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quinta-feira, 12 de março de 2020
McCoy Tyner morre
Mesmo quem não é expert em jazz sabia quem foi McCoy Tyner, falecido em 6 de março deste ano. Tinha 81 anos.
Começou cedo, profissionalmente, com 16 anos. Tinha 18 e estava tocando na Jazztet, de Benny Golson e Art Farmer, tremenda banda com dois mestres em seus instrumentos. O passo seguinte foi virar pianista do quarteto de John Coltrane. Com a adição de Jimmy Garrison e Elvin Jones, formaram um dos maiores combos da história.
Enquanto tocava na banda de Miles Davis, Coltrane gravou uma série de LPs para o selo Prestige, do qual o primeiro também gravou, antes de partir para um longuíssimo contrato com a CBS. Mas é quando assina com a Atlantic Records, que atinge a plenitude como solista e compositor. Ficou clássica a sua interpretação de “My Favorite Things”, tocando saxofone soprano. Nesse LP, de 1961, o piano é de McCoy Tyner.
Foi uma revolução musical. Estava esboçada nos álbuns da Atlantic, mas acontece realmente quando passa a gravar pelo selo Impulse. Seus sidemen foram fundamentais, principalmente, pela energia bruta da bateria de Elvin Jones e as sheets of sound do piano de Tyner, aliado aos longos solos de Coltrane. Sem exceção, todos os álbuns são clássicos.
Quando Alice Coltrane, segunda mulher do saxofonista, passa a participar da banda, Jones e Tyner perdem um pouco de protagonismo.
Carreira solo
No tempo em que era do quarteto, lançou uma meia dúzia de LPs pela mesma gravadora, a Impulse. Após a morte de Coltrane, o selo em que passou a gravar foi o Blue Note, e depois, a Milestone. Foi o seu auge, na minha opinião. Se na Impulse ainda era mais mainstream, no novo selo, executando menos standards e privilegiando composições próprias e dos músicos que participaram das gravações, ele consolidou seu estilo, tão ou mais intensamente composto ritmos frenéticos e “nervosos”.
Tyner deve ter gravado quase uma centena de álbuns como líder. Impossível acompanhar. Tenho 34 na minha coleção. Os meus preferidos são os da década de 1970. O primeiro que ouvi foi “Focal Point” (1976). Depois desse foi “Trident” (1975), o meu preferido entre os que conheço. É um power trio de respeito: ele, Ron Carter e Elvin Jones. Não sei se é o único com o ex-baterista do quarteto de Coltrane. São três composições de Tyner e as restantes são “Once I Loved”, de Antôno Carlos Jobim, “Impressions, de John Coltrane, e “Ruby My Dear”, de Thelonious Monk. É perfeito.
Outro álbum muito bom é “Together” (1979). A formação é excepcional: Bennie Maupin, Freddie Hubbard, Hubert Laws, Bobby Hutcherson, Stanley Clarke, Jack DeJohnette e Bill Summers. A grande qualidade está na harmonia da banda. Hubert Laws, que nunca fez um grande disco como líder, é um flautista com o sopro mais redondo e limpo do jazz. Hubbard está perfeito no flugelhorn e no trompete. Maupin tocando sax tenor e clarineta baixo, Hutcherson na marimba e no vibrafone, DeJohnette, na bateria, Clarke,, no baixo, Summers, na percussão, completam a banda em sintonia celestial.
Dos que merecem ser ouvidos, na minha opinião, elenco “Fly with the Wind” (1976), “Atlantis” (1974), “Horizon” (1979) e “Milestone Jazzstars” (1978). Este último é uma reunião de McCoy Tyner, Sonny Rollins, Ron Carter e Al Foster. É um encontro de gigantes. Em cada um deles, Tyner explora com versatildade os formatos menores e combos ampliados.
Nos álbuns posteriores, não perdeu a verve jazzística. Mas deixei de acompanhar mais atentamente. Se não me engano, estava afastado há mais de dez anos do cenário musical. Sim. É um dos monstros da história do piano. Foi tão original que não conheço algum que seja considerado seu discípulo.
Fiz um playlist no Spotify. Vai lá.
Se não der por aqui, entre em: https://open.spotify.com/user/12180986069/playlist/5OjFWyhzAvAeLRfSIzdFS3?si=BsCZlhbbQyaZeb4RXD7wUg
quinta-feira, 27 de junho de 2019
O manifesto de John Coltrane
“Essas crianças inofensivas, inocentes e lindas foram as vítimas em um dos crimes mais brutais e trágicos já praticados contra a humanidade. E, hoje, de pé, sobre os restos destas lindas e amadas garotas, parafraseio as palavras de Shakespeare: Boa noite princesas, boa noite àquelas que simbolizam um novo dia, e que o voo dos anjos as levem ao descanso eterno”, foram as palavras de Martin Luther King, Jr.
Na tarde de 15 de setembro de 1963, suprematistas brancos cometeram um atentado em uma igreja batista, em Birmingham, Alabama. Quatro membros da Klux Klux Klan colocaram ao menos 15 bastões de dinamite sob as escadas da igreja. Na explosão, quatro meninas morreram e várias ficaram feridas. Esse incidente é um dos marcos da luta pelos direitos civis.
Pelo que se sabe, John Coltrane, sujeito de poucas palavras, nunca se manifestou acerca da segregação racial, ele, que nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, estado sulista, com uma presença significativa de negros, que trabalharam em plantações de algodão e tabaco.
Seu silêncio, porém, nunca significou que ignorasse a situação dos negros e muito menos a luta pelos direitos civis. Três meses depois do terrível atentado, na tarde de 18 de novembro entrou no Rudy Van Gelder’s Studio e gravou “Alabama”, com seu quarteto, constituído por McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones. Foram quatro tomadas e a versão final foi incluída no álbum “Live at Birdland”. A música, em andamento lento, capta a tristeza dolorosa sobre a tragédia e é também um manifesto contra a injustiça humana e a luta dos negros pelos seus direitos.
John Coltrane nunca disse algo sobre “Alabama”. Seus sentimentos sobre o triste episódio nunca foram manifestados verbalmente. Foram manifestadas em forma de notas musicais e, provavelmente, lembrou-se das palavras de Martin Luther King, Jr. ao compô-la.
Veja o quarteto de Coltrane a executar “Alabama”.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Opções geniais para se ouvir Nature Boy
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| ahbez é o barbudo |
Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum Straight Life e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em Blue Moods, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.
Ouça a de Miles.
A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.
Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.
Ouça.
A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.
Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.
Bela versão de Bowie:
A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.
Finalmente, Jamie Cullum.
Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.
Ouça.
A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.
Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.
Bela versão de Bowie:
A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.
Finalmente, Jamie Cullum.
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quinta-feira, 19 de julho de 2018
John Coltrane inédito é sempre notícia
A descoberta de uma obra desconhecida de Leonardo Da Vinci será sempre um acontecimento; uma gravação inédita de John Coltrane, também. Sem comparar a importância de cada um, vamos considerar que um fanático pelo saxofonista, falecido em 1967, e nem um pouco interessado em artes plásticas, deve estar babando a ouvir sem parar “Both Directions at Once: The Lost Album”.
O título é uma brilhante sacada. Aquele dia de março de 1963 foi único: não foi o anterior nem o posterior, mas aponta para o passado e o futuro ao mesmo tempo. O agora é único e foi descoberto por Juanita Coltrane, sua primeira mulher. Era uma fita que tinha ficado com o artista daquela sessão. Foi oferecida à Impulse, sua gravadora à época e, atualmente, do grupo Universal.
No pouco tempo de vida – morreu com 40 – Coltrane, de sideman de Miles Davis, virou figura de proa, depois que passou a gravar como líder para o selo Prestige, Blue Note e, principalmente, para o Atlantic. São considerados jazz standards, dessa fase, “Naima”, “Giant Steps”, “Spiral”, “Countdown”, “Cousin Mary”, “Central Park West”, e é um clássico a sua interpretação de “My Favorite Things” ao sax soprano, pouco utilizado no jazz, à exceção de Sydney Bechet.
Quando Coltrane passou a explorar novas formas, mestre na improvisação das formas modais, como havia demonstrado em “Kind of Blue”, de Miles Davis, e em seus álbuns como líder, foi considerado “anti-jazz”. Tocou com o avant garde Eric Dolphy, ficara impressionado com John Gilmore, saxofonista da banda de Sun Ra, e interessara-se pela música indiana.
Com um pé no passado e outro no futuro, que nem ele sabia no que podia dar – deu em “A Love Supreme” –, fez das inúmeras apresentações no Village Vanguard, em Nova York, seu laboratório de experimentações, como ficou bem demonstrado no álbum ao vivo gravado lá em 1961. O futuro estava esboçado, mesmo com a predominância dos improvisos modais cheio de cores e texturas melódicas, com uma formação única, com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, acrescidos de Eric Dolphy, no sax alto e clarineta baixo, Garvin Bushell, no oboé e fagote, e Ahmed Abdul-Malik no oud. Mais tarde, foi lançada uma edição expandida com 4 CDs das apresentações de 1961 e fica evidente que explorava novos rumos.
Saíram matérias com destaque em jornais brasileiros, coisa rara em se tratando de jazz, gênero de baixa popularidade, vamos dizer a verdade, sobre “Both Directions at Once: The Lost Tape”. Bom, assim como Miles Davis, dentre os mortos, ou Keith Jarrett, dentre os vivos, e nunca Vijay Iyer ou Cécile McLorin Salvant, imagino que ainda causem algum interesse ao leitor não especializado. Em “O Estado de S. Paulo”, o título da matéria é “Grande Achado do Jazz”. Na Folha de S. Paulo, o título da matéria assinada por Carlos Callado, é menos bombástica: “Pequeno tesouro, novo disco de John Coltrane soa perturbador”. Menos triunfal, escreve: “Mesmo que soem aquém de consagradas obras-primas do músico, gravações ainda causa grande impacto.”
Na minha opinião, interessam mais àqueles referidos no primeiro parágrafo. Imagino que Coltrane ficou com as fitas em casa e esqueceu dela. Algumas faixas são conhecidas, como os vários takes de “Impressions”. É interessante ouvir para comparar as diferentes abordagens em cada um. Das faixas sem nome, identificadas por números, e inéditas, consequentemente, uma delas se destaca. É a “11386 - take 5”. É muito boa. Infelizmente, a única disponível é o “take 2’. Ouça.
Ouça um dos takes de “Impressions”.
O único standard é “Nature Boy”. Ouça.
Os diretores da Impulse certamente desejavam uma continuidade do que estava fazendo na Atlantic Records. Alguns álbuns, como “Ballads”, John Coltrane & Johnny Hartman” e “Duke Ellington & John Coltrane” seguiam pela seara mais mainstream, pelo seu “gentle side”, mas o saxofonista, mesmo na Impulse, enveredava por novas sonoridades.
O título é uma brilhante sacada. Aquele dia de março de 1963 foi único: não foi o anterior nem o posterior, mas aponta para o passado e o futuro ao mesmo tempo. O agora é único e foi descoberto por Juanita Coltrane, sua primeira mulher. Era uma fita que tinha ficado com o artista daquela sessão. Foi oferecida à Impulse, sua gravadora à época e, atualmente, do grupo Universal.
No pouco tempo de vida – morreu com 40 – Coltrane, de sideman de Miles Davis, virou figura de proa, depois que passou a gravar como líder para o selo Prestige, Blue Note e, principalmente, para o Atlantic. São considerados jazz standards, dessa fase, “Naima”, “Giant Steps”, “Spiral”, “Countdown”, “Cousin Mary”, “Central Park West”, e é um clássico a sua interpretação de “My Favorite Things” ao sax soprano, pouco utilizado no jazz, à exceção de Sydney Bechet.
Quando Coltrane passou a explorar novas formas, mestre na improvisação das formas modais, como havia demonstrado em “Kind of Blue”, de Miles Davis, e em seus álbuns como líder, foi considerado “anti-jazz”. Tocou com o avant garde Eric Dolphy, ficara impressionado com John Gilmore, saxofonista da banda de Sun Ra, e interessara-se pela música indiana.
Com um pé no passado e outro no futuro, que nem ele sabia no que podia dar – deu em “A Love Supreme” –, fez das inúmeras apresentações no Village Vanguard, em Nova York, seu laboratório de experimentações, como ficou bem demonstrado no álbum ao vivo gravado lá em 1961. O futuro estava esboçado, mesmo com a predominância dos improvisos modais cheio de cores e texturas melódicas, com uma formação única, com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, acrescidos de Eric Dolphy, no sax alto e clarineta baixo, Garvin Bushell, no oboé e fagote, e Ahmed Abdul-Malik no oud. Mais tarde, foi lançada uma edição expandida com 4 CDs das apresentações de 1961 e fica evidente que explorava novos rumos.
Saíram matérias com destaque em jornais brasileiros, coisa rara em se tratando de jazz, gênero de baixa popularidade, vamos dizer a verdade, sobre “Both Directions at Once: The Lost Tape”. Bom, assim como Miles Davis, dentre os mortos, ou Keith Jarrett, dentre os vivos, e nunca Vijay Iyer ou Cécile McLorin Salvant, imagino que ainda causem algum interesse ao leitor não especializado. Em “O Estado de S. Paulo”, o título da matéria é “Grande Achado do Jazz”. Na Folha de S. Paulo, o título da matéria assinada por Carlos Callado, é menos bombástica: “Pequeno tesouro, novo disco de John Coltrane soa perturbador”. Menos triunfal, escreve: “Mesmo que soem aquém de consagradas obras-primas do músico, gravações ainda causa grande impacto.”
Na minha opinião, interessam mais àqueles referidos no primeiro parágrafo. Imagino que Coltrane ficou com as fitas em casa e esqueceu dela. Algumas faixas são conhecidas, como os vários takes de “Impressions”. É interessante ouvir para comparar as diferentes abordagens em cada um. Das faixas sem nome, identificadas por números, e inéditas, consequentemente, uma delas se destaca. É a “11386 - take 5”. É muito boa. Infelizmente, a única disponível é o “take 2’. Ouça.
Ouça um dos takes de “Impressions”.
O único standard é “Nature Boy”. Ouça.
Os diretores da Impulse certamente desejavam uma continuidade do que estava fazendo na Atlantic Records. Alguns álbuns, como “Ballads”, John Coltrane & Johnny Hartman” e “Duke Ellington & John Coltrane” seguiam pela seara mais mainstream, pelo seu “gentle side”, mas o saxofonista, mesmo na Impulse, enveredava por novas sonoridades.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
O mais belo grave de Johnny Hartman
Ao ouvir “Wave” no álbum “Invitation”, de Art Van Damme e The Singers Unlimited, lembrei-me de Johnny Hartman. Em LP nunca lançado em CD, “Once in Every Life” (Bee Hive Records, 1980), o cantor mais subestimado do jazz solta um “together” respeitável no verso “The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together”. É um grave de respeito.
O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.
Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.
Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto terem escutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.
John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.
Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.
Ouça “In a Sentimental Mood”.
O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.
Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.
Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto terem escutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.
John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.
Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.
Ouça “In a Sentimental Mood”.
Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.
“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone.
O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.
Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.
Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.
Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.
Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.
Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.
De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.
Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.
Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.
Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.
Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.
Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.
Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.
‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
A música celestial de Tisziji Muñoz
Imagino que pelo nome, poucos saibam quem é Tisziji Muñoz, mas pelo rosto, não. Passando pelas “wikis” da vida, descubro que tocava na banda de Paul Shaffer, presente todas as noites no “Late Show with David Letterman”. Só lembro do Shaffer, que fazia os contrapontos com o apresentador, algo semelhante ao que o saxofonista e flautista Derico fazia no “Programa do Jô”.
Por estar sempre à procura de ouvir guitarristas desconhecidos que me sejam reveladores, deparei-me com o álbum “Auspicious Healing!” (Anami Music, 2000). O nome de Muñoz, de quem nunca ouvi falar, seria o suficiente para despertar a minha curiosidade? Creio que não. O interesse surgiu principalmente porque a pianista era Marilyn Crispell. Como a conheci? O que mais me impressionou em “Anthony Braxton Composition 98” (hatART, 1981) foi Crispell. Desde então compro tudo o que acho dela e estou sempre atento a qualquer disco que conta com sua participação. Seguindo a linha do novelo, sigo o desconhecido.
Primeiro passo: ouvir. Procuro referências, comparações com outros guitarristas. O seu estilo é pesado, meio roqueiro, o que me leva a pensar em Carlos Santana, em primeiro lugar, Jeff Beck, Larry Coryell e John McLaughlin. Em comum, por não cantarem, privilegiam o instrumental.
Ao ouvir as primeiras faixas, penso logo em “Illuminations” (Columbia, 1974). A música de Muñoz é pesada, com uma carga mística presente no som e nos títulos: “Prayer for Tolerance”, “Teardrop (Blood from the Astral Heart)”, por exemplo. É mais um motivo a atrair-me. É um certo gosto pelos climas dramáticos e celestiais.
Além de Crispell, Muñoz está rodeado de músicos considerados avant garde, como Henry Kaiser, outro guitarrista interessante, e o baixista Mark Dresser. O velho Pharoah Sanders, que passou a ser conhecido depois de entrar na última banda de John Coltrane, afirmou que ele é único guitarrista com quem gosta de tocar.
Apesar de seu nome estar ligado a vários luminares do avant garde do jazz, sua música é apetecível aos ouvidos menos afeitos às aventuras de Anthony Braxton e Cecil Taylor. Muñoz preza bastante as linhas melódicas. Meio roqueiro, tende aos sons climáticos, que lembram a fase místico-religiosa do ex “chefe” de Pharoah.
“Auspicious Healing!”, de 2000, é o único que conheço de Muñoz como líder. Se não é excepcional, é suficiente para despertar a minha curiosidade em ouvir outros álbuns seus.
Por estar sempre à procura de ouvir guitarristas desconhecidos que me sejam reveladores, deparei-me com o álbum “Auspicious Healing!” (Anami Music, 2000). O nome de Muñoz, de quem nunca ouvi falar, seria o suficiente para despertar a minha curiosidade? Creio que não. O interesse surgiu principalmente porque a pianista era Marilyn Crispell. Como a conheci? O que mais me impressionou em “Anthony Braxton Composition 98” (hatART, 1981) foi Crispell. Desde então compro tudo o que acho dela e estou sempre atento a qualquer disco que conta com sua participação. Seguindo a linha do novelo, sigo o desconhecido.
Primeiro passo: ouvir. Procuro referências, comparações com outros guitarristas. O seu estilo é pesado, meio roqueiro, o que me leva a pensar em Carlos Santana, em primeiro lugar, Jeff Beck, Larry Coryell e John McLaughlin. Em comum, por não cantarem, privilegiam o instrumental.
Ao ouvir as primeiras faixas, penso logo em “Illuminations” (Columbia, 1974). A música de Muñoz é pesada, com uma carga mística presente no som e nos títulos: “Prayer for Tolerance”, “Teardrop (Blood from the Astral Heart)”, por exemplo. É mais um motivo a atrair-me. É um certo gosto pelos climas dramáticos e celestiais.
Além de Crispell, Muñoz está rodeado de músicos considerados avant garde, como Henry Kaiser, outro guitarrista interessante, e o baixista Mark Dresser. O velho Pharoah Sanders, que passou a ser conhecido depois de entrar na última banda de John Coltrane, afirmou que ele é único guitarrista com quem gosta de tocar.
Apesar de seu nome estar ligado a vários luminares do avant garde do jazz, sua música é apetecível aos ouvidos menos afeitos às aventuras de Anthony Braxton e Cecil Taylor. Muñoz preza bastante as linhas melódicas. Meio roqueiro, tende aos sons climáticos, que lembram a fase místico-religiosa do ex “chefe” de Pharoah.
“Auspicious Healing!”, de 2000, é o único que conheço de Muñoz como líder. Se não é excepcional, é suficiente para despertar a minha curiosidade em ouvir outros álbuns seus.
Das sete faixas, a minha preferida é “Shenai Letticia Munoz (Prayer for a Safe Birth)”. Como na maioria delas, a música é som e fúria. Seu início é dramático, meio apocalíptico, em belos acordes do piano de Marilyn Crispell. Muñoz entra quebrando, acompanhado do baixo e bateria. Depois de seis minutos e meio, Crispell faz o solo em continuidade ao da guitarra, em ondas sonoras de tirar o fôlego. Não é à toa, que uma das minhas pianistas preferidas.
Ouça.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Coltrane próximo de Deus
Ao ouvir a edição expandida de Afro Blue Impressions, lançada em 2013, comemorando os 40 anos da gravadora Pablo, de Norman Granz, e 50 desses registros feitos ao vivo, impossível não dizer: nunca houve alguém como John Coltrane.
Granz, criador da gravadora Clef, em 1946, da Norgram e a Verve, em 1973 fundou o selo Pablo. Nasceu careta. Em plena década que sucedia os anos explosivos da guerra do Vietnã, dos movimentos de maio na Europa, criava um selo que tinha Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Count Basie e outros considerados peças de museu pela juventude da época. Que peças! Os velhinhos mainstream ainda tinham muito a mostrar. Não fariam mais revoluções, no entanto, eram gênios que tinham muito a ensinar.
Fora isso, Norman foi buscar relíquias do passado como a série de álbuns com registros de Art Tatum, como pianista solo e em combos formados por craques como Milt Jackson, Ben Webster, Harry “Sweets” Edison e Roy Eldridge. Os álbuns que lançou de Zoot Sims, Joe Pass, Sarah Vaughan e Joe Turner são preciosos. Mas um deles é especial: o duplo Afro Blue Impressions, com registros do melhor quarteto de Coltrane com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones em excursão pela Europa.
Quando se pergunta quem é o maior saxofonista tenor, na maioria das vezes, o voto vai para Coleman Hawkins, Ben Webster ou Lester Young, ou até para Sonny Rollins ou Dexter Gordon e, por que não Coltrane? A resposta é: ele é único, não apenas como instrumentista, mas autor de uma obra sempre inquietante que continua a nos revelar novas faces a cada audição. Em 1963, enquanto Coltrane excursionava pela Europa, os Beatles começavam a fazer sucesso na Inglaterra e no ano seguinte iriam tocar pela primeira vez nos EUA.
Dentre os registros de Afro Blue Impressions estão Lonnie’s Lament, Naima, Chasin’ the Trane, Spiritual, Impressions, Cousin Mary, Afro Blue e I Want to Talk About You. Alguns números são absolutamente geniais, como a sequência My Favorite Things, Afro Blue, Cousin Mary e I Want to Talk About You, que é a minha preferida devido ao solo final de saxofone.
Veja John em I Want to Talk About You, grande jazz standard de Billy Eckstine.
Coltrane foi o único que sintetizou fúria, lirismo, melancolia e espiritualidade em um compasso. Tantas décadas depois, continua a ser a maior expressão no sax tenor.
Veja Coltrane em Afro Blue, de Mongo Santamaria.
Granz, criador da gravadora Clef, em 1946, da Norgram e a Verve, em 1973 fundou o selo Pablo. Nasceu careta. Em plena década que sucedia os anos explosivos da guerra do Vietnã, dos movimentos de maio na Europa, criava um selo que tinha Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Count Basie e outros considerados peças de museu pela juventude da época. Que peças! Os velhinhos mainstream ainda tinham muito a mostrar. Não fariam mais revoluções, no entanto, eram gênios que tinham muito a ensinar.
Fora isso, Norman foi buscar relíquias do passado como a série de álbuns com registros de Art Tatum, como pianista solo e em combos formados por craques como Milt Jackson, Ben Webster, Harry “Sweets” Edison e Roy Eldridge. Os álbuns que lançou de Zoot Sims, Joe Pass, Sarah Vaughan e Joe Turner são preciosos. Mas um deles é especial: o duplo Afro Blue Impressions, com registros do melhor quarteto de Coltrane com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones em excursão pela Europa.
Quando se pergunta quem é o maior saxofonista tenor, na maioria das vezes, o voto vai para Coleman Hawkins, Ben Webster ou Lester Young, ou até para Sonny Rollins ou Dexter Gordon e, por que não Coltrane? A resposta é: ele é único, não apenas como instrumentista, mas autor de uma obra sempre inquietante que continua a nos revelar novas faces a cada audição. Em 1963, enquanto Coltrane excursionava pela Europa, os Beatles começavam a fazer sucesso na Inglaterra e no ano seguinte iriam tocar pela primeira vez nos EUA.
Dentre os registros de Afro Blue Impressions estão Lonnie’s Lament, Naima, Chasin’ the Trane, Spiritual, Impressions, Cousin Mary, Afro Blue e I Want to Talk About You. Alguns números são absolutamente geniais, como a sequência My Favorite Things, Afro Blue, Cousin Mary e I Want to Talk About You, que é a minha preferida devido ao solo final de saxofone.
Veja John em I Want to Talk About You, grande jazz standard de Billy Eckstine.
Coltrane foi o único que sintetizou fúria, lirismo, melancolia e espiritualidade em um compasso. Tantas décadas depois, continua a ser a maior expressão no sax tenor.
Veja Coltrane em Afro Blue, de Mongo Santamaria.
terça-feira, 28 de junho de 2016
O tempo em movimento com Jack DeJohnette
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| Matthew Garrison, Ravi Coltrane e Jack DeJohnette |
Se me perguntarem hoje, diria que o meu preferido é Jack DeJohnette, por uma razão bem simples: está vivo e continua na ativa. Infelizmente, Tony, apesar de dois anos mais novo que Jack, morreu cedo; aos 52 anos teve um ataque cardíaco após uma cirurgia de vesícula. Vivo, estaria tão na ativa quanto Jack, com certeza. Como este, sempre procurou ir além, explorando outros gêneros. Tocou até no Public Image Ltd., de John Lydon – Johnny Rotten, nos tempos dos Sex Pistols. Foi também um dos pioneiros do fusion jazz, com a Lifetime.
Brevemente, Jack
DeJohnette tem seu início ligado à cena do jazz de Chicago. É o berço da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), organização que em sua origem tem nomes da avant garde como Henry Threadgill, Muhal Abrahms e Roscoe Mitchell. Tocou na banda de Charles Lloyd. Saiu logo. Não era o que queria. Foi baterista de Abbey Lincoln, Jackie McLean e Bill Evans antes de entrar na banda de Miles Davis.
O destino aproxima Jack dos Coltranes e Garrisons
Mais de acordo com alguém que tem raízes na cena de Chicago, antes de Lloyd, tocou com Sun Ra e com John Coltrane. Foram apenas três vezes, na nova banda que o saxofonista montara com a mulher Alice Coltrane; era o segundo baterista; o primeiro era Rashied Ali. Dessas sessões de 1966, descobriram recentemente uma foto de Jack com John e Jimmy Garrison. Por uma dessas conjunções do destino, Ravi, filho de John, e Matthew, filho de Jimmy, estão tocando com aquele mesmo Jack, cinquenta anos depois.
Mais que os elos profissionais, existem os pessoais entre Matthew Garrison e Jack. Depois da morte de Coltrane, Jimmy entrou em depressão e tentou o suicídio. Nunca mais tocou pois na tentativa houve o comprometimento dos tendões. Morreu com 42 anos. Matt tinha cinco. Passou a infãncia com a mãe na Itália. Aos 18 anos teria de voltar aos Estados Unidos para fazer o serviço militar. Afilhado de DeJohnette, foi morar com ele e Lydia, sua mulher, em Woodstock. Mais tarde, entrou na Berklee College of Music.
Ravi Coltrane estudou no California Institute of Arts. Em 1991, Ravi e Matt tocaram juntos pela primeira vez com DeJohnette em uma jam improvisada em Woodstock na sua festa de aniversário, na qual também estavam Betty Carter, Kenny Burrell e Al Foster.
Os filhos de John Coltrane e de Jimmy Garrison, em razão das ligações familiares, tinham anteriormente recebido propostas de tocarem juntos. Mas isso só iria acontecer quando se juntaram a Jack e não por alguma sugestão de alguma gravadora ou produtor. Aconteceu porque talvez estivesse escrito nas estrelas que um dia as peças se encaixariam. Foi como o baterista afirmou em matéria da Downbeat (junho 2016): “Mas quando você combina a música com as conexões pessoais, o espiritual, o emocional, conexões históricas e familiares, ela passa a ter uma característica completamente diferente.”
Em movimento
O trio reuniu-se em fevereiro de 2013. Apresentaram-se em festivais e clubes. Houve uma primeira conversa com Manfred Eicher em Nova York, mas nada ficou definido. O produtor não queria que o álbum fosse um registro ao vivo, pois o anterior de Jack, Made in Chicago, fora. De 2013 até a gravação de In Movement, o período foi de muita experimentação em improvisos grupais. Quando entraram no estúdio para gravar, a banda estava madura e com o repertório mais definido.
A referência à John Coltrane não está somente pela participação de Ravi e de Matthew. A primeira faixa é a emblemática Alabama, composta por Coltrane depois do ataque da Klu Klux Klan a uma igreja batista, neste estado, causando a morte de quatro pessoas. Outra é a música Rashied, homenagem ao baterista de Coltrane. Os “Jimmys” de Two Jimmys são Jimi Hendrix e Jimmy Garrison, pai de Matthew. Duas composições são de Jack: Soulful Ballad e Lydia, que é o nome de sua mulher. Completam o álbum a música título, Blue in Green, jazz standard de Miles Davis e Bill Evans, e Serpentine Fire, da banda Earth, Wind and Fire. Os destaques são as duas últimas. O clássico de Davis tem um belo solo de Ravi, e em Serpentine Fire, o baixo elétrico de Matthew faz a diferença, sem contar a atuação de Ravi no saxofone soprano.
Com 73 anos, há mais de 50 anos como músico profissional e o velho Jack continua como um dos protagonistas da música. Participou da revolução fusion de Miles Davis e é o baterista de um dos trios mais longevos da história do jazz, com Keith Jarrett e Gary Peacock. Além das baquetas é um craque ao piano. Por conta disso, tem uma das baterias mais melódicas e poucos têm a sua versatilidade.
Assista ao vídeo promocional do álbum.
Como foi dito, no período anterior à feitura do álbum, o som do trio estava bem experimental. Veja-os em Lusanne, Suiça, em show de 2014.
Veja também o trio tocndo Wise One, no Blue Note de Milão.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD
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| Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo |
O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.
Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.
É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, este nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcoólatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.
Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.
Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.
Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.
Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.
Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.
Ouça Charade.
Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.
O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.
Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.
Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.
Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.
Ouça Charade.
Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.
O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.
Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.
Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.
Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.
Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, expert do jazz, cque tinha um programa exclusivamente sobre o gênero na Rádio Cultura, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.
Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.
Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.
Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.
Na plataforma que uso para streaming, o Tidal, não tem o LP disponível. Por sorte o Spotify tem. Ouça na íntegra e perceberão como Hartman era genial.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
O meu Miles Davis preferido
Em certo momento da minha vida, tinha 64 LPs (discos de vinil) de Miles Davis. Ele tinha certa importância na minha vida e os 64 LPs eram uma prova. Quando passei a comprar CDs, meu primeiro Miles foi Tutu. Depois de resistir um pouco, acabei por comprar meu primeiro tocador de CD em Nova York, em 1988. Trouxe cerca de 30 CDs. Um deles era esse. Era seu primeiro na nova gravadora, a Warner. Depois de anos de afastamento por causa das drogas, vivendo recluso, voltou em 1981 com The Man with the Horn, mas seu tempo tinha passado. Mesmo assim, alguns discos eram razoáveis. Tutu é um deles, parte pela participação do baixista e produtor Marcus Miller. Outro bom, pela energia, é o ao vivo We Want Miles. Tem um brilhante My Man’s Gone Now, de George Gershwin. Aos poucos substituí todos os LPs pelos CDs e o resultado é que hoje tenho mais que os anteriores 64.
Hoje, ouvindo E.S.P., enquanto dirigia, lembrei-me do quanto gostei e já ouvi esse álbum. É de 1965, da fase do quinteto que incluía Herbie Hancock ao piano, Wayne Shorter no sax, Ron Carter no baixo e Tony Williams na bateria. Fico a pensar se este é o melhor disco de Davis. Nesse momento, sim. Há controvérsias, porém; e muitas. Mesmo dessa fase, a crítica considera Smiles (1966) o melhor. Toda vez que ouço, e isso tem sido cada vez mais raro, acho-o perfeito. A química entre os músicos é perfeita e as autorias são bem distribuídas: E.S.P. e Iris (Wayne Shorter), R.J. (Ron Carter), Agitation (Miles Davis), Eighty-One e Mood (MIles Davis e Ron Carter) e Little One (Herbie Hancock).
Esta última é um dos destaques. Confira.
Shorter é um dos músicos com mais composições gravadas por Miles. Ouça Iris.
Mood é o fecho de ouro de E.S.P.
O primeiro quinteto. Das várias fases de Davis, uma formação foi clássica: Miles no trumpete, John Coltrane no saxofone tenor, Red Garland ao piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Mais tarde, Jones foi substituído por Jimmy Cobb, e no lugar de Garland, tocaram na banda Wynton Kelly e Bill Evans.
É de quando Evans esteve na sua banda que foi gravado aquele que é considerado um dos melhores álbuns da história do jazz: Kind of Blue. Evans ficou pouco tempo e partiu para a carreira solo s formou um dos melhores trios de que se tem conhecimento, aquele que contou com a generalidade breve de Scott LaFaro e a bateria de Paul Motian.
De tanto gostar de Kind of Blue, devo ter comprado cada versão que surgiu; o primeiro foi o LP comprado pelo meu pai no Japão. Quando reeditaram em CD, comprei. Mas o mercado é sacana. Sempre lançam uma outra versão para consumidores vorazes e otários, seja anunciando que é uma remasterização, ou que vem com novo encarte, ou que vem com um CD bônus, etc. Caí em todas. A última foi um box com faixas “inéditas” e um DVD. No primeiro constam todas as obras originais, falsos começos, sequências de estúdio, totalizando 15 faixas. No segundo, constam uma versão ao vivo de So What, a primeira do álbum original e cinco que não foram incluídas, mas gravadas entre 1958 e 1959, com o sexteto. Por tempo limitado, vinha uma camiseta azul com imagens do trumpetista na parte da frente e nas costas. Eventualmente, visto Miles.
Se por um momento acho que o melhor disco de Miles – ou o meu preferido – é E.S.P., é porque Kind of Blue é hors concours. Está em um patamar em que não existem mais discussões bobas como essa de ser ou não ser melhor. Nessa gravação, além de Bill Evans, autor de Blue in Green, que Miles “surrupiou” e considerou-o sua, a química perfeita que ocorre com o sax tenor de John Coltrane e o alto de Cannonball Adderley é algo de sublime. Esse álbum representa a mudança do som de Davis do hard bop para o modal, muito responsabilidade de Bill Evans na banda.
Flamenco Sketches fecha o álbum. Davis abre com um solo em surdina; entra Coltrane com um solo “espanholado” sublime, que é sucedido pelo alto limpo de Coltrane e o solo minimalista de Evans.
Ouça Kind of Blue na íntegra.
Uma lista (minha) dos melhores Miles Davis
1. Da primeira fase, o primeiro citado é considerado um clássico do cool jazz. Os outros três do Original Jazz Classics são do primeiro quinteto consagrado de Miles: John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
• The Complete Birth of the Cool (Blue Note, 1950)
• Relaxin’ (OJC, 1956)
• Cookin’ (OJC, 1956)
• Steamin’ (OJC, 1956)
2. Miles é contratado pela Columbia. Nesse período, além dos álbuns com a formação clássica, são importantes os lançados com arranjos de Gil Evans.
• Miles Ahead (1957), com Gil Evans.
• Milestones (1958), com John Coltrane, Cannonball Adderley, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
• Kind of Blue (1959)
3. O quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams.
• E.S.P. (1965)
• Miles Smiles (1966)
4. Na fase de transição para o elétrico, introduz a guitarra de George Benson e “obriga” Herbie Hancock a tocar piano elétrico. Ele não queria, mas o chefe mandou. Gostou tanto que é um dos nomes mais importantes do jazz elétrico. Seu Headhunters (1973) é um clássico.
• Filles de Kilimanjaro (1968). Neste disco quem toca o piano elétrico é Chick Corea e é a primeira participação do baixista inglês Dave Holland.
• In a Silent Way (1969) conta com John McLaughlin na guitarra, Corea e Joe Zawinul nos teclados. A música título, no disco, creditada a Miles é, na verdade, de Zawinul.
5. A fase seguinte representa outra revolução na linguagem do jazz. Miles radicaliza. Toca com tecladistas diferentes (Chick Corea, Larry Young e Joe Zawinul) e muita percussão. Além do trumpete, ataca no órgão executando acordes que atravessam vários compassos.
• Bitches Brew (1969)
• Jack Johnson (1970) é o disco mais “roqueiro” de Miles. John McLaughlin presta tributo a Jimmi Hendrix. É um dos meus preferidos até hoje. Ouça o álbum na íntegra em http://bit.ly/X0qRya
• Big Fun (1972) é outro. Gosto mais deste do que Bitches Brew. É radical. Conta com percussão de Airto Moreira, teclados de Corea, Hancock, Zawinul e Lonnie Smith, as cítaras e tamburas de Kalil Balakrishna e Bihari Sharma. A música Great Expectations é um dos destaques.
Ouça um trecho.
• Agharta (1975). Vários álbuns ao vivo foram lançados depois que Miles se retirou da cena musical por problemas de saúde. Em sua apresentação em São Paulo, uma ambulância ficou estacionada na frente do Theatro Municipal, em caso de algum problema que pudesse ocorrer com ele. A gravação de Agharta são de apresentações da banda composta por Sonny Fortune, Pete Cosey, Reggie Lucas, Michael Henderson, Al Foster e Mtume. São shows de alta voltagem e não devem fazer o gosto de alguns fãs do trumpetista. Ouço esse álbum até hoje com muito prazer. Ouça você um trecho.
6. A fase final. Depois de longo retiro, voltou com The Man with the Horn, em 1981. O álbum é razoável, mas esquecível. Andou gravando temas de Cindy Lauper e Michael Jackson, fazendo releituras interessantes. Os melhores são os citados no começo: Tutu (1986) e o ao vivo We Want Miles (1981)
Ouça My Man’s Gone Now. O baixo é de Marcus Miller, a guitarra, de Mike Stern, e o sax é de Bill Evans. Não confunda com seu homônimo, o genial pianista. Evans “desapareceu”. A única coisa que fez que prestava foi dessa época em que ficou com Davis.
Hoje, ouvindo E.S.P., enquanto dirigia, lembrei-me do quanto gostei e já ouvi esse álbum. É de 1965, da fase do quinteto que incluía Herbie Hancock ao piano, Wayne Shorter no sax, Ron Carter no baixo e Tony Williams na bateria. Fico a pensar se este é o melhor disco de Davis. Nesse momento, sim. Há controvérsias, porém; e muitas. Mesmo dessa fase, a crítica considera Smiles (1966) o melhor. Toda vez que ouço, e isso tem sido cada vez mais raro, acho-o perfeito. A química entre os músicos é perfeita e as autorias são bem distribuídas: E.S.P. e Iris (Wayne Shorter), R.J. (Ron Carter), Agitation (Miles Davis), Eighty-One e Mood (MIles Davis e Ron Carter) e Little One (Herbie Hancock).
Esta última é um dos destaques. Confira.
Shorter é um dos músicos com mais composições gravadas por Miles. Ouça Iris.
Mood é o fecho de ouro de E.S.P.
O primeiro quinteto. Das várias fases de Davis, uma formação foi clássica: Miles no trumpete, John Coltrane no saxofone tenor, Red Garland ao piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Mais tarde, Jones foi substituído por Jimmy Cobb, e no lugar de Garland, tocaram na banda Wynton Kelly e Bill Evans.
É de quando Evans esteve na sua banda que foi gravado aquele que é considerado um dos melhores álbuns da história do jazz: Kind of Blue. Evans ficou pouco tempo e partiu para a carreira solo s formou um dos melhores trios de que se tem conhecimento, aquele que contou com a generalidade breve de Scott LaFaro e a bateria de Paul Motian.
De tanto gostar de Kind of Blue, devo ter comprado cada versão que surgiu; o primeiro foi o LP comprado pelo meu pai no Japão. Quando reeditaram em CD, comprei. Mas o mercado é sacana. Sempre lançam uma outra versão para consumidores vorazes e otários, seja anunciando que é uma remasterização, ou que vem com novo encarte, ou que vem com um CD bônus, etc. Caí em todas. A última foi um box com faixas “inéditas” e um DVD. No primeiro constam todas as obras originais, falsos começos, sequências de estúdio, totalizando 15 faixas. No segundo, constam uma versão ao vivo de So What, a primeira do álbum original e cinco que não foram incluídas, mas gravadas entre 1958 e 1959, com o sexteto. Por tempo limitado, vinha uma camiseta azul com imagens do trumpetista na parte da frente e nas costas. Eventualmente, visto Miles.
Se por um momento acho que o melhor disco de Miles – ou o meu preferido – é E.S.P., é porque Kind of Blue é hors concours. Está em um patamar em que não existem mais discussões bobas como essa de ser ou não ser melhor. Nessa gravação, além de Bill Evans, autor de Blue in Green, que Miles “surrupiou” e considerou-o sua, a química perfeita que ocorre com o sax tenor de John Coltrane e o alto de Cannonball Adderley é algo de sublime. Esse álbum representa a mudança do som de Davis do hard bop para o modal, muito responsabilidade de Bill Evans na banda.
Flamenco Sketches fecha o álbum. Davis abre com um solo em surdina; entra Coltrane com um solo “espanholado” sublime, que é sucedido pelo alto limpo de Coltrane e o solo minimalista de Evans.
Ouça Kind of Blue na íntegra.
Uma lista (minha) dos melhores Miles Davis
1. Da primeira fase, o primeiro citado é considerado um clássico do cool jazz. Os outros três do Original Jazz Classics são do primeiro quinteto consagrado de Miles: John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
• The Complete Birth of the Cool (Blue Note, 1950)
• Relaxin’ (OJC, 1956)
• Cookin’ (OJC, 1956)
• Steamin’ (OJC, 1956)
2. Miles é contratado pela Columbia. Nesse período, além dos álbuns com a formação clássica, são importantes os lançados com arranjos de Gil Evans.
• Miles Ahead (1957), com Gil Evans.
• Milestones (1958), com John Coltrane, Cannonball Adderley, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
• Kind of Blue (1959)
3. O quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams.
• E.S.P. (1965)
• Miles Smiles (1966)
4. Na fase de transição para o elétrico, introduz a guitarra de George Benson e “obriga” Herbie Hancock a tocar piano elétrico. Ele não queria, mas o chefe mandou. Gostou tanto que é um dos nomes mais importantes do jazz elétrico. Seu Headhunters (1973) é um clássico.
• Filles de Kilimanjaro (1968). Neste disco quem toca o piano elétrico é Chick Corea e é a primeira participação do baixista inglês Dave Holland.
• In a Silent Way (1969) conta com John McLaughlin na guitarra, Corea e Joe Zawinul nos teclados. A música título, no disco, creditada a Miles é, na verdade, de Zawinul.
5. A fase seguinte representa outra revolução na linguagem do jazz. Miles radicaliza. Toca com tecladistas diferentes (Chick Corea, Larry Young e Joe Zawinul) e muita percussão. Além do trumpete, ataca no órgão executando acordes que atravessam vários compassos.
• Bitches Brew (1969)
• Jack Johnson (1970) é o disco mais “roqueiro” de Miles. John McLaughlin presta tributo a Jimmi Hendrix. É um dos meus preferidos até hoje. Ouça o álbum na íntegra em http://bit.ly/X0qRya
• Big Fun (1972) é outro. Gosto mais deste do que Bitches Brew. É radical. Conta com percussão de Airto Moreira, teclados de Corea, Hancock, Zawinul e Lonnie Smith, as cítaras e tamburas de Kalil Balakrishna e Bihari Sharma. A música Great Expectations é um dos destaques.
Ouça um trecho.
• Agharta (1975). Vários álbuns ao vivo foram lançados depois que Miles se retirou da cena musical por problemas de saúde. Em sua apresentação em São Paulo, uma ambulância ficou estacionada na frente do Theatro Municipal, em caso de algum problema que pudesse ocorrer com ele. A gravação de Agharta são de apresentações da banda composta por Sonny Fortune, Pete Cosey, Reggie Lucas, Michael Henderson, Al Foster e Mtume. São shows de alta voltagem e não devem fazer o gosto de alguns fãs do trumpetista. Ouço esse álbum até hoje com muito prazer. Ouça você um trecho.
6. A fase final. Depois de longo retiro, voltou com The Man with the Horn, em 1981. O álbum é razoável, mas esquecível. Andou gravando temas de Cindy Lauper e Michael Jackson, fazendo releituras interessantes. Os melhores são os citados no começo: Tutu (1986) e o ao vivo We Want Miles (1981)
Ouça My Man’s Gone Now. O baixo é de Marcus Miller, a guitarra, de Mike Stern, e o sax é de Bill Evans. Não confunda com seu homônimo, o genial pianista. Evans “desapareceu”. A única coisa que fez que prestava foi dessa época em que ficou com Davis.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
O clássico da Noviça Rebelde por Eric Alexander
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| Alexander e seu tenor |
Coltrane foi participante e protagonista das várias transformações que aconteceram no jazz a partir dos anos 1950. Tocou com Dizzy Gillespie no início da carreira e entrou para o grupo de Miles Davis em 1955. Não ficou muito tempo em decorrência de um problema que afligia boa parte dos melhores músicos de jazz da época: as drogas. Mesmo assim, continuou na ativa gravando discos para o selo Prestige e tocando com Thelonious Monk. Foi um aprendizado e tanto. Segundo Coltrane, “ele me mostrou as respostas tocando-as… Monk foi um dos primeiros a me mostrar como tocar duas ou três notas ao mesmo tempo no tenor.” Era o início da consolidação do estilo que o crítico Ira Glitter chamou de “sheets of sound”.
Quando voltou ao grupo de Miles, em 1958, era outro Coltrane. Em quatro sessões, uma em 26 de maio de 1958 das 19 às 22h; em 2 de março de 1959, das 14h30 às 17h30; e outra das 19 às 22h; em 22 de abril, das 14h30 às 17h30, nos estúdios da Columbia gravaram um dos melhores discos de todos os tempos: Kind of Blue.
No mesmo ano de 1959, assinou um contrato com a Atlantic Records e gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Olé Coltrane, Coltrane’s Sound (lançado em 1964), e Coltrane’s Blues (lançado em 1962), como líder.
Nos discos gravados pela Atlantic passou a tocar o sax soprano também, instrumento consagrado por Sidney Bechet, e que, praticamante, havia deixado de ser usado no jazz. A execução de My Favorite Things no sax soprano foi o perfeito exemplo das novas possibilidades de improvisação que esse instrumento abriu para o que Coltrane vislumbrava.
Pode-se dizer que Coltrane “inventou” o tema de My Favorite Things para o jazz. Seu início com o piano de McCoy Tyner, o longo solo de Coltrane e a bateria “drum machine” de Elvin Jones são inesquecíveis e são referências para qualquer interpretação posterior.
É o que sucede com a brilhante interpretação de Eric Alexander. David Hazeltine, no acompanhamento, segue as mesmas linhas melódicas de McCoy Tyner. Alexander era um dos saxofonistas preferidos do amigo Carlos Conde (ele detestava Ben Webster, um dos meus ídolos). Foi por ele que o descobri. Assistimos a uma apresentação de Alexander em um festival de jazz há alguns anos. O tenorista navega com desenvoltura em andamentos lentos – como na série Gentle Ballads, pela gravadora japonesa Venus – com performances mais uptempo, caso de My Favorite Things, que você vai ouvir agora. Tem como sidemen, além de Hazeltine, do baixista John Webber e do baterista Joe Fansworth.
Ouça o clássico de Coltrane em apresentação para uma emissora de TV.
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