Dizem que “gosto não se discute, apenas se lamenta”. Tem mais: alguns artistas, bandas ou gêneros atraem opiniões extremadas, contrastantes. Ou se ama ou se odeia. Quem gosta de axé ama de paixão, e do mesmo modo, os que não gostam, odeiam. Mais ainda: Fla x Flu, Palmeiras x Corínthians. Quem gosta de um, odeia o outro. Conclusão provisória: melhor do que ser indiferente.
Quem gosta de Robert Wyatt o adora num nível de quase devoção. Aqueles que não o conhecem, quando apresentados, acham som dele “muiiito estranho”. E não são pessoas com pouca informação musical que acham isso. Se a referência for apenas a de cantor, tudo bem: tem a voz pequena e não é dos mais afinados. Uma voz parecida, na dificuldade de classificá-la, que lembra a dele é a de Elvis Costello.
Alguns lamentarão: sinto dizer que sou do time dos fãs de Wyatt, não tão fanático quanto alguns amigos. Acabo de ouvir seu último CD – Comicopera –, lançado em 2008, e estou perto e dizer que é genial: preciso de mais algumas audições para um melhor juízo. Dos discos solo de Wyatt, é um dos melhores, à altura de Old Rottenhat e Dondestan.
Para quem não o conhece, vai uma breve “biografia”. Ele é fundador – com o tecladista Mike Ratledge, Daevid Allen, e Kevin Ayers – do Soft Machine, talvez a melhor banda do que se convencionou chamar de “jazz fusion” ou “jazz-rock” europeu, bem diferente do som perpetrado pelos americanos Chick Corea (porto-riquenho), Joe Zawinul (austríaco) ou Miles Davis. O australiano Allen saiu logo e formou depois outra grande banda, o Gong. Com o saxofonista Elton Dean, Hugh Hooper no baixo, Ratledge nos teclados e ele na bateria, o Soft produziu os melhores sons do fim dos anos 1960 e início de 1970. Entrou em conflito com o resto da banda, saiu e formou outra, o Matching Mole, e, em 1973, caiu (dizem que ele pulou) do terceiro andar de um prédio onde acontecia uma festa… daquelas. Uma das pessoas que o socorreu foi a atriz Julie Christie (foi o que disse um amigo). Ficou paraplégico e se apresenta sentado em uma cadeira de rodas. Sem mais poder tocar bateria – seu instrumento original –, toca teclados e trumpete. Como alguns amigos que o consideram gênio, outros como o ex-baterista do Pink Floyd, Nick Mason, David Gilmour, Paul Weller – formou o The Jam e o The Style Council e depois seguiu carreira-solo – e Brian Eno, também acham. É um músico dos músicos, antes de mais nada. Um tanto diferente da época do Soft Machine e do Matching Mole, Wyatt está gordo e está de barba – enorme – branca: parece um guru, um profeta.
Alguns gostam de misturar política com arte. Certos críticos e jornalistas – aproveito a ocasião – ressaltam que a obra de José Saramago será mais bem avaliada com o tempo passado de sua morte. Dizem que seu ateísmo e comunismo radicais se imiscuíram em sua obra (persona x obra), prejudicando-o num julgamento mais imparcial. Em tempos políticos e econômicos instáveis é até justificável, mas a qualidade de uma obra não está no engajamento ou não, se é de esquerda ou direita, Assim, fica quase cômico, canções libertárias, engajadas ou evocando Che Guevara, Stálin, Lênin ou Trotsky. Não sei se alguém se lembra de que o baixista americano Charlie Haden foi preso e deportado de Portugal pouco antes de se apresentar no Festival de Estoril, nos tempos finais da ditadura salazarista, por se opor ao colonialismo lusitano. Grande atitude! Mas o que tem a ver com sua música? A banda que Haden montou com a pianista e compositora Carla Bley se chama Liberation Orchestra Music. O baixista está em evidência até hoje graças ao seu talento e não ao seu “engajamento” político. Robert Wyatt também. Ligou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1980 – por que não antes? –, engajou-se na questão das Ilhas Malvinas, compôs música em favor da libertação do Timor, cantou Guantanamera, louvou Che, e daí? Descontando alguma coisa, ele é genial.
Para quem não conhece o Soft Machine. Robert Wyatt é o baterista.
Para quem não conhece o Soft Machine. Robert Wyatt é o baterista.
Robert Wyatt cantando Shipbuilding, composta por Elvis Costello:

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