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terça-feira, 2 de julho de 2013

O quase disco de Peter Murphy e Mick Karn

Mick Karn e Peter Murphy (esq. p/dir.)
O som da banda Bauhaus não possuía alguma relação com a lendária escola de artes, design e arquitetura que existiu na Alemanha pré-nazista. O clima soturno e a voz cavernosa de seu líder Peter Murphy chamava mais para uma personagem nascida na Transilvânia. Se houvesse alguma ligação com a escola alemã, a música, quem sabe, pudesse ser rotulada de construtiva, minimalista, qualquer coisa assim, e nunca gótica, como ficou conhecida. Pois, em um filme que virou cult – Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott – a abertura era com Bela Lugosi Is Dead, uma das mais conhecidas da breve carreira da Bauhaus (sobre o filme, veja http://bit.ly/Vbaw6j). Tudo a ver: a música com a história de alguém que precisava de sangue humano para continuar imortal. A banda teve vida breve e Peter Murphy seguiu carreira solo com relativo sucesso.

Na mesma época, surgira outra banda que marcou e ganhou ardorosos fãs, o Japan. Mais pelo estilo afetado de se vestirem que pelo som, foram associados ao movimento New Romantic. O mais conhecidos dessa vertente foram Duran Duran e Culture Club, de Boy George. Em termos sonoros, privilegiavam bastante os sons sintetizados. Surgiram na esteira do Roxy Music e de David Bowie. O mago dos sintetizadores do Japan era o tecladista Richard Barbieri. O resto da banda era composto pelo genial David Sylvian, o baterista Steve Jansen e o baixista Mick Karn. A banda acabou em 1981. Gravaram ainda Rain Tree Crow, mas não mais como Japan.

Sylvian, seguiu carreira solo com grandes discos e gravou com Ryuichi Sakamoto e Robert Fripp. A conhecida Forbidden Colours (ouça em http://bit.ly/18c5L3w) usada como tema para o filme Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima, é de Sakamoto e a letra é de Sylvian. Mick Karn partiu para a carreira solo e gravou alguns álbuns com David Torn, Bill Nelson e com seus ex-companheiros Jansen e Barbieri.

Em 1984, Peter Murphy e Mick Karn, com Paul Vincent Lawford, montaram o Dalis Car. O nome foi tirado de uma canção de um disco de Captain Beefheart. Murphy e Karn pouco se encontraram e ficaram um e outro trocando e enviando fitas de gravação. Mesmo assim, o álbum The Waking Hour ficou bem interessante, muito em razão da boa combinação que resultou da voz de Peter Murphy com o baixo fretless de Mick Karn. Fora que a capa é um primor: usaram uma imagem do pintor Maxfield Parrish.

Muito, mas muito tempo depois, resolveram gravar um segundo álbum sob o nome Dalis Car. Em 2010, Murphy anunciou a (re)união no Twitter. Por uma fatalidade, apenas algumas músicas foram gravadas. Mick Karn foi diagnosticado com um câncer em estágio avançado e morreu em 4 de janeiro de 2011. As cinco faixas resultaram no EP InGladAloness. Além dos dois, participam Steve Jansen na bateria, Jakko M Jakszyk nas guitarras, Gu Zheng e Theo Travis no saxofone e flauta, Gill Morley, no violino, Ellen Blair, violino e viola, e Pete Lockett e Paul Lawford nas percussões.

InGladAloness, até por Artemis Rise, que é uma variação de Artemis, quarta faixa do primeiro álbum, é quase que uma continuação. Li uma crítica na internet destruindo o disco, ridicularizando a voz de Murphy. Não se por ser fã dele e do estilo do fretless de Karn e por gostar muito de The Waking Hour, gostei bastante desse segundo. E mais uma vez, a capa é um primor: é de Jaroslaw Kukowski.

O EP inteiro está no youtube.

Faixa 1: King Cloud.




Faixa 2: Sound Cloud.




Faixa 3: Artemis Rise.




Faixa 4: Subhanallah. O vocal é de Sengul. O disco foi mixado em Istambul, Turquia.




Faixa 5: If You Go Away. Despertou o Jacques Brel de dentro de Peter Murphy.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fome de viver de Tony Scott

Scott e Denzel Washington, em Déjà vu
Cinematográfica a morte de Tony Scott, não? Escalar uma grade de três metros de altura e pular da ponte Vincent Thomas, na Califórnia, foi um ato corajoso. Foi seu salto solitário e espetacular, que poderia ter sido uma cena de algum filme seu que ele não quis mostrar a ninguém.

Com um nome tão comum, um quase “João da Silva”, irmão menos famoso (Ridley, o outro, virou culto depois de Os Duelistas e Blade Runner). Mas é impossível alguém que dirigiu Top Gun (1986), Jogo de Espiões (Spy Game, 2001), Déjà vu (2006), Maré Vermelha (Crimson Tide, 1985) e Chamas da Vingança (Man on Fire, 2004) ser considerado de segunda, como alguns o taxam. E tem mais: Scott é diretor de Fome de Viver (The Hunger, 1983), um filme espetacular.

Ridley e Tony vieram do cinema publicitário. Essa origem é determinante na parte visual de seus filmes. Apesar de Tony ser considerado mais “hollywoodiano” que o irmão, ambos se assemelham em muita coisa. Lidam – lidava, no caso de Tony – muito bem com a imagem, sabem tirar o máximo proveito das possibilidades da linguagem cinematográfica. O início de Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, é deslumbrante, com imagens de aviões de caça taxeando em um porta-aviões. Era um mestre em filmes de ação. Isso não é defeito. É qualidade.

O grande filme de Tony foi um fracasso de bilheteria. Fome de Viver era, em inúmeros sentidos, um filme destinado a tornar-se cult. Bom, esse termo, de hoje em dia, é um pouco bobo e perdeu parte do que significava; é como o termo kitsch, que quase não se usa mais. Um primeiro motivo é a participação do cantor e compositor David Bowie. Fez poucos e marcantes filmes: além deste, cabe citar Labirinto (Labyrinth, 1986), Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983) e O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976). Até sua aposentadoria (depois de um ataque de coração, retirou-se e, convidado, recusou-se a participar do show de abertura das Olimpíadas de Londres) nunca deixou de ser um astro de primeira grandeza.

Lançou o primeiro disco em 1967 e tornou-se conhecido com Space Oddity, que saiu dois anos depois. Estourou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, em 1972. Bowie revolucionou o show business da música, não apenas pelo talento, mas por vestir a persona criada por ele. Inventou um ser andrógino, fora desse mundo, meio alienígena (Neil Armstrong tinha pisado no solo da Lua em 1969 e a exploração espacial era tema quente). Até Elton John compôs uma música “espacial”: Rocket Man.

Bowie era a representação em si, vestindo a personagem de Ziggy Stardust. Faltava apenas que fosse a representação da representação. Essa oportunidade surgiu com o convite de Nicholas Roeg, diretor de Performance (teve participações de Mick Jagger e Anita Pallenberg) e do maravilhoso Walkabout (1971), para ser o ator principal de O Homem Que Caiu na Terra. Na juventude, em uma briga levou um murro no olho. A consequência foi a de que a pupila de um dos olhos ficou sem a capacidade de dilatar e contrair conforme a intensidade da luz. Roeg explorou esse problema da pupila, em que uma ficava contraída e outra não para caracterizar o “extraterrestre” Bowie.

Fome de Viver é estrelado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Bowie e Deneuve formam um casal que, para não envelhecer, precisa se alimentar de sangue humano. Preocupada com sinais de envelhecimento dele, procura por uma médica especialista, que é Susan Sarandon. Não vou contar a história. Todo mundo tem a obrigação de ver esta filme. É maravilhoso em todos os sentidos; pelo enredo, pelos atores, pelas cenas e a música. Se Scott tivesse feito apenas Fome de Viver, já teria sido um grande legado.

Em vários sentidos, como disse, é excepcional. A abertura, com a banda gótica Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead é um deslumbre. Veja. Combina perfeitamente com o clima noir do filme.




John, a personagem vivida por David Bowie é um violoncelista. Além do Bauhaus, tem Schubert na trilha sonora. O alemão compôs duas peças para piano, violino e violoncelo, o Trio nº 1 em si bemol maior, opus 99, e o Trio nº 2 em mi bemol maior, opus 100. São duas obras primas. A gravação clássica é a de Eugene Istomin (piano), Isaac Stern (violino) e Leonard Rose (violoncelo)

Ouça o segundo movimento do Trio opus 100 com eles. Sorte existir esse áudio no YouTube.



Outra bom registro, esse mais recente é com Vladimir Ashkenazy (piano), Pinchas Zukerman (violino) e Lynn Harrell (cello), gravação pela London Records (1997).

Veja também trechos de Fome de Viver tendo Andante con moto do Trio opus 100 de fundo.


A propósito de Schubert, leia sobre Stanley Kubrick, que usou o mesmo tema antes de Scott em Barry Lyndon: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2010/12/stanley-kubrick-o-mestre-da-musica.html.