segunda-feira, 27 de junho de 2011

Tosco, demasiadamente tosco Betty Carter cantando em português

Betty Carter esteve no Brasil em 1980 pela primeira vez
Em relação à Carol Welsman (assunto da segunda-feira, 19: http://bit.ly/iKv3Ey), seu “accent” em português é quase perfeito; chega a surpreender. Valeu conhecer Oscar Castro Neves, radicado nos EUA desde os tempos da associação com Sergio Mendes, nos anos 1960. Textos sobre intérpretes cantando em português têm sido recorrentes nesse blogue. Stacey Kent e Karrin Allyson não passam vergonha cantando em nossa língua em alguma casa de espetáculos brasileira

Referi-me aos “casos” Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald (http://bit.ly/krNb49; leia sobre Ella em http://bit.ly/mimlrz). Fazem parte de um outro tempo e ninguém estava muito preocupado em dar atenção maior sobre esse detalhe. E, afirmo: é (ou era) um detalhe que não faz menor diferença em algumas interpretações, fariam delas, melhor, igualmente. Basta lembrar o Ne me quitte pas cantado por Nina Simone. É um clássico, sem dúvida; cantado em bom francês teria sido melhor ainda. Das mais experientes, a que passa menos vergonha é Dianne Reeves. Mas essa não vale: Reeves fez parte da banda de Sergio Mendes nos anos 1980.

Dos anos 1960 até meados da década de 1990, reinaram, praticamente, sem concorrentes o trio Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Carmen McRae. Eram excepcionais e gravaram com regularidade. A outra que poderia ter sido a “quarta mosqueteira” seria a branca Anita O’Day. Excepcional, a mania de ingerir uma garrafa de vodca por dia deve ter atrapalhado a carreira, se compararmos ao trio das “certinhas”. A última junkie teria sido mesmo Billie Holiday, pelo menos, publicamente.

Betty Carter não ficou tão conhecida como o “trio”, contudo era genial. O que atrapalhou um pouco foi ser ela mais dada a improvisos “bebopísticos”, a scats menos palatáveis que os de Ella. Mas, com certeza, era tão boa quanto; a prova é o número de vezes em que foi considerada a melhor cantora de jazz pela crítica a partir do fim dos anos 1960. Pela crítica, bem dito; pelo público médio, menos. É até explicável; não era cantora de fazer concessões.

Em 1955, jovenzinha, gravou pela Epic, Meet Betty Carter and Ray Bryant, uma coleção de standards de fazer cair o queixo. Em um mesmo LP (na década de 1950 os LPs de 12” em 33 rpm substituíam os discos em 78 rpm), gravou interpretações irrepreensíveis e clássicas de Moonlight in Vermont, Thou Swell, I Could Write a Book, The Way You Look Tonight, Can’t We Be Friends, e as definitivas Gone With the Wind e Tell Him I Said Hello (essa, espetacular, pouco conhecida e pouco cantada).

Pela gravadora ABC-Paramount, em 1961, outro clássico – Ray Charles and Betty Carter – com arranjos maravilhosos de Marty Paich. Desse disco, se não são as melhores, estão entre as “dez mais” as músicas Everytime We Say Goodbye, o meddley Goodbye/We’ll Be Together Again, e Alone Together.

Apesar dessas gravações clássicas, Betty Bebop (alusão à Betty Boop), como foi chamada por Lionel Hampton, consagrou-se mesmo a partir de alguns registros ao vivo lançados por selos independentes e, posteriormente, pelo selo próprio, a Bet-Car, que seria absorvida pela major Verve Records, no início dos anos 1970.

Gravando em selo próprio, teve a liberdade de escolher um repertório menos comercial e assim pôde desenvolver com autonomia seu estilo muito pessoal de interpretação. Alternando alguns clássicos do cancioneiro americano, apresentou composições de sua lavra e também de autores menos conhecidos. Esses discos ganharam a crítica e um público mais inclinado à linguagem mais puramente jazzísticas. São dessa época The Audience with Betty Carter e The Betty Carter Album. Já como contratada da Verve, gravou prolificamente até a morte. Esses discos com interpretações que fogem bastante dos temas originais – pelo menos em relação a clássicos como Body and Soul, My Favorite Things, por exemplo – em derivações improvisativas cheias de scats, não são para todos os gostos. Assim mesmo, é impossível discordar da crítica: é uma das grandes intérpretes do jazz.

Dos discos de Betty na Verve me faltava I’m Yours, You’re Mine, de 1996. Aproveitando uma oferta, comprei. É nesse disco que ouvi uma das mais estranhas interpretações de Inútil Paisagem (Useless Landscape) cantadas na nossa língua pátria. É tão estranho – tosco diria – que achei que Betty cantava no javanês de Lima Barreto. Ouça-a como curiosidade.



Para você não ficar com má impressão dela, escute a maravilhosa Everytime We Say Goodbye, com Ray Charles.



Ouça também The Man I Love.




Farei uma breve pausa até meados de julho. Até lá