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terça-feira, 25 de março de 2014

Tragam-me o piano de Alfredo Rodriguez

O pianista Alfredo Rodriguez, a mais nova revelação 
Os melhores produtos de exportação de Cuba são rum, charutos e pianistas. Podem ser incluídos médicos e assessoria militar. Do primeiro, o Brasil é um dos maiores importadores e a Venezuela conta com contingente militar assessorando Nicolás Maduro para reprimir os revoltosos.

Não sou fã de rum depois da monumental ressaca com que fui acometido em razão de algumas doses do nobre destilado, envelhecido por 12 anos em barricas de carvalho, trazidas por uma amiga que recebera de presente do staff do então governante Fidel Castro. Os charutos, infelizmente, fumo-os por vício e não especificamente por prazer. É, no mínimo, um por dia; isso porque estou em processo de tentar parar.

Mas, vamos falar de um produto de exportação de valor universal: a música. Devido a proximidade geográfica, Cuba era importante ponto turístico pela beleza da paisagem e os clubes noturnos. Ricaços possuíam luxuosas residências, com direito a campos de golfe, outros eram donos até de plantações de tabaco. Até o genial pianista Arthur Rubinstein, bon-vivant, apreciador de boas bebidas e charutos possuiu a sua.

Quando o ditador Fulgêncio Batista caiu, os cassinos e clubes foram fechados. Um sem número de músicos, que tocavam nesses lugares, viram-se sem trabalho da noite para o dia. Alguns como Bebo Valdés saíram do país. A maioria ficou por lá e deixaram de ter suas vidas de fausto e foram obrigadas a encarar até trabalhos braçais. No meio deles, estavam Compay Segundo, Pio Leyva, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rubén González e outros que, antes tarde do que nunca, foram “redescobertos” após a exibição do documentário Buena Vista Social Club.

Rubén González tinha se retirado da cena musical. Quando convidado a participar da gravação de Afro-Cuban All Stars, por Juan de Marcos Gonzalez, recusou alegando sofrer de artrite e não mais chegar perto do piano há 11 anos. Acabou por topar em razão da insistência. Na mesma época, Ry Cooder estava em Havana para gravar Buena Vista Social Club. Ouviu González tocando no estúdio da Egrem. Ficou impressionado com sua versatilidade. Antes, chegara a trabalhar como engraxate.

Como consequência do sucesso do álbum organizado por Cooder e do documentário, vários de seus participantes lançaram discos solo. Um deles foi Introducing… Rubén González. Ironia o “introducing”: tinha 77 anos a era uma das revelações da música. Ry Cooder afirmara que ele era o maior solista de piano que já ouvira em sua vida.

Ouça Sibonney, de Ernesto Lecuona, com González.



Outro grande pianista cubano seria “revelado” por meio de um documentário: Bebo Valdés. Poucos anos depois de Buena Vista Social Club, o espanhol Fernando Trueba realizou Calle 54, abordando o jazz latino-americano. Alguns dos participantes, como Eliane Elias, Gato Barbieri e Paquito D’Rivera, este, um refugiado do regime castrista, eram conhecidos, mas Bebo, não. Pouco após a queda de Batista, foi para os EUA, México e, por fim, fixou-se em Estocolmo. Suecos gostam de jazz mas, convenhamos, seria difícil que alguém fosse se lembrar de Bebo “escondido” em um lugar como lá.

Trueba realizou outros documentários tendo como protagonista Bebo. Num deles, o cubano vai parar na Bahia (El Milagro de Candeal, 2004). Nele é mostrado o belo trabalho social de Carlinhos Brown com os meninos do Candeal. O outro é estritamente musical. É o encontro de El Cigala e o cubano e o show Lágrimas Negras, que fizeram juntos.

Vejo El Cigala e Bebo em Veinte Años.




Pianistas pós-revolucionários

Como Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba é filho de pianista, o primeiro, de Bebo, e ele, de Guillermo Rubalcaba. Um jornalista brasileiro desavisado, na ocasião em que veio ao Brasil (sua relação com o país tornou-se estreita e chegou a gravar com Ivan Lins), escreveu que era filho de Rubén González. Pode se perdoado pelo engano em razão do número de “dinastias” musicais em Cuba.

Gonzalo Rubalcaba não viveu a época dos velhos mestres, tampouco o de Chucho. Nasceu em 1963. Outro bom tecladista é Roberto Fonseca, de 1975. A mais nova revelação no piano é Alfredo Rodriguez, de 1985. Circunstancialmente, pode-se imaginar que nasce um grande talento nesse instrumento de dez em dez anos. Os três vieram de famílias de músicos, como foi dito no parágrafo anterior, e estudaram em conservatórios.

O primeiro álbum que tornou Rubalcaba conhecido foi Discovery, registro ao vivo de apresentação no festival de Montreux, de 1990, lançado pelo selo Blue Note. Os músicos que o acompanha são Charlie Haden e Paul Motian. Extremamente ágil, técnica impecável, não tinha como não impressionar o mundo do jazz.

Ouça Well You Needn’t, de Thelonious Monk.




Veja uma apresentação do quinteto de GR no Festival de Vitoria-Gasteiz, em 2013.




Roberto Fonseca é outro pianista que merece atenção. Menos pirotécnico do que Rubalcaba, prefere valorizar a melodia e, como os outros, não foge dos ritmos cubanos que o mundo bem conhece desde que Dizzy Gillespie os apresentou ao mundo. Um pouco diferente de Rubalcaba, adiciona vozes. Em Zamazu (2007), Omara Portuondo é a vocalista na bela Mil Congojas, e na faixa que abre o disco – Misa Popular –, é Mercedes Cortes Alfaro, sua mãe. Fonseca teve alguns CDs lançados no Brasil, provavelmente, por ser o produtor Alê Siqueira, que participou de discos de Marisa Monte

Ouça Tierra en mano, do álbum Zamazu.





Veja Roberto Fonseca tocando Llego Cachaito, composta em homenagem ao baixista Cachaito Lopez.




Alfredo Rodriguez é o nome da vez do piano cubano. Jovem ainda – nasceu em 1985 –, arrumou um bom padrinho: Quincy Jones. Teve seu primeiro disco lançado pela Quest, gravadora do americano responsável pelo estouro de vendas de Michael Jackson. Agora no início de 2014, acaba de ser lançado The Invasion Parade. Nele estão incluídos alguns clássicos latinos: Guantanamera, Quizás, Quizás, Quizás e Veinte Años. As interpretações de Rodriguez para esse álbum já é uma grande recomendação.


Veja Rodriguez com seu quarteto em ação no Festival de Montreux de 2012 tocando Guantanamera.




No primeiro álbum – Sounds of Space –, Rodriguez conta com vários músicos diferentes em cada faixa. Em Invasion, é um quarteto: ele ao piano, Esperanza Spalding no contrabaixo e vocais, Henry Cole na bateria e Pedrito Martinez na percussão e vozes.


Ouça a bela Quizás, Quizás, Quizás.




quinta-feira, 23 de maio de 2013

Joshua Redman com mel

Dewey (esq.) grava com o filho Joshua Redman
A primeira vez em que ouvi falar de Joshua Redman fiquei, como se diz por aí, “meio assim”. Filho de Dewey Redman? Dewey era um dos meus ídolos. Conheci-o pelo quarteto americano de Keith Jarrett. E, tocando o mesmo instrumento? O saxofone tenor? Perigo: filho de artista bom está arriscado a ser… filho de artista.

Vida de artista é uma coisa complicada. Veja o caso de Gonzaguinha, filho adotivo de Gonzagão, como era conhecido o rei do baião Luiz Gonzaga. Ser filho de um gênio é complicado, principalmente se é adotado o nome com o acréscimo de “Filho” ou “Júnior”. É o caso de Thelonious Monk, Jr. Pelo menos, não resolveu ser pianista. Fez um bom disco, era um cara muito simpático, baterista canhoto. Apresentou-se aqui em São Paulo no Teatro Municipal. Sumiu.

Dentre as coisas complicadas que, costumeiramente acontece, é o pouco convívio de pais e filhos. O que é uma vida de artista, como diria Sueli Costa? Responderia Gonzagão: “Minha vida é andar por este país.” O músico é um nômade: mora em hotéis e sofre assédio incessante de fãs e admiradoras que querem, a qualquer custo, dormir com seus ídolos. Enquanto isso, filhos ficam com mães ou babás.

Joshua é um exemplo típico. A mãe, Renee Shedroff, bailarina, como verdadeira “jewish mama”, propiciou-lhe boa educação e cultura. Estudou em Harvard. Ia virar advogado pela Yale University, mas acabou músico. É imprevisível o componente genético ou de como age na mente de um filho a questão do pai, de sua aceitação ou rejeição. Um exemplo a ser usado de parâmetro é o de Bebo e Chucho Valdés, pai e filho, ambos pianistas. Bebo era músico conhecido em Cuba. Com a chegada da revolução, emigrou. A grande contradição, ou a “sinuca”, foi a de que no período ditatorial e corrupto de Fulgencio Batista, floresceram as casa de jogos e boates em Havana. Cuba era tido como “quintal” dos Estados Unidos. Mais ou menos como no caso do Rio de Janeiro, na época de Getúlio Vargas em que dinheiro corria solto, mulheres bonitas sentavam nos colos dos poderosos, belas vedetes levantavam suas pernas, a partir do momento em que o jogo tornou-se ilegal, a classe artística se viu na rua. A queda de Batista correspondeu ao fim do sustento de muitos músicos como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Bebo Valdés. Os dois primeiros ficaram em Cuba trabalhando em subempregos, Bebo preferiu sair. O filho Chucho ficou em Cuba. Por dom ou por querer ser igual ao pai, virou pianista. Fez sua carreira por caminhos independentes. Encontraram-se quando tinha a carreira consolidada e Bebo andava meio esquecido. Outro cubano expatriado, Paquito D’Rivera, foi o responsável de tirá-lo do limbo. Eles, filho e pai, reencontraram-se décadas depois (leia http://bit.ly/106sxaA)

Caso análogo é do Joshua e Dewey. O pai tocou com Ornette Coleman, fez parte de um dos melhores quartetos de Keith Jarrett, brilhou com solos instigantes e selvagens no Old and New Dreams (com Charlie Haden, Don Cherry e Ed Balckwell), liderou sua banda em ótimos álbuns como The Ear of the Beahearer (Impulse, 1973), The Struggle Continues (ECM, 1982), Living on the Edge (Black Saint, 1989), e In London (Palmetto, 1996).

Em nenhum momento parece ter sido um peso o talento imenso do pai. É como se ele nem tivesse existido na vida de Joshua. Lançou o primeiro disco em 1993 pela Warner Bros. No mesmo ano, saiu Wish. Faziam parte do quarteto Charlie Haden, Pat Metheny e Roy Haynes, músicos de peso. Começou lá em cima, vendendo bem e sendo prestigiado pela crítica e admiradores do jazz..

O seguinte, Moodswing (1994), disco com apenas composições de sua lavra, um quarteto de sonhos: Brad Mehldau, Christian McBride e Brian Blade. Produtivo, lançou praticamente um álbum por ano. Em junho, Joshua estará no BMW Jazz Festival com sua banda James Farm. Participam dela ele, Aaron Parks, Matt Penman e Eric Harland. o nome “James” corresponde às iniciais de seus nomes “J”, de Joshua, “A”, de Aaron, “M”, de Matt, e “E”, de Eric.

Ouça a irresistível I Got You (I Feel Good), de James Brown.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Seguramente, é um dos melhores saxofonistas da atualidade. Não tem mais a sombra física do pai, que faleceu em 2006. Sopro preciso e robusto solista criativo, bom compositor, além do tenor, é muito bom no sax soprano. Por tocar os dois instrumentos, foi comparado a John Coltrane, mas livrou-se logo do estigma.

Parece que todo músico solista de jazz, um dia, precisa gravar seu álbum com orquestra de cordas. Desde Charlie Parker, que não fez o seu “with strings” por injunções comerciais, músicos como Clifford Brown, Chris Botti (esse sim deve ter feito o seu por essas razões) e outros gravaram o seu. Chegou a vez de Joshua de fazer o seu disco “com mel”. Com arranjos de Patrick Zimmerli, Brad Mehldau e Dan Coleman, Walking Shadows é um álbum com infalíveis standards: The Folks Who Live on the Hill, Lush Life e Stardust. Além de temas próprios como Final Hour e Let Me Down Easy, registrou “modernidades” como Doll Is Mine, da banda multinacional Blonde Redhead, Stop This Train, de John Mayer, e Let It Be, de Lennon e McCartney. Dois destaques são Adagio, da Toccata em Dó para Órgão, de Johann Sebastian Bach (já tocou em apresentações, por exemplo, uma versão muito bonita do 2º movimento da 7ª Sinfonia, de Beethoven), sem cordas, acompanhado por Larry Grenadier no baixo e Brian Blade na bateria, e Infant Eyes, de Wayne Shorter. É um bom disco. Não faz o queixo cair, mas é sempre bom ouvir Joshua Redman.

Ouça Stardust.



Ouça Final Hour.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ernesto Lecuona, Grupo Corpo, Bebo e Chucho Valdés

Ernesto Lecuona
Um dos maiores compositores da música cubana e do mundo é Ernesto Lecuona. Falo um pouco dele em http://bit.ly/1187Wg5, mais especificamente do clássico Siboney. Mas, por causa da morte de Bebo Valdés (http://bit.ly/106sxaA. Leia também em http://bit.ly/ZVXoT7), andei dando uma fuçada no Youtube e encontrei uma apresentação de Bebo e seu filho Chucho Valdés (veja no fim do post) interpretando La Comparsa, outro clássico de Lecuona.

Nasceu em 1895 e, com a queda do ditador Fulgêncio Batista e instauração do governo revolucionário de Fidel Castro, mudou-se para a Espanha. Morreu em 1963 de um ataque de asma nas Ilhas Canárias, terra natal de seu pai e está enterrado nos Estados Unidos. De formação erudita, transitou bem no gênero popular. Criou a Ernesto Lecuona Symphonic Orchestra e é compositor também da Rapsódia Negra para Piano e Orquestra.

Uma coisa leva o outra e lembrei-me da montagem do Grupo Corpo com músicas de Lecuona. É espetacular. Quem não viu tem a oportunidade de vê-lo no YouTube. São trechos do vídeo vendido pela companhia.


Veja  apresentação do Grupo Corpo com a música No Es Por Ti, cantada por Zoraida Moreno.




Veja Mariposa, cantada por Maria de Los Angeles Santana.




Se você quiser ver mais, digite “grupo corpo” e “lecuona” no YouTube. Foi lançado também o CD com as músicas de Lecuona que estão no balé. Creio que é vendido apenas pelo Grupo Corpo. Não existe disponível nas lojas físicas, O selo Bis lançou um “complete” da obra para piano do cubano. Acha-se nos sites de compra de CDs de fora.


Bebo e Chucho tocam La Comparsa.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Bebo e Chucho Valdés, pai e filho

O mesmo sorriso de Bebo e Chucho Valdés

Quem leu o texto que escrevi sobre Bebo Valdés (http://bit.ly/ZVXoT7) deve lembrar-se que o comparei com Yoda, personagem de Guerra das Estrelas, o “conhecedor da Força e do uso do sabre da luz”. Bebo era minimalista, o sábio da máxima expressão com o mínimo de notas. Chucho, seu filho, ao contrário, é o gênio extrovertido que inventou o lendário Irakere. Apolo e Dionísio? Não sei. Sei, entretanto, que em razão do meu pendor à melancolia, prefiro Bebo. Gosto de seu jeito pausado e sincopado de tocar.



Bebo saiu de Cuba quando as forças revolucionárias de Fidel Castro derrubaram Fulgêncio Batista. Foi, inicialmente, para o México, passou pelos Estados Unidos e Espanha e estabeleceu-se em Estocolmo a partir de 1963. Como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Pio Leyva e Rubén Gonzales, Bebo tocou com as grandes orquestras que vicejaram durante a época em que os americanos deixavam muito dinheiro em seus cassinos e nightclubs. Se a ascensão de Fidel foi benéfica para o país, por outro lado, deixaram esses músicos à míngua, trabalhando em subempregos. De maneira diferente, apesar de ter saído de Cuba, Bebo caiu também no ostracismo e foi “redescoberto” por Fernando Trueba, diretor espanhol, ao participar de Calle 54, em 2000. Depois de longo tempo sem gravar, lançou Bebo Rides Again, em 1994. Mas a carreira voltou a deslanchar mesmo foi com o filme de Trueba. A parceria continuou com o DVD Blanco y Negro, em que divide o palco com o intérprete de música flamenca Diego El Cigala, e outro – El Milagro de Candeal –, belo documentário que aborda a cultura baiana e o trabalho em favor da comunidade pobre de Carlinhos Brown. Coincidentemente, Ferrer Gonzáles e Compay Segundo foram “redescobertos” graças ao documentário Buena Vista Social Clube, dirigido por Wim Wenders e coprotagonizado pelo guitarrista Ry Cooder.


As circunstâncias separaram Bebo e seu filho Chucho. Reecontraram-se muito tempo depois e a reunião se fez forte. Bem velhinho, acometido do mal de Alzheimer, Chucho amparou-o. Poucos dias antes da morte ainda, levou-a à Espanha, a fim de cuidar dele. Bebo acabou falecendo em Estocolmo em 22 de março. Uma coincidência: ambos nasceram em 9 de outubro, Bebo em 1918 e Chucho em 1941.

O reencontro resultou em apresentações e a gravação de Juntos para Sempre (2008). Ouça Lágrimas Negras. Preste atenção no “caco”, no meio do solo – acho que é de Chucho: toca um trechinho de La Habanera, da ópera Carmen, de Georges Bizet.

Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Tres Palabras. No CD é a terceira faixa.




O encontro de Bebo e Chucho no documentário Calle 54, de Fernando Trueba. O “rapidinho” aqui é Bebo.



Pois, melhor combinação não há do que os dois tocarem o clássico Tea for Two, de Vincent Youmans e Irving Caesar..



Veja Bebo tocando com o filho no 32º Festival Jazz de Vitoria, em 2008. Como é o show completo, se você quiser adiantar, Bebo entra aos 46 minutos. Chucho entra para tocar com o pai a partir dos 53 minutos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Alguém sabe quem é Federico Britos?

Aquele que é considerado o melhor violinista de jazz de todos os tempos foi um autodidata. De família pobre, pai professor de filosofia e amante da música, instilou no filho esse gosto e comprou um violino ao menino de dez anos. Com quinze, estava tocando em sessões de cinema mudo. Ouvindo um grupo chamado Mitchell’s Jazz King descobriu: “Esse é o tipo de música que quero tocar.”

Em 1933, tocava num desses salões de chá e, quando foi trocar uma corda rompida de seu violino, conheceu aquele que se tornaria seu parceiro mais perfeito: Django Reinhardt. Lideraram o lendário Quintette du Hot Club de France. Começaram apresentando-se em bailes e ambos se sentiam descontentes de tocar para uma plateia barulhenta e desinteressada.

Em 1937, durante a Exposição Francesa conheceram uma mulher chamada Bricktop, que os convidou para se apresentarem em um nightclub. Cole Porter e Louis Armstrong ouviram Stephane Grapelli e Django Reinhardt. O violinista acompanhou Mabel Mercer ao piano. A guerra os separou e, após seu término, chegaram a se reunir, mas a química não funcionava mais. Reinhardt, com sérios problemas de saúde, não durou muito; morreu em 1954. Grapelli foi muito tempo depois, em 1997, pouco antes de completar 89 anos.

Alguns violinistas costumam frequentar as listas dos melhores das revistas especializadas em jazz, como Regina Carter – a mais conhecida atualmente –, Billy Bang, Mark Feldman (toca com Dave Douglas), John Blake e Jean-Luc Ponty. Em nenhuma delas consta o nome do uruguaio Federico Britos.

Federico Britos transita facilmente entre o erudito e o popular



Não é regra, mas é difícil um virtuose no violino, instrumentista de uma orquestra sinfônica, ser versátil a ponto de saber improvisar. Gidon Kremer é talvez, dos virtuoses do primeiro time, o de carreira menos convencional. Seus excepcionais álbuns calcados na obra de Astor Piazzolla são exemplares no propósito de ampliar o espectro da música, mas daí vai uma grande diferença entre interpretar um autor “popular” e ter capacidade de improvisar sobre um tema, como os músicos de jazz estão acostumados a fazer.

Britos é um dos poucos que transita entre as duas esferas – o erudito e a música de improviso. Não que essa versatilidade signifique que o uruguaio seja melhor que os outros. Britos, no entanto, é exemplar.

Comparando-o ao francês, há essa diferença de formações. Grapelli é, praticamente, um autodidata. Não era um músico que tocasse com partitura. Mesmo assim, é considerado o melhor violinista de todos os tempos.

É possível que existam exemplos parecidos aos de Britos espalhados por aí. Apenas não os conhecemos. No Brasil mesmo, existiu Fafá Lemos. Houvesse seguido carreira internacional, com certeza, o mundo o colocaria no olimpo dos grandes violinistas. Lemos teve formação clássica, “caiu na vida”, e foi tocar com Carmen Miranda. Esse ecletismo é raro entre os violinistas.

Aos poucos, com 50 anos de estrada, Federico Britos está merecendo atenção crescente da crítica e do público mundial. Tinha participado de Nocturne (Verve, 2001), CD “latino” do baixista Charlie Haden, mas apenas em três faixas (En la orilla del mundo, Yo sin ti, e El ciego). Com outro talento redescoberto – o pianista Bebo Valdéz –, gravou um disco espetacular: We Could Make Such Beautiful Music Together. Agora, pela Sunnyside, lançou Voyage (2010).

Nesse CD, em que toca alguns standards americanos como After You’ve Gone, Avalon e Moonglow, mescla-os com algumas composições de própria lavra como Vivian, Las Vegas Station, Lluvia de Colores, A Las Cuatro de la Mañana, Okey Paganini, Micro Suite Cubana, Tomatito & Federico e Vivian Flavia de las Mercedes (a repetição do nome Vivian não é casual: é sua mulher). Em várias faixas é acompanhado por alguns convidados especiais: Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, o guitarrista Bucky Pizzarelli e o violonista espanhol Tomatito.

Devem ser destacadas After You’ve Gone (belíssimo solo de Barron), Moonglow (guitarra “relaxada” de Bucky Pizzarelli), e Tomatito & Federico (balada meditativa em maravilhoso duo). A composição de Britos para sua mulher, Vivian Flavia de las Mercedes, é uma declaração de amor, com início lembrando o tema da música Mona Lisa, e belos solos de violino e do piano de Michel Camilo.

Ouça Beautiful Music (Calle 54, 2003), duo de Bebo Valdés e Federico Bastos.

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Ouça também Voyage (Sunnyside, 2010), que conta com participações especiais de Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, Bucky Pizzarelli e Tomatito. Vivian Flavia de las Mercedes é um dos destaques.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sim. Bebo Valdés

Yoda, personagem do filme Guerra nas Estrelas, é um sábio e poderoso mestre jedi, “conhecedor da Força e do uso do sabre da luz.” A explicação é de um amigo admirador da série de George Lucas. Ao ver pela primeira vez a figura de Bebo Valdés, lembrei de Yoda; um pouco, por algum aspecto em sua aparência, o olho, o formato da boca, não sei. O comentário é casual, e afinal de contas, Valdés, com seu corpo levemente curvado sobre o piano, dedos longos que tocam as teclas, e as marcas do tempo que sulcam o rosto, passa um ar de serenidade e sabedoria.

O que surpreende – não único, se lembrarmos de Hank Jones, falecido em maio de 2010, pouco antes de completar 92 anos, na ativa até os últimos dias – é que Bebo nasceu em outubro de 1918, portanto, cinco meses depois do americano, e continua a tocar, quando muitos que chegaram nessa idade preferem ficar em suas casas, de pijama.

O Valdés famoso, até então, era Chucho, seu filho, fundador da banda Irakere, que nos anos 1970, fez enorme sucesso nos EUA, gravando pela major Columbia Records. Nessa altura, Bebo residia na terra natal de sua mulher sueca e pouco se sabia dele.

Carlinhos Brown, Bebo e Trueba
Paquito D’Rivera, outro que escapou das mãos de ferro de Castro, em 1994, convidou Bebo para gravar um disco na Alemanha. Bebo Rides Again representa sua rentrée no mundo da música. Mas o que o trouxe de volta à ribalta mesmo, foi o sucesso de Calle 54, do espanhol Fernando Trueba, um filme sobre o jazz latino. Posteriormente, realizou outro documentário, bem curioso, pelo menos para os brasileiros. O Milagre de Candeal (El Milagro de Candeal, 2004) foca no trabalho de Carlinhos Brown com projetos de inclusão social por meio da música da população mais pobre da cidade de Salvador. Valdés serve como fio condutor percorrendo ruas e lugares da Bahia, comentando sobre um lugar que, em muito, tem semelhanças com sua terra natal. Uma cena ótima é quando visita um centro de candomblé e o pai de santo entra em transe (é assim que se fala?). Os países caribenhos sofreram, como o Brasil, influências religiosas tribais dos negros vindos da África, e manifestações do candomblé e da umbanda não são exclusivas daqui. Portanto Bebo deve ter tido contato com a “santería”, uma variante trazida pelos iorubás. Mesmo assim, fica claro o desconforto do cubano na cena do pai de santo.

Bebo e Diego El Cigala
A parceria com o espanhol não se resumiu aos dois documentários e aos discos gravados pela gravadora Calle 54. Em 2003, gravou o show Blanco y Negro – Bebo & Cigala en Vivo em DVD. Fernando – que é como se refere Bebo ao diretor – promoveu um encontro dele com o cantor de música flamenca Diego El Cigala. Cigala (lagostim em espanhol), seu apelido, pelo fato de ser mutio magro, virou nome artístico.

O show em DVD faz parte de um pacote que inclui um documentário dirigido por Carlos Carcas. Não é um making of. É bem mais. Assistimos aos ensaios, aos encontros nos quais improvisam com Bebo no piano elétrico sobre a mesa de centro, bem como com Cigala e outros músicos percutindo ritmos flamencos com as mãos, um menino com surpreendente noção de ritmo tocando chocalho, Bebo contando das suas influências de músicos eruditos como Albéniz, Joaquín Turina e Granados, das semelhanças da música cigana e a cubana. Brincando, depois da performance do espanhol e amigos, pergunta se aquilo é música cubana ou cigana.

Conhece-se mais a dança flamenca que a música. Na década de 1980, fez sucesso razoável uma banda chamada The Gipsy Kings. São franceses de raízes espanholas que formaram esse conjunto. Com a fama, vieram as críticas, principalmente da parte dos cultuadores do verdadeiro flamenco. “Eu, tu, eles” não sabemos tanto dessa cultura. Não é um estilo tão propagado como o tango ou a rumba. Está mais circunscrito ao gênero folclórico, como a música feita pelos irlandeses The Chieftains ou o “ajuntamento” Les Voix Bulgaires. Como são gêneros muito locais, é necessário um “período de adaptação” para se fazer um juízo. Não são coisas que fazem parte de um gosto comum.

Pois é preciso desligar o botão dos preconceitos e preparar-se para ouvir algo bem diferente. O flamenco tem um tipo de canto que tende aos registros mais agudos, daí a sensação de que seus intérpretes estão se “esguelando”. El Cigala tem a voz levemente rouca e, pelo documentário, vê-se que tem dificuldades em atingir os registros mais agudos. Sem ser um defeito, isso acrescenta certa dose de dramaticidade ao seu canto.

Esse documentário registra vários momentos de emoção. Primeiro, pela própria figura de Bebo, de expressão plácida, mas falante, animado e, quando está ao piano, nos faz silenciosos para ouvi-lo. É o que acontece em certo momento, quando Bebo improvisa sobre o tema de Vivir y Amar, de Consuelo Velásquez. O cantor se emociona, e nos emociona também ao vermos a emoção de ouvir Bebo num crescendo até as lágrimas derramadas. O cubano narra outro momento em que Trueba, sua mulher e os amigos choram ao ouvi-lo tocar Vete de Mí.

Está reservado o momento especial aos brasileiros quando os dois interpretam Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim. O canto emocionado – no refrão, então! – de Bebo é intercalado pelos versos declamados de Coração Vagbundo por Caetano Veloso. O DVD foi lançado no Brasil e deve ser ainda encontrado em sites e lojas especializadas.

Mal sabia da existência de Bebo e o primeiro contato foi com esse estupendo DVD com El Cigala. Meses depois, assisti a O Milagre de Candeal. Como nada dele foi lançado em CD, recorri aos importados. O álbum solo, Bebo (2005), é maravilhoso. Somos levados por uma corrente marítima aos mares plácidos do som do cubano. O outro há pouco adquirido é We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), duo com o violinista uruguaio Federico Brito. Nessa álbum ambos passeiam pelas canções preferidas, sem limites geográficos, visitando o repertório brasileiro (Luiza), o latino dos boleros e tangos (Adiós Nonino), e pelos standards americanos. Sobre uma das músicas, La Rosita, leia em  http://bit.ly/9tEOyp).

Bebo e El Cigala interpretam Vete de Mí:



Eu Sei Que Vou Te Amar:





quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A bela Rosita

Dentre os tipos de saxofone, meu preferido sempre foi o tenor. Em escala descendente, os outros são o barítono, o soprano e, por último o alto, apesar de Charlie Parker ou Phil Woods, dois gigantes. Dos tenores, por muito tempo, os preferidos foram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, nessa ordem.

A capa de um clássico
Seria inimaginável não ter os álbuns que meus ídolos gravaram juntos pela Verve Records. Em Coleman Hawkins Encounters Ben Webster, no meio de standards (It Never Entered My Mind, Prisoner of Love, simplesmente, maravilhosos) havia uma música chamada La Rosita. Quando tenho saudades de Rosita, procuro-a no meu iPod de 160 GB. Ouvi-la é um prazer e levanta meu humor, se estiver em baixa.

Coleman Hawkins tinha um som cheio, um tanto áspero, e o de Ben era veludo puro. O Carlos Conde não se conformava com que alguém pudesse gostar de Webster. Dizia que ele fazia “ar” e não som. Questão de gosto. Ele era incomparável tocando baladas. Quem conhece Time After Time (Ben Webster and Associates, Verve) tocado por ele sabe do que estou falando.

Mas La Rosita chegou por outras vias dessa vez. Não lembro de nenhum outro registro além desse de 1957. Qualquer coisa que ache do pianista Bebo Valdés, compro, desde Bebo y El Cigala, DVD duplo com show e documentário dirigido por Fernando Trueba. O cineasta espanhol é responsável pelo “renascimento” do cubano expatriado, que se encontrava meio esquecido. Pela gravadora espanhola Calle 54 foram gravados alguns CDs. Encontrei, casualmente, We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), um duo com o violinista uruguaio Federico Britos num site. Adivinhem? Adorei. E mais, ainda, porque me fez lembrar de Rosita. É a quarta faixa de um disco em que se mesclam standards americanos, composições próprias, um Piazzola e um Jobim.

Uma observação: a canção La Rosita foi composta por Allan Stuart (pseudônimo de Lester O’Keefe) e Paul Dupont (pseudônimo de Gustave Haenschen). Estranho, não? Em matéria de 2008 no Los Angeles Times (http://articles.latimes.com/2008/oct/23/world/fg-bebo23), assinado por Sebastian Rotella, Bebo diz: “que bela peça. É mexicana, você sabe, os mexicanos têm músicas melódicas.” Pelo jeito, nem Bebo sabe das origens de Rosita.

Ouçam e comparem.
Coleman Hawkins e Ben Webster:



Bebo Valdés e Federico Brito: