Em 1933, tocava num desses salões de chá e, quando foi trocar uma corda rompida de seu violino, conheceu aquele que se tornaria seu parceiro mais perfeito: Django Reinhardt. Lideraram o lendário Quintette du Hot Club de France. Começaram apresentando-se em bailes e ambos se sentiam descontentes de tocar para uma plateia barulhenta e desinteressada.
Em 1937, durante a Exposição Francesa conheceram uma mulher chamada Bricktop, que os convidou para se apresentarem em um nightclub. Cole Porter e Louis Armstrong ouviram Stephane Grapelli e Django Reinhardt. O violinista acompanhou Mabel Mercer ao piano. A guerra os separou e, após seu término, chegaram a se reunir, mas a química não funcionava mais. Reinhardt, com sérios problemas de saúde, não durou muito; morreu em 1954. Grapelli foi muito tempo depois, em 1997, pouco antes de completar 89 anos.
Alguns violinistas costumam frequentar as listas dos melhores das revistas especializadas em jazz, como Regina Carter – a mais conhecida atualmente –, Billy Bang, Mark Feldman (toca com Dave Douglas), John Blake e Jean-Luc Ponty. Em nenhuma delas consta o nome do uruguaio Federico Britos.
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| Federico Britos transita facilmente entre o erudito e o popular |
Não é regra, mas é difícil um virtuose no violino, instrumentista de uma orquestra sinfônica, ser versátil a ponto de saber improvisar. Gidon Kremer é talvez, dos virtuoses do primeiro time, o de carreira menos convencional. Seus excepcionais álbuns calcados na obra de Astor Piazzolla são exemplares no propósito de ampliar o espectro da música, mas daí vai uma grande diferença entre interpretar um autor “popular” e ter capacidade de improvisar sobre um tema, como os músicos de jazz estão acostumados a fazer.
Britos é um dos poucos que transita entre as duas esferas – o erudito e a música de improviso. Não que essa versatilidade signifique que o uruguaio seja melhor que os outros. Britos, no entanto, é exemplar.
Comparando-o ao francês, há essa diferença de formações. Grapelli é, praticamente, um autodidata. Não era um músico que tocasse com partitura. Mesmo assim, é considerado o melhor violinista de todos os tempos.
É possível que existam exemplos parecidos aos de Britos espalhados por aí. Apenas não os conhecemos. No Brasil mesmo, existiu Fafá Lemos. Houvesse seguido carreira internacional, com certeza, o mundo o colocaria no olimpo dos grandes violinistas. Lemos teve formação clássica, “caiu na vida”, e foi tocar com Carmen Miranda. Esse ecletismo é raro entre os violinistas.
Aos poucos, com 50 anos de estrada, Federico Britos está merecendo atenção crescente da crítica e do público mundial. Tinha participado de Nocturne (Verve, 2001), CD “latino” do baixista Charlie Haden, mas apenas em três faixas (En la orilla del mundo, Yo sin ti, e El ciego). Com outro talento redescoberto – o pianista Bebo Valdéz –, gravou um disco espetacular: We Could Make Such Beautiful Music Together. Agora, pela Sunnyside, lançou Voyage (2010).
Nesse CD, em que toca alguns standards americanos como After You’ve Gone, Avalon e Moonglow, mescla-os com algumas composições de própria lavra como Vivian, Las Vegas Station, Lluvia de Colores, A Las Cuatro de la Mañana, Okey Paganini, Micro Suite Cubana, Tomatito & Federico e Vivian Flavia de las Mercedes (a repetição do nome Vivian não é casual: é sua mulher). Em várias faixas é acompanhado por alguns convidados especiais: Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, o guitarrista Bucky Pizzarelli e o violonista espanhol Tomatito.
Devem ser destacadas After You’ve Gone (belíssimo solo de Barron), Moonglow (guitarra “relaxada” de Bucky Pizzarelli), e Tomatito & Federico (balada meditativa em maravilhoso duo). A composição de Britos para sua mulher, Vivian Flavia de las Mercedes, é uma declaração de amor, com início lembrando o tema da música Mona Lisa, e belos solos de violino e do piano de Michel Camilo.
Ouça Beautiful Music (Calle 54, 2003), duo de Bebo Valdés e Federico Bastos.
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Ouça também Voyage (Sunnyside, 2010), que conta com participações especiais de Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, Bucky Pizzarelli e Tomatito. Vivian Flavia de las Mercedes é um dos destaques.

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