terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O melhor disco ao vivo do mundo. Ou, pelo menos, o dele: Antony and The Johnsons

A imagem de Antony Hegarty na capa de Cut the World
Fiquei surpreso com o fato de Roberto Menescal, compositor de O Barquinho e Surfboard, violonista, produtor e, atualmente, dono do estúdio Albatroz, ter citado Cut the World, de Antony and The Johnsons, como exemplo de um disco ao vivo bem gravado. Pelo jeito, Antony Hegarty não é tão desconhecido por essas paragens.

Em seus tempos de A&R na Philips, discos ao vivo eram cheios de aplausos irritantes. Muitos deles eram um “faz-de-conta”. Gravados em estúdio, os aplausos eram acrescentados depois. Em outros casos, como no álbum Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, gravado no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), partes que poderiam causar problemas com a censura do regime militar (em 1972, a coisa era muito séria e o pau, como se dizia, corria solto contra qualquer manifestação que os militares pudessem considerar como ameaça) eram “tapados” – ou camuflados – com ondas de aplauso. Quando Chico Buarque cantava Bárbara, os trechos “perigosos”, eram camuflados com “exaltados” aplausos. Outro caso de álbum estragado por aplausos é o de João Gilberto gravado no teatro da TV Globo, em 1980.

Menescal cita o disco de Antony and The Johnsons em razão, justamente, de ser um disco ao vivo em que não se ouve um aplauso ou algum ruído da plateia. A exceção é na faixa Future Feminist (logo mais vai ficar claro por que). Em registros de apresentações ao vivo, mesmo não sendo irritantes, o aplauso é um componente natural. Novas tecnologias permitem que sejam completamente suprimidas. É comum o uso dessa técnica em discos de musica erudita. Orquestras são numerosas e fica muito caro colocá-las em um estúdio. As óperas, praticamente, deixaram de ser gravadas desse modo devido ao custo e ao trabalho que dá registrar vozes e instrumentos separadamente. Mesmo que o custo hora de estúdio tenha diminuído drasticamente, reunir muitas pessoas em um estúdio necessita de uma logística absurda.

Cut The World foi gravado em Copenhagen com a Danish National Chamber Orchestra. E o resultado é excepcional. Se Antony Hegarty é bom com pouco acompanhamento ou apenas ao piano, impressionante como sua música ganha com uma orquestra.

Fora a primeira, que é a canção título e a segunda, que, em vez de ser canção, é um longo discurso sobre uma nova sexualidade – Jesus como uma garota ou Buda como uma mãe, do patriarcado ao matriarcado, coisas do tipo –, as restantes são conhecidas por seus fãs.

Aliás, o “discurso” de Future Feminism cai bem partindo de uma figura andrógina como Antony. Cabelos longos, uma franja à la Veronica Lake, lembrando vagamente a arquiteta Lina Bo Bardi. Um pouco gordo, rosto bem rechonchudo, os cabelos caindo para um lado, apresenta-se com frequência vestindo batas ou roupas bem largas. Quando se veste de branco é como um anjo torto, “um patinho feio que se transforma em um magnífico cisne”, conforme descrição publicada no The Independent em 4 de agosto de 2012. A comparação não é casual: o quarto álbum se chama Swanlights. Os gestos no palco, como você irá ver no vídeo de Cripple and the Starfish, são bem estranhos. Não são desse mundo (o dos normais, digo), e Antony não é homem nem mulher; é um outro gênero, – um transgênero, se isso existe – talvez algo que explica parcialmente Future Feminism.

As cordas, flautas e sopros da orquestra da Danish National Chamber Orchestra, reforçam as qualidade da música e do vocal de Antony. A melancolia fica mais melancólica, o (melo)dramático se torna mais dramático, a desesperança é mais dolorida, soturna. Ele se definiu, em uma entrevista como alguém que tende a ficar em pequeno barco e navegar em volta de enormes embarcações. Para quem gosta de excessos é um prato cheio. Algumas de suas qualidades se originam de sua participação em espetáculos que não exclusivamente musicais. É um performático (desculpe pela expressão meio fora de moda), em atuações que conjugam a dança (é apaixonado pelo butoh e por Kazuo Ohno), o teatro e o cinema.

Cut the World, a inédita, tem como parceira criativa a artista (performática) Marina Abramović. Transformou-se em um curta, dirigido por Nabil Elderkin. Assista. O refrão “But when will I turn and hurt the world?/ When will I turn and cut the world?” é uma boa pista do que acontece. Assista.



Veja Antony em Cripple and the Starfish;




em The Crying Light.



I Fell in Love with a Dead Boy.




Leia “Kazuo Ohno e Antony and The Johnsons”: http://bit.ly/OCkQyK

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