Perto de completar 45 anos, Kim Nalley é uma quase desconhecida Mesmo em um centro como os Estados Unidos, faz diferença ser músico na costa leste ou na costa oeste. E Kim é de lá. Por um tempo, no jazz, fazia-se uma distinção entre o leste e o oeste. O que chamavam de “west coast jazz” era cool, menos bop, como a da turma novaiorquina em que se destacavam Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell e cia. Por várias razões, e até por ser uma babel cosmopolita para onde ia e vai a maioria dos músicos estrangeiros que desejam ficar conhecidos, a costa leste é o lugar. A Califórnia é a terra do cinema, das praias, do surfe, dos Beach Boys e de movimentos libertários como o “flower power”.
Com o lançamento de “Blues People”, neste ano, a fama de Kim Nalley deve ultrapassar as fronteiras da Califórnia. O álbum recebeu quatro estrelas pela Downbeat (fevereiro de 2016) e ganhou matéria de dois terços de página no número do mês seguinte. Na crítica, no primeiro parágrafo é ressaltada sua capacidade de atingir três oitavas e meia, o que poucos conseguem. É um bom dado, mas não é o grande quesito para se ser um grande cantor. Mais importante é a inteligência vocal, se isso existe.
Na matéria “Speaking in Mind”, da Downbeat de março, é destacada não apenas a extensão vocal, mas alguns dados que complementam o conceito perseguido em “Blues People”. Kim é formada pela Universidade da Califórnia e está se candidatando a uma vaga de doutorado com um trabalho sobre os músicos sfro-americanos depois da Segunda Guerra.
O título do disco é o mesmo de um livro de Amiri Baraka (nascido LeRoi Jones), “Blues People: Negro Music in White America”. Assim como sua tese de doutorado, a inspiração é histórica. O repertório segue essa lente. Duas composições são de Nalley (“Big Hooked Black Man” e “Ferguson Blues”), algumas são tradicionais de domínio público, como “Amazing Grace” e “Trouble of the World”, e as restantes abrangem um passado próximo ao início do século passado, como “The Chair Song” e “Sugar in My Bowl”, de Bessie Smith, até a razoavelmente contemporânea “I Shall Be Released”, de Bob Dylan. Apesar do título, é evidente que não é um álbum de blues. Como afirma Nalley: “É blues, sim. Mas é também jazz, gospel e rhythm’n’blues.”
Bom, vamos acabar com o papo furado e vamos ouvir a voz de Kim Nalley.
Bela interpretação de “Summertime”. É música negra escrita por um branco.
A melhor de “Blues People” é “Trouble of the World”.

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