quinta-feira, 18 de julho de 2013

As portuguesas Ana Moura e Cristina Branco gostam de Joni Mitchell

Cristina Branco (esq.) e Ana Moura
Um dos mais belos discos de Joni Mitchell chama-se Blue. É de 1971. Já era conhecida, pelo menos por Woodstock, uma das faixas de Ladies of the Canyon. Não foi ao festival, mas seu namorado foi. Era Graham Nash, um dos componentes do lendário Crosby, Stills & Nash que, aliás, gravaram-na em Déjà Vu (Atco, 1970).

Inicialmente, Joni teve seu nome ligado ao folk americano. Não apenas pelas composições, mas pelas companhias profissionais e pessoais, encaixava-se perfeitamente no rótulo. Em Blue, os músicos que dele participam podem assim ser considerados, caso de Stephen Stills, Russ Kunkel, Sneeky Pete e James Taylor. A base do folk era o violão acústico. Joni era aquela cantora que chegava com o violão debaixo do braço. Era suficiente. Se tivesse um pianinho, ótimo: sentava-se e batucava algumas notas e acordes. Simplicidade enganosa: suas composições eram sofisticadas.

Três composições de Blue se tornaram standards: a música título, River e A Case of You. O folk era uma classificação muito pequena para a vastidão criativa de Joni. No decorrer do tempo foi se associando musicalmente e, de vez em quando, emocionalmente, com Wayne Shorter, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Larry Klein. A essência continuou a mesma e o que mudou foi por um apuro instrumental cada vez maior. Em Hejira, um de seus melhores discos, ouvimos as primeiras contribuições do baixista Jaco Pastorius. No próximo álbum, um dos mais experimentais, a ele se somaram as contribuições de Wayne Shorter, Don Alias, Manolo Badrena, Alejandro Acuña e belíssimos arranjos orquestrais de Michael Gibbs.

Encontrou-se com Charles Mingus e gravou o antológico Mingus, com anuência e participação mais que especial em conversas gravadas que ficaram parte do disco. Pouco tempo depois o baixista, que já estava bem adoentado e preso a uma cadeira de rodas, veio a falecer.

Em 2007, Herbie Hancock lançou River: The Joni Letters (leia em http://bit.ly/10PtiCV), tendo convidados como Leonard Cohen, Luciana Souza, Corinne Bailey Rae (seu River é belíssimo: veja abaixo), Norah Jones e Tina Turner.




Joni Mitchell em releituras portuguesas

Por acaso calhou-me de ouvir cantoras portuguesas nos últimos dias. Se se fala de música da terrinha, é o fado o gênero que primeiro assoma em nossas memórias. Da primeira-dama Amália Rodrigues, passa-se por cantoras que seguem a tradição. Interessante que mesmo gerações mais recentes continuem a abraçar o gênero. Deve ser uma obsessão sebastianista. O fado não é o tipo de música para todos os gostos, assim como o bolero ou o tango, tidos como “coisas de velhos”, mas baixando-se a guarda dos preconceitos e dos conceitos pré-estabelecidos, encontra-se beleza onde menos se espera. O que intérpretes atuais como António Zambujo, Carminho, Cristina Branco e Ana Moura fazem não é simplesmente uma repetição ou diluição. São parte de uma gente que olha para a frente sem deixar de olhar para trás. Não estou citando Teresa Salgueiro, ex-membro de Madredeus, pois ela tem um percurso diferente.

A tradição conta bastante, mas esses cantores são cosmopolitas e não existe nenhum ranço nacionalista, Cantam na língua pátria e cantam em inglês ou francês e até português brasileiro. No álbum mais recente de Ana Moura, que deve ser a mais nova dos citados, três das faixas de Desfado, seu álbum mais recente, são cantadas em nglês. Na última excursão dos Rolling Stones, quando passaram em Portugal, Mick Jagger ouviu Ana em uma casa de fado. Gostou e convidou-a a participar de um dos shows. Cantou No Expectations.

Veja Ana Moura com os Rolling Stones.




Cristina Branco faz uma música com influências bem claras de outros gêneros latinos. Interpreta músicas francesas, argentinas, como Alfonsina y el mar, e brasileiras, como Soneto de Separação e O Meu Amor, de Chico Buarque..

Ouça Cristina Branco cantando a belíssima Alfonsina y el mar.




Pois então, estava esses dias a ouvir cantoras portuguesas e descobri que as duas cantam A Case of You, de Joni Mitchell.

Ouça A Case of You, com Cristina Branco, do CD Ulisses (2005).




Ouça A Case of You, com Ana Moura. A versão em estúdio está em Desfado (2013).

terça-feira, 16 de julho de 2013

Breve relato do encontro de Robert Plant com Bobby Gillespie

Novo disco do Primal Scream
Screamadelica causou furor quando foi lançado. Logo era considerado entre os melhores do ano de 1991. Passados os anos, continua a figurar entre os melhores de todos os tempos em cada lista que sai em revistas especializadas em música.

Bobby começou baterista do Jesus and Mary Chain e depois, criou o Primal Scream. O tal do “grito primal” foi moda depois de John Lennon e Yoko Ono apregoarem as virtudes terapêuticas da Terapia Primal, criada pelo psicoterapeuta Arthur Janov. Alguém se lembra de uma música em que Yoko fica o tempo todo gritando ou qualquer coisa parecida? Seus “poderes terapêuticos” ecoaram posteriormente com a banda Tears for Fears e virou nome da banda de Gillespie. Hoje, pouco se fala disso. Procure na internet.

O cantor líder do Primal Scream fez ecoar seus gritos em nomes “ruidosos” como Screamdelica, o grito psicodélico, Exterminator (grafado XTRMNTER), Vanishing Point, nome de um filme cult belíssimo, Evil Heat e Riot City Blues. Segundo a crítica, Bobby era uma espécie de Mick Jagger da geração rave. A associação não é tão delirante. A levada de Movin’ On Up, a primeira de Screamadelica, é próxima à fase de Their Satanic Majesties, Let It Bleed e The Beggars’ Banquet, dos Stones.

Veja Movin’ On Up. Faz parte do DVD comemorativo dos 20 anos do lançamento de Screamadelica.




Psicodelia e rave combinam com drogas. É, elas passaram a atrapalhar a criatividade de Bobby. Parou faz cinco anos. O último, antes de More Lights, que acaba de ser lançado, foi Beautiful Future, em 2008. Uma das faixas conta com um convidado muito especial.

Ele andava pelas ruas de Londres e avistou o ex-vocalista do Led Zeppelin Robert Plant. Sentaram-se no café e Plant perguntou se precisava de alguma ajuda. Perguntou-lhe se toparia participar do disco que estava gravando. Dias depois, Plant deixou uma mensagem eletrônica no telefone dizendo-lhe que passaria no estúdio com sua gaita. E deu que ele participa de Elimination Blues, nona faixa do álbum.

Confira.