quinta-feira, 20 de março de 2014

Duke Pearson e sua paixão pelo Brasil

Não fosse a morte prematura e o fato de ter assumido o cargo de A&R do selo Blue Note, Duke Pearson teria ficado mais conhecido. Nascido em 1931, quando tinha cerca de 40 anos, descobriu que tinha esclerose múltipla. Em 1980, faleceu. Mas tem muito aficionado pelo jazz que nutre respeito enorme pelo pianista, não apenas como músico, mas como um dos responsáveis pela qualidade dos álbuns lançados na década de 1960 pelo Blue Note.

Columbus Calvin Pearson, Jr. escolheu “Duke” como nome artístico, apelido dado por um tio, admirador de Duke Ellington. Suas participações no sexteto de Art Farmer e Benny Golson, ou tocando com Donald Byrd e Pepper Adams, ou acompanhando Nancy Wilson, o colocam entre os grandes do jazz.

A paixão de Duke pelo Brasil é bem anterior ao álbum How Insensitive, de 1969. Acompanhando Nancy Wilson conheceu o país e se apaixonou. Tanto que compôs uma música chamada Cristo Redentor. Foi gravada em A New Perspective, álbum de Donald Byrd, no qual Pearson aparece como arranjador – o pianista era o jovem Herbie Hancock –, em 1963. Portanto, não faz parte dos músicos que vieram na esteira da onda bossanovista que se inicia no primeiro terço da década de 1960.

Enquanto o interesse dos americanos foi bossa nova, o de Duke Pearson foi pelo Brasil. Quando How Insensitive foi lançado, uma penca de intérpretes como Stan Getz, Frank Sinatra, Charles Byrd , Carl Tjader, Clare Fischer e muitos outros já tinham registrado o seu “disco brasileiro”, portanto, quando lançou o seu, fez algo bem diferente do que se poderia ser rotulado como bossa nova.

Duke optou por uma produção variada e cheia de momentos bem originais. Começa com um Stella by Starlight com um belo solo ao piano para depois entrar a seção rítmica e um grupo vocal que lembra o Singers Unlimited. É um Stella bem diferente. Causa certa estranheza e assim continua em Clara, Clara, de Gershwin, em estilo meio gospel, novamente com o vocal do New York Group Singer’s Big Band e, para contrastar, a voz de barítono de Andy Bey. E nessa toada, continua com o mesmo Andy e vocais gospels em Give Me Your Love. A quarta é a composição citada no terceiro parágrafo: Cristo Redentor. É muito lindo, com os vocais, uma discreta seção rítmica e um belo solo de Pearson no piano elétrico.

Ouça.




Mas Bossa Nova mesmo é a música título: um How Insensitive bem cool. Os dedos de Pearson não fogem muito das notas originais. Belíssima. Ouça.




Daí para a frente, fica bem brasileiro. A Sandália Dela conta com a voz de Flora Purim, baixos e baterias brazucas, com Bebeto e Airto Moreira. Uma curiosidade: a música foi creditada a Pearson porque quem sugeriu (Flora) não sabia de quem era. Seu autor? Luiz Claudio de Castro. Virou hit e passou a fazer parte do repertório da brasileira. Circula no YouTube uma interpretação de Purim com Stan Getz.

Veja.




Os fãs de jazz vão perceber um Jack DeJohnette com cabelo bem black power, jovem ainda, Miroslav Vitous e Stanley Cowell, acompanhando os dois.

As duas últimas do álbum são muito boas, graças à interpretação contida de Flora, sem gritinhos e excessos característicos de seus discos como líder.

Ouça Tears, na verdade A Little Tear, de Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle. Esses erros são bem comuns em discos americanos. Um dos mais absurdos é Você Abusou, de Antonio Carlos e Jocafi, grafado “voce abuso” (sobre isso, leia: http://bit.ly/1hnoTMP) e dado como música de Antônio Carlos Jobim; fora que tem gente nos EUA que acha que é “joban”.




A última é Lamento, já que falei dele mais de uma vez, de Jobim e Vinícius de Moraes. Ouça.



Nota final. Pelo que deu para perceber, gosto muito do álbum How Insensitive, de Duke Pearson; mas não é a opinião de muitos críticos e fãs do jazz. Alguns dizem que ele fez um disco que no Brasil seria cunhado de “samba do crioulo doido”. Realmente, é uma mistura de linguagens que talha fácil: jazz, bossa nova, músico cantando em português, vocais “a la” Singers Unlimited e piano elétrico. Opiniões são opiniões. Cada qual tem a sua.

terça-feira, 18 de março de 2014

A cantar dramático de Morgana King

Morgana King como Carmen Corleone
Meu amigo tinha um dálmata chamado Tristão. Em coisa boa não ia dar, pelo menos, na minha opinião. É um nome “pesado”, até para animais. Até onde sei, não era propriamente admirador fanático de Richard Wagner ou conhecedor da mitologia celta. O sem número de Lênins, Lenines ou Leninas (sei de uma, pelo menos), esses devem ter sido registrados por admiradores por razões mais ou menos claras.

Tristão morreu tragicamente, atropelado em uma cidade tão pequena em que poucos seres vivos tiveram esse fim. Do pouco que sei, associo o nome Morgana às lendas do rei Arthur. Quem leu ou assistiu às aventuras de Harry Porter sabe do que se trata.

Maria Grazia Morgana virou Morgana King, quando resolveu seguir a carreira artística. Nasceu em 1930 e, menos pelos dotes vocais, ficou mais conhecida como Carmen, mulher do mafioso Don Corleone em O Poderoso Chefão, em 1969. Na Encyclopedia of Jazz, de Leonard Feather, lançada em 1960, Morgana afirma que ambicionava ser atriz dramática. E quis o destino que assim também ficasse conhecida. Foi vista por mais pessoas que todas as que a viram ou a ouviram em discos e shows.

Curiosamente, a melhor definição para o seu jeito de cantar é essa mesma: dramática. Morgana imprime certa teatralidade nos versos cantados. É o que se percebe desde seus álbuns iniciais e se intensifica com o passar dos anos. Alguns podem se incomodar com esse jeito de cantar. Bem, mas Cauby Peixoto também é assim e muitos gostam.

Antes de se celebrizar como Carmen Corleone, Morgana tinha lançado bons discos, como Morgana Sings the Blues (Mercury, 1956), For You, For Me, Forever More (EmArcy, 1956) e The Greatest Song Ever Swung (Camden, 1959).

Ouça Mad About the Boy, de Morgana King Sings the Blues.




Uma das evidências de que era respeitada no meio artístico foi o convite de Frank Sinatra para gravar no selo Reprise. Quando já estava com mais idade, ainda lançou cerca de uma dezena de discos pela igualmente respeitada Muse Records.

Em 1964, lançou A Taste of Honey, um de seus maiores sucessos. Sua interpretação da música título é realmente muito boa.

Ouça A Taste of Honey. Se você quiser ouvir outras interpretações, leia o texto sobre Bobby Scott, o compositor, em http://bit.ly/1qHFodk. Até os Beatles, em início de carreira, gravaram a música.




 Mais ou menos na época em que O Poderoso Chefão foi lançado, já sessentona, sai pela Muse Records I Can’t Stop Loving You. A interpretação algo dramática tinha se tornado mais dramática, talvez, um pouco exagerada.
Ouça A Song for You.





Veja Morgana King cantando I Love Paris e Meditation.