Nos dias de hoje, são oferecidos apartamentos com menos de 40 metros quadrados por 300, 400 mil reais. Há 30 anos era moradia de pobre, favelados ou solteiros de poucas posses. Esses cubículos eram chamados de quitinetes, uma aportuguesada da palavra “kitchenette”. Você notou a palavra “kitchen”? Pois então, quitinetes eram apartamentos quarto e sala, banheiro e cozinha, evidentemente. O tal “quarto e sala” significava que a sala fazia as vezes do quarto. De dia, o sofá era sofá; à noite, era cama. Como éramos em dois, eu dormia no chão sobre um acolchoado que, de dia, ficava encostado na parede. Nessa precariedade, cheios daquela generosidade juvenil, aceitamos o João Fernando, calouro como nós na faculdade, que não tinha onde ficar, como hóspede temporário. Lá veio o João com a sua mochila e uma prancha de surfe que tomou metade do espaço da cozinha.
Ele ficou quase dois meses lá. Com mais posses que nós, estava sem lugar para morar, mas seu pai já estava negociando a compra de um apartamento em São Vicente, cidade colada a Santos. Antes de mudar-se, disse que ia preparar um jantar em agradecimento e gratidão por nossa hospitalidade. Disse-nos que seria por sua conta. Não teríamos de fazer nada. Cuidaria de tudo, inclusive do preparo. Tínhamos voltado da faculdade e vimos o João Fernando chegar com dois sacos enormes de supermercado. Antigamente, não existiam esses sacos plásticos leitosos. Usavam-se sacos de papel kraft. Não sei por que, nessa discussão ambiental sobre os males dos plásticos, não resgatam o papel.
Fernando, como o chamávamos, foi direto para a cozinha. Estávamos autorizados a entrar quando a comida estivesse pronta. O “banquete” fora preparado em um panelão de alumínio. Pronto, ao olharmos para aquilo, ficamos um tanto desconcertados. Naquele caldo de cor indefinida boiavam nacos de palmito, metades de pêssego em calda, azeitonas pretas, alfaces, pedaços de chocolate e mais algumas coisas das quais não irei lembrar agora. Agimos como pessoas bem educadas. Aquilo era intragável. Em pouco tempo, aquilo começou a exalar um cheiro estranho. A única coisa comestível eram os pedaços de chocolate, que preservaram o sabor original. O resto, imagine uma folha de alface com gosto de calda da azeitona, do palmito e dos pêssegos juntos.
O Fernando ficou chateadíssimo, a ponto de termos que consolá-lo. Ele tentava explicar. Foi ao mercado e comprou tudo o que mais gostava. Na sua cabeça, juntá-los resultaria em uma comida deliciosa. Gostava de pêssego em calda, jogou na panela os pêssegos… e a calda; gostava de azeitona, jogou-as com o caldo salgado. Junte-se folhas de alface, pedaços de algumas hortaliças e ainda chocolate. Conseguiu imaginar? Não, né? Era tão horrível que jogamos na privada. O Fernando era a expressão da pureza. Aquele jantar era a expressão de suas boas intenções. Parecia viver em outro mundo. Naquele tempo a onda da “geração saúde” ainda não havia chegado. Nossos colegas fumavam maconha de manhã, de tarde e de noite, fora outras drogas mais pesadas que circulavam bastante pela faculdade. Mas o Fernando já era “geração saúde”. Era engraçado vê-lo, enquanto muitos tomavam bebidas alcoólicas nos intervalos no bar da frente, vertendo um litro inteiro de leite que, à época, eram vendidos em embalagens de plástico mole. E, também, era o único surfista que conhecíamos que não sabia nadar.
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| Stacey Kent e o Quatuor Ebène |
Não é a primeira aventura do Quatuor Ébène fora da música erudita. Formada por jovens músicos, lançaram em 2010, Fiction, onde misturam jazz (Lilac Wine, conhecida na versão de Nina Simone, em Fiction, belamente interpretada pela atriz Fanny Ardant, e Unriquited, de Brad Mehldau, Smile, de Charles Chaplin, Footprints, de Wayne Shorter, Nature Boy, de eden ahbez, e uma releitura de Over the Rainbow), temas mais recentes como Come Together, de Lennon e McCartney, Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, e Calling You, música tema de Bagdah Cafe, e Corcovado, de Antônio Carlos Jobim.
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| Capa de Brazil |
Bernard Lavilliers tem uma biografia interessante. O pai fez parte da Resistência na Segunda Guerra Mundial e foi trabalhar em uma indústria de armas. Com 15 anos, foi parar na Febem francesa. Anos depois, Bernard afirmaria: “Não sei se era gângster, boxeur ou um poeta.” Com 18 anos, filiou-se ao PC francês. Com 20 anos, mudou-se para o Brasil. Ficou um ano. Essa é a ligação inicial com o Brasil. Quando voltou, teve problemas com a justiça novamente. Livre, começou a cantar em nightclubs, e em 1968 lançou o primeiro disco. Bom comuna, nos eventos de maio, cantou em fábricas.
O espírito aventureiro e viajante voltou a se manifestar. Comprou um barco e passou um tempão viajando por terras americanas. Passou por Nova York, Jamaica e Brasil, novamente. Quando voltou, lançou um CD com boa acolhida e boas vendas: Ó Gringo. Uma das canções foi inspirada na figura do cangaceiro Lampião. Em sua saga exploradora foi parar no Líbano, Jamaica, Nicarágua, em países africanos e asiáticos.
Pois Ó Gringo é a faixa que abre Brazil. Encantado com a vida aventureira de Lavilliers, a ligação com o PC francês e a ligação estreita com o grande Léo Ferré, minhas boas expectativas se frustram um pouco. Ó Gringo é algo como uma “bossa nova do branco doido”. Sem desconsiderar as boas intenções do francês, há algo da visão “turística” do Primeiro Mundo sobre o Terceiro – ah, somos Segundo ou Terceiro? – em suas notas no encarte: “Poderia encontrá-los [o Quatuor Ébène] em Manaus, nas profundezas da selva amazônica tocando Mozart em um teatro cópia do Opera de Paris, em enormes cipós e trepadeiras. Poderíamos estar embriagados pela caipirinha em Salvador ou no Rio, enquanto ficávamos a admirar as vistas e os sons do carnaval tocando riffs sobre hits de Jorge Ben, rodeados de mulheres nuas.” Não importa se ele morou no Brasil ou tenha estado aqui inúmeras vezes, mas, convenhamos, é um olhar folclórico sobre nós. O triste é de que deve ser isso mesmo o que os estrangeiros interpretam como sendo o Brasil.
Com Stacey é diferente. Sua aproximação com o Brasil, mais especificamente com a língua portuguesa, é menos folclórica. São provas belíssimas interpretações cantadas em português e até composições com letras do poeta português António Ladeira e música de Jim Tomlinson. Não é mera coincidência que os melhores momentos do álbum sejam os que contam com participação da americana sediada na Grã-Bretanha. Não é a primeira vez que grava So Nice e Águas de Março. Na composição de Jobim, tem a voz do compositor de So Nice. Stacey conheceu Valle e Não é a primeira vez que grava o clássico Smile, de Charlie Chaplin, muito menos The Ice Hotel, original de Tomlinson com letra do romancista Kazuo Ishiguro.
Um dos pontos altos de Brazil é Bebê, composição de Hermeto Pascoal. I Can’t Help It, original de Stevie Wonder, Fragile (Sting) e Ana Maria (Wayne Shorter) são registros medianos. Outro destaque é Libertango, interpretado pelo Quarteto. Muito bom mesmo. Os pontos baixos, na minha opinião, são Guitar Song, Salomé, ambas – coincidência? – de Lavilliers, e Brazil (Aquarela do Brasil), de Ary Barroso, em uma interpretação estilo “samba do crioulo branco”, bem chata, triunfante, um tanto pretensiosa em fundir climas diferentes em pouco mais de sete minutos.
So Nice é um dos destaques do CD. Seu autor, Marcos Valle participa nos vocais em Águas de Março.
Veja o ensaio do Quarteto e Kent de Fragile, de Sting.
Esta não está em Brazil. É a participação de Stacey e Jim Tomlinson no saxofone tenor em Fiction (Erato, 2010). Veja-os em Corcovado.


