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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

José James homenageia Bill Withers

José James e seu visual para homenagear Bill Withers
Boa parte da nova geração de vocalistas considerados do universo do jazz, estão bem longe do mainstream como, digamos, Tony Bennett.

Gerações mais novas, mesmo gostando de jazz, cresceram ouvindo outros gêneros musicais. São exemplos, Gregory Porter, José James, Leslie Odom, Jr., Jamison Ross, Dwight Trible e o alemão Theo Bleckman, esses dois últimos, nem tão jovens. Podem até cantar “Summertime”, “They Can’t Take That Away from Me” ou “I Love Paris”, mas não são o prinicipal de seus repertórios.

O mais conhecido e considerado o melhor é Gregory Porter. Tem uma bela voz de barítono, registro que não é comum. São poucos: Billy Eckstine, Johnny Hartman, e, dentre os não tão antigos, Andy Bey e Kevin Mahogany,  morto há pouco mais de um ano. No álbum mais recente, Porter homenageia seu ídolo, em “Nat King Cole & Me”.

O que ajuda na popularidade de Porter é lançar por um grande selo. Tradicional e responsável por um respeitável portfólio de grandes discos de jazz, o Blue Note, atendendo às mudanças do público, tem contratado intérpretes que em outros tempos não se encaixariam no seu perfil. Outro destaque da mesma gravadora é José James. Como Porter, lançou álbuns com repertório mais tradicional, como “For All We Know” (Impulse, 2010), com o pianista Jef Nieve, e mais recentemente, o fenomenal “Yesterday I Had the Blues” (Blue Note, 2015), tributo à Billie Holiday. Sua preferência, entretanto, é por um som cujas linhas musicais estão mais associadas ao pop, r&b e ao hip-hop.

James é outro cantor de voz grave, um pouco diferente da de Porter, um “whiskey-sour baritone”, segundo John Murph, da revista Downbeat. Coincidentemente, seu disco mais recente é um tributo, mas de alguém da seara r&b, Bill Withers, autor do clássico “Ain’t No Sunshine”

Veja JJ interpretando “Ain’t No Sunshine’, em apresentação em Paris.




Em “Lean on Me”, abre justamente com essa canção. Não é o único hit do compositor. Tem muitos outros, que estão presentes no álbum: a música título,“Kissing My Love”, “Just the Two of Us”, “Hope She’ll Be Happier” e “Better Off Dead”, as minhas preferidas.

Ouça o álbum pelo Spotify.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A face soul de Dee Dee Bridgewater

“Sim, sou uma cantora de jazz”, afirma Dee Dee Bridgewater nas notas internas de “Memphis… Yes, I’m Ready”, que acaba de ser lançado. Era o que sonhava ser: uma jazz singer.

Também! Era previsível. Seu pai, Matthew Garrett, foi trompetista profissional e professor na Manassas High School de 1949 a 1952. Foram alunos seus, simplesmente, Charles Lloyd, George Coleman, Frank Strozier, Brooker Little, Phineas Newborn Jr. e Harold Mabern, sem dúvida, uma turma de respeito.

“Sim, eu nasci em Memphis, Tennessee”, assim começa nas notas internas. Quando tinha três anos, a família mudou-se para Flint, Michigan. Adolescente, ouvia nas noites a WDIA Radio. Nas suas palavras, era seu “jardim secreto”. Era a única rádio que tinha a programação inteiramente voltada para a música afro-americana. Assim, tomou gosto por vários gêneros, no entanto, tornou-se uma jazz singer porque “isso é algo que sempre sonhei ser”.

Não fosse esse seu propósito, poderia muito bem tem virado uma intérprete “pop”, como Aretha Franklin, que, aliás, no início de sua carreira voltou-se para os standards de jazz. Tivesse seguido por esse caminho, Dee Dee teria feito até mais sucesso, pois talento e aquele timbre que só os negros têm nunca lhe faltaram.

Denise Eileen Garrett, enquanto cursava a Michigan State University, cantava em clubes de jazz, pois sua meta era ser cantora. Conheceu o trompetista Cecil Bridgewater, com quem se casou. Mudaram-se para Nova York. Cecil tocava na banda de Horace Silver. Dee Dee, a partir de então, Bridgewater, foi ser crooner da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. O início auspicioso fez com que conhecesse Sonny Rollins, Dexter Gordon, Max Roach e Dizzy Gillespie, dentre outros.

Dona de uma voz poderosa, a bela negra participou do musical “The Wiz”, ganhou o Tony Awards como “best featured actress”, em 1975, e um Grammy no ano seguinte. Como performer de musicais foi para a França, fazendo parte do musical “Sophisticated Ladies”, e por lá ficou. Casou-se com o produtor Jean-Marie Durand, em 1911. Antes, estava casada com Gilbert Moses, com quem teve China Moses, que optou pela mesma profissão da mãe. No início dos anos 1980, retomou a carreira de jazz singer.

Um talento tão indiscutível só poderia encontrar morada em grandes gravadoras como a Verve e ser convidada para cantar nos maiores e mais prestigiados festivais e clubes de jazz. É considerada uma das melhores cantoras vivas, junto com as experientes Dianne Reeves e Cassandra Wilson. É certo que há a emergência de uma nova geração de peso em que despontam Roberta Gambarini, a sensação Cécile McLorin Salvant, Cyrille Aimée, Lizz Wright, sem esquecer das fabulosas Dianna Krall, Stacey Kent, Karryn Allison, Tierney Sutton e Catherine Russell, que preenchem o meio campo desse espectro geracional.

Pois Dee Dee resolveu montar um repertório resultado da “investigação do seu passado”. “Meu círculo de vida foi fechado. Agora eu me entendo em sua totalidade. Meu espírito está tranquilizado.” Seu propósito de vida, afinal, ficou entremeado de tudo do que ouvia no rádio. É por isso que o nome do álbum é “Memphis… Yes I’m Ready!”. Foi nesta cidade que nasceu, em 27 de maio de 1947.

Como na música de Al Green, Sam Cooke, Aretha Franklin e outros, algumas características são marcantes na música gospel americana, soul, blues, ou, para ser mais abrangente, do rhythm’n’blues: backing vocals, naipes de sopros e sons do órgão Hammond. Tudo está presente em “Memphis…”. Clássicos de compositores e intérpretes como Norman Whitfield e Barrett Strong, Isaac Hayes, Margaret Ann Peebles, Otis Blackwell, Jerry Leiber e Mike Stoller, Van McCoy compõem esse álbum impecável e poderoso.

Com sua voz cheia daquela energia própria dos negros, apesar de sua mãe – a quem o disco é dedicado – nunca tivesse querido que Dee Dee cantasse blues, quando começou a cantar profissionalmente, “Memphis…” é candidato a ser o melhor álbum do ano em um gênero que não é jazz. Confira.

Ouça a clássica “Sound Dog”, que ficou famosa na voz de Elvis Presley.



A clássica “Try a Little Tenderness”. Foi até cantada por Frank Sinatra, mas a clássica mesmo é a de Otis Redding.


 

Ouça “Why (Am I Treated So Bad)”, de Roebuck Staples.



Provavelmente, a mais conhecida interpretação de “The Thrill Is Gone” é a de B.B. King, mas a de Bridgewater também é excepcional. O Hammond B3 faz a diferença.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Charenée Wade e a alta voltagem da música de Gil Scott-Heron

Das três primeiras colocadas no Thelonious Monk International Jazz Vocalist Competition de 2010, a menos conhecida, por enquanto, é Charenée Wade. Ficou em segundo, com a estupenda Cécile McLorin Salvant em primeiro e Cyrille Aimée completando a lista. Mas a hora dela chegou.

Gil Scott-Heron, falecido em 2011, foi um gênio rebelde, com altos e baixos em razão de seus problemas com as drogas, principalmente. Foi preso mais de uma vez. Fugiu de uma clínica de reabilitação alegando que não estavam lhe dando remédios para o tratamento de HIV. Até então, não se sabia que Heron era soropositivo. Isso se confirmou posteriormente. O autor de “The Revolution Will Not Be Televised” foi uma artista fora da curva. Quando estudante na Lincoln University, Pensilvânia, seu herói era o poeta Langston Hughes, negro, homossexual e comunista. Além de músico, é autor dos romances “The Vulture” e “Nigger Factory”. Seu interesse pela literatura e pela luta dos negros contra o domínio da cultura branca influenciaram na sua forma de fazer música. Inicialmente classificado como autor que em suas canções mesclava o jazz, o soul e o blues, Scott-Heron introduziu o canto falado, quase sempre em tom de manifesto. Nesse sentido pode-se dizer que é um dos pioneiros do rap.

Conheci Scott-Heron ao ouvir o LP “Real Eyes”, em 1980, na casa em que o Hilton Raw dividia com o Arnaldo Black e o Aaron (esqueci o sobrenome). O Hilton estava fascinado por ele e o apelidou de “Sócrates da música”, em alusão à semelhança dele na imagem da contracapa do disco com o jogador. Acho que referia-se também à categoria de ambos em suas especialidades. Por coincidência, os dois morreram no mesmo ano: 2011. Um abusou das drogas, e o outro, do álcool.

Na capa, Gil aparecia com um bebê, sorridente e feliz. Devia estar em uma fase pacificada com a vida. Conheci um Gil diferente do que descobri mais tarde. A curiosidade me fez procurar outros discos, os anteriores ao “Real Eyes”. Um deles me impressionou bastante. “From South Africa to South Carolina” (Arista, 1975), com Brian Jackson.

Uma revelação

A quatro anos atrás, Mark Ruffin estava trabalhando com o cantor Giacomo Gates em um álbum com material de Scott-Heron. Como o lançamento de “Revolution Will Be Jazz: The Songs of Gil Scott-Heron” coincidiu com a morte dele, o álbum foi erradamente interpretado como um tributo.

Apesar da grande qualidade do álbum de Gates, um dos melhores cantores de jazz da atualidade, Ruffin planejava um outro que fosse realmente um tributo póstumo. O ponto de partida foi Charenée. A tônica foi sobre a parceria de Scott-Heron com Brian Jackson. Foi escolhido um time de grandes músicos, incluindo o vibrafonista Stefon Harris, o guitarrista Dave Stryker, o pianista Brandon Kune, o baixista Lonnie Plaxico e o baterista Alvester Garnett, além das participações especiais de Lakecia Benjamin no sax alto, Marcus Miller na clarineta baixo e Malcoln-Jamal Warner na declamação em “Essex Martin, Grant, Byrd & Till”, e o baixista Christian Bride na declamação de “Peace, Go with You, Brother”.

Lançado pelo selo Motéma, “Offering: The Music of Gil Scott-Heron & Brian Jackson”. Christopher Loudon, da JazzTimes, compara a voz de Wade à “flexibilidade [vocal] de Dianne Reeves com o espírito de Abbey Lincoln.” Boa lembrança: Lincoln é um dos nomes mais importantes da música de protesto, com o álbum “We Insist!”, com o então marido, o baterista Max Roach.

Wade tem a perfeita consciência do que Scott-Heron representa na sociedade americana. Nas liner notes, refere-se a “questões que ainda precisam ser abordadas hoje. […] mesmo à luz de alguns progressos que nos foi proporcionado pelo milagre do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ainda há muitas lutas que revelam o nosso trabalho que ainda não foi realizado.”

Com a consciência de seu lugar no mundo, sendo artista, sua maior qualidade é a de ser um mensageiro por meio de sua arte. Seu grande valor está em interpretar a poesia de Scott-Heron de modo que transcenda o panfletário. Ela se faz por meio de uma voz privilegiada, arranjos engenhosos de Wade que combinam energia e lirismo, doces mas incisivos. Ainda vamos ouvir bastante o seu nome. O reconhecimento já está chegando. Além de várias crítica elogiosas, ficou entre os 20 melhores lançamentos na lista da “64th Critics Poll”, da Downbeat.

Ouça “Song of the Wind”. Destaque para o vibrafone de Stefon Harris.




Ouça também “Ain’t No Such Thing As Superman”.




Outro destaque é “A Toast to the People”.




Ouça a original, com Gil Scott-Heron.




Clique aqui para ouvir o álbum na íntegra.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Os talentos de Kim Nalley

Perto de completar 45 anos, Kim Nalley é uma quase desconhecida Mesmo em um centro como os Estados Unidos, faz diferença ser músico na costa leste ou na costa oeste. E Kim é de lá. Por um tempo, no jazz, fazia-se uma distinção entre o leste e o oeste. O que chamavam de “west coast jazz” era cool, menos bop, como a da turma novaiorquina em que se destacavam Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell e cia. Por várias razões, e até por ser uma babel cosmopolita para onde ia e vai a maioria dos músicos estrangeiros que desejam ficar conhecidos, a costa leste é o lugar. A Califórnia é a terra do cinema, das praias, do surfe, dos Beach Boys e de movimentos libertários como o “flower power”.

Com o lançamento de “Blues People”, neste ano, a fama de Kim Nalley deve ultrapassar as fronteiras da Califórnia. O álbum recebeu quatro estrelas pela Downbeat (fevereiro de 2016) e ganhou matéria de dois terços de página no número do mês seguinte. Na crítica, no primeiro parágrafo é ressaltada sua capacidade de atingir três oitavas e meia, o que poucos conseguem. É um bom dado, mas não é o grande quesito para se ser um grande cantor. Mais importante é a inteligência vocal, se isso existe.

Na matéria “Speaking in Mind”, da Downbeat de março, é destacada não apenas a extensão vocal, mas alguns dados que complementam o conceito perseguido em “Blues People”. Kim é formada pela Universidade da Califórnia e está se candidatando a uma vaga de doutorado com um trabalho sobre os músicos sfro-americanos depois da Segunda Guerra.

O título do disco é o mesmo de um livro de Amiri Baraka (nascido LeRoi Jones), “Blues People: Negro Music in White America”. Assim como sua tese de doutorado, a inspiração é histórica. O repertório segue essa lente. Duas composições são de Nalley (“Big Hooked Black Man” e “Ferguson Blues”), algumas são tradicionais de domínio público, como “Amazing Grace” e “Trouble of the World”, e as restantes abrangem um passado próximo ao início do século passado, como “The Chair Song” e “Sugar in My Bowl”, de Bessie Smith, até a razoavelmente contemporânea “I Shall Be Released”, de Bob Dylan. Apesar do título, é evidente que não é um álbum de blues. Como afirma Nalley: “É blues, sim. Mas é também jazz, gospel e rhythm’n’blues.”

Bom, vamos acabar com o papo furado e vamos ouvir a voz de Kim Nalley.

Bela interpretação de “Summertime”. É música negra escrita por um branco.




A melhor de “Blues People” é “Trouble of the World”.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Marvin Gaye e os outros

Capa do CD tributo a Marvin Gaye
O que é uma vida de artista, como certa vez perguntou Sueli Costa. Quando entrava na adolescência, um amigo de meu pai e de um dos empregados de sua loja de fotografia chamado David, chinês assentado, bon vivant, pelo jeito – nunca soube o que fazia –, aparentemente rico, sujeito culto, disse-me que artistas eram diferentes. Tinham de ser diferentes. Era razoavelmente culto e gostava de ler. Os primeiro Hemingway foi sugestão dele. Sei hoje que não é bem assim. Basta o exemplo de Giorgio Morandi, sujeito metódico e autor de uma obra pictórica genial. Era tão metódico que, me parece, tinha uma amante e ficou anos a fazer suas visitas, sempre no mesmo dia da semana e pegando o trem nos mesmos horários.

Mas o lugar comum diz que o artista tem que ser meio maluco. Pensando melhor, a disciplina que está refletida nas geniais gravuras em metal e nas pinturas de Morandi, seu modo sistemático, pode ser considerado maluquice. Mas na visão romântica, artistas são tuberculosos, atormentados, drogados ou alcoólatras. O drama de Marvin Gaye foi o pai.

Marvin Gay, Senior era pregador de uma igreja cuja doutrina era uma mistura de judaísmo com fundamentalismo católico. A convivência, apesar de adorá-lo, sempre foi conflituosa e causou muitos ressentimentos. Por sorte e talento, libertou-se do terrível convívio familiar graças à música. Logo Gaye – acrescentou um “e” ao sobrenome – estava fazendo sucesso. Caiu nas graças de Barry Gordy, dono da gravadora Motown. E não foi só isso: casou com a filha do dono. Arrumou outro pai: Barry.

Ele era o dono da gravadora e sentia-se senhor de seus contratados, principalmente, de Marvin. O sucesso comercial deu-lhe uma certa autonomia e assim pode gravar algo mais pessoal. Gravou “What’s Going on”, em 1971. É um dos melhores discos da história da música popular. “

A relação profissional-familiar degringolou. Separou-se de Anna. Era apaixonado por ela e sabia que tinha uma grande dívida para com ela e seu pai. “Here, My Dear”, de 1978, é o retrato dessa fase conturbada.

Começou a abusar da cocaína nessa época. Resolveu isolar-se em uma ilha no Pacífico na intenção de parar com o vício. Parece que funcionou. Contratado pela CBS, lançou “Sexual Healing”. Estava de novo, como se dizia antigamente, na crista da onda. Se em “What’s Going on” buscava a salvação através da espiritualidade, o Gaye de 1982 proclamava a cura pelo sexo: Levante-se, levante-se, levante-se!/ […]/ Oh, baby, estou quente como um forno/ Eu preciso de um pouco de amor/ E, baby, não posso segurar por muito mais tempo/ Está ficando cada vez mais forte/ E quando sinto isso/ Eu quero a cura sexual/ Cura sexual, oh, baby/ Me faz sentir tão bem/ Ajuda a aliviar a minha mente.

Misturar sexo com religião, às vezes, resulta em curto circuito. Voltou com tudo para a cocaína. Foi morar com os pais. Os ressentimentos voltaram à tona. Seus problemas se resolveram de modo um tanto radical. No dia 1º de abril de 1984, um dia antes de completar 45 anos, foi morto pelo pai com um revólver 38. Morreu pela arma que tinha dado de presente.

Mais de trinta anos depois de morto, Marvin Gaye ainda é lembrado, pelo menos, por mim. Acordei ouvindo uma versão de “What’s Going On” de que não lembrava. Era com Bono Vox. Estava no iPod que eu deixo no quarto, conectado a um Altec Lansing portátil. Procurei pelo CD em casa. Chama-se “What’s Going On” mesmo e é um daqueles feitos para arrecadar fundos para as vítimas da Aids.

Além desse, outros que encontrei foram “Inner City Blues”, de 1995, com Nona Gaye, Boys II Men, Neneh Cherry, Stevie Wonder, Lisa Stansfield, dentre outros. Outro disco tributo é “Jazz Loves Marvin Gaye”. Dentre os participantes estão Gato Barbieri, Quincy Jones, Grover Washington Jr., Mongo Santamaria e Regina Carter.

Como de costume, esse tipo de coletânea é irregular, mas sempre tem boas surpresas.

Veja o clipe de “What’s Going On”, com Bono Vox e Chris Martin.



Em viagens, como não existia a facilidade de hoje, ainda na época dos LPs, passava em lojas como Tower, HMV e J&R uma vez por dia. Ficava fuçando tentando “descobrir” algo que ninguém conhecia. Provavelmente, por causa de“ Inner City Blues” e da capa, comprei um LP de uma banda chamada Working Week. Nunca tinha ouvido falar. Não decepcionou. A versão deles da música de Gaye era fenomenal. Ouça.



Veja também a de uma apresentação que descobri no YouTube.


No CD tributo “Inner City Blues”, é muito boa a da música título, com Nona Gaye. Acho que é filha de Marvin. Veja.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Allen Toussaint, o músico dos músicos

No último dia 10, Allen Toussaint sofreu um ataque de coração no hotel, em Madri, e não resistiu. Excursionava pela Europa e tinha um show marcado com Paul Simon no começo de dezembro com renda a ser revertida para a New Orleans Artists Against Hunger and Homelessness, organização de caridade da qual Toussaint foi um dos fundadores.

Toussaint ganhou reconhecimento tardio, mas do público. Era venerado pelos músicos por seu trabalho como produtor, diretor musical e compositor, bem antes de lançar From a Whisper to a Scream. seu primeiro álbum como líder. Isso foi em 1970. Sua estreia no mundo do disco, no entanto, havia se dado em 1958 com The Crazy World of New Orleans, assinando como Al Tousan. Os Rolling Stones, Aaron Neville, The Yardbirds, Irma Thomas, Oti Redding, dentre outros, gravaram suas composições. Era um cara de bastidores e ajudava não ser conhecido assinar suas músicas como Naomi Neville, o nome de sua mãe.

Era de New Orleans. Diferentemente de outros nativos da terra do dixieland, de Louis Armstrong e do clã Marsalis, seu gosto inclinava-se ao rhythm’n’blues, consequentemente, ao rock e ao funk. Ao lançar The Crazy World of New Orleans, todo instrumental, Allen mostrava ao que tinha vindo. Em vez de continuar a gravar, aceitou um convite para ser A&R do selo Minit. Foi produtor de inúmeros sucessos e emplacou várias composições neste selo e no seguinte, que foi criado por ele e o produtor Marshall Sehorn. Na década de 1970, quando lançou Toussaint, relançado como From a Whisper to a Scream, participou, como produtor principalmente, e também como arranjador de álbuns de Paul McCartney, Dr. John, The Band, John Mayall, Etta James, Patti Labelle, dentre outros.


O legado
The Bright Mississippi é um dos grandes álbuns de Toussaint. Lançado em 2009 por uma gravadora maior, a Nonesuch, serve como síntese de sua genialidade em um álbum que se inclina mais ao jazz do que a outros ritmos.

O lançamento do discoi foi acompanhado de críticas entusiasmadas. Menos rhythm’n’blues e mais jazz, mesmo assim, Toussaint, afirmava suas raízes. Afinal, New Orleans é a terra de Louis Armstrong, Lil Harding, genial pianista e compositora uma das mulheres do trompetista, o berço do ragtime, que teve como expressões Buddy Bolden, Sidney Bechet e Jelly Roll Morton.

Allen, ao piano e nos vocais (em Long, Long Journey) e um conjunto estelar do qual participam Don Byron, Marc Ribot, David Piltch, Jay Bellrose e Nicholas Payton fizeram um disco excepcional, delicioso, quente e contagiante. Seu piano é o eixo. O violão de Ribot relembra o estilo de Django Reinhardt e de ritmistas como Freddie Green. O trompete de Payton, este, natural de New Orleans, e a clarineta de Don Byron, em conjunto com o contrabaixo bem marcado de Piltch e a bateria de Bellrose rememoram temas caros como West End Blues, de King Oliver, St. James Infirmary, e Egyptian Fantasy, de Sidney Bechet.

Ouça Egyptian Fantasy, a primeira do disco.




Ouça St. James Infirmary.




The Bright Mississippi conta com participações especiais em dois números: Brad Mehldau em Winin' Boy Blues, de Jelly Roll Morton, e Joshua Redman Daydream, de Billy Strayhorn e Duke Ellington.

Ouça o duo de Mehldau e Tossaint. Belíssimo.



O sax tenor de Joshua Redman e o piano de Toussaint.



O piano de Allen Toussaint era realmente especial, não? Sua elegância não era apenas no vestir. Toussaint era a própria expressão da elegância.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Nina Simone revista e revisitada

Um CD e um documentário na Netflix, lançados neste mês, trazem o nome de Nina Simone à luz da ribalta. O primeiro chama-se Nina Revisited, e o segundo, What Happened, Nina Simone?

Boa pergunta: o que aconteceu com Nina Simone? Ela é uma daquelas unanimidades, uma quase deusa, de quem não se pode falar, sob o risco de ser linchado publicamente. Alguns nomes despertam esse sentimento beatífico. Como Chet Baker, ou, Elis Regina. No caso da brasileira, parece que ninguém se lembra que andou cantando Eu Te Amo Meu Brasil, de Dom e Ravel, e que foi orgulhosa participante dos festejos dos 150 anos da Independência do Brasil, em 1972, época em que a ditadura fazia um bom estrago. Por esse episódio, o humorista Henfil enterrou-a no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô, que era o lugar para onde mandava os afinados ao regime militar.

Nina Simone, pelo contrário, nunca “cantou” ou adulou ditadores. Seu despertar para a segregação racial, aliás, ceifou a carreira ascendente da cantora.

Nina, nascida Eunice Kathleen Waymon, adotou o nome unindo “Nina”, derivado do apelido “Niña” que um namorado lhe dera quando adolescente, e “Simone”, depois de ter visto um filme da atriz francesa Simone Signoret. Coincidentemente, seu primeiro álbum chamou-se Little Girl Blue. Era comnhecida quando casou-se com Andrew Stroud. Este largou a polícia para tornar-se seu empresário.

Andy era um cara esperto. Investiu em um show no Carnegie Hall, Nova York. Foi a virada. Consagrada, a agenda vivia lotada. E o dinheiro veio em pencas. Compraram uma bela casa e tiveram uma filha: Lisa. O marido caiu como uma luva em relação aos seus mais íntimos desejos. Em uma lousa de sua casa estava escrito: “Serei a negra mais rica”’. Além da casa, possuía um carro luxuoso na garagem e tinha prazer em ver estampadas fotos posando em seu possante automóvel.

Se Andrew era bom empresário, como marido não era dos melhores. Batia em Nina com frequência. Pelo jeito, Nina não via isso como problema. Sentia-se esgotada com o número de apresentações que tinha de fazer. Vivia se queixando de cansaço, dormia sob efeitos de soníferos, reclamava, mas ele dizia: se você quer ficar rica tem que trabalhar. Nesse estado, perdera a vontade de fazer sexo.

Os dois tinham ido a uma boate e um admirador deu-lhe um bilhete. Andrew viu-a colocar o papel no bolso. Enfurecido, tirou-a de lá a passou a socá-la. Em casa, continuou, até quando subiam a escada. Apontou-lhe uma arma, amarrou-a na cama, e a estuprou. Não era normal. Em seu diário está escrito: “Adoro violência física, mesmo no sexo e no amor.”

Os distúrbios de setembro de 1963, em Birmingham, depois da morte de quatro crianças negras e 20 feridos em uma decorrência de uma bomba jogada em uma escola cristã, representam uma guinada na vida e na arte de Nina. Revoltada, lança Mississippi Goddam. A cantora que desejava ser a negra mais rica deixou de existir. Era agora a Nina “Passionária”, engajada. A luta pelos direitos civis aproximou-a de intelectuais negros como Langston Hughes, James Baldwin, o cantor Harry Belafonte, ligados ao Partido Comunista americano, ativistas como Martin Luther King e Malcolm X, e artistas e músicos como Sammy Davis, Jr. e brancos como Leonard Bernstein.

Uma das consequências de seu engajamento foi a drástica diminuição de convites para apresentar-se. Os brancos não estavam acostumados com palavrões em rede nacional. “Puta que pariu” (goddam) era um tanto forte. A nova fase representou outra transformação: se antes perdera o apetite para o sexo, nessa nova fase, voltou, e de modo intenso. Isso serviu para a degradação do casamento. Andrew devia ter muitas mulheres, mas não devia estar gostando de ver Nina transando com muitos homens.

Nina deixou os EUA e mudou-se para a Libéria, país na África criada por escravos americanos libertos. Morou também em Barbados, Holanda, Inglaterra, Bélgica e França. Longe da América, viu a carreira declinar. Foram seis anos desde o último até gravar o álbum, em Bruxelas, para a CTI, de Creed Taylor. Eram conhecidas as oscilações de humor de Nina. Desde o início da carreira, passava pitos na plateia e interrompia shows. Dizia que o público tinha de ser como os das salas de concerto. Com o passar do tempo, a instabilidade de humor se agravou. Era quase impossível conviver com a cantora. Replicava a violência física vivida com o marido batendo na filha. Lisa foi embora quando tinha 14 anos. No fim dos anos 1980, Simone foi diagnosticada como bipolar.

O mundo tinha esquecido de Simone. Graças aos esforços do amigo Clifton Henderson, voltou a fazer shows. Não possuía mais o antigo brilho. Mas era cultuada pela crítica, mais pelo seu passado. E o público foi na onda “cult”. A maioria dos fãs de hoje são aqueles que a conheceram quando era uma sombra do que fora. Natural. Quem era fã de Nina Simone no início dos anos 1960 deve ter por volta de 70, 80 anos. Assisti a uma apresentação dela nessa fase final. Entrou vagarosamente – parecia bêbada –, sentou-se ao piano, não olhou uma vez para os que a assistiam, desafinou bastante, e foi embora.

Mais um álbum tributo. Depois do belo álbum Autour de Nina (http://bit.ly/1Hs0L7l), é lançado o tributo americano. Nina Revisited – A Tribute to Nina Simone, uma produção de Lauryn Hill e Robert Glasper. Considerando-se os envolvidos, alguns podem adorar antes de ouvir o álbum e, outros, ficarão com um pé atrás. O ideal é ouvir sem juízos anteriores. Glasper é um pianista rising star. Mostrou competência com seu trio e agradou até aqueles que não são fãs do rap ou do hiphop.

Quem conhece The Miseducation of Lauryn Hill sabe do quanto ela é boa. Inexplicavelmente, sua discografia se resume a este álbum e um ao vivo na MTV. Desde o seu lançamento – 1998 – até agora, passou mais de uma década. A última vez em que se falou de Hill foi quando foi presa, em 2013, acusada de ter sonegado imposto sobre 1,3 milhão de dólares de ganhos.

Quando entrou no projeto de Nina Revisited, sua participação não seria tão grande como acabou acontecendo. Sorte nossa. Lauryn arrasa em vários números.

Ouça Black Is the Colour of My True Love’s Hair.


Ouça a original com Nina Simone.


Grande interpretação de Feeling Good.



A melhor: Wild Is the Wind.



Outro destaque é Gregory Porter – como sempre, ótimo – cantando Sinnerman.



A grande surpresa (boa) é a versão matadora de I Put a Spell on You, com Alice Smith.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Al Green, o mestre das releituras

Al Green antes da conversão
Aproveitando o momento em que discute-se sobre religiões em tudo quanto é lugar – parece que, mais que etnias, países, a religião é motivo de guerras e barbárie – e no Brasil temos uma candidata a presidente evangélica, aproveitei para ouvir um pouco de Al Green. Começou participando da banda Soul Mates e partiu para a carreira solo depois de conhecer Willie Mitchell. Estourou nas paradas com Let’s Stay Together, em 1972.

No auge do sucesso, Green tinha uma namorada um tanto amalucada, pelo jeito. Mary Woodson propôs-lhe casamento e este recusou. Ela não gostou nem um pouco. Com raiva, jogou mingau quente sobre ele, enquanto tomava banho. Sofreu queimaduras de segundo grau. Ela foi para o outro quarto e se matou com o revólver de Al. Não é coisa de gente normal. Mas dá para deixar a vítima traumatizada. Aconteceu no fim de 1974.

Al Green, como muitos negros americanos, vinha de família religiosa. Talvez a tragédia o tenha chamado de volta às mãos de Deus. Em 1976, comprou uma igreja em Memphis e ordenou-se pastor da Full Gospel Tabernacle, sem interromper a carreira. Lançou The Belle Album (leia e ouça em http://bit.ly/XYYIrY), que teve receptividade pífia pelo público e pela crítica, apesar de ser muito bom. Em 1979, levou um tombo no palco. Era mais um aviso de Deus. Deixou de trabalhar com Willie, seu produtor, montou estúdio próprio e abraçou a religião de vez.

Al Green nem precisava compor. Com a voz, essa sim, abençoada por Deus, poderia ser, simplesmente, cantor e iria arrasar. Um dos mais conhecidos covers de Green é How Can You Mend a Broken Heart, dos irmãos Barry e Robin Gibb, dos Bee Gees. Sem desmerecer os australianos, a versão do americano é infinitamente melhor.

Veja Green em How Can You Mend a Broken Heart.




O texto de hoje é sobre as releituras que andei ouvindo nos últimos dias. Vamos começar com Pretty Woman, do grande Roy Orbison.




People Get Ready, de outro mestre do soul, Curtis Mayfield, foi considerada a 24ª melhor música de todos os tempos em votação da revista Rolling Stone. Encontrei no Facebook.





Outra que encontrei no YouTube é a emocionante A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke. Essa canção virou hino do movimento pelos direitos civis dos negros. (sobre Sam Cooke, leia http://bit.ly/YI8qiM)




Outro clássico, do The Doors, é Light My Fire.




O que fez dar uma pesquisada foi quando ouvi Summertime na caixa The Immortal Soul of Al Green, com quatro CDs.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Arthur Conley, o soul man a ser (re)lembrado

Arthur Conley, grande ás da soul music
Entre Sam Cooke e Otis Redding encontra-se Arthur Conley. Ou melhor, encontravam-se.Todos estão mortos; dois em circunstâncias trágicas e Arthur, desaparecido em 1980, ou melhor, 2003. Em 1975, Conley mudou-se para a Inglaterra. Passou um tempo na Bélgica e fixou residência na Holanda a partir de 1980. Além de mudar de casa, resolveu mudar de nome. Passou a se chamar Lee Roberts. Apesar de ter gravado sob a nova “identidade”, foi ficando cada vez mais empresário e menos cantor. A segunda morte de Conley foi em consequência de um câncer no cólon, com 56 anos.

Conley montou a banda Arthur & the Corvets em 1963. Não fez muito sucesso. Disseram que tinha a voz muito parecida à de seu ídolo Sam Cooke, um dos astros do rhythm’n’blues da época. Eram parecidas mesmo, assim como a de outro cantor que lhe surgiria no caminho: Otis Redding.

Em 1964, ano em que Cooke morreu assassinado (leia em http://bit.ly/1jgFAKe), Otis era uma estrela em ascensão. Havia lançado These Arms of Mine, que foi incluído em Pain in My Heart, seu primeiro LP. Rufus Mitchell, proprietário de um selo de discos, impressionado com a voz de Arthur, apresentou uma gravação de Arthur. Melhor, impossível. Não só assinou um contrato com uma subsidiária da Atlantic como teve Otis como produtor. Lançado o álbum Sweet Soul Music, Conley tinha as portas abertas para o sucesso. Em 1967, no auge, Redding morreu em um acidente aéreo. Conley era o sucessor de Sam Cooke e Otis Redding.

A morte do mentor e amigo poderia significar o retorno aos tempos difíceis. Mas Conley continuou e a emplacar sucessos nas paradas do R&B. Sua carreira começou a declinar em razão da irregularidade dos lançamentos.  Resolveu mudar para a Inglaterra. Era a senha para o esquecimento paulatino desse nome importante da música soul e do R&B.

Veja Conley cantando Sweet Soul Music em um programa de televisão.




Veja-o cantando Whole Lotta Woman.




Ouça I’m a Stranger, uma das minhas preferidas.



A homenagem de Conley a Otis Redding: Otis Sleeps on.



quinta-feira, 29 de maio de 2014

O delicioso clima retrô da música de Catherine Russell

Catherine Russell, cantora 5 estrelas
Há algo de encantador nos vocalistas de apoio, os chamados backing vocals, em shows. Algumas brilham pela beleza, como as de Bryan ferry, outras pela ousadia de suas roupas, como as de James Brown, “popozudas” que rebolavam muito. Fazem caras e bocas, ficam dançando e, ocasionalmente cantam. Quem não conhece Lisa Fischer, backing dos Rolling Stones desde 1969? A parte em que brilha é o duo sensual, lascivo e provocante com Mick Jagger. Está há tanto tempo repetindo o número, que lembramos dela ainda magrinha. Desde então, deve ter ganhado uns 15 quilos. Prestamos bem menos atenção em Bernard Fowler, o segundo backing da banda, e olhe que o rapaz é um bom cantor. Participou da banda jazzística de Chalie Watts, cantou também com Ryuichi Sakamoto, Bill Laswell, Herbie Hancock, e Yoko Ono, dentre outros. Mas as chances deles gravarem como frontman são raras.

Catherine Russell foi backing de dezenas de figurões: David Bowie, no tour de Heathen, Steely Dan, Paul Simon, Cindy Lauper, Jackson Browne e Michael Feinstein. Surgiu a chance de gravar um disco pelo selo World Village, da Harmonia Mundi, em 2006. Sua estreia mereceu elogios de Will Friedlander (“She is a fresh and original voice.”) e considerou-o um dos dez melhores lançamentos do ano. A boa recepção possibilitou que continuasse a gravar: Sentimental Break (2008), This Heart of Mine (2010), Strictly Romancin’ (2012), e agora em fevereiro, Bring It Back. Strictly Romancin’ havia angariado o Prix du Jazz Vocal pela Academia de Jazz da França.

Bring It Back segue a trilha do anterior, com um repertório eclético. Catherine não possui nenhuma característica vocal exponencial que nos faça pensar que estamos frente a uma nova Sarah Vaughan ou uma Janis Joplin. Será isso tão importante? Intérpretes podem se diferenciar por outras características. Uma delas é uma certa inteligência interpretativa. Não faltam vozeirões sem a mínima compreensão do que cantam.

Allen Morrison, da revista Downbeat, escreve que “por não tentar ser ‘moderna’, ela, paradoxalmente, cria algo novo, retrabalhando canções vintage com energia, vocais expressivos e novos arranjos marcantes que dão novo brilho e balanço, que é a base do jazz.”

Bring It Back é um título ideal, pois Catherine resgata um repertório antigo e nem tão conhecido. O entusiamo de Morrison, ao dar 5 estrelas para o álbum, está claro quando diz que “ela revigora canções de três eras - da era do jazz, da era do swing e da era do rhythm and blues – com igual fervor, acompanhada de um vibrante tenteto que transforma as músicas que são peças de museus em sonoridades modernas para a linguagem do jazz.” A classe com que Catherine Russell faz essa síntese vem da enorme experiência como backing e, mais ainda, por uma cultura musical absorvida com os pais. A mãe Carline Ray era baixista, cantora e membro original da International Sweethearts of Rhythm, e o pai Luis Russell, pianista e bandleader, foi diretor musical de Louis Armstrong.

Depois desse elogio, só falta ouvir algumas canções de Bring It Back. Ouça Aged and Mellow, música de Johnny Otis, de 1952.




Strange at It Seems, a minha preferida do disco.




Ouça After the Lights Go Low.




Veja Russell em ação cantando Romance in the Dark. A música faz parte do de Strictly Romancin’, penúltimo álbum.




Veja o vídeo promocional do lançamento de Bring It Back. Aqui faz referência à mãe e ao pai.

terça-feira, 8 de abril de 2014

O quase ocaso de Macy Gray

Quando On How Life Is foi lançado, em 1999, algo mudava no cenário da música americana. Macy Gray surgiu para desafinar o coro dos contentes. Tinha uma voz um tanto estranha para os padrões, algo parecida com a de Pato Donald. Mas foi fazendo tremendo sucesso e logo ganhando um Grammy em 2001 como “melhor vocalista pop feminina”. Lançou Id, que não vendeu tanto, mas era muito bom. O seguinte foi The Trouble with Being Myself. Os dois títulos eram sinalizadores de uma personalidade complexa. Macy fugia do modelo boa menina. Meio gordinha, não exatamente bonita, com penteado de fazer inveja à ativista Angela Davis e, dizia-se, um tanto chegada aos excessos etílicos. Foi vaiada em certa ocasião depois de esquecer a letra do hino americano em um evento esportivo. Continuou fazendo das suas: expulsaram-na de Barbados por soltar alguns palavrões em um show.

Uma ou outra música emplacando nas paradas, mas parecia que a carreira de Macy não estava indo tão à altura de seu talento. Lançando discos com periodicidade irregular, hoje, não se fala mais tanto dela. Lançou, entretanto, coisas boas como The Sellout, lançado em 2010 pelo prestigiado selo de jazz Concord, não tão grande como a Epic, sua gravadora anterior. Em 2012 saiu Covered. Como o título sugere, é um álbum de covers. Mas discos assim são, muitas vezes, vistos como sinal de esgotamento de um intérprete/compositor. Bom, mas existem tantos discos bons desse gênero que desmentem isso. Basta lembrar-se de dois da também america Cat Power: The Covers Records (2000) e Jukebox (2008).

The Sellout é um bom disco. A crítica se dividiu, mas possui boas canções como Beauty in the World, Real Love, onde divide vocais com Bobby Brown, Help Me e Kissed It. É esta última a que você vai ouvir.




Covered é um disco interessante pelas canções escolhidas. Canta Creep, do Radiohead, Here Comes the Rain Again, do Eurythmics, e Wake Up, do Arcade Fire.

Veja Macy cantando Creep em apresentação no North Sea Jazz, que acontece na Holanda.




Ouça Wake Up, com Gray.




Outro álbum de covers?

Mas, aí, Macy resolve fazer outro álbum de covers. Será que ela está decadente? Não dá para falar isso. Para comemorar os trinta anos de Talking Book, 15º álbum de Stevie Wonder, Macy e seus produtores gravaram o repertório na íntegra no CD. São as mesmas canções, na mesma ordem. Esse álbum é um dos mais importantes de Wonder e representa uma virada na sua carreira, iniciada quando tinha onze anos. O de Macy, em vez de ser uma simples álbum de covers, na verdade, é uma coleção de interpretações muito originais e com sua marca. Algumas são deveras boas.

Ouça Superstition. É muito boa.




Outra? Tem uma versão matadora de Blame It on the Sun.




Ao contrário do que se imagina ou parece, Macy está ativa e operante. Gravou recentemente com o saxofonista David Murray e sua banda. Apresentaram-se no ano passado no Sesc Fábrica, São Paulo. Depois de amanhã, 10 de abril, estará se apresentando no Circo Voador, no Rio de Janeiro. E, veja: a moça não tem nada de superstar; pediu para que tenha no seu camarim apenas uma garrafa de vodca, uma de Cointreau e chá de camomila. A mistura deve ser boa e Macy deve entrar no palco com tudo.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Marvin Gaye: trinta anos esta noite

O jovem Marvin Gaye
Nem sempre é bom negócio casar com a irmã do chefe. Vale se for biliardário e o casamento for para a vida inteira. Tanto Berry Gordy, fundador da lendária Motown Records, como Anna, sua irmã, embrenharam-se no negócio da música e se deram bem. Marvin Gaye era um rapaz de 20 anos quando conheceu Anna. Casaram em 1963. Juntando o talento de Gaye, que nasceu Gay e acrescentou o “e”, provavelmente, para que não houvesse alguma confusão com sua heterossexualidade, e a veia empresarial de Berry e a irmã, deu que tornou-se um dos grandes nomes da Motown.

Marvin, filho de Marvin, Senior, um senhor que não era chegado muito ao batente, eventualmente trabalhando de carteiro, era pregador de uma igreja de nome pomposo: The House of God, the Holy Church of the Living God of the Truth, the House of Prayer for All People. A doutrina era uma mistura de judaísmo e fundamentalismo católico. Guardavam os sábados. Gaye dissera uma vez que tinha uma terrível convivência com o pai: “Eu o amava e o adorava. Mas tinha também ressentimento. Brigávamos com unhas e dentes. Além disso, nossa vida era estranha. Éramos os diferentes. Nossa ligação com a Igreja nos separou dos outros.”

Libertando-se do elo familiar, Marvin, que tocava bem piano, só que apenas de ouvido, enveredou pela música e, no começo, chegou a tocar bateria. Ansiava por ser um Frank Sinatra negro. E a vida o desviou desse desejo.

Na Motown, passou a emplacar músicas nas paradas, mas ficava à mercê das diretrizes de Berry Gordy. Mais independente do jugo do chefe, gravou um disco conceitual, hoje considerado um dos melhores de todos os tempos: What’s Going On? Nos dois anos subsequentes lançou Trouble Man e Let’s Get It On. A essa altura, tinha deixado crescer uma barba que lhe maculava o rosto bonitinho que o star system desejava dele e passou a andar de touca. Em What’s Going On era Marvin Gaye inteiro. Era um Marvin diferente, conflituoso; como David Ritz, autor das liner notes do box Marvin Gaye, The Master 1961–1984, escreve: “Após anos de sua morte, sua obra ainda é surpreendentemente fresca, viva, com os conflitos, os medos, a fé, a alegria, o pessimismo, a coragem, a decepção, a raiva, o ciúme, a generosidade – todos os elementos que atraem para o drama de seu romance doce-amargo com o mundo.”

Algo tinha mudado na cabeça de Gaye. Sabia da importância de Anna para a sua carreira, no entanto, casamentos acabam, principalmente quando se misturam negócios e a cama. Marvin era apaixonado por Anna e sabia-se com uma dívida enorme pelo sucesso conquistado. Here, My Dear, um de seus discos menos conhecidos, lançado em 1978, está relacionado à separação, tão relacionado que a ex-mulher o processou por conta dele. Se não é tão bom quanto What’s Going on?, assim mesmo, tem entre as faixas I Met a Little Girl, Anger, Is That Enough, Time to Get It Together e Sparrow, na minha opinião, a melhor.

Ouça.




Depois de Here, My Dear, Gaye estava abusando da cocaína e, quem diria, foi parar no Mauí, ilha próxima ao Havaí. Queria viver no paraíso, bem doidão. Tentou gravar um álbum “disco” (para quem é mais novo, era o ritmo quente, para dançar “y otras cositas más” nas chamadas discotecas). Enrolou-se com problemas fiscais na Grã-Bretanha. Resolveu tentar parar com as drogas. Assinou contrato para gravar na CBS, Sony Music, atualmente.

Quem esperava um Gaye decaído surpreendeu-se com a canção Sexual Healing, parte de Midnight Love (CBS, 1982). Não era mais o mesmo. A sexualidade enrustida em canções melosas, estilo“cantadas no ouvido” ou “mela-cuecas” da época da Motown estavam escancaradas. O clipe é fenomenal. Ganhou prêmios como o Grammy, vendeu muito e foi considerado o melhor cantor pot várias publicações. Gaye era um superstar. Seu problema com a cocaína voltara e estava à toda, speedy, saboreando a vida boa. Mas Marvin era um cara atormentado, no fundo, era o gênio que sabia mais que ninguém lidar – ou transmitir – com a dubiedade entre  a moral rigidamente religiosa e a sexualidade. Era resultado desse confronto interior. Mas essa vida boa foi interrompida com dois tiros. Chegou ao California Hospital Medical Center morto. Os tiros foram dados por Marin Gay, Sr., seu pai. E ironia do destino: morreu com arma que havia dado de presente ao pai em um Natal.

Veja o clipe de Sexual Healing.




Marvin Gaye era um gênio. Anteontem, 1º de abril, fazem 30 anos que morreu. Parece mentira.

O melhor de Marvin Gaye está em What’s Goin’ On? Ouça na íntegra.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mais uma demonstração da força de Sharon Jones

Sharon Jones em apresentação recente
Depois do sucesso tardio, Sharon Jones poderia ter destino mais róseo. Ao sucesso estrondoso de 100 Days, 100 Nights (2007), emendou com I Learned the Hard Way (2010). Estigmatizada por ser negra, gorda e feia, não viu a carreira decolar apesar da voz excepcional. Foi trabalhar de carcereira em um presídio americano. Continuou a dar suas palhinhas em pequenos clubes e assim foi descoberta pelo pessoal do selo  Daptone. Lançou dois álbuns antes de 100 Days. A banda que a acompanhava, os Dap-Kings, participou de um disco de Amy Winehouse. Aí, descobriram Sharon Jones.

Quando tudo parecia estar bem, com a vida feita, dinheirinho na mão, descobriu que estava com câncer no pâncreas. A mesma força que a fez persistir até ser descoberta, trouxe energia para que vencesse mais essa batalha. Ainda sem cabelos por causa da quimioterapia, gravou Give the People What They Want. O título é perfeito. Sharon não deixa a peteca cair e nos dá o que queríamos dela. É um disco curtíssimo, com dez músicas, menos de 30 minutos no total. Pode não ser tão bom quanto os dois anteriores, mas é muito melhor do que o monte de lixo que é lançado ultimamente.

Veja o vídeo promocional do lançamento, com Retreat, a primeira do disco.




A minha preferida é Now I See.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Belle, o álbum “ignorado” de Al Green

O reverendo Al Green
Você gosta de música gospel? Como eu, tu, eles, somos preconceituosos – se se considerar ódio à música sertaneja, que seja “sertanejo-universitária”, é preconceito –, Al Green passou a vender poucos discos quando entrou em sua fase gospel. Mas a música Let’s Stay Together você deve ter ouvido, não? Nota: até Bob Dylan teve a sua fase gospel.

Um primo disse, uma vez, a propósito de um primo ter se convertido a uma dessas seitas evangélicas, que duas coisas fazem você procurar a religião: uma grande desilusão amorosa ou um grande revés financeiro. E pode servir como boa forma de se recuperar de uma falência, por exemplo. É o caso, pelo menos, de uma pessoa, segundo sua irmã, que, depois de ter tido problemas financeiros, entrou para uma igreja, virou pastor, enriqueceu, e hoje, prega nos EUA em um dos muitos programas televisivos. Disse-me ela que o outro irmão segui os seus passos e também virou pastor. Ela preferiu continuar a ser a ovelha negra – ou desgarrada – da família.

Veja Al Green cantando Let’s Stay Together no programa de Jools Holand, com David Gilmour na guitarra.



Veja-o cantando Love and Happiness.




Em 1974, Al Green já tinha alguns sucessos emplacados nas paradas de sucesso. Neste mesmo ano, sua namorada teve sua proposta de casamento recusada e, enquanto Green estava na banheira, matou-se no aposento contíguo com um revólver dele. Tempos depois, sofreu um acidente no palco. Viu aquilo como uma “mensagem de Deus”.

Green, como muitos de seus pares negros, cresceu em ambiente religioso. Em 1976, comprou uma igreja em Memphis e foi ordenado pastor. A cooperação com seu mentor, o produtor Willie Mitchell, que resultara em vários hits, foi interrompida. Em 1978 lançou seu último álbum “secular” – para usar esse termo tão na moda com os distúrbios recentes no mundo árabe – antes de passar a gravar exclusivamente música gospel. O disco se chamou Belle e não contava mais com os Hi Rhythm Section. Não emplacou e é uma injustiça. Conta com uma banda poderosa e o baixista Reuben Fairfax, Jr. faz diferença.


De 1981 a 1989, gravou apenas temas gospel. Voltou às hostes “seculares” e tem mantido produção constante. Gravou com Annie Lennox. Refez a parceria com Willie Mitchell e gravou I Can’t Stop, em 2003. É um bom disco. É Al Green da melhor qualidade. Nem na fase gospel deixou a competência de lado. Não emplacou mais sucessos como How Can We Mend a Broken Heart, cover dos Bee Gees, ou Love and Happiness. Mesmo assim, o álbum Lay It Down, em 2009, ficou entre os dez mais vendidos. Não gravou mais nada desde então.

Bem, voltando ao Belle, ouça duas do álbum.

Georgia Boy.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Ouça Dream. É Al Green de primeira.


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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dinah Washington, a Miss ‘D’

Retrato de Quincy Jones quando jovem
Depois que produziu Michael Jackson, Quincy Jones virou celebridade.

Jackson era um dos participantes do filme The Wiz (1978), fracasso comercial, produzido pela Motown Productions, braço da gravadora que alçou a música negra aos primeiros lugares das paradas musicais. Quincy participava do filme como arranjador e músico. Jackson pediu-lhe um nome para produzir seu disco. Nasceu assim a parceria. Jones disse mais ou menos assim: “Você está na frente dele”. Michael aceitou. Fizeram juntos Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Thriller vendeu 140 milhões de cópias.

Muitos desconheciam o passado glorioso de Jones como produtor de jazz. A partir de então, era “o cara”, parceiro de Jackson. Seu nome passou a estampar outras páginas, que não as das revistas especializadas de jazz. Casou-se com uma bela atriz: Nastassja Kinski. As “Caras” “da vida” estampavam o belo casal multi étnico. Quincy era um quase sessentão e Nastassja, uma bela moça balzaquiana (31, quando se casou com ele). Antes que falem alguma coisa, diga-se que Jones era ainda, como se dizia antigamente, um boa pinta. Mais novo, foi responsável pela surra que Miles Davis deu em sua então mulher, Frances. A razão, escreveu na autobiografia, foi a de que ela “deu bola” para Quincy. Davis, enciumado, justificou que a surra foi merecida.

Bem antes de Michael Jackson, Jones foi trompetista da banda de Lionel Hampton. Perceberam seus dons de arranjador e condutor. Trabalhou com Count Basie, Duke Ellington, Sarah Vaughan, Gene Kruppa e Dizzy Gillespie. Estudou composição com Nadia Boulanger (professora de Egberto Gismonti também) e Olivier Messiaen, um dos compositores mais importantes do século XX.. Tornou-se um dos músicos mais requisitados em Hollywood e dirigiu a Barclay, braço francês da Mercury Records. Desse jeito, tão ativo assim, nem é tão anormal que tenha sido produtor do disco mais vendido de todos os tempos e seja o responsável por We Are the World, projeto para angariar fundos para as vítimas da fome na Etiópia. Como uma coisa puxa outras, hoje, Jones é responsável por uma série de projetos de ajuda humanitária, tendo criado, inclusive, a Quincy Jones Listen Up Foundation.

Quincy Jones largou o trompete, e nos anos 1950 e 60 se transformara em requisitado arranjador e produtor. Dentre as mulheres, além de Sarah Vaughan, trabalhou com Ella Fitzgerald, Peggy Lee e Dinah Washington.

Bom, esse longo preâmbulo é para dizer que ando ouvindo The Swingin’ Miss ‘D’, de Dinah Washington, lançado em 1956. E adorando. Fora o trio imbatível Ella-Sarah-Billie, havia uma penca de boas cantoras. Dinah era uma delas. Vaidosa, com problemas para manter o peso e chegada a uma bebida alcoólica, a mistura com remédios de emagrecer não deu certo. Morreu com 39 anos, ao lado do sétimo marido. É isso mesmo: sétimo. Cantava muito e gostava de casar. Apesar dos milhões de fãs, seu prestígio não era tanto entre os críticos especializados, provavelmente, por gravar canções de estilos muito variados. Dinah nunca foi uma jazz singer qual Sarah e Ella. Se quisesse, no entanto, não iria fazer feio. Basta ouvir Dinah Jams, de 1954, ao lado de Clifford Brown, Clark Terry, Harold Land, Junior Mance, Richie Powell e Max Roach.

Em The Swingin’ Miss ‘D’, os arranjos e regência de Quincy Jones são vigorosos e combinam muito com o estilo “pra cima” de Washington, com uma orquestra na qual incluem-se Lucky Thompson, Jerome Richardson, Jimmy Cleveland, Urbie Green, Ernie Royal, Doc Severinsen, Charlie Shavers, Clark Terry, Ernie Wilkins e Benny Golson. Temos standards como Caravan, Makin’ Whoopee, Perdido, as “bluesy” I’ll Drown on My Tears (ficou mais conhecida com Ray Charles) e You Let Me Love Grow Cold, porém, Dinah se supera em baladas como You’re Crying e I’ll Close My Eyes. São essas as que você vai ouvir.

You’re Crying.




I’ll Close My Eyes.