quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O eterno Graham Nash

David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash
Preciso verificar de que ano é o show de Graham Nash que vejo nesse momento. Mas, em um trecho, Nash diz ao público que Joni Mitchell está bem, saiu do hospital e está em casa. Em seguida, adivinhe, canta “Our House”. Na apresentação, é só ele e Shane Fontayne na guitarra a acompanhá-lo. Ao terminar, faz um comentário sobre como surgiu a inspiração para uma das composições mais românticas dele. Bem humorado, reforça as diferenças entre eles. “Eu gosto do fogo”, ao referir-se à lareira acesa, e sobre as flores que Joni tinha comprado. Mas tudo faz parte de uma passado distante. São mais de trinta anos. O romance terminou; ele e Joni continuam bons amigos. [leia sobre “Our House”: Joni Mitchell e seus amores]

Há coisas muito estranhas. Uma é de como algumas de nossas convicções da juventude ficam presentes a vida inteira. Isso não significa que seremos eternos nostálgicos. Nash envelheceu, como todos nós, e até aqueles que nasceram quando Nash foi convidado por David Crosby e Stephen Stills para montar um dos grandes trios do que classificavam como country-folk-rock. Nash é inglês e fez parte do The Hollies, portanto, está distante das raízes musicais dos dois primeiros.

As principais bandeiras de luta de Nash continuam as que defendia nos anos 1960: anti-belicista, preocupa-se ainda com a ecologia e com o clima.

Algumas relações duram anos, algumas alguns instantes, como diz Nash, mas há algo de perene e é o que importa. É delicioso ver que algumas amizades são para a vida inteira, e o mesmo se pode dizer de algumas paixões, como as lembranças que surgem a cada audição de uma canção que ouvimos quando tínhamos 12 ou 13 anos. Não é nostalgia. É aquela emoção que nos arrebatou quando éramos jovens e perdura.

Ao assistir a um show de Nash, de 2016, vemos um septuagenário, bem, vamos abstrair um pouco; algo faz sermos eternamente jovens. Na minha imaginação o “maluco beleza” era David Crosby, Stephen Stills e Graham os certinhos. Sabe-se das várias internações de Crosby. Neste “An Evening with Graham Nash”, em que entremeia música e explicações de como foram gestadas, descubro o tanto das que foram inspiradas em “viagens”, de ácido lisérgico, principalmente. Fala, por exemplo, da bela “Cathedral”. Apesar de inspiradas por drogas, são sempre em cima de fatos e situações. Nesse caso, a letra é inspirada nas ruínas de Stonehenge, que resolveu visitar em um dia de folga, quando estava em excursão em Londres. Em sua “viagem”, às sete da manhã, está indo para Stnehenge. “Estou voando na catedral de Winchester/ A luz solar atravessa o início do dia./ Tropeça pela porta e entra na câmara/ […] / E agora estou de pé no túmulo de um soldado que morreu em 1799/ E o dia em que ele morreu foi um aniversário/ E notei que era meu./ E minha cabeça não sabia exatamente quem eu era.”
 
Ouça “Cathedral”, com Crosby, Stills & Nash.




Se as composições de Nash, musicalmente são sempre belas e melódicas, ficam mais quando percebemos que suas inspirações acontecem tendo como gatilho fatos ocorridos na sua vida, como o de “Our House” – o ponto de partida foi um vaso que Joni Mitchell viu em uma loja de antiguidades – , ou “Cathedral”. Sua outra face visível nos mostra seu envolvimento com as lutas políticas e sua posição antibelicista. São de sua autoria “Military Madness”, “Immigration Man”, “Prison Song” e “Soldiers of Piece”.

“Chicago” é uma das grandes composições e foi inspirada nos tumultos ocorridos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, e a prisão de oito manifestantes acusados de incitar uma revolta. Nash termina a canção com os versos “We can change the world/ rearrange the world.” Não é tão fácil mudar o mundo, mas a força de “Chicago” é impressionante.


“Chicago”, do show “Daylight Again”, com Crosby, Still & Nash.