quinta-feira, 5 de março de 2015

Jean-Pierre Rampal e de Emmanuel Pahud: dois tempos no jazz

Jean-Pierre Rampal e Emmanuel Pahud, gênios da flauta
Quem tem mais de 60 anos, o que não é o meu caso, apesar de estar bem próximo, deve lembrar-se de uma conhecida peça publicitária para a TV do Açúcar União. A TV era em branco e preto, mas a música era colorida. O tema era de um disco quase desconhecido aqui de Jean-Pierre Rampal e Claude Bolling. Claude nome prestigiado no cenário francês do jazz, Rampal, simplesmente, o melhor flautista da música erudita, junto com James Galway. Ambos ficaram conhecidos por elevar a flauta como instrumento solista. Claro que o preço foi gravarem álbuns com repertório mais palatável ao público geral.

Rampal caiu na boca da patuleia a partir do momento em que gravou o que naquele tempo, nem era considerado “crossover”, pois ainda não existia essa expressão para classificar a música que fundia o erudito com o popular. Depois de Suite for Flute and Jazz Piano, de onde foi o retirado o tema para a peça do açúcar União, Rampal gravou também uma série de grande sucesso com temas japoneses. O primeiro, com a harpista Lily Laskine, é o melhor. Japanese Melodies for Flute and Harp (Columbia, 1978) contém clássicos bem conhecidos do japonês e dos descendentes, que é o meu caso.

Ouça Baroque and Blue que, salvo engano, foi a que serviu como tema para o comercial do açúcar União.




Ouça também Sakura Sakura. Para quem não sabe, “sakura”é a cerejeira tão cultuada no Japão.



Ouça, do mesmo álbum, Hana.




Como diz uma amiga, a fila anda, e pessoas envelhecem e despontam outros talentos. Rampal morreu em 2000, o suíço Aurèle Nicolet, outro grande, está vivo e aposentado, com 89 anos, e Galway, mais novo que os dois, provavelmente, anda curtindo a aposentadoria.
 
Da nova geração, o nome mais conhecido é o de Emmanuel Pahud. Conterrâneo de Nicolet, tornou-se flautista na Berlin Philharmoniker aos 22 anos. Por se destacar como grande solista, passou a ser convidado a tocar em várias orquestras ao redor do mundo, e também foi contratado pela EMI. Por esta gravadora, lançou mais de duas dezenas de discos.

Como Rampal, o gosto de Pahud se estende a outros gêneros, como ao jazz. Disse admirar flautistas como James Newton, Jeremy Steig e Herbie Mann. Unindo-se ao pianista Jacky Terrasson, gravou Into the Blue, em 2003, pela Blue Note. Reúne temas eruditos bem conhecidos como As Quatro Estações, de Vivaldi, Bolero, de Maurice Ravel, Après un rêve, de Fauré, e Jimbo’s Lullaby, de Debussy, dentre outros e são executados no contexto jazzístico, com o contrabaixista Sean Smith e o baterista Ali Jackson. Como de costume, Terrasson, além de tocar piano, toca também o piano Fender Rhodes. O único tema não erudito é, justamente, uma composição de Claude Bolling presente no famoso álbum que fez com Rampal: Véloce. Sinal de que aquele velho álbum de 1975 ainda é uma referência.

Veja Rampal e Bolling executando esse lindo tema.




Ouça Véloce com Pahud e Terrasson.




Veja Pahud tocando Véloce em apresentação na Coreia do Sul. Não é com Terrasson. Impressionante.




Ouça Jimbo’s Lullaby, de Debussy, com Terrasson e Pahud.




Marcha Turca, de Mozart.




Assista ao vídeo promocional de Into the Blue.



terça-feira, 3 de março de 2015

Fabiano do Nascimento é um talento a ser (re)conhecido

Ele nem tinha completado 18 anos e partia rumo a Califórnia. Não foi para “viver sobre as ondas” e nem ser “artista de cinema” como aquele garoto da música de Lulu Santos e Nelson Motta. O negócio de Fabiano do Nascimento era o violão. Sem querer, estava fazendo o mesmo caminho de Laurindo de Almeida, Oscar Castro-Neves, violonistas como ele, e Sérgio Mendes, brilhante pianista de jazz que, estando lá, resolveu ser pop.

Ao ir em busca de novos horizontes, repetia o que fizera seu tataravô Ladário Teixeira. Nem o fato de ser cego o impediu de tornar-se um grande saxofonista e apresentar-se em palcos europeus e americanos. Era tão prestigiado que recebeu elogios do filho do inventor do saxofone, Adolph Sax. Ladário, ciente das deficiências do instrumento para a execução de peças eruditas que tocava muito bem, ajudou a criar um modelo em que foram acrescentados quinze notas. Assim surgiu o “Modelo Ladário”, fabricado pela Selmer. O impressionante é que isso foi faz muito tempo: há quase cem anos.

Baseado em Los Angeles, Fabiano montou a banda TriOrganico, com Tiki Pasillas e Pablo Calogero. Lançou o álbum Sul, com o saxofonista Sam Gendel, e agora, está previsto para os próximos dias o seu primeiro solo: Dança dos Tempos.

O disco conta com a participação especial de Airto Moreira e, além de Fabiano, os outros músicos são Ricardo “Tiki” Pasillas e Kana Shimanuki nos vocais. Desde a primeira audição fica evidente que Fabiano é um virtuose, um daqueles talentos incontestáveis que o Brasil gosta de gerar. Seu som é de uma energia contagiante e dedilhado limpo na melhor tradição que produziu Baden Powell e Raphael Rabello.

A primeira faixa é Forró Brasil, de Hermeto Pascoal. A bateria de Tiki Pasillas faz a diferença. É aquela batida bem característica, que, a princípio, só os brasileiros fazem. Mas Pasillas é americano, um americano de alma brasileira. O entendimento dos dois beira a perfeição.

Ouça Forró Brasil.



Em Ewe, o violão de Fabiano é discreto, para que brilhem a percussão de Airto e a voz de Kana Shimanuki, cantando em português. Estranho? Não. Kana é canadense, filha de pai japonês e mãe brasileira nascida na Bahia. Por alguma razão – será porque a percussão é de Airto? – sua voz lembra a de Flora Purim.

Ouça Ewe.

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A terceira é O Ovo, mais uma de Hermeto, e, de novo, a batida de Pasillas surpreende. O som da percussão fica na altura do violão. O primeiro em que Fabiano toca sozinho é Iemenjá. Baden Powell deve estar agradecido por ter um violonista tocando tão lindamente sua música. É interpretação de um mestre, e Fabiano tem pouco mais de 30 anos.

Primeira Estrela é uma canção conhecida nas vozes de Luli e Lucina. Aqui é cantada por Fabiano. Craque ao violão, não faz feio nos vocais. É a segunda participação de Airto. Seu violão de sete cordas, às vezes, lembra aquele som dos violeiros.

Se tudo até a quarta faixa é muito bom, sua interpretação de Étude, de Villa-Lobos, é genial. Inicia-se com o violão e uma percussão que vai crescendo e torna-se dominante. É uma das melhores coisas que ouvi neste ano.

Ouça.



Kana volta em Minha Ciranda, cantiga conhecida de Mestre Capiba. Sua voz combina perfeitamente. A mixagem é interessante. O violão tem um pouco mais de peso do que os vocais e a percussão discreta de Airto. Em algumas passagens é aumentado o volume da voz, e o solo do violão fica abaixo da base do violão. Interessante. Nana é outra cantiga, desta vez cantada por Fabiano. O violão é tão impressionante que mais parecem dois; ele sola e toca a base. É uma aula.
 


Em Tocatta em Ritmo de Samba de no.2, volta-se a outro grande compositor brasileiro: Radamés Gnatalli. Começa com o ritmo inebriante de Pasillas. Há uma interrupção para a apresentação do tema e logo mais, a volta da bateria acompanhando o violão. Na próxima, Fabiano resolve estraçalhar. Novamente, em solo, executa Se Ela Perguntar, de Dilermando Reis (sobre ele, leia http://bit.ly/1hRhN5N). Mortal. Ouça.



E para terminar, como que quisesse mostrar do ainda é capaz, entra com um tema próprio: Tupi. Belíssimo. Ao fim dela, ficamos com vontade de ouvir novamente o disco.

Ouça Tupi.