nosso 68 teve a carga pesada de uma repressão brutal em que as liberdades individuais e institucionais que ainda restavam foram aviltadas e violentamente interrompidas com a decretação do AI-5, também vivemos a intensidade de um 68, além da política operada nas artimanhas da clandestinidade: o País encontrou formas de luta na cultura e na arte.”
Em outro texto, de Paulo Vanucchi, à época, Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, observa que 1968 foi um ano emblemático. “Foram muitos os acontecimentos marcantes. No mundo, houve a revolta dos estudantes em Paris, a Primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King. No Brasil, a passeata dos Cem Mil, a morte de Edson Luís de Lima Souto, as prisões dos estudantes da UNE em Ibiúna até culminar no amordaçamento imposto pelo Ato Institucional nº 5.”
Para mim, inculto mortal, foi também o ano em que Jimi Hendrix lançou “The Electric Ladyland” e The Beatles gravou o chamado“ Álbum Branco”, para os gringos, “The White Album”.
Pois, em 2018, são lançados os dois álbuns comemorando 50 anos desses dois grandes momentos de 1968. Apenas confirmam para as gerações mais novas, que 1968 foi um “grande ano”, como diria Frank Sinatra em “It Was a Very Good Year”, se gostasse de rock.
Apenas o fim
Parte da crítica considera 1968 o início do fim dos Beatles. Depois da sofisticação sonora de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e a farra de “Magical Mystery Tour” havia uma expectativa do que poderia vir em seguida.
No tempo anterior à gravação do álbum, os quatro foram à Índia fazer meditação transcendental com o guru Maharishi Maheshi Yogi, Ringo Starr foi o primeiro a cair fora. Detestou a comida apimentada e não sentiu-se muito transcendental. John Lennon ficou bronqueado com o guru, que assediou sexualmente Prudence Farrow, que estava no mesmo grupo, com a irmã Mia, esta em fase free depois de ter se separado de Frank Sinatra. O episódio serviu de mote para duas canções que comporiam o futuro disco: “Dear Prudence” e “Sexie Sadie”.
Além da viagem à Índia, outros acontecimentos foram capitais para o início da desagregação da banda: a morte prematura de Brian Epstein, empresário deles, causada, provavelmente, por ingestão de drogas que tomava para ansiedade e insônia, e o início do relacionamento de Lennon com a artista plástica Yoko Ono. Ringo, descontente de ser o patinho feio, decidiu sair da banda, Harrison procurava mais espaço para suas composições.
Um amigo gostava de dizer que bandas tinham prazo de validade. Crianças crescem e, à certa altura, cada um quer tomar o seu rumo. Bom, a história o desmente por meio de formações longevas como os Rolling Stones e o U2. Mas vamos combinar: não andam para cima e para baixo juntos; encontram-se para as gravações e shows, se tanto. Não existia mais entre os quatro aquele sentido de patota, se me entendem.
Nesse sentido, Yoko Ono foi importante. Fez o papel do visitante protagonizado por Terence Stamp, em “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini. “John apresentou as instalações de Abbey uma vez, e ela nunca mais foi embora… Aparecia todo santo dia.” Assim referiu-se à presença tóxica da japonesa, artista de vanguarda, George Harrison, na vida da banda, enquanto gravavam o novo disco.
Yoko apenas precipitou o que poderia demorar um pouco mais para acontecer. Na construção do novo álbum, apesar de continuarem a assinar juntos, ficam mais evidentes a autoria real de cada composição, mesmo assinando-as Lennon e McCartney. Essa individualidade se acentua na diversidade das canções presentes no disco. Eram tantas composições novas que um LP de 45 minutos seria insuficiente. O produtor George Martin queria um álbum simples. A banda discordou e bateu pé em lançar um duplo. São 30 canções no total. Várias viraram hits, como não poderia deixar de acontecer, entretanto, percebe-se que não fizeram a mínima questão de serem comerciais.
São vários os exemplos, a começar por “Revolution 9”, uma colagem de sons em loops, vozes, risadas desconexas, tendo como elemento de ligação George Martin a repetir “number nine” inúmeras vezes. Há também a country-western-folk “Rocky Racoon”, de Paul, brilhantemente descritiva, a provocativa “Piggies”, de George, “Why Don't We Do It in the Road? ”, sendo esse o único verso da canção, e “The Continuing Story of Bungalow Bill”, de John, dentre outras.
Outra que convém ser destacada é “Helter Skelter”, vigoroso pré hard rock, com vocais gritados de Paul. Foram muitos os takes até chegarem à versão presente no álbum. Na edição especial dos 50 anos, há um registro dela com 13 minutos e pouco. Alguns temas são demonstrativos do talento especial como hitmakers: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Blackbird”, “Mother Nature’s Son”, “Dear Prudence”. Não posso esquecer de “While My Guitar Gently Weeps”, com a brilhante participação do amigo de Harrison, Eric Clapton, nos solos.
A edição especial dos 50 anos não é a primeira remixagem de “The White Album”. Nos 30 anos do lançamento, saiu uma bem legal, replicando o do LP, mas no tamanho dos CDs, Mas o que saiu agora é um item essencial não só para os beatlemaníacos. São seis CDs apresentando as gravações originais remixadas por Gilles Martin, filho do produtor George Martin, e mais quatro, com as chamadas Esher demos, com versões preparatórias feitas em quatro canais, basicamente, voz e violão, e takes alternativos, além de várias que sairiam nos próximos discos deles e nos solos depois da separação, como “Junk”, de Paul, e “Jealous Guy”, de John. Outra coisa a ser destacada é de como cada canção foi trabalhada até chegar-se à versão definitiva, Um exemplo é a tomada 102 de “Not Guilty”, de Harrison, que nem constou na versão final do álbum. É a demonstração de que a perfeição se dá depois de muito trabalho.
Em relação às novas mixagens, ouve-se melhor o contrabaixo e as vozes ficam mais ao centro da audição. São detalhes que na nova configuração apresentam-se mais equilibradas.
Ouça o álbum com as novas remasterizações.
Ouça a versão de “Helter Skelter”, com 13 minutos.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018
quinta-feira, 21 de junho de 2018
O caso de Caetano Veloso com John e Paul
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| Caetano Veloso, sem lenço, sem documento |
Deles, dois álbuns de Caetano Veloso estão entre os selecionados por estarem entre os meus preferidos: “Joia” e “Qualquer Coisa”. De 1975, saíram juntos. A referência maior são os Beatles, a começar da capa do último, inspirada em “Let It Be”, com a diferença de que os quatro são ele apenas, em variações de uma foto, com registros de fotolito deslocados. Das doze faixas, três, cantadas em seguida, são de John Lennon e Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, For No One” e “Lady Madonna”; em “Joia”, uma única composição: “Help”. Mais de 40 anos depois, continuam entre as mais originais leituras existentes, dentre as milhões disponíveis.
Ouça “Eleanor Rigby”.
Ouça “For No One”.
Ouça “Lady Madonna”.
Nas três, os violões são de Caetano e Perinho Albuquerque. Em “Help”, que está em “Joia”, é Caetano sozinho.
Caso interessar, os manifestos lançados com os discos, acesse aqui.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O violão flamenco de Al DiMeola e os Beatles
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| Uma foto clássica de Al DiMeola |
Alguma razão obscura me fez sempre ter algumas reservas quanto a Al DiMeola. Vem desde os tempos em que se revelou tocando com Chick Corea no Return to Forever. Acho que era aquela barba aparadinha, aquele jeito mauricinho – atualmente, seria rotulado de “coxinha” –, sempre sério, com aquele olhar – sempre o mesmo, preste atenção – de plástico, por trás dos óculos. Essa é a parte visual. Fiquei impressionado com a “velocidade” da guitarra de Al. Em Romantic Warriors, do Return to Forever, algumas passagens de guitarra são estupendas, deve-se reconhecer. Mas como nem tudo é rapidez – vide roqueiros como Steve Morse e alguns outros de bandas como o ACDC ou Van Halen –, nunca caí de amores por ele. Concordava com o amigo Hilton Raw que dizia ser guitarra estilo Berklee, querendo dizer que todos tocam parecidos: são ágeis e sem alma. O Hilton tinha certa bronca da Berklee School of Music, que chegou a cursar, No meu caso, talvez fosse por gostar mais do estilo de Bill Connors, seu antecessor na banda de Chick Corea.
Certos juízos mudam com o passar do tempo. Dispus-me a “rever meus conceitos” sobre o guitarrista quando ouvi Mediterranean Sundance, com Al, Paco De Lucia e John McLaughlin. O tema é muito bom, e há de se concordar que seus parceiros são excepcionais instrumentistas. Permitiu-me descobrir qual era a de Di Meola. A praia dele era a música cigana e flamenca. Qualquer tema, seja tango, bolero ou uma canção da dupla Lennon/McCartney, tudo vira flamenco. Pelo menos, alguns discos como Diabolic Inventions and Seduction (2007) e All Your Life (2013) me levam a essa conclusão.
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| Capa de All Your Life (2013) |
Nos últimos tempos tem preferido o violão, em razão, decerto, pela aproximação com o flamenco. Além do excesso de notas dedilhadas, Al faz overdubs nas gravações em estúdio. Como isso é impossível, a não ser recorrendo-se a bases pré-gravadas, ao vivo, muitas vezes apresenta-se com outros violonistas.
No CD dedicado à música dos Beatles – All Your Life (2013) –, algumas interpretações são muito boas, mas ouví-lo inteiro é um tanto cansativo, ou enjoativo, dependendo do ponto de vista, que nesse caso, é meu. Sob o de Jeff Tamarkin, da prestigiada JazzTimes, o álbum é ótimo.
Ouça Because, com belo trabalho de violões e cajón, o instrumento de percussão mais comum no flamenco.
Ouça Eleanor Rigby, a única com orquestra, que, na verdade, é a mesma base da original lançada pelos Beatles.
Sem dúvida, Mediterranean Sundance é uma das grandes composições de Al Di Meola. Confira.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Um gostinho de mel com os Beatles, Lizz Wright, Tony Bennett e outros
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| Bobby Scott na capa de seu último disco |
Procurando no iTunes, encontrei For Sentimental Reasons (MusicMasters, 1990), tributo a Nat King Cole, lançado no ano em que morreu, vítima de um câncer de pulmão, aos 53 anos. Na capa, Bobby está com um cigarro na boca. Pesquisando um pouco mais, descobri que, além de cantor, tocava piano e compunha. Pessoas mais bem informadas que eu, como o Alberico, o conheciam pelos discos mais jazzísticos que lançara pela Bethlehem, Verve e Mercury.
Bobby Scott, considerado músico prodígio, começou a estudar composição com oito anos e com onze passou a se apresentar profissionalmente. Com 15, estava tocando com Louis Prima. Gravou vários discos com participações de músicos como Charlie Mariano, Tom Scott, Gene Krupa, Eddie Bert, Hal McKusick e Milt Hinton, como pianista, compositor e arranjador. No início dos anos 1960, começou a trabalhar com Quincy Jones, afastando-se um pouco do jazz. Foi nessa época que compôs A Taste of Honey. Outro hit de sua autoria é He Ain't Heavy He's My Brother, composto com Bob Russell. A versão mais conhecida é com The Hollies.
Ouça He Ain't Heavy He's My Brother.
Nem lembrava de A Taste of Honey; até ouvir a primeira do álbum Dreaming Wide Awake (2005), de Lizz Wright. Primeira do disco: maravilhosa. E que voz! (http://bit.ly/1hxTBns). Conhecia a música. Mas, de onde?… quando? Em um daqueles lampejos randômicos, lembrei-me dos Beatles. Era, no entanto, algo “não muito Beatles”. Estava no primeiro álbum dos garotos de Liverpool: Please Please Me, de 1963. Vejo no encarte do disco de Lizz que é de Ric Marlow e Bobby Scott. Bobby Scott? Aquele mesmo que o Alberico tinha me dado uma cópia em CD?
Gosto de ouvir a mesma canção com músicos diferentes. Gosto de comparar, sentir como cada um “a entende”. Saí na caça e descubro que é um quase standard. E não são “zé-ninguens” os intérpretes: Tony Bennett, Sarah Vaughan, Chet Baker, Julie London e, evidentemente, Os Beatles.
Ouça a dos Beatles, em primeiro lugar.
Ouça a de Lizz Wright.
A de Tony Bennett. Maravilhosa.
A de Sarah Vaughan. Boa, também.
Chet Baker.
A versão mais conhecida de A Taste of Honey, no entanto, é a instrumental de Herb Alpert e The Tijuana Brass. Veja.
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