sexta-feira, 2 de julho de 2010

Os olhos azuis de Lynne Arriale

Vejo uma mulher de cabelos ruivos, num tom quase ferrugem vestida de preto em que a parte de cima é um tomara-que-caia, justo até a cintura e abre solto num tecido levemente acetinado. Costas à mostra, os braços finos se estendem sobre o teclado e suas mãos parecem desproporcionalmente pequenas para um piano de cauda. Os pés, calçados por um sapato aberto de saltinho de 5 cm, no máximo, pouco se movimentam sobre os pedais dourados. O baixista, todo de preto também, barbudo e de cabelos encaracolados, lembra um pouco a figura do muçulmano Yusuf Islam em sua versão 1970. Explico, esse é o nome atual de Cat Stevens. Os fios de cabelo que lhe faltam no “teto” abundam na parte posterior da cabeça do baterista e estão presos com um elástico, presumo.

A pequena mulher se chama Lynne Arriale. É pouco conhecida no Brasil. Não chega à metade a lotação da sala do Sesc-Pinheiros, em São Paulo. Ela inicia a apresentação com uma composição de sua própria lavra, Carry On. A segunda é de Sting, da época do trio The Police, Wrap Around Your Fingers. O público fica feliz quando reconhece um tema: é o primeiro momento de empatia. Se na música pop é difícil tornar-se popular, imaginem em outros gêneros como o jazz ou a música erudita. Pouco conhecida no Brasil, tem uma legião de admiradores. O amigo Alberico Cilento falou tanto dela há cerca de dez anos que, para matar a curiosidade, comprei o Live at The Montreux Jazz Festival, no qual havia uma interpretação maravilhosa de Estate, segundo ele. Quando soube que ia se apresentar no Brasil, fiquei surpreso, com ingressos a 15 reais.

Lynne não é bem aquela pianista “rítmica”, mas é excelente em baladas, explorando muito bem as sonoridades em progressões e improvisos belos e melodiosos. São sofisticados e nunca apelativos nem “melosos”. Segundo momento de empatia: identificamos pelas primeiras notas, Ponta de Areia, de Milton Nascimento. É tocada lentamente, sem muitos improvisos e o tom é o de um acalanto.

Antes dela – ou depois?, não lembro –, belíssima leitura de Here Comes the Sun, clássico de George Harrison. Mais uma “conexão” com o público: terceiro momento de empatia. Antes de tocá-la, fala um pouco e diz que a seguir, tocará… “eu sei que vocês reconhecerão”. Mas o ponto alto das lentas é The Ballad of the Sad Young Men (Tommy Wolf), que mereceu registros de Anita O’Day, Shirley Bassey, Keith Jarrett, e até do brasileiro Renato Russo. Nessa música, recentemente gravada por Jane Monheit, o baixista com cara de muçulmano – Omer Avital – emite notas precisas em lindo solo.

A pianista, ao contrário de muitos instrumentistas ligados ao jazz, não toca apenas standards. Possui belas composições e as entremeia com músicas do repertório considerado pop. Lynne, como Brad Mehldau, Herbie Hancock, The Bad Plus, Joshua Redman vão tentando ampliar o repertório de standards como uma forma de renová-lo. Está certo que sempre será linda uma boa interpretação de Night and Day, mas por que não um Come As You Are, de Kurt Cobaim? Foi o que o trio acústico The Bad Plus fez, e bem.

Das composições mais “agitadas” – ou uptempo –, Arriale toca um belo Night in Tunisia, em que o baterista Anthony Piciotti pode mostrar sua habilidade de compor belas sonoridades, além de destreza e delicadeza, e Braziliana, composição própria. Arriale, depois dessa música, fecha a apresentação com Estate. Na fala que antecedeu Braziliana, diz que estará após o show autografando o CD/DVD Nuance e dará um “brazilian hug” nos que lá estiverem. Com o acúmulo de pessoas que rodeiam a mesa, fica difícil abraçar alguém, mas, atenciosa, autografa os discos e anota os e-mail de cada um em seu MacBook. Aí, percebe-se como seus olhos são azuis.

O CD Nuance pode ser ouvido no site de Lynne Arriale: http://www.lynnearriale.com/media.php

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Hank Jones globalizado

Em maio deste ano faleceu o pianista Hank Jones pouco tempo antes de completar 92 anos. Longa vida e grande contribuição para a música. A família era talentosa. Um de seus irmãos, Elvin Jones – o “drum jazz machine” – era o baterista da fase de ouro de John Coltrane, e Thad Jones, trumpetista, foi líder de uma das grandes bigbands do jazz, o Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. Hank tem centenas de discos em todas as formações possíveis. Mas seu piano foi supremo, como o de Tommy Flanagan, acompanhando cantoras e cantores. Nos últimos anos, gravou com a cantora Roberta Gambarini o belíssimo You Are There. Seus discos com o saxofonista Joe Lovano (Kids: Live at Dizzy’s Club, 2007) e com o saxofonista e flautista Frank Wess (Hank & Wess, Frank, 2006) são excepcionais.

Um registro, no entanto, sai bem da linguagem jazzística. É o disco Sarala, lançado em 1996 pelo selo Verve. Jones divide com o compositor, tecladista e vocalista malinês, Cheik Tidiane Seck. Não é tão conhecido quanto outros músicos africanos como Salif Keita, Youssou N’Dour ou Mori Kanté, mas pelo que apresentou nesse disco que divide com Hank Jones – ele é quase um coadjuvante – pode ser considerado um dos grandes da África. Ouçam Tounia Kanibala e digam o que acharam.


Vejam o vídeo do YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=vd0hgsZj-ZA

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A “ópera cômica” de Robert Wyatt

Dizem que “gosto não se discute, apenas se lamenta”. Tem mais: alguns artistas, bandas ou gêneros atraem opiniões extremadas, contrastantes. Ou se ama ou se odeia. Quem gosta de axé ama de paixão, e do mesmo modo, os que não gostam, odeiam. Mais ainda: Fla x Flu, Palmeiras x Corínthians. Quem gosta de um, odeia o outro. Conclusão provisória: melhor do que ser indiferente.

Quem gosta de Robert Wyatt o adora num nível de quase devoção. Aqueles que não o conhecem, quando apresentados, acham som dele “muiiito estranho”. E não são pessoas com pouca informação musical que acham isso. Se a referência for apenas a de cantor, tudo bem: tem a voz pequena e não é dos mais afinados. Uma voz parecida, na dificuldade de classificá-la, que lembra a dele é a de Elvis Costello.

Alguns lamentarão: sinto dizer que sou do time dos fãs de Wyatt, não tão fanático quanto alguns amigos. Acabo de ouvir seu último CD – Comicopera –, lançado em 2008, e estou perto e dizer que é genial: preciso de mais algumas audições para um melhor juízo. Dos discos solo de Wyatt, é um dos melhores, à altura de Old Rottenhat e Dondestan.

Para quem não o conhece, vai uma breve “biografia”. Ele é fundador – com o tecladista Mike Ratledge, Daevid Allen, e Kevin Ayers – do Soft Machine, talvez a melhor banda do que se convencionou chamar de “jazz fusion” ou “jazz-rock” europeu, bem diferente do som perpetrado pelos americanos Chick Corea (porto-riquenho), Joe Zawinul (austríaco) ou Miles Davis. O australiano Allen saiu logo e formou depois outra grande banda, o Gong. Com o saxofonista Elton Dean, Hugh Hooper no baixo, Ratledge nos teclados e ele na bateria, o Soft produziu os melhores sons do fim dos anos 1960 e início de 1970. Entrou em conflito com o resto da banda, saiu e formou outra, o Matching Mole, e, em 1973, caiu (dizem que ele pulou) do terceiro andar de um prédio onde acontecia uma festa… daquelas. Uma das pessoas que o socorreu foi a atriz Julie Christie (foi o que disse um amigo). Ficou paraplégico e se apresenta sentado em uma cadeira de rodas. Sem mais poder tocar bateria – seu instrumento original –, toca teclados e trumpete. Como alguns amigos que o consideram gênio, outros como o ex-baterista do Pink Floyd, Nick Mason, David Gilmour, Paul Weller – formou o The Jam e o The Style Council e depois seguiu carreira-solo – e Brian Eno, também acham. É um músico dos músicos, antes de mais nada. Um tanto diferente da época do Soft Machine e do Matching Mole, Wyatt está gordo e está de barba – enorme – branca: parece um guru, um profeta. 

Alguns gostam de misturar política com arte. Certos críticos e jornalistas – aproveito a ocasião – ressaltam que a obra de José Saramago será mais bem avaliada com o tempo passado de sua morte. Dizem que seu ateísmo e comunismo radicais se imiscuíram em sua obra (persona x obra), prejudicando-o num julgamento mais imparcial. Em tempos políticos e econômicos instáveis é até justificável, mas a qualidade de uma obra não está no engajamento ou não, se é de esquerda ou direita, Assim, fica quase cômico, canções libertárias, engajadas ou evocando Che Guevara, Stálin, Lênin ou Trotsky. Não sei se alguém se lembra de que o baixista americano Charlie Haden foi preso e deportado de Portugal pouco antes de se apresentar no Festival de Estoril, nos tempos finais da ditadura salazarista, por se opor ao colonialismo lusitano. Grande atitude! Mas o que tem a ver com sua música? A banda que Haden montou com a pianista e compositora Carla Bley se chama Liberation Orchestra Music. O baixista está em evidência até hoje graças ao seu talento e não ao seu “engajamento” político. Robert Wyatt também. Ligou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1980 – por que não antes? –, engajou-se na questão das Ilhas Malvinas, compôs música em favor da libertação do Timor, cantou Guantanamera, louvou Che, e daí? Descontando alguma coisa, ele é genial.

Para quem não conhece o Soft Machine. Robert Wyatt é o baterista.



Robert Wyatt cantando Shipbuilding, composta por Elvis Costello: