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terça-feira, 25 de março de 2014

Tragam-me o piano de Alfredo Rodriguez

O pianista Alfredo Rodriguez, a mais nova revelação 
Os melhores produtos de exportação de Cuba são rum, charutos e pianistas. Podem ser incluídos médicos e assessoria militar. Do primeiro, o Brasil é um dos maiores importadores e a Venezuela conta com contingente militar assessorando Nicolás Maduro para reprimir os revoltosos.

Não sou fã de rum depois da monumental ressaca com que fui acometido em razão de algumas doses do nobre destilado, envelhecido por 12 anos em barricas de carvalho, trazidas por uma amiga que recebera de presente do staff do então governante Fidel Castro. Os charutos, infelizmente, fumo-os por vício e não especificamente por prazer. É, no mínimo, um por dia; isso porque estou em processo de tentar parar.

Mas, vamos falar de um produto de exportação de valor universal: a música. Devido a proximidade geográfica, Cuba era importante ponto turístico pela beleza da paisagem e os clubes noturnos. Ricaços possuíam luxuosas residências, com direito a campos de golfe, outros eram donos até de plantações de tabaco. Até o genial pianista Arthur Rubinstein, bon-vivant, apreciador de boas bebidas e charutos possuiu a sua.

Quando o ditador Fulgêncio Batista caiu, os cassinos e clubes foram fechados. Um sem número de músicos, que tocavam nesses lugares, viram-se sem trabalho da noite para o dia. Alguns como Bebo Valdés saíram do país. A maioria ficou por lá e deixaram de ter suas vidas de fausto e foram obrigadas a encarar até trabalhos braçais. No meio deles, estavam Compay Segundo, Pio Leyva, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rubén González e outros que, antes tarde do que nunca, foram “redescobertos” após a exibição do documentário Buena Vista Social Club.

Rubén González tinha se retirado da cena musical. Quando convidado a participar da gravação de Afro-Cuban All Stars, por Juan de Marcos Gonzalez, recusou alegando sofrer de artrite e não mais chegar perto do piano há 11 anos. Acabou por topar em razão da insistência. Na mesma época, Ry Cooder estava em Havana para gravar Buena Vista Social Club. Ouviu González tocando no estúdio da Egrem. Ficou impressionado com sua versatilidade. Antes, chegara a trabalhar como engraxate.

Como consequência do sucesso do álbum organizado por Cooder e do documentário, vários de seus participantes lançaram discos solo. Um deles foi Introducing… Rubén González. Ironia o “introducing”: tinha 77 anos a era uma das revelações da música. Ry Cooder afirmara que ele era o maior solista de piano que já ouvira em sua vida.

Ouça Sibonney, de Ernesto Lecuona, com González.



Outro grande pianista cubano seria “revelado” por meio de um documentário: Bebo Valdés. Poucos anos depois de Buena Vista Social Club, o espanhol Fernando Trueba realizou Calle 54, abordando o jazz latino-americano. Alguns dos participantes, como Eliane Elias, Gato Barbieri e Paquito D’Rivera, este, um refugiado do regime castrista, eram conhecidos, mas Bebo, não. Pouco após a queda de Batista, foi para os EUA, México e, por fim, fixou-se em Estocolmo. Suecos gostam de jazz mas, convenhamos, seria difícil que alguém fosse se lembrar de Bebo “escondido” em um lugar como lá.

Trueba realizou outros documentários tendo como protagonista Bebo. Num deles, o cubano vai parar na Bahia (El Milagro de Candeal, 2004). Nele é mostrado o belo trabalho social de Carlinhos Brown com os meninos do Candeal. O outro é estritamente musical. É o encontro de El Cigala e o cubano e o show Lágrimas Negras, que fizeram juntos.

Vejo El Cigala e Bebo em Veinte Años.




Pianistas pós-revolucionários

Como Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba é filho de pianista, o primeiro, de Bebo, e ele, de Guillermo Rubalcaba. Um jornalista brasileiro desavisado, na ocasião em que veio ao Brasil (sua relação com o país tornou-se estreita e chegou a gravar com Ivan Lins), escreveu que era filho de Rubén González. Pode se perdoado pelo engano em razão do número de “dinastias” musicais em Cuba.

Gonzalo Rubalcaba não viveu a época dos velhos mestres, tampouco o de Chucho. Nasceu em 1963. Outro bom tecladista é Roberto Fonseca, de 1975. A mais nova revelação no piano é Alfredo Rodriguez, de 1985. Circunstancialmente, pode-se imaginar que nasce um grande talento nesse instrumento de dez em dez anos. Os três vieram de famílias de músicos, como foi dito no parágrafo anterior, e estudaram em conservatórios.

O primeiro álbum que tornou Rubalcaba conhecido foi Discovery, registro ao vivo de apresentação no festival de Montreux, de 1990, lançado pelo selo Blue Note. Os músicos que o acompanha são Charlie Haden e Paul Motian. Extremamente ágil, técnica impecável, não tinha como não impressionar o mundo do jazz.

Ouça Well You Needn’t, de Thelonious Monk.




Veja uma apresentação do quinteto de GR no Festival de Vitoria-Gasteiz, em 2013.




Roberto Fonseca é outro pianista que merece atenção. Menos pirotécnico do que Rubalcaba, prefere valorizar a melodia e, como os outros, não foge dos ritmos cubanos que o mundo bem conhece desde que Dizzy Gillespie os apresentou ao mundo. Um pouco diferente de Rubalcaba, adiciona vozes. Em Zamazu (2007), Omara Portuondo é a vocalista na bela Mil Congojas, e na faixa que abre o disco – Misa Popular –, é Mercedes Cortes Alfaro, sua mãe. Fonseca teve alguns CDs lançados no Brasil, provavelmente, por ser o produtor Alê Siqueira, que participou de discos de Marisa Monte

Ouça Tierra en mano, do álbum Zamazu.





Veja Roberto Fonseca tocando Llego Cachaito, composta em homenagem ao baixista Cachaito Lopez.




Alfredo Rodriguez é o nome da vez do piano cubano. Jovem ainda – nasceu em 1985 –, arrumou um bom padrinho: Quincy Jones. Teve seu primeiro disco lançado pela Quest, gravadora do americano responsável pelo estouro de vendas de Michael Jackson. Agora no início de 2014, acaba de ser lançado The Invasion Parade. Nele estão incluídos alguns clássicos latinos: Guantanamera, Quizás, Quizás, Quizás e Veinte Años. As interpretações de Rodriguez para esse álbum já é uma grande recomendação.


Veja Rodriguez com seu quarteto em ação no Festival de Montreux de 2012 tocando Guantanamera.




No primeiro álbum – Sounds of Space –, Rodriguez conta com vários músicos diferentes em cada faixa. Em Invasion, é um quarteto: ele ao piano, Esperanza Spalding no contrabaixo e vocais, Henry Cole na bateria e Pedrito Martinez na percussão e vozes.


Ouça a bela Quizás, Quizás, Quizás.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Bebo e Chucho Valdés, pai e filho

O mesmo sorriso de Bebo e Chucho Valdés

Quem leu o texto que escrevi sobre Bebo Valdés (http://bit.ly/ZVXoT7) deve lembrar-se que o comparei com Yoda, personagem de Guerra das Estrelas, o “conhecedor da Força e do uso do sabre da luz”. Bebo era minimalista, o sábio da máxima expressão com o mínimo de notas. Chucho, seu filho, ao contrário, é o gênio extrovertido que inventou o lendário Irakere. Apolo e Dionísio? Não sei. Sei, entretanto, que em razão do meu pendor à melancolia, prefiro Bebo. Gosto de seu jeito pausado e sincopado de tocar.



Bebo saiu de Cuba quando as forças revolucionárias de Fidel Castro derrubaram Fulgêncio Batista. Foi, inicialmente, para o México, passou pelos Estados Unidos e Espanha e estabeleceu-se em Estocolmo a partir de 1963. Como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Pio Leyva e Rubén Gonzales, Bebo tocou com as grandes orquestras que vicejaram durante a época em que os americanos deixavam muito dinheiro em seus cassinos e nightclubs. Se a ascensão de Fidel foi benéfica para o país, por outro lado, deixaram esses músicos à míngua, trabalhando em subempregos. De maneira diferente, apesar de ter saído de Cuba, Bebo caiu também no ostracismo e foi “redescoberto” por Fernando Trueba, diretor espanhol, ao participar de Calle 54, em 2000. Depois de longo tempo sem gravar, lançou Bebo Rides Again, em 1994. Mas a carreira voltou a deslanchar mesmo foi com o filme de Trueba. A parceria continuou com o DVD Blanco y Negro, em que divide o palco com o intérprete de música flamenca Diego El Cigala, e outro – El Milagro de Candeal –, belo documentário que aborda a cultura baiana e o trabalho em favor da comunidade pobre de Carlinhos Brown. Coincidentemente, Ferrer Gonzáles e Compay Segundo foram “redescobertos” graças ao documentário Buena Vista Social Clube, dirigido por Wim Wenders e coprotagonizado pelo guitarrista Ry Cooder.


As circunstâncias separaram Bebo e seu filho Chucho. Reecontraram-se muito tempo depois e a reunião se fez forte. Bem velhinho, acometido do mal de Alzheimer, Chucho amparou-o. Poucos dias antes da morte ainda, levou-a à Espanha, a fim de cuidar dele. Bebo acabou falecendo em Estocolmo em 22 de março. Uma coincidência: ambos nasceram em 9 de outubro, Bebo em 1918 e Chucho em 1941.

O reencontro resultou em apresentações e a gravação de Juntos para Sempre (2008). Ouça Lágrimas Negras. Preste atenção no “caco”, no meio do solo – acho que é de Chucho: toca um trechinho de La Habanera, da ópera Carmen, de Georges Bizet.

Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Tres Palabras. No CD é a terceira faixa.




O encontro de Bebo e Chucho no documentário Calle 54, de Fernando Trueba. O “rapidinho” aqui é Bebo.



Pois, melhor combinação não há do que os dois tocarem o clássico Tea for Two, de Vincent Youmans e Irving Caesar..



Veja Bebo tocando com o filho no 32º Festival Jazz de Vitoria, em 2008. Como é o show completo, se você quiser adiantar, Bebo entra aos 46 minutos. Chucho entra para tocar com o pai a partir dos 53 minutos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Manhã de carnaval à cubana

Uma das mais belas músicas brasileiras é Manhã de Carnaval. Foi composta por Luís Bonfá para o filme Orfeu Negro, em 1959. A maioria das músicas compostas para o filme foram de Tom Jobim e Vinícius, mas a de Bonfá foi a que se tornou mais conhecida.

Em uma pesquisa de anos atrás, se não me engano, os compositores brasileiros mais gravados fora do país são Antônio Carlos Jobim e Ivan Lins. No reperório jazzístico, pelo menos, isso é fato. Sem falar de Jobim, aparentemente, Ivan Lins tem mais prestígio lá fora do que aqui. Suas músicas foram interpretadas por Sarah Vaughan, Dianne Reeves, Jane Monheit, Neena Freelon, Carmen McRae, Denny Zeitlin, Shirley Horn, Ran Blake, Geoff Keezer e Steve Kuhn (cito apenas as contidas nos CDs que eu tenho). Como diria certa personagem de novela, “não é brinquedo, não.”

Outros compositores como Djavan, Marcos Valle, Milton Nascimento e Luiz Bonfá estão entre os bem- representados no mercado americano. Não contando Ary Barroso, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá), Bonfá e Jobim são os primeiros a ganhar certa notoriedade com a eclosão da bossa nova. Bonfá foi, inclusive, um dos primeiros a mudar-se para lá. Outros foram Laurindo de Almeida, Tom Jobim, João Donato, João Gilberto, Astrud Gilberto, Moacir Santos, Bola Sete, Eumir Deodato, Flora Purim, Marcos Valle e Sérgio Mendes, que explodiu com o seu Brasil ’66. Um contingente enorme de percussionistas emigraram, casos de Paulinho da Costa, Naná Vasconcelos, Do Um Romão, Eumir Deodato e Cyro Baptista. Esses dominaram por muito tempo os polls dos melhores segundo a crítica.

Há belas gravações pátrias de Manhã de Carnaval. Os destaques são as de Agostinho dos Santos e João Gilberto. Lá fora foi gravada por Caterina Valente, Modern Jazz Quartet, Jack Wilkins, Toots Thielmans, Ray Brown e Jimmie Rowles, Stan Getz, Patricia Barber, Lee Konitz, Susannah McCorkle, Dexter Gordon, Al DiMeola, Paco de Lucia, John McLaughlin, Tuck and Patti, George Cables, Paquito D’Rivera, Gonzalo Rubalcaba, Quincy Jones, Tete Montoliu, Johnny Smith, Jacintha, Cassandra Wilson e John Lewis.

Los Zafiros, em Moscou, 1965
Peculiar é a interpretação de Manhã pelo grupo vocal cubano. Seguindo os moldes de formações vocais como os Platters (no Brasil, tivemos os Golden Boys), Los Zafiros, formado em 1962.

Conjuntos vocais não eram novidade na década de 1960. Antes, bem antes, existiram as Andrew Sisters, The Four Freshmen e os Hi-Lo’s. Em Cuba, antes da ascensão de Fidel Castro, ainda na época de Fulgêncio Batista, e o país era paraíso dos cassinos e “quintal” dos EUA, havia um conjunto vocal conhecido, constituído apenas de mulheres, o Cuarteto d’Aida. Mais nos moldes do Platters e menos dos conjuntos vocais de inspiração mais jazzísticas, surgiram Los Zafiros, que segundo a lenda, teve esse nome por conta de um anel de safira que Néstor Milí, um dos criadores do conjunto (nem chegou a fazer parte dele, sendo mais um dos mentores), usava e foi vendido para custear as roupas que usariam nas apresentações.

O coração do conjunto eram Ignacio Elejalde, que cantava em falsete (um pré-Ney Matogrosso), El Chino, Kiki (Leoncio Morúa), e Miguelito. Os quatro faziam as vozes e Manuel Galbán tocava violão e guitarrra e era o diretor musical. Foram sucesso imediato em Cuba e passaram a excursionar frequentemente em outros países, “coincidentemente”, quase todos da Cortina de Ferro (tocaram em Paris e em Berlim).

O sucesso pesou. Irresponsáveis e beberrões, o único ajuizado, era Galbán. E assim, o conjunto foi se esfacelando. Ignacio Elejalde morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral, quando tinha 39 anos; Kike morreu de cirrose hepática; Chino teve uma série de problemas de saúde que afetou sua voz e a vista, e faleceu em com 56 anos. Miguelito era o que bebia menos. Sobreviveu e mudou-se para Miami em 1993 e trabalha como músico.

Na ativa, sobrou Manuel Galbán. Fez parte do Buena Vista Social Club e gravou um disco em que divide os créditos com Ry Cooder, Mambo Sinuendo (2003).

Uma nota final. Quando excursionavam na Europa, apresentaram-se no Olympia de Paris. Chino conta que os Beatles resolveram ficar mais uma semana na cidade para vê-los. Ficaram encantados com a voz de Ignacio e até examinaram sua garganta. “John Lennon conversou um tempão comigo. Ele tocou meu cabelo. Eu toquei nos seus cabelos. Eles eram realmente uns cavalheiros”, disse Chino em uma entrevista, em 1991. Parece fantasiosa; será verdade?

Ouça Manhã de Carnaval – ou Canción de Orfeo – com Los Zafiros. Preste atenção na abertura e na voz de Ignacio. No fim da gravação, não podia faltar, tem uma batucada, daquelas, mas nem tudo é perfeito nesse mundo.




Há um registro no YouTube de Los Zafiros cantando Cuando lo conocí. É de uma apresentação na TV, em 1960.