Em 1º de junho de 2010, morreu Kazuo Ohno. Cinco anos e um mês depois, seu filho Yoshito Ohno apresentou-se no Sesc-Vila Mariana, São Paulo, ao lado de Antony Hegarty e Johanna Constantine. Estivesse vivo, estaria completando 108. Atuou até os 100, sentado em uma cadeira de rodas.
O Brasil teve a oportunidade de vê-lo por três vezes. A primeira foi em 1986. Até então, poucos conheciam o butoh, movimento surgido no clima pós-guerra no Japão. Quem assistiu às apresentações de Ohno no Sesc-Anchieta foram arrebatados pela força de sua dança.
Antony, inglês de nascimento, cresceu nos EUA. Tinha 10 anos quando o pai, engenheiro, mudou-se para a Califórnia. Podemos considerá-lo um americano, portanto. Sua identidade sexual estava revelada quando tinha doze ou treze anos, segundo ele mesmo. Nunca foi uma questão tão complicada e diz que nem sofreu muito com o bullying por sua aparência andrógina. Hoje, prefere ser tratado pelo pronome feminino. Diz que é assim tratado pelos familiares e amigos. Afirma: ““ele” [he] é um pronome invisível para mim, me nega.”
Em 1990, mudou-se para estudar na New York University. Montou um grupo performático com Johanna Constantine, chamado Blacklips.
Ohno. “A primeira vez que vi uma imagem de Kazuo Ohno foi quando eu frequentava uma escola em Angers, França, aos dezesseis anos. Fui imediatamente enfeitiçado. Quem era aquele belo ser, usando um vestido vitoriano e maquiagem pesada, pendendo em direção às estrelas?” Nem sabia quem era Ohno.
Cinco anos depois, em Nova York, assistia a um filme experimental chamado Just Visiting this Planet, de Peter Sempal: “Num certo ponto, um performer amdrógino aparece na tela dançando ao lado de um penhasco, espelhando as rochas despedaçadas com suas mãos expressivas. Fui transportado por essa graça infantil, uma graça de partir o coração: comecei a chorar. Fui para casa e fiquei chocado ao perceber que aquele homem era o mesmo do pôster sobre minha cama, agora dançando diante de meus olhos.”
A imagem de Kazuo Ohno vestido de mulher, com uma flor presa nos cabelos, é a capa de seu CD mais conhecido: The Crying Light (Rough Trade, 2008). As outras são as da dra. Julia Yasuda, PhD. em matemática, nascida com síndrome de Kinofelter – ou 47,XXY – anomalia em que pessoas do sexo masculino nascem com dois ou mais cromossomos “x’; e a terceira é de Johanna Constantine.
Rob, Antony, Johanna e Yoshito
Antony poderia adotar seu verdadeiro nome como artista. Preferiu adicionar “Johnsons” – Antony and the Johnsons. Imagina-se que “os Johnsons” sejam os membros de uma banda. Mas não é. O “Johnsons” é uma referência à Marsha P. Johnson, drag queen americana, negra, ativista pelos direitos das minorias sexuais, que, mais tarde, morreu em decorrência da aids.
Assim como era “Johnsons”, nas apresentações no Sesc-Vila Mariana, SP, a banda virou Antony and the Ohnos. São dois os “Ohnos”: Kazuo, que aparece em cenas projetadas em uma grande tela de filó, e seu filhoYoshito em carne e osso. O terceiro “membro” é, justamente, Johanna Constantine, homônima de personagem da HQ Sandman, de Neil Gaiman, companheira de suas primeiras performances. Uma quarta figura, a única “normal”, é Rob Moose, violinista e violonista que, discretamente, senta-se ao lado de Antony.
O início. As luzes se apagam e uma música eletrônica ensurdecedora e irritante serve como fundo para a entrada de Johanna vestindo o mesmo figurino de outras apresentações: um collant branco manchado de vermelho imitando sangue que escorre do seu rosto até os seus pés, que se equilibram em um sapato que aumentam ainda mais sua estatura. Cenas do vídeo Mr. O’s Book of the Dead, com Kazuo, são projetadas. Quando sobe a cortina/tela, vemos Antony sentado ao piano, cantando os primeiros versos de Hope There’s Someone, do CD I Am a Bird Now. Emenda com You Stand Above Me.
Vê-lo pela primeira vez me causa a mesma impressão de quando pus o CD I Am a Bird Now (Secretely Canadian, 2004). Ficara encantado com a força dessa canção e a sensação vulnerabilidade e fragilidade em sua voz. Era diferente de tudo o que até então ouvira. Pensei em alguma relação com Marc Almond. Sua figura, ao fazer uma busca na internet, era a de, segundo um amigo diria mais tarde, era a versão Boy George com alguns quilos a mais, na capa de seu disco anterior, que iria conhecer logo depois, ao recebê-lo pelo correio.
O encarte de I Am a Bird Now mostrava uma imagem que parece a de um manequim com peitos que parecem reais, outra com os dizeres “hope” e “box 3” grafadas no que parece ser uma parede, uma foto em PB de uma loura deitada com uma rosa sobre o lençol e dois vasos de flores ladeando-a, e, finalmente, uma figura andrógina com cada olho pintado de uma cor, que era Antony.
A magia para todo fã é a de reconhecer cada canção aos seus primeiros versos e acordes. Antony, sempre ao piano, segue com My Lady Story, Cripple and the Starfish, Hope Mountain, Epilepsy Is Dancing, You Are My Sister, The Crying Light e algumas outras que não lembro. Fecha com um clássico dos anos 1930: Falling in Love Again. Certamente, a referência de Antony para essa canção deve ser a de Marlene Dietrich.
Veja Antony e orquestra na pungente Cripple and the Starfish.
Hope There’s Someone foi a faixa que abre a apresentação de Antony. Veja-o no programa de Jools Holand.
Oh! No! Onde entra Yoshito Ohno? Dançando em algumas canções. A dança de Yoshito não tem a força expressiva do pai. As entradas de Johanna – no início e no fim – também, e os trechos do vídeo, não formam um conjunto harmonioso com a música de Antony. Falta liga para os quatro elementos. Nesse sentido, o que valeu mesmo a pena, para mim e para muitos que foram assistir ao espetáculo, foi a oportunidade de ver Antony ao vivo.
Mas tudo é estranho em Antony. Prefere ser chamada no feminino. Mas é difícil, se chama-se ainda Antony. E, apesar dos cabelos longos, não se veste como mulher – prefere calças pretas e botas –, não tem os corpos com formas femininas e tem um pouco mais de 1,8 metros. É um transgênero, enfim. É inclassificável, até musicalmente.
Veja o clipe de The Spirit Was Gone, com imagens emocionantes de Kazuo Ohno e o filho Yoshito.
Veja o clipe de Epilepsy Is Dancing, canção que fez parte do show de São Paulo.
Veja o clipe de Twilght, canção que é parte do filme Turning, de Charles Atlas, com Antony e Johanna.
A instrumentação é parcimoniosa. Uma batida de bateria bem definida. Acompanhada por algum instrumento eletrônico que reforça os sons da bateria, Grid é uma música muito simples. E é só: ritmo e a voz de Mike Hadreas.
Perfume Genius é o nome sob o qual Hadreas se esconde – ou se mostra. Logo na primeira audição, vem a lembrança de Antony Hegarty, do Antony and The Johnsons. A semelhança não é apenas por ambos serem homossexuais. Isso os aproxima pela temática de suas letras, talvez. Sobre Antony a questão do gênero é mais dúbia ainda, porque se refere bastante em algo seria melhor nomeado como transgênero ou até, pansexualismo. Em Mike, isso, sobre gêneros, parece mais claro. É gay e sua referência e inspiração para a sua música é esse universo.
No terreno das excentricidades, é um tanto difícil suplantar Antony. É um cara diferente, até no Antony sem “H”, como a Bahia de um tal Denis Brean (era o pseudônimo do autor de Bahia com H). Alguém disse que é meio um Boy George gordinho. Pelas imagens disponíveis na internet, Mike parece ser bem normal. Gosta de usar batom, mas não é nada tão anormal, como homens fazerem as unhas dos pés ou raspar os pelos do peito e das pernas. Sem ser genial como Antony, suas composições são quase sempre “torch songs”, como são as de seu conterrâneo americano.
Ao escolher como nome artístico Perfume Genius, Mike Hadreas foi ambicioso – ou pretensioso, dependendo do ponto de vista. Mas como não chamar atenção com um nome diferente desses? Se você é ambicioso, é bom mostrar ao que veio. Caso contrário, é bem provável tornar-se motivo de gozação. Bem, Perfume Genius até que é original. Vai pela seara que o diferencia da maioria do que está por aí atualmente.
Antecede Too Bright, lançado neste ano, Put Your Back N 2 It. Neste provocou um pequeno escândalo com o clipe disponibilizado no YouTube. Chegou a ser banido do site, mas está de volta.
Assista.
Fora o “escândalo” – quem se escandaliza com alguma coisa? Melhor escandalizar-se com violências físicas ou corrupção, não? – Put Your Back N 2 It pode ser considerado um álbum bem médio.
O mais recente Too Bright é bem melhor. Traz canções “torchy” de qualidade, originais e interessantes. Um dos bons destaques, como foi dito logo no primeiro parágrafo, é Grid. Tem uma batida eletrônica muito boa, vibrante.
Veja o clipe.
A música título Too Bright é a melhor, junto com No Good. Faz o estilo “corta pulso”, maravilhosa.
Veja Mike, em Berlin, cantando No Good.
Veja também o vídeo oficial de Fool.
Perfume Genius canta Queen no program de David Letterman.
São tantos os covers de Leonard Cohen, que ele virou um standard. Não são apenas as canções que se tornaram standards. Ele também, com um certo perigo de tornar-se caricatura de si mesmo. Quando ficou conhecido já tinha aquele jeito de “diferente”. Era alguém que parecia surgir na contra mão. Enquanto todo mundo queria fazer muito barulho, era da ala mais zen. A boa amostra desse seu estilo é a sua longa fala na apresentação no festival da Ilha de Wight.
Cohen, na mesma medida em que envelheceu, foi ficando mais conhecido e todo mundo canta suas canções. Agora que completou 80 anos, foram lançados alguns álbuns lembrando da efeméride, e o próprio Leonard soltou “Popular Problems”. A mais conhecida revista francesa especializada em música popular, a “Les InrocKuptibles”, encartou um CD com algumas interpretações conhecidas e outras menos. Dos intérpretes consagrados, muito boa é “Avalanche”, com Nick Cave em performance “intensa” e dramática, como de costume.
Veja Cave em “Avalanche”
As homenagens não param por aí. Saiu no mercado alemão um álbum chamado “Poet – Leonard Cohen in Deutscher Sprache”. É o bardo canadense cantado na língua de Goethe e Schiller. Os nomes, fora o de Nina Hagen, para mim, são desconhecidos. Mas não custa dar uma ouvida.
Ouça Peter Maffay em “Zuerst Also Manhattan” ou, “First We Take Manhattan”
Uma boa é a de Peter Maffay cantando Zuerst Also Manhattan, ou melhor, First We Take Manhattan. Ouça também Sternblauer Trenchcoat, com Reinhard Mey, ou, Famous Blue Raincoat.
Em outra postagem, escrevo sobre outros discos tributo que foram gravados (ouça e leia em http://bit.ly/1wYW0lA)
Não posso deixar de repetir um dos grandes covers presentes nessa postagem. Veja If It Be Your Will, com Antony and The Johnsons.
O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.
Muito linda, presente em “I’m Your Fan”, é Suzanne com Geoffrey Oryema. Ouça.
Não posso deixar de repetir um dos grandes covers presentes nessa postagem. Veja “If It Be Your Will”, com Antony and The Johnsons.
O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.
A imagem de Antony Hegarty na capa de Cut the World
Fiquei surpreso com o fato de Roberto Menescal, compositor de O Barquinho e Surfboard, violonista, produtor e, atualmente, dono do estúdio Albatroz, ter citado Cut the World, de Antony and The Johnsons, como exemplo de um disco ao vivo bem gravado. Pelo jeito, Antony Hegarty não é tão desconhecido por essas paragens.
Em seus tempos de A&R na Philips, discos ao vivo eram cheios de aplausos irritantes. Muitos deles eram um “faz-de-conta”. Gravados em estúdio, os aplausos eram acrescentados depois. Em outros casos, como no álbum Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, gravado no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), partes que poderiam causar problemas com a censura do regime militar (em 1972, a coisa era muito séria e o pau, como se dizia, corria solto contra qualquer manifestação que os militares pudessem considerar como ameaça) eram “tapados” – ou camuflados – com ondas de aplauso. Quando Chico Buarque cantava Bárbara, os trechos “perigosos”, eram camuflados com “exaltados” aplausos. Outro caso de álbum estragado por aplausos é o de João Gilberto gravado no teatro da TV Globo, em 1980.
Menescal cita o disco de Antony and The Johnsons em razão, justamente, de ser um disco ao vivo em que não se ouve um aplauso ou algum ruído da plateia. A exceção é na faixa Future Feminist (logo mais vai ficar claro por que). Em registros de apresentações ao vivo, mesmo não sendo irritantes, o aplauso é um componente natural. Novas tecnologias permitem que sejam completamente suprimidas. É comum o uso dessa técnica em discos de musica erudita. Orquestras são numerosas e fica muito caro colocá-las em um estúdio. As óperas, praticamente, deixaram de ser gravadas desse modo devido ao custo e ao trabalho que dá registrar vozes e instrumentos separadamente. Mesmo que o custo hora de estúdio tenha diminuído drasticamente, reunir muitas pessoas em um estúdio necessita de uma logística absurda.
Cut The World foi gravado em Copenhagen com a Danish National Chamber Orchestra. E o resultado é excepcional. Se Antony Hegarty é bom com pouco acompanhamento ou apenas ao piano, impressionante como sua música ganha com uma orquestra.
Fora a primeira, que é a canção título e a segunda, que, em vez de ser canção, é um longo discurso sobre uma nova sexualidade – Jesus como uma garota ou Buda como uma mãe, do patriarcado ao matriarcado, coisas do tipo –, as restantes são conhecidas por seus fãs.
Aliás, o “discurso” de Future Feminism cai bem partindo de uma figura andrógina como Antony. Cabelos longos, uma franja à la Veronica Lake, lembrando vagamente a arquiteta Lina Bo Bardi. Um pouco gordo, rosto bem rechonchudo, os cabelos caindo para um lado, apresenta-se com frequência vestindo batas ou roupas bem largas. Quando se veste de branco é como um anjo torto, “um patinho feio que se transforma em um magnífico cisne”, conforme descrição publicada no The Independent em 4 de agosto de 2012. A comparação não é casual: o quarto álbum se chama Swanlights. Os gestos no palco, como você irá ver no vídeo de Cripple and the Starfish, são bem estranhos. Não são desse mundo (o dos normais, digo), e Antony não é homem nem mulher; é um outro gênero, – um transgênero, se isso existe – talvez algo que explica parcialmente Future Feminism.
As cordas, flautas e sopros da orquestra da Danish National Chamber Orchestra, reforçam as qualidade da música e do vocal de Antony. A melancolia fica mais melancólica, o (melo)dramático se torna mais dramático, a desesperança é mais dolorida, soturna. Ele se definiu, em uma entrevista como alguém que tende a ficar em pequeno barco e navegar em volta de enormes embarcações. Para quem gosta de excessos é um prato cheio. Algumas de suas qualidades se originam de sua participação em espetáculos que não exclusivamente musicais. É um performático (desculpe pela expressão meio fora de moda), em atuações que conjugam a dança (é apaixonado pelo butoh e por Kazuo Ohno), o teatro e o cinema.
Cut the World, a inédita, tem como parceira criativa a artista (performática) Marina Abramović. Transformou-se em um curta, dirigido por Nabil Elderkin. Assista. O refrão “But when will I turn and hurt the world?/ When will I turn and cut the world?” é uma boa pista do que acontece. Assista.
É chover no molhado dizer que Iggy Pop é um dos ícones do rock. Famoso pelas performances e mergulhos suicidas sobre o público, da época dos lendários The Stooges, o “iguana” continua vivo e muito bem, como seus pares “stonianos” que, apesar das rugas, mantêm-se esguios, bem ao contrário de muitos dos seus contemporâneos que, além de dinossauros do rock, viraram “baleias” do rock. Até o cabelo está lá sobre seu cérebro, se aquilo não for uma peruca.
Mas… pessoal, hein!, não me senti muito bem na única vez que o vi no palco. Pop (é nome artístico; o real é James Newell Osterberg) sempre gostou de apresentar-se sem camisa, talvez, a chamado de Narciso, para exibir o abdômen definido e bem musculoso (daria até para concorrer a Mr. Universo, dos pobres, não naquele em que Schwarzeneger foi vencedor). Nessa apresentação, Iggy saltava qual um canguru desgovernado, o som estava muito alto e extasiava-se em abaixar a calça de couro preta e mostrar os glúteos brancos para a plateia. Há quem gostou. Eu, não.
Iggy Pop acaba de lançar Après (com apenas meia hora de música, esta à venda apenas para download). O título é ótimo para um disco de covers: “après-Gainsbourg”, “après-Edith Piaf”… Ouvindo o álbum, a primeira conclusão a que se pode chegar é que Pop daria um bom crooner. Voz gravíssima, tem personalidade. Podia ser um cantor de churrascaria, podia embalar muito bem um Baile da Saudade. Manda bem em Only the Lonely, superclássico na voz de Frank Sinatra.
Já que é “Après”, cinco das faixas são francesas e cantadas nessa língua. Uma sexta poderia ser, mas é da dupla Lennon & McCartney; apesar do nome – Michelle –, é inglesa. A que abre é Es si tu n’existais pas, de Joe Dassin e Toto Cutugno. Foi cantada por Johnny Haliday, Mireille Mathieu e Dalida (acho que poucos a conhecem, fora o amigo Mansur Bassit; suicidou-se em 1987, quando tinha 54 anos, mas antes do fato consumado havia tentado uma vez, depois que Luigi Tenco, seu namorado na época, suicidou-se por ter sua composição Ciao Amore, Ciao desclassificada no tradicional Festival de San Remo). As outras, bem conhecidas, são La javanaise, de Serge Gainsbourg, La vie en rose, eternizada por Edith Piaf, Syracuse, e, finalmente, Les passantes, canção de Georges Brassens. Em La javanaise e La vie en rose, a interpretação chega a ser sofrível. A curiosidade no clássico consagrado por Piaf é o solo inicial do trumpete, como a de outra interpretação inesquecível: a de Louis Armstrong. Se Iggy é sofrível nessas duas, nas restantes, se redime. Em Es si tu n’existais pas não faz feio, nem em Syracuse, se bem que é covardia compará-lo a Henri Salvador. Les passantes é a melhor das francesas com o senhor Osterberg soltando o vozeirão. Agora, não se esqueça que Iggy Pop é um americano cantando em francês. Em alguns momentos seu “accent” é de lascar.
As anglo-americanas do álbum são Everybody’s Talkin’, tema de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, grande filme de John Schlesinger, com Dustin Hoffman e Jon Voigt), do companheiro de noitadas regadas a muito álcool de John Lennon, na época em que tinha levado um pé na bunda de Yoko Ono (depois reataram o casamento), Michelle, dos Beatles, e dois standards – Only the Lonely e What Is This Thing Called Love. Canta com competência em todas essas, mas já que citei Yoko Ono, a melhor faixa é I’m Going Away Smiling; não é melhor que o original, mas é bem boa.
É a que você vai ouvir.
Agora, no Youtube há uma interpretação de I’m Going Away Smiling de Yoko e Antony, aquele do Antony & The Jonhsons, de arrepiar. Assista. Se você não conhece Antony (é sem “H” mesmo), está perdendo tempo. Leia sobre ele em http://bit.ly/OCkQyJ (“As relações entre Kazuo Ohno e Antony & The Jonhsons”).
Um dos grandes acontecimentos da década de 1980 foi a vinda, pela primeira vez ao Brasil, de Kazuo Ohno. Exagero? Pode ser. Garanto, no entanto,que quem assistiu às suas apresentações no Sesc-Consolação-São Paulo concordarão comigo. Ohno foi o propagador dessa forma de dança-teatro chamada butoh – ou teatro das trevas – com seu parceiro Tatsumi Hijikata. O responsável por sua vinda aqui, além de Antunes Filho, foi outro japonês, Takao Kusuno, como o seu irmão Tomoshigue, ligado às artes, ambos emigrados e de carreiras relevantes no meio artístico paulista.
A emoção causada por aquele senhor quase octogenário maquiado de branco, vestido com roupas femininas pode ser descrita – ou não – se só sentida, apenas pelos que tiveram o privilégio de vê-lo. Esteve mais duas vezes no Brasil. Contudo, foi tão forte a impressão causada que me recusei a vê-lo novamente, receoso de manchar aquele primeiro impacto. Tornou-se um mito e ficou num lugar acima dos que ocupamos, os humanos.
Pois, agora no início do mês de junho, fico sabendo que faleceu. Com 103 anos. E eu que o achava imortal, como os deuses. E era humano, como nós. O butoh, modalidade de dança surgida depois da tragédia da Segunda Guerra Mundial, era a manifestação da transcendência da morte… ou da vida? Em suas apresentações, o corpo magro e carcomido de Ohno era a própria transcendência, da indivisibilidade da vida/morte, em seu físico incorpóreo, branco como um fantasma diante de um cenário desnudo e negro.
Não é simples coincidência de que Kazuo Ohno esteja na capa do ultimo CD de Antony & The Johnsons. Há algo de estranho nesse compositor californiano e – muito mais – intérprete que se chama Antony, sem o “h” costumeiro na grafia em inglês deste nome. E esses “Johnsons”, quem são? E quem, porventura viu alguma de suas apresentações, sabe que tem muito mais que isso de estranho. É uma figura obesa de longos cabelos despenteados e ralos em seu topo e lábios muito, muito finos, quase que como se não os tivesse, meio assexuado, ou se quiserem, de aparência afeminada. Sua voz não é nem a de um homem e nem a de uma mulher, se se considerar que existe uma “terceira via”. Não é a voz de um castrati nem de falsete como a de Ney Matogrosso ou Jon Anderson, cantor do grupo de rock progressivo Yes. Um amigo, ao ver a capa de seu primeiro álbum, achou-o uma mistura de Boy George gordo com Nina Hagen.
Tal qual um curioso acidental, incidentalmente, em uma de minhas viagens, comprei o I Am a Bird Now sem saber muito dele, apenas aquela curiosidade por aquela personagem excêntrica. Foi um soco no estômago: a primeira faixa, Hope There’s Someone, foi um dos “impactos à primeira vista”. Temeria dizer que tenha sido “amor à primeira vista”, pois faltavam adjetivos que o classificassem, pego no “susto” que fui. Era uma voz triste e expressiva no entanto, estranha. É claro que fui atrás do primeiro CD lançado, que não é tão bom e nem tão impactante quanto I Am a Bird Now. Não me alongo sobre os dois primeiros CDs, que serão para uma outra hora.
O mais recente, The Crying Light, lançado em 2009, é um belo disco, sem dúvida. Tocante, com arranjos belíssimos em que se realçam as cordas sobre linhas de piano e belas intervenções de sopros, como a flauta e a clarineta, é, como o anterior, com aquelas baladas tristes e melancólicas. Her Eyes Are Underneath the Ground, que se inicia com sua voz, o piano e um cello é uma excelente introdução da capacidade de Antony Hegarty emocionar a nós todos com sua voz “triste”. É de quase chorar – digo para aqueles que estão naqueles momentos específicos de fragilidade ou sensíveis como finas camadas de cristal – quando canta por misericórdia (“In the starlight you came from the other side/ To offer me mercy/Mercy/Mercy”) em One Dove. Depois do primeiro refrão, entra um solo de sax que apenas impulsiona o sentimento de abandono. Mesmo nas músicas mais “alegrinhas”, o tom que sobressai é o da melancolia: é como se a alegria fosse um sentimento insuficiente em sua alma. Antony tem algo de cantor de cabaré, digo por uma certa teatralidade no seu modo de cantar, que lembra um pouco a de Marc Almond, criador do Soft Cell nos anos 1980. Mas não é apenas por isso: é também por sua androginia, no seu modo de vestir embaralhando peças masculinas com femininas, no seu jeito delicado de arrumar o seu “despenteado”, enfim é uma figura exótica, capaz de causar tanto impacto quanto ver pela primeira vez a figura de Kazuo Ohno no palco.
Na capa, uma foto de Kazuo por Naoya Ikegami. Nas internas do encarte mais três imagens: a de Antony, uma foto escura com um brilho raiado no olho, uma de Johanna Constantine – que é o mesmo nome de uma personagem de Sandman, criação de Neil Gaiman – banhada do que parece sangue – na busca pelo Google, fez parte de um grupo chamado The Blacklips Drag Theater, do qual Antony era um dos componentes –, e a dra. Julia Yasuda, phd em matemática, nascida com algo designado como síndrome de Klinefelter, qualificada como uma desordem cromossômica em que seres do sexo masculino nascem com um cromossomo X a mais – novamente, Google como fonte –, que, como Johanna, participou de performances e apresentações com o cantor. Bom, é muita esquisitice de uma vez. Estranho e belo.