Vejo uma mulher de cabelos ruivos, num tom quase ferrugem vestida de preto em que a parte de cima é um tomara-que-caia, justo até a cintura e abre solto num tecido levemente acetinado. Costas à mostra, os braços finos se estendem sobre o teclado e suas mãos parecem desproporcionalmente pequenas para um piano de cauda. Os pés, calçados por um sapato aberto de saltinho de 5 cm, no máximo, pouco se movimentam sobre os pedais dourados. O baixista, todo de preto também, barbudo e de cabelos encaracolados, lembra um pouco a figura do muçulmano Yusuf Islam em sua versão 1970. Explico, esse é o nome atual de Cat Stevens. Os fios de cabelo que lhe faltam no “teto” abundam na parte posterior da cabeça do baterista e estão presos com um elástico, presumo.
A pequena mulher se chama Lynne Arriale. É pouco conhecida no Brasil. Não chega à metade a lotação da sala do Sesc-Pinheiros, em São Paulo. Ela inicia a apresentação com uma composição de sua própria lavra, Carry On. A segunda é de Sting, da época do trio The Police, Wrap Around Your Fingers. O público fica feliz quando reconhece um tema: é o primeiro momento de empatia. Se na música pop é difícil tornar-se popular, imaginem em outros gêneros como o jazz ou a música erudita. Pouco conhecida no Brasil, tem uma legião de admiradores. O amigo Alberico Cilento falou tanto dela há cerca de dez anos que, para matar a curiosidade, comprei o Live at The Montreux Jazz Festival, no qual havia uma interpretação maravilhosa de Estate, segundo ele. Quando soube que ia se apresentar no Brasil, fiquei surpreso, com ingressos a 15 reais.
Lynne não é bem aquela pianista “rítmica”, mas é excelente em baladas, explorando muito bem as sonoridades em progressões e improvisos belos e melodiosos. São sofisticados e nunca apelativos nem “melosos”. Segundo momento de empatia: identificamos pelas primeiras notas, Ponta de Areia, de Milton Nascimento. É tocada lentamente, sem muitos improvisos e o tom é o de um acalanto.
Antes dela – ou depois?, não lembro –, belíssima leitura de Here Comes the Sun, clássico de George Harrison. Mais uma “conexão” com o público: terceiro momento de empatia. Antes de tocá-la, fala um pouco e diz que a seguir, tocará… “eu sei que vocês reconhecerão”. Mas o ponto alto das lentas é The Ballad of the Sad Young Men (Tommy Wolf), que mereceu registros de Anita O’Day, Shirley Bassey, Keith Jarrett, e até do brasileiro Renato Russo. Nessa música, recentemente gravada por Jane Monheit, o baixista com cara de muçulmano – Omer Avital – emite notas precisas em lindo solo.
Antes dela – ou depois?, não lembro –, belíssima leitura de Here Comes the Sun, clássico de George Harrison. Mais uma “conexão” com o público: terceiro momento de empatia. Antes de tocá-la, fala um pouco e diz que a seguir, tocará… “eu sei que vocês reconhecerão”. Mas o ponto alto das lentas é The Ballad of the Sad Young Men (Tommy Wolf), que mereceu registros de Anita O’Day, Shirley Bassey, Keith Jarrett, e até do brasileiro Renato Russo. Nessa música, recentemente gravada por Jane Monheit, o baixista com cara de muçulmano – Omer Avital – emite notas precisas em lindo solo.
A pianista, ao contrário de muitos instrumentistas ligados ao jazz, não toca apenas standards. Possui belas composições e as entremeia com músicas do repertório considerado pop. Lynne, como Brad Mehldau, Herbie Hancock, The Bad Plus, Joshua Redman vão tentando ampliar o repertório de standards como uma forma de renová-lo. Está certo que sempre será linda uma boa interpretação de Night and Day, mas por que não um Come As You Are, de Kurt Cobaim? Foi o que o trio acústico The Bad Plus fez, e bem.
Das composições mais “agitadas” – ou uptempo –, Arriale toca um belo Night in Tunisia, em que o baterista Anthony Piciotti pode mostrar sua habilidade de compor belas sonoridades, além de destreza e delicadeza, e Braziliana, composição própria. Arriale, depois dessa música, fecha a apresentação com Estate. Na fala que antecedeu Braziliana, diz que estará após o show autografando o CD/DVD Nuance e dará um “brazilian hug” nos que lá estiverem. Com o acúmulo de pessoas que rodeiam a mesa, fica difícil abraçar alguém, mas, atenciosa, autografa os discos e anota os e-mail de cada um em seu MacBook. Aí, percebe-se como seus olhos são azuis.

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