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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A beleza dramática do piano de Mal Waldron

Waldron e seu inseparável companheiro, o cigarro
Uma amiga, faz tempo, quando soube que eu ia viajar, pediu-me que trouxesse um produto da Clinique chamado “Dramatically Different Mosturizing Lotion”. Achei o nome um tanto forte e sugestivo, Ela não estava “dramaticamente estragada” e nem hoje está. O nome ficou na lembrança. Fato é que lembrei disso ouvindo o pianista Mal Waldron.

No início da carreira, tocou com o baixista Charles Mingus e com Billie Holiday em seus últimos dois anos. Rotulam-no como um representante do free jazz, mas não dá para classificá-lo nesse gênero particularmente. Quando ele passou a tocar profissionalmente, dominavam o cenário musical novaiorquino o bepop e o hard bop e é natural que tenha absorvido parte dessas linguagens.

Waldron, por excesso de trabalho e pelo consumo de algumas drogas ilícitas, sofreu um colapso nervoso e ficou afastado da cena musical de 1963 a 1969. O primeiro disco da “retomada” – Free at Last’ – foi também o primeiro da gravadora ECM, do alemão Manfred Eicher, que se tornaria conhecida por abrigar Keith Jarrett e por revelar talentos europeus “vindos do frio“, principalmente, da Escandinávia. Mal, a partir daí, gravou bastante, muita coisa em parceria com cantoras – Jeannie Lee, Abbey Lincoln, Judie Niemack –, e instrumentistas como David Murray, o avant-garde Steve Lacy e o baixista David Friesen, quase sempre com resultados muito bons. Seu piano começou a aparecer mais, em comparação às gravações das décadas de 1950/60: seus parceiros, geralmente, apareciam mais que ele. No belo disco The Quest, mesmo sendo as músicas de sua autoria, destacavam-se mais os solos do saxofonista e clarinetista Eric Dolphy e de Ron Carter tocando cello – quem tocava baixo era Joe Benjamin.

Não se pode considerar Waldron um improvisador por excelência, como Oscar Peterson ou Art Tatum são ou eram. Sua importância como intérprete se vale menos de “pirotecnias improvisatórias” e mais pelo modo personalíssimo de tocar e desenvolver os temas. Willow Weep for Me, que não é de sua autoria e está em Free at Last, é um bom exemplo: Waldron fica quase que tão somente na melodia, sem desdobrá-la em improvisos. Sua qualidade maior está em criar sonoridades diferentes. Um pouco como os “bops”, a tônica não está na melodia. A repetição dos motivos, a forma percussiva que ataca as teclas, sem floreios e o uso de poucas notas, dão um tom sombrio, “dramaticamente diferente”. Waldron “martela” nervosamente o teclado, porém, quando a música pede, toca com enorme delicadeza, sugerindo climas de paz, melancolia e um certo “lirismo impressionista”.

Foi lançado no meio de 2008 pela JustinTime um CD que é, provavelmente, a última gravação de Mal. Silence – duo do saxofonista David Murray e o pianista – foi gravado em Bruxelas, última morada de Mal, em 2001. Ele, depois do colapso nervoso, mudou-se para a Europa, vivendo, inicialmente na Alemanha e depois fixou residência em Bruxelas, onde morreu em dezembro de 2002. Dois anos anos antes apresentara-se no Chivas Jazz Festival. Ficara hospedado num flat na região dos Jardins e, no dia seguinte a sua apresentação, almoçava tranquilamente com outros músicos que estavam no Brasil, no Esplanada Grill. Um deles era Don Byron que, pela “cara-de-pau” de meu amigo Takashi Fukushima, viemos a conhecer. Mal fumava toneladas de cigarros. Uma amiga, fumante também, viajou no mesmo voo em que voltava para Bruxelas. Coincidência: em Roma, uma das escalas, encontraram-se… na área dedicada aos fumantes.

Murray tornou-se conhecido tocando no grupo “quase free” World Saxophone Quartet. Antes disso, em 1976, tinha lançado Low Class Conspiracy . Em seu primeiro disco sob seu nome, apresentava maturidade surpreendente para um jovem de vinte anos. Desde então, gravando solo, duos, trios, quintetos, octetos e bigbands, tem perto de uma centena de discos lançados. Mais surpreendente que a prolixidade é a de como consegue manter um bom nível de qualidade e a facilidade com que transita nos estilos jazzísticos, dos mais tradicionais aos mais experimentais.

A primeira faixa de Silence é uma antiga composição de Waldron em parceria com o baterista Max Roach – Free for C.T. –, em que David toca clarinete baixo. Nesse instrumento é capaz de atingir desde as notas mais graves às mais agudas com precisão impressionante e uma “alma” apenas comparável à do gênio Eric Dolphy, falecido precocemente em 1964. Murray, no sax-tenor, seu principal instrumento, sem dúvida, é um dos grandes virtuoses da atualidade. O início de Free… é uma pequena amostra das características de Waldron: notas e acordes que se intercalam entre os graves e médios, que se repetem e “potencializam” a força desta composição. O acompanhamento para o clarinete baixo é “seco” de acordes que se destacam mais pela forma sincopada que toca. O piano é majestoso, não é um simples acompanhante. Ele e o clarinete têm o mesmo peso até quando o solo é de Murray.

O “mood” do disco é de interpretações que realçam as características do piano de Mal: à exceção de Silence, composição de Murray – que é um belo “showcase” de seu estilo no sax-tenor – e Jean-Pierre, da última fase de Miles Davis, o restante é de baladas. Delas, a mais bela é a do clássico de Waldron – Soul Eyes –, também a faixa mais longa do CD, em que o pianista executa um solo belíssimo. É a outra, além de Free for C.T., em que Murray toca clarinete baixo. Inicia-se com um solo de quase sete minutos e é uma bela amostra da maestria de Murray como improvisador. Nos dois standards, I Should Care, de Sammy Cahn, Alex Sttordahl e Paul Weston, e All Too Soon, de Duke Ellington, os dois “arrasam”; a primeira, principalmente, é “dramaticamente” impecável.

Ouça o piano dramático em sua Seagulls of Kristiansund, aqui acompanhada pela fantástica Jeanne Lee.


Publicado pela primeira vez no meu outro blog (Da lata), em 26/72011.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

World Saxophone Quartet foi pura inovação

Na adolescência, tinha amigos mais e menos caretas (essa é uma expressão demodé, mas quem não a conhece desconfia o que pode significar). Transigir faz parte do crescimento das pessoas, principalmente nesse período. É uma maneira de conhecer o novo. Por isso, pelo menos nos anos 1960/70, experimentar drogas leves como a maconha era considerado perigo supremo, assim como as moças não serem mais virgens. Era a forma de você ir contra o sistema.

Bom, não sei se tem a ver ou não, mas a minha turma não estava a fim de ficar a ouvir Chico Buarque ou MPB4. Queriam ouvir Emerson, Lake & Palmer, Rolling Stones, Led Zeppelin, King Crimson e outros mais. Até os Beatles eram um tanto certinhos para alguns. Ainda bem que as pessoas mudam e reavaliam suas opiniões. Pelo menos, aquele que não gosta de Chico pode ter argumentos mais racionais além do “não gosto e pronto”.

Por algum acidente e uma curiosidade enorme, meus interesses musicais se expandiram para o jazz, inicialmente por algumas bandas de membros oriundos dos anos elétricos de Miles Davis, como Weather Report, liderado por Joe Zawinul, Wayne Shorter e Miroslav Vitous, Return to Forever, liderado por Chico Corea, e, saindo desse espectro, a inglesa Soft Machine. Melhor: era o que via como jazz.

Com o tempo, parecido ao que aconteceu quando tinha 13 ou 14 anos, por curiosidade também e por ler bastante sobre o assunto – passei a assinar a revista Downbeat –, comecei a procurar conhecer o que era considerado “mainstream” e, portanto, careta e antiquado: Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e outros. Aliás, quando estava nos primeiros ano da faculdade, saíra uma leva de álbuns de Tatum. Gostei tanto que amigos que vinham em casa, eram obrigados a ouví-los. Um dos discos era do pianista com Ben Webster. Até hoje é um dos meus “desert island records”.

Apaixonei-me pelo saxofone tenor. Eram meus ídolos Ben, Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane e, depois, Dexter Gordon. 

O quarteto original
Um quarteto de ases
Uma amiga, depois de um casamento frustrado, que não deve ter durado um ano, foi passar uma temporada na Califórnia. Voltou com vários discos na bagagem. Um deles era “Low Class Conspiracy”, de David Murray. Outro era “Steppin’ with The World Saxophone Quartet”. Peguei emprestado, aliás, todos os LPs, e gravei-os em fitas cassete, a mídia regravável mais comum à época.

A partir de então, outro saxofonista entrou na minha lista. Era um jovem de 21 anos quando gravou “Low Class Conspiracy”. Tinha a ferocidade de Albert Ayler, saxofonista avant garde morto seis anos antes deste álbum, aparentemente por suicídio, mas com um som menos áspero e mais palatável. Murray, com Fred Hopkins e Steve Wilson, os que tocaram com ele no disco, eram parte da linha evolutiva que teve Ayler como um de seus expoentes. Minha amiga não tinha gostado dele. Tentei fazer com que ela o vendesse para mim. Mas, não gostava de se desfazer das coisas, mesmo que não gostasse. “Low Class” apresentou-me outro veio a ser explorado. Assim, interessei-me por Anthony Braxton, Art Ensemble of Chicago, Air, belíssimo trio formado por Henry Threadgill, Steve McCall e Hopkins, o mesmo que tocou com Murray, e outros, membros da célebre AACM – Association for the Advanced of Creative Musicians.

“Steppin’” era tão inusitado quanto o segundo álbum de Murray como líder. Formado por ele, no saxofone tenor e clarineta baixo, Julius Hemphill, no sax alto, soprano e flauta, Oliver Lake no alto e soprano, e Hamiet Bluiett na clarineta alto e sax barítono, o World Saxophone Quartet fazia um jazz avant-garde sem a chatice de algumas outras formações e, além de tudo, tinham humor. Ao longo do tempo, a formação mudou e hoje é menos interessante. 

Ouça “P.O. Cairo”, do primeiro álbum da banda.



Óbvio que chega uma hora em que a fórmula se esgota e cansa até seus membros. Além da troca de alguns, por morte, inclusive, caso de Julius Hemphill, falecido em 1995, em alguns álbuns houve o acréscimo de outros músicos, como Jack DeJohnette e percussionistas africanos, em “Selim Sivad” (1998), tributo a Miles Davis, ou em “Breath of Life” (2006), em que contam com Fontella Bass nos vocais, Donald Smith ao piano, Amina Claudine Myers no órgão e piano, além de baixistas e bateristas, o que, na minha opinião, faz perder um pouco a graça de o ritmo das composições ser marcado pelos contrastes entre os registros da cada instrumento de sopro.

Ao longo do tempo, alguns outros saxofonistas fizeram parte da banda, como Arthur Blythe, Eric Person, James Carter e James Spaulding. Os melhores álbuns são os que foram lançados pelo selo italiano Black Saint. Posteriormente, foram para a Elektra Nonesuch. São bons ainda, dentre os quais, destacam-se “WSQ Plays Duke Ellington”, “Selim Sivad”, e “Rhythm and Blues”. Passaram para a canadense Justin Time, e “Yes We Can”, de 2010, pela Jazzwerkstatt, slogan da campanha do ex-presidente Barack Obama.

Ouça o clássico “In a Sentimental Mood”, de WSQ Plays Duke Ellington, de 1986.



Duke Ellington é um dos gênios do jazz. Deixou muitos belos temas. Ouça “Come Sunday”.



Outro bom álbum é “Rhythm and Blues”, com clássicos da música negra, como “Night Train”, Let’s Get It On”, “(Sittin’ in the) Dock of the Bay” e “Try a Little Tenderness”.



Gravaram também “Experience” (Justin Time 2004), tributo a Jim Hendrix. É menos interessante, mas vale ouvir e ver a banda tocando “Foxy Lady”. Nesse disco, contam também com Billy Bang no violino, Matthew Garrison no baixo, Craig Harris no trombone e Gene Lake na bateria. No lugar de Julius Hemphill, toca Bruce Williams.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Muitos lançamentos, além da ECM

Na postagem anterior, listei os principais lançamentos pela ECM. Não é a única a nos brindar com bons discos.

Muita coisa mudou na estrutura e grandes selos importantes do jazz como o Verve, criado por Norman Granz, e abrigou estrelas como Ella Fitzgerald e Oscar Peterson, não existem mais, pelo menos, nos modelos em que os conhecemos. Se não me engano, agora, pertence ao Universal Music Group, e controla também selos da música erudita, como a Deutsche Grammophon, Decca Classics, Mercury Classics; e é responsável pela distribuição mundial do catálogo da ECM.

Um dos chefões da Verve é David Foster, um produtor que mira mais as vendas do que a qualidade. E não vemos mais álbuns de jazz com o antigo logotipo Verve. Sua estrela é Diana Krall e parece ser a única do casting. Estranho, muito estranho.

Como “filhos” da Verve, destacam-se o Impulse, que abriga Madeleine Peyroux, Sarah McKenzie, John Scofield, Indra Rios-Moore, e o tradicional Blue Note, cada vez menos voltado ao jazz.

Fora da Universal, temos a alemã ACT Music, que comemora 25 anos, e possui um dos melhores catálogos da atualidade. O Concord Group, que cresceu muito, abarca uma série de selos, como a Telarc, Heads Up, Stax e o Concord Jazz.

Vamos aos destaques.

A imagem de José James no novo álbum
Blue Note
• Gregory Porter: “Take Me to the Alley”
• José James: “Love in a Time of Madness”
• Kandace Springs: “Soul Eyes”
• Nels Cline: “Lovers”
• Norah Jones: “Day Breaks”
• Robert Glasper Experiment: “Artscience”
• Terence Blanchard: “The Comedian Soundtrack”
• Trombone Shorty: “Park Lot Symphony”

O selo tem os dois cantores mais apreciados da atualidade. Gregory Porter desbancou o longo reinado de Kurt Elling como o melhor cantor de jazz. Como outro destaque do selo, José James, o rótulo “jazz” é pequeno para o que desenvolvem. É uma fusão do jazz, com fortes influências do soul, rhythm’n’blues,  gospel, além da incorporação da eletrônica, mais no caso de James. São duas vozes poderosas e dois talentos criativos. Norah é Norah. “Day Breaks” é um álbum muito agradável. Robert Glasper começou “pianinho”. Impressionou a crítica. O mesmo foi com Trombone Shorty. Começaram com gravações “mais jazz”, para capturar a crítica, como Esperanza Spalding, e partiram para projetos mais pessoais e não possuem alguma relação com o que reconhecemos como jazz. Não é uma crítica;  é uma constatação.

Kandace Springs é mais conservadora, comparando-se com os citados. Terence Blanchard, que surgiu na época de Wynton Marsalis, também. Nels Cline faz o percurso inverso: guitarrista da banda alternativa Wilco, o veterano tem feito bons discos instrumentais, seja como líder ou em parceria com guitarristas como o “newcomer” Julian Lage.

Ouça “Closer”, de José James.




Gregory Porter é a voz do momento, com James. Ouça “Take Me to the Alley”.




Ouça “The Bond”, de Nels Cline.




ACT Music
• Eric Schaefer: “Kyoto Mon Amour”
• Iiro Rantala, Lars Danielsson, Peter Erskine: “How Long Is Now?”
• Jan Lundgren: “Postdamer Platz”
• Julian & Roman Wasserfuhr: “Landed in Brooklyn”
• Lars Danielsson: “Liberetto III”
• Natalia Mateo: “De Profundis”
• Richie Beirach & Gregor Huebner: “Live at Birdland New York”
• Ulf & Eric Wakenius: “Father and Son”
• Victoria Tolstoy: “Meet Me at the Movies”
• Emile Parisien, Vincent Peirani, Andreas Schaerer, Michael Wollny: “Out of Land”
• Youn Sun Nah: “She Moves on”

A alemã ACT Music, fundada por Siegfried Loch, acaba de completar 25 anos de vida, e é uma das melhores gravadoras da atualidade. Foi nela que o genial pianista Vijay Iyer se consagrou como um dos novos nomes do jazz – grava atualmente na concorrente ECM – e foi responsável por tornar conhecido o trio e.s.t., de Esbjörn Svensson, tragicamente falecido fazendo mergulho. Com um elenco de bons músicos alemães, escandinavos e outros da Europa Oriental, a ACT vem sendo uma garantia de boa música.

Dentre as cantoras, a coreana Youn Sun Nah é a de maior prestígio internacional. Conta também com Victoria Tolstoy, que tem entre seus maiores atributos a beleza e o parentesco com o escritor russo Liev Tolstói. Natalia Mateo é uma das boas revelações. Diferente, é muito interessante.

Infelizmente, as canções do CD mais recente foram bloqueadas no YouTube. Mas como Mateo é uma intérprete que merece ser conhecida, ouça “Strange Fruit”, do penúltimo.




Não tive tempo de escutar todos os lançados pela ACT, mas dos que ouvi, “Father & Son”, de Ulf Wakenius, com seu filho Eric, é muito bom. Ouça o brilhante duo de violões, em “Birdland”, de Joe Zawinul.




Outras gravadoras
• Aki Takase & David Murray: “Cherry - Sakura” (Intakt)
• Akua Dixon: “Akua’s Dance” (self released)
• Andrea Motis: “Emotional Dance” (Impulse)
• Beata Pater: “Fire Dance” (B&B Records)
• Becca Stevens: “Regina” (GroundUP)
• Benny Green: “Happiness!” (Sunnyside)
• Betty Buckley: “Story Songs” (Palmetto)
• Billy Childs: “Reborn” (Mack Avenue)
• Bobby Watson: “Made in America” (Smoke Sessions)
• Cameron Graves: “Planetary Prince” (Mack Avenue)
• Chano Dominguez: “Over the Rainbow” (Sunnyside)
• Chick Corea: “The Musician” - 3 CDs + 1 DVD (Concord)
• Chris Thile & Brad Mehldau: “Chris Thile & Brad Mehldau” (Nonesuch)
• Christian Scott aTunde Adjuah: “Ruler Rebel” (Ropeadope)
• Christian Sands: “Reach” (Mack Avenue)
• Cuong Vu 4-tet: “Ballet | The Music of Michael Gibbs” (Rarenoise)
• Daniel Herskedal: “The Roc” (Edition Records)
• David Binney: “The Time Verses” (Criss Cross)
• David Gilmore: “Transitions” (Criss Cross)
• Dayna Stephens: “Gratitude” (Contagious)
• Diana Krall: “Turn Up the Quiet” (Verve)
• Dwiki Dharmawan: “Pasar Klewer” (Moonjune)
• Eliane Elias: “Dance of Time” (Concord)
• Enrico Pieranunzi: “New Spring | Live at The Village Vanguard” (Cam Jazz)
• Eric Alexander: Second Impression” (HighNote)
• Ethan Iverson: The Purity of the Turf” (CrissCross)
• Giacomo Gates: “What Time Is It?” (Savant)
• Jazzmeia Horn: “A Social Call” (Prestige)
• Jeremy Pelt: “Make Noise” (HighNote)
• Joey DeFrancesco: “Project Freedom” (Mack Avenue)
• Julian Lage & Chris Eldridge: “Mount Royal” (Free Dirt Records)
• Julian Lage: “Live in Los Angeles” (Mack Avenue)
• Kendra Shank & Geoffrey Keezer: “Half Moon | Live in New York”
• Kevin Eubanks: “East West Time Line” (Mack Avenue)
• Kurt Elling: “Sings Christmas | The Beautiful Day” (Okeh)
• Kurt Rosenwinkel: “Caipi” (Heartcore)
• Linda May Han Oh: “Walk Against Wind” (Biophilia)
• Madeleine Peyroux: “Secular Hymns” (Impulse)
• Matthew Stevens: “Preverbal” (Rodeadope 339)
• Miles Okazaki: “Trikster” (Salis Sea)
• Miroslav Vitous: “Ziljabu Nights” (Intuition)
• Noah Preminger: “Meditations on Freedom” (self released)
• Olivier Le Goas: “Reciprocity” (Neuklang)
• Omar Sosa & Seckou Keita: “Transparent Water” (Otá)
• Regina Carter: Ella: “Accentuate the Positive” (Okeh)
• Richard Galliano: “New Jazz Musette” (Ponderosa Music & Art)
• Roberto Fonseca: “ABUC” (Impulse!)
• Steve Nelson: Brothers Under the Sun” (HighNote)
• The Jazz at The Lincoln Center Orchestra: “The Music of John Lewis” (Blue Engine)
• Tigran Hamasyan: “An Ancient Observer” (Nonesuch)
• Tom Harrell: “Someting Gold, Something Blue” (HighNote)
• Troy Roberts: “Tales & Tones” (Inner Circle)
• Yelena Eckemoff: “Blooming Tall Phlox” (L&H)
• Yilian Cañizares: “Incocación” (Naïve)
• Yotam Silverstein: “The Village” (Jazz & People)

O tão esperado novo disco de Diana Krall é mais ou menos como o “tão esperado novo disco” de Marisa Monte. É mais ou menos o mais do mesmo. Não que isso signifique um trabalho ruim. “Turn Up the Quiet” é um bom disco, como qualquer outro dela. Diana chegou naquele ponto em que não faria coisa ruim, nem que quisesse. Esse álbum é resultado da competência adquirida pela experiência e talento natural. Ninguém vai dar cinco estrelas, porque não é superior aos seus melhores trabalhos. É mais jazz que os dois anteriores. O repertório de “Wallflower” era calcado em sucessos pops, como “Desperado”, dos Eagles, e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, de Elton John e Bennie Maupin. As canções de “Glad Rag Doll” são mais antigas; são temas que conheceu por meio das preferências de seu pai.

No setor de vozes, a boa novidade é a espanhola Andrea Motis. Com apenas 21 anos, Andrea transmite uma segurança não muito frequente para uma garota dessa idade. Lançou-se cedo na música, com 14 anos, participando da banda de Joan Chamorro, músico que tem revelado bons talentos em Barcelona. Motis tem futuro. É bela, é afinada e além de cantar, toca trompete, o que lhe dá um charme especial. “Emotional Dance” é seu primeiro álbum por uma gravadora maior.

O melhor dos álbuns vocais citados é o despojado “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux. Muito bom mesmo.

Veja Andrea Motis a cantar “He’s Funny that Way”.




Ouça “Tango till They’re Sore”, com Madeleine Peyroux.




Dessa avalanche de lançamentos, impossível ouvir todos para se fazer algum juízo. Dos aqui listados, gostei muito de “Sakura”, duo com Aki Takase e David Murray. Os dois são identificados como avant garde, mas perfeitamente palatáveis. Acompanho Murray desde “Low Class Conspiracy” (1976). Sou fã até hoje. “Sakura” é um dos meus preferidos do ano. Outros muito bons – vou pela ordem alfabética:
— “Akua’s Dance”, da excelente violoncelista Akua Dixon;
— “Happiness”, de Benny Green, excelente pianista;
—  “Story Songs”, da cantora e atriz de musicais, como “Cats”, álbum duplo com temas de várias épocas, mas com temas mais contemporâneos, como os de Peter Gabriel, Sting, Leonard Cohen e Joni Mitchell;
— Tudo o que Billy Childs faz é bom. Inexplicável que não seja mais conhecido, tanto como compositor como tecladista e arranjador. “Reborn” é excepcional;
— O álbum de Chris Thile em duo com Brad Mehldau é bem interessante. Bandolinista e cantor, trafega à vontade no erudito, jazz e no folk. Lançou recentemente um CD com Yo-Yo Ma e Edgar Meyer, dedicado ao repertório de Johann Sebastian Bach;
— Christian Scott, que agora, assina Christian Scott aTunde Adjuah, tem novo CD na praça. “Ruler Rebel” não está entre seus melhores. Já seu xará, Christian Sands, manda bem com “Reach”, em sua estréia pelo Mack Avenue;
— Cuong Vu tinha impressionado em “Cuong Vu Meets Pat Metheny”. O vietnamita faz parte da banda de Pat e agora lança o belo “Ballet | The Music of Michael Gibbs”;
— “New Spring”, ao vivo no Village Vanguard, é mais um disco de Enrico Pieranunzi acompanhado de Scott Colley e Clarence Penn, nesses registros, com o saxofonista Donny McCaslin. O italiano é outro que nos álbuns recentes mantêm a qualidade em cima, como Eric Alexander, com “Second Impression”. É atualmente uma das vozes mais vigorosas do saxofone tenor. Ethan Iverson, pianista de The Bad Plus, em “The Purity of the Turf”, conta com outros companheiros: Ron Carter e Nasheet Waits. Ambos são garantia de boa música;
— Além de Diana Krall, na lista das vozes, temos Giacomo Gates, Jazzmeia Horn, Kurt Elling, Kendra Shank e Becca Stevens. De todos – Elling, Gates e Kendra Shank são veteranos –, a grande novidade é Jazzmeia Horn. Vencedora do Thelonious Monk International Jazz Vocal Competition de 2015, foi contratada pelo grupo Concord, por meio do selo Prestige (é um dos labels mais tradicionais do jazz e, vejam como essas mudanças são estranhas). Tem cancha e é craque nos scats e outros “truques” do jazz, o que pode levar a juízos equivocados, mas é boa, e se for bem assessorada, pode se transformar em uma das melhores cantoras.

Não é à toa que o álbum de estreia se chame “A Social Call”. Revela influências de Betty Carter. Ouça sua interpretação desse jazz standard.




Veja Kendra Shank, com Geoffrey Keezer.




Veja Aki Takase e David Murray, em “Bright Mississippi”, de Thelonious Monk.





quinta-feira, 6 de abril de 2017

Morre Arthur Blythe

Tem coisas que marcam. Até um simples disco. No meu caso, foi a primeira vez em que ouvi “Special Edition” (ECM, 1980). Dentre as “14 Mais” desta minha vida, é uma delas. Vários de meus ídolos estavam nesse álbum, presencialmente ou não: Zoot Sims, Eric Dolphy, John Coltrane e Jack DeJohnette, o líder dessa edição especial. Admirava David Murray desde “Low Class Conspiracy”, lançado em 1976, que conheci por meio da amiga Lu, que acabava de voltar dos Estados Unidos com uma dezena de LPs. O contraste com o som mais bojudo do sax tenor e o da clarineta baixo era o alto de Arthur Blythe. Minhas antenas se direcionaram a ele, que até então, não conhecia.

“One for Eric” é um dos destaques do álbum “Special Edition”.



Acho que o primeiro LP que comprei dele foi “In the Tradition” (Columbia, 1978), lançado no Brasil. Os “tradition” eram “Jitterburg Waltz” (Fats Waller), “In a Sentimental Mood” (Duke Ellington), “Caravan” (Juan Tizol), e outro, mais recente, a clássica balada “Naima” (John Coltrane. As duas restantes são de Blythe. Sidemen de respeito: Stanley Cowell, Fred Hopkins e Steve McCall; os dois últimos, com Henry Threadgill, formavam outro trio matador, o Air.

Ouça “Jitterburg Waltz”.



Mas o álbum que realmente me fez gostar dele foi “Illusions” (Columbia, 1980). Todos os temas são de sua autoria. O maior valor está na instrumentação, bem diferente, com marcações da tuba de Bob Stewart, às vezes, substituindo o contrabaixo, o violoncelo de Abdul Waduh, em três faixas, e a guitarra de James Blood Ulmer, como sempre, surpreendente. Outros bons momentos acontecem com Fred Hopkins ao contrabaixo, como em “Miss Nancy”, a bateria de Steve McCall e o piano de John Hicks. São todos músicos de primeira, o que faz uma boa diferença.

Blythe era um grande baladista, como se percebe em “My Son Ra”.



Alguns músicos como Abdul Waduh, Bob Stewart, que participaram de vários álbuns de Blythe, e outros, como Hamiet Bluiett, Lester Bowie, Chico Freeman e Famoudou Don Moye, demonstravam uma preferência dele pelo jazz avant-garde. É uma razão para que não tenha ficado tão conhecido como outros altoístas.

Com o tempo, deixei de acompanhar melhor a carreira de Blythe, sem nunca ter deixado de ouví-lo em alguns discos sob seu nome ou em outros como quando passou a ser um dos membros do World Saxophone Quartet, ou do Roots, onde tocou com outras feras do saxofone, como Chico Freeman e Sam Rivers. Dentre as minhas recomendações, incluo “Stablemates” (1993), “Saying Something” (1995).

Ouça a clássica “Stolen Moments”, de Oliver Nelson.




Desde 2005, Blythe estava com o mal de Parkinson, o que acabou por obrigá-lo a se afastar da música. Seus amigos até fizeram uma campanha de arrecadação de fundos para o tratamento da doença. Agora, em 27 de março, faleceu, com 76 anos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As multifases do polirrítimico Jack DeJohnette

Jack e seu arsenal percussionístico
Tal como foi dito em outro post (O tempo em movimento com Jack DeJohnette), Jack DeJohnette nasceu em Chicago e iniciou-se musicalmente na cena vanguardista dessa cidade que é um dos grandes centros do jazz e do blues. Foi para lá que Louis Armstrong se mudou em 1922, para tocar com King Oliver na Creole Jazz Band. A partir daí, tornou-se um dos lugares preferidos dos músicos.

Aos 74 anos, completados em agosto último, é ainda um dos melhores bateristas do mundo. E o melhor, continua a nos surpreender. Basta dizer que seus últimos dois álbuns, “Made in Chicago” (ECM 2015), com a ‘velha” vanguarda, que atende pelos nomes de Muhal Richard Abrams, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell e Larry Gray, e o mais recente “In Movement” (ECM 2016), com os jovens Matthew Garrison e Ravi Coltrane, ambos filhos dos geniais, respectivamente, Jimmy Garrison e John Coltrane, demonstram que sempre esteve na ponta da evolução do jazz. Não é fácil. São mais de 50 anos como profissional.

Quando criança, estudou piano clássico com professores em casa e depois no Chicago Conservatory of Music. Entrou na cena musical como pianista e baterista. Teve os horizontes ampliados a partir do contato com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais importante centro da vanguarda do jazz.

Passou pouco tempo na banda de Charles Lloyd, a mesma que teve outro membro em início de carreira e, como ele, genial. Por obra do destino, os dois, DeJohnette e Keith Jarrett, com o baixista Gary Peacock, no futuro, iriam formar um dos trios mais consagrados e longevos.

Os caminhos de Keith e Jack foram se cruzando em vários momentos. Tocaram com Miles Davis nos anos 1960 e depois partiram para brilhantes carreiras solo. O primeiro lançou seus primeiros discos pelos selos Atlantic e Impulse. Jack lançou, em 1968, seu primeiro como líder: “The Jack DeJohnette Complex”, pela Milestone, e logo depois, “Have You Heard” (1970). Passou para a Prestige e lá saíram “The Sorcerer” (1974) e “Cosmic Chicken” (1975).

Os dois passaram a gravar também pelo selo ECM. Jarrett lança seu primeiro LP em 1971: “Facing You”. No ano seguinte, com DeJohnette, em duo, gravam “Ruta and Daytia”. Se não me engano, é a última vez que toca algum instrumento eletrônico. Aqui, desdobra-se no piano acústico, elétrico, flauta e órgão. Jack toca bateria e vários instrumentos de percussão. Não foi um disco que teve tanta receptividade, mas é muito bom, principalmente, por ser bem experimental e ter a percussão como protagonista.

Ouça “You Know, You Know”, uma das faixas mais interessantes, com Keith ao piano elétrico.




Primeiros na ECM
Depois desse álbum, DeJohnette participa de “Timeless”, de John Abercrombie. Grava mais alguns com o guitarrista como membro da banda Gateway.

Em seu primeiro como líder, na ECM, “Untitled” (1976), sua banda Directions conta com John Abercrombie, seu companheiro na Gateway, Warren Bernhardt nos teclados, Alex Foster nos saxes soprano e tenor, e Mike Richmond no contrabaixo. A maioria das composições ou é de DeJohnette sozinho ou em parceria. Há poucos bateristas que compõem, comparados a outros instrumentistas, mas Jack é um caso à parte, por ter aprendido a tocar piano, além de arranhar no saxofone. É por isso também que a sua bateria apresenta um colorido tonal. Manfred Eicher conseguiu imprimir uma marca, que até ficou conhecida como “ECM sound”. “Untitled” não foge à regra, e é uma grande estreia de Jack nessa gravadora.

Um grande tema é “The Vikings Are Coming”. Ouça.




Jack participou de vários álbuns de outros do cast da gravadora, como Kenny Wheeler, Bill Connors, Gary Peacock e Terje Rypdal, dentre outros. Com o seu Directions, lançou “New Rags” (1977).

Ouça “Seasons”, do brilhante álbum em que o baterista toca com Miroslav Vitous e a guitarra impressionante de Terje Rypdal. Esse álbum, lançado em 1979, é uma de suas grandes participações.




Novas direções
Com nova formação – Lester bowie no trompete, Eddie Gomez no baixo, e o mesmo Abercrombie na guitarra –, lançou o álbum “New Directions” (1978). Seria ainda lançado uma ao vivo dessa banda, em 1979, o “New Directions in Europe”.

Ouça “Silver Hollow”, com DeJohnette ao piano, em composição própria. O trompete é de Lester Bowie.




É de 1980 o melhor disco de Jack DeJohnette, na minha opinião. Fiquei chocado quando ouvi pela primeira vez. Deixou de ser Directions e montou a Special Edition, com músicos mais ligados à avant garde: David Murray no sax tenor e na clarineta baixo, Arthur Blythe no sax alto, Peter Warren no baixo e violoncelo, e Jack, an bateria, piano e melódica. Duas das composições são de John Coltrane (“Central Park West” e “India”), e as três restantes, de sua lavra: “One for Eric”, “Zoot Suite” e “Journey to the Twin Planet”. As referências, ou homenagens, são claras. A primeira, para Eric Dolphy, precocemente falecido, um gênio no sax alto, flauta e clarineta baixo; a segunda, para Zoot Sims.

Ouça a genial “One for Eric”.



“India”, de John Coltrane, é outro destaque, com Johnette ao piano, no início. Atenção ao solo de David Murray na clarineta baixo e de Arthur Blythe no sax alto.



Como Jack DeJohnette’s Special Edition, lançou mais dois álbuns de estúdio – “Tin Can Alley” (1981) e “Album Album” (1984) – pela ECM, igualmente bons, mas não como o primeiro. Também, seria demais, porque é um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos. Com formações diferentes, o comum é o contraste entre instrumentos de sopro mais agudos e mais graves. Em “Tin Can Alley”, Chico Freeman toca sax tenor, e John Purcell o alto e o barítono, além dos dois na flauta. No seguinte, são três: Purcell no alto e no soprano, David Murray no tenor, e Howard Johnson na tuba e no sax barítono. Pela ordem, o primeiro é o melhor, o último é o segundo, e “Tin Can Alley”, o menos bom. Em “Album Album”, temos uma outro tema genial, que vale o disco inteiro.

É “Ahmad The Terrible”. outra referência a um grande músico. Ouça. Os saxes são maravilhosos.




O outro caminho
Para quem imaginava que DeJohnette e Keith Jarrett não mais se encontrariam, engano. Lançaram “Standards 1”, pela ECM, em 1983, com Gary Peacock no contrabaixo e estava formado um dos trios mais longevos da história. São cerca de 20 álbuns lançados pela ECM. O último, se não me engano, é “Somewhere”, de 2009. Nada impede que voltem a gravar juntos. Vamos esperar.

Septuagenário, Jack não para. O último álbum lançado é coisa fina, como se dizia antigamente. Foi comentado neste blogue. O link está no primeiro parágrafo.