quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que foi que aconteceu com Cat Power?

Chan Marshall com seu novo visual e novo som
Acaba de ser lançado Sun, novo álbum de Cat Power. O dia anunciado para sair é 4 de setembro. É ou foi? A tônica tem sido a de estar disponível em centenas de sites, grátis, antes do lançamento. Consegui fazer download dez dias antes.

Sou fã de carteirinha de Chan Marshall, desde que minha a amiga Vania N U deu-me de presente em uma de suas viagens anuais ao Brasil. Tenho a tendência de gostar de artistas atormentados e ela parecia a divina encarnação disso. Tão bela e tão complicada?

Por coincidência, quando foi lançado seu penúltimo disco – Jukebox –, em 2008, estava em Paris, hospedado, justamente, na casa da Vania. O bom é que pude comprar uma edição especial com um CD de bônus, que é tão bom quanto o normal. Tem uma interpretação de Anjelitos Negros de cortar os pulsos. Cortar os pulsos ouvindo Cat Power? Uhn, é uma ideia.

A primeira vez com a Cat de agora é um susto. É muito diferente de tudo o que gravou. Tem muita eletrônica, batidas graves e “disparos” percussionísticos não analógicas. E também, em nenhum momento parece pungente e melancólico. Mesmo assim, apesar do “tom” musical geral, revela-se a moça atormentda que deve ser.“ Eu nunca conheci um amor assim/ vento, lua, a Terra e o céu/ Eu nunca conheci uma dor como essa/ […]/ Eu nunca conheci a dor,/ Eu nunca conheci a vergonha e agora sei porque”. Esse versos fazem parte de Cherokee, a primeira faixa.

Pelo que se lê nas notícias publicadas na internet, Cat Power levou um fora de Giovanni Ribisi e, pelo jeito de maneira abrupta. Dois meses depois da separação, o ator casou-se com uma modelo chamada Agyness Deyn. Outras informações: toca quase todos os instrumentos em Sun (tem backing vocals de Iggy Pop); ela mesma resolveu cortar seu cabelo e deu naquilo que está retratado na capa do disco. Chama-se Sun, mas a capa é azulada e raios diagonais, que lembram os de um arco-íris, passam pelo seu rosto angelical.

Bem, o que eu estava dizendo? Que estou tentando me acostumar à nova Cat. Será que ficou menos desajeitada no palco? Às vezes, como um certo “desajeito” pode ser tão charmoso? Não sei se vou me acostumar depois do susto inicial. Desconfio que farei todo o esforço para continuar a gostar de Cat. Minhas declarações de amor estão em textos mais antigos (http://bit.ly/1hUbdMf).

O que tem de bom em Sun é o fato de ser um disco mais experimental. Parece que Cat procura outros rumos. É natural na vida a busca pelo novo e até o novo corte do cabelo representa isso. Se Sinéad O’Connor deixa crescer os cabelos, ou muda a silhueta, por que não o novo visual de Cat. Gostei.

Ouça Cherokee.



Ouça o disco aqui.

http://www.npr.org/2012/08/26/159919016/first-listen-cat-power-sun

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fome de viver de Tony Scott

Scott e Denzel Washington, em Déjà vu
Cinematográfica a morte de Tony Scott, não? Escalar uma grade de três metros de altura e pular da ponte Vincent Thomas, na Califórnia, foi um ato corajoso. Foi seu salto solitário e espetacular, que poderia ter sido uma cena de algum filme seu que ele não quis mostrar a ninguém.

Com um nome tão comum, um quase “João da Silva”, irmão menos famoso (Ridley, o outro, virou culto depois de Os Duelistas e Blade Runner). Mas é impossível alguém que dirigiu Top Gun (1986), Jogo de Espiões (Spy Game, 2001), Déjà vu (2006), Maré Vermelha (Crimson Tide, 1985) e Chamas da Vingança (Man on Fire, 2004) ser considerado de segunda, como alguns o taxam. E tem mais: Scott é diretor de Fome de Viver (The Hunger, 1983), um filme espetacular.

Ridley e Tony vieram do cinema publicitário. Essa origem é determinante na parte visual de seus filmes. Apesar de Tony ser considerado mais “hollywoodiano” que o irmão, ambos se assemelham em muita coisa. Lidam – lidava, no caso de Tony – muito bem com a imagem, sabem tirar o máximo proveito das possibilidades da linguagem cinematográfica. O início de Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, é deslumbrante, com imagens de aviões de caça taxeando em um porta-aviões. Era um mestre em filmes de ação. Isso não é defeito. É qualidade.

O grande filme de Tony foi um fracasso de bilheteria. Fome de Viver era, em inúmeros sentidos, um filme destinado a tornar-se cult. Bom, esse termo, de hoje em dia, é um pouco bobo e perdeu parte do que significava; é como o termo kitsch, que quase não se usa mais. Um primeiro motivo é a participação do cantor e compositor David Bowie. Fez poucos e marcantes filmes: além deste, cabe citar Labirinto (Labyrinth, 1986), Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983) e O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976). Até sua aposentadoria (depois de um ataque de coração, retirou-se e, convidado, recusou-se a participar do show de abertura das Olimpíadas de Londres) nunca deixou de ser um astro de primeira grandeza.

Lançou o primeiro disco em 1967 e tornou-se conhecido com Space Oddity, que saiu dois anos depois. Estourou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, em 1972. Bowie revolucionou o show business da música, não apenas pelo talento, mas por vestir a persona criada por ele. Inventou um ser andrógino, fora desse mundo, meio alienígena (Neil Armstrong tinha pisado no solo da Lua em 1969 e a exploração espacial era tema quente). Até Elton John compôs uma música “espacial”: Rocket Man.

Bowie era a representação em si, vestindo a personagem de Ziggy Stardust. Faltava apenas que fosse a representação da representação. Essa oportunidade surgiu com o convite de Nicholas Roeg, diretor de Performance (teve participações de Mick Jagger e Anita Pallenberg) e do maravilhoso Walkabout (1971), para ser o ator principal de O Homem Que Caiu na Terra. Na juventude, em uma briga levou um murro no olho. A consequência foi a de que a pupila de um dos olhos ficou sem a capacidade de dilatar e contrair conforme a intensidade da luz. Roeg explorou esse problema da pupila, em que uma ficava contraída e outra não para caracterizar o “extraterrestre” Bowie.

Fome de Viver é estrelado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Bowie e Deneuve formam um casal que, para não envelhecer, precisa se alimentar de sangue humano. Preocupada com sinais de envelhecimento dele, procura por uma médica especialista, que é Susan Sarandon. Não vou contar a história. Todo mundo tem a obrigação de ver esta filme. É maravilhoso em todos os sentidos; pelo enredo, pelos atores, pelas cenas e a música. Se Scott tivesse feito apenas Fome de Viver, já teria sido um grande legado.

Em vários sentidos, como disse, é excepcional. A abertura, com a banda gótica Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead é um deslumbre. Veja. Combina perfeitamente com o clima noir do filme.




John, a personagem vivida por David Bowie é um violoncelista. Além do Bauhaus, tem Schubert na trilha sonora. O alemão compôs duas peças para piano, violino e violoncelo, o Trio nº 1 em si bemol maior, opus 99, e o Trio nº 2 em mi bemol maior, opus 100. São duas obras primas. A gravação clássica é a de Eugene Istomin (piano), Isaac Stern (violino) e Leonard Rose (violoncelo)

Ouça o segundo movimento do Trio opus 100 com eles. Sorte existir esse áudio no YouTube.



Outra bom registro, esse mais recente é com Vladimir Ashkenazy (piano), Pinchas Zukerman (violino) e Lynn Harrell (cello), gravação pela London Records (1997).

Veja também trechos de Fome de Viver tendo Andante con moto do Trio opus 100 de fundo.


A propósito de Schubert, leia sobre Stanley Kubrick, que usou o mesmo tema antes de Scott em Barry Lyndonhttp://guenyokoyama.blogspot.com.br/2010/12/stanley-kubrick-o-mestre-da-musica.html.