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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Marvin Gaye e os outros

Capa do CD tributo a Marvin Gaye
O que é uma vida de artista, como certa vez perguntou Sueli Costa. Quando entrava na adolescência, um amigo de meu pai e de um dos empregados de sua loja de fotografia chamado David, chinês assentado, bon vivant, pelo jeito – nunca soube o que fazia –, aparentemente rico, sujeito culto, disse-me que artistas eram diferentes. Tinham de ser diferentes. Era razoavelmente culto e gostava de ler. Os primeiro Hemingway foi sugestão dele. Sei hoje que não é bem assim. Basta o exemplo de Giorgio Morandi, sujeito metódico e autor de uma obra pictórica genial. Era tão metódico que, me parece, tinha uma amante e ficou anos a fazer suas visitas, sempre no mesmo dia da semana e pegando o trem nos mesmos horários.

Mas o lugar comum diz que o artista tem que ser meio maluco. Pensando melhor, a disciplina que está refletida nas geniais gravuras em metal e nas pinturas de Morandi, seu modo sistemático, pode ser considerado maluquice. Mas na visão romântica, artistas são tuberculosos, atormentados, drogados ou alcoólatras. O drama de Marvin Gaye foi o pai.

Marvin Gay, Senior era pregador de uma igreja cuja doutrina era uma mistura de judaísmo com fundamentalismo católico. A convivência, apesar de adorá-lo, sempre foi conflituosa e causou muitos ressentimentos. Por sorte e talento, libertou-se do terrível convívio familiar graças à música. Logo Gaye – acrescentou um “e” ao sobrenome – estava fazendo sucesso. Caiu nas graças de Barry Gordy, dono da gravadora Motown. E não foi só isso: casou com a filha do dono. Arrumou outro pai: Barry.

Ele era o dono da gravadora e sentia-se senhor de seus contratados, principalmente, de Marvin. O sucesso comercial deu-lhe uma certa autonomia e assim pode gravar algo mais pessoal. Gravou “What’s Going on”, em 1971. É um dos melhores discos da história da música popular. “

A relação profissional-familiar degringolou. Separou-se de Anna. Era apaixonado por ela e sabia que tinha uma grande dívida para com ela e seu pai. “Here, My Dear”, de 1978, é o retrato dessa fase conturbada.

Começou a abusar da cocaína nessa época. Resolveu isolar-se em uma ilha no Pacífico na intenção de parar com o vício. Parece que funcionou. Contratado pela CBS, lançou “Sexual Healing”. Estava de novo, como se dizia antigamente, na crista da onda. Se em “What’s Going on” buscava a salvação através da espiritualidade, o Gaye de 1982 proclamava a cura pelo sexo: Levante-se, levante-se, levante-se!/ […]/ Oh, baby, estou quente como um forno/ Eu preciso de um pouco de amor/ E, baby, não posso segurar por muito mais tempo/ Está ficando cada vez mais forte/ E quando sinto isso/ Eu quero a cura sexual/ Cura sexual, oh, baby/ Me faz sentir tão bem/ Ajuda a aliviar a minha mente.

Misturar sexo com religião, às vezes, resulta em curto circuito. Voltou com tudo para a cocaína. Foi morar com os pais. Os ressentimentos voltaram à tona. Seus problemas se resolveram de modo um tanto radical. No dia 1º de abril de 1984, um dia antes de completar 45 anos, foi morto pelo pai com um revólver 38. Morreu pela arma que tinha dado de presente.

Mais de trinta anos depois de morto, Marvin Gaye ainda é lembrado, pelo menos, por mim. Acordei ouvindo uma versão de “What’s Going On” de que não lembrava. Era com Bono Vox. Estava no iPod que eu deixo no quarto, conectado a um Altec Lansing portátil. Procurei pelo CD em casa. Chama-se “What’s Going On” mesmo e é um daqueles feitos para arrecadar fundos para as vítimas da Aids.

Além desse, outros que encontrei foram “Inner City Blues”, de 1995, com Nona Gaye, Boys II Men, Neneh Cherry, Stevie Wonder, Lisa Stansfield, dentre outros. Outro disco tributo é “Jazz Loves Marvin Gaye”. Dentre os participantes estão Gato Barbieri, Quincy Jones, Grover Washington Jr., Mongo Santamaria e Regina Carter.

Como de costume, esse tipo de coletânea é irregular, mas sempre tem boas surpresas.

Veja o clipe de “What’s Going On”, com Bono Vox e Chris Martin.



Em viagens, como não existia a facilidade de hoje, ainda na época dos LPs, passava em lojas como Tower, HMV e J&R uma vez por dia. Ficava fuçando tentando “descobrir” algo que ninguém conhecia. Provavelmente, por causa de“ Inner City Blues” e da capa, comprei um LP de uma banda chamada Working Week. Nunca tinha ouvido falar. Não decepcionou. A versão deles da música de Gaye era fenomenal. Ouça.



Veja também a de uma apresentação que descobri no YouTube.


No CD tributo “Inner City Blues”, é muito boa a da música título, com Nona Gaye. Acho que é filha de Marvin. Veja.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Marvin Gaye: trinta anos esta noite

O jovem Marvin Gaye
Nem sempre é bom negócio casar com a irmã do chefe. Vale se for biliardário e o casamento for para a vida inteira. Tanto Berry Gordy, fundador da lendária Motown Records, como Anna, sua irmã, embrenharam-se no negócio da música e se deram bem. Marvin Gaye era um rapaz de 20 anos quando conheceu Anna. Casaram em 1963. Juntando o talento de Gaye, que nasceu Gay e acrescentou o “e”, provavelmente, para que não houvesse alguma confusão com sua heterossexualidade, e a veia empresarial de Berry e a irmã, deu que tornou-se um dos grandes nomes da Motown.

Marvin, filho de Marvin, Senior, um senhor que não era chegado muito ao batente, eventualmente trabalhando de carteiro, era pregador de uma igreja de nome pomposo: The House of God, the Holy Church of the Living God of the Truth, the House of Prayer for All People. A doutrina era uma mistura de judaísmo e fundamentalismo católico. Guardavam os sábados. Gaye dissera uma vez que tinha uma terrível convivência com o pai: “Eu o amava e o adorava. Mas tinha também ressentimento. Brigávamos com unhas e dentes. Além disso, nossa vida era estranha. Éramos os diferentes. Nossa ligação com a Igreja nos separou dos outros.”

Libertando-se do elo familiar, Marvin, que tocava bem piano, só que apenas de ouvido, enveredou pela música e, no começo, chegou a tocar bateria. Ansiava por ser um Frank Sinatra negro. E a vida o desviou desse desejo.

Na Motown, passou a emplacar músicas nas paradas, mas ficava à mercê das diretrizes de Berry Gordy. Mais independente do jugo do chefe, gravou um disco conceitual, hoje considerado um dos melhores de todos os tempos: What’s Going On? Nos dois anos subsequentes lançou Trouble Man e Let’s Get It On. A essa altura, tinha deixado crescer uma barba que lhe maculava o rosto bonitinho que o star system desejava dele e passou a andar de touca. Em What’s Going On era Marvin Gaye inteiro. Era um Marvin diferente, conflituoso; como David Ritz, autor das liner notes do box Marvin Gaye, The Master 1961–1984, escreve: “Após anos de sua morte, sua obra ainda é surpreendentemente fresca, viva, com os conflitos, os medos, a fé, a alegria, o pessimismo, a coragem, a decepção, a raiva, o ciúme, a generosidade – todos os elementos que atraem para o drama de seu romance doce-amargo com o mundo.”

Algo tinha mudado na cabeça de Gaye. Sabia da importância de Anna para a sua carreira, no entanto, casamentos acabam, principalmente quando se misturam negócios e a cama. Marvin era apaixonado por Anna e sabia-se com uma dívida enorme pelo sucesso conquistado. Here, My Dear, um de seus discos menos conhecidos, lançado em 1978, está relacionado à separação, tão relacionado que a ex-mulher o processou por conta dele. Se não é tão bom quanto What’s Going on?, assim mesmo, tem entre as faixas I Met a Little Girl, Anger, Is That Enough, Time to Get It Together e Sparrow, na minha opinião, a melhor.

Ouça.




Depois de Here, My Dear, Gaye estava abusando da cocaína e, quem diria, foi parar no Mauí, ilha próxima ao Havaí. Queria viver no paraíso, bem doidão. Tentou gravar um álbum “disco” (para quem é mais novo, era o ritmo quente, para dançar “y otras cositas más” nas chamadas discotecas). Enrolou-se com problemas fiscais na Grã-Bretanha. Resolveu tentar parar com as drogas. Assinou contrato para gravar na CBS, Sony Music, atualmente.

Quem esperava um Gaye decaído surpreendeu-se com a canção Sexual Healing, parte de Midnight Love (CBS, 1982). Não era mais o mesmo. A sexualidade enrustida em canções melosas, estilo“cantadas no ouvido” ou “mela-cuecas” da época da Motown estavam escancaradas. O clipe é fenomenal. Ganhou prêmios como o Grammy, vendeu muito e foi considerado o melhor cantor pot várias publicações. Gaye era um superstar. Seu problema com a cocaína voltara e estava à toda, speedy, saboreando a vida boa. Mas Marvin era um cara atormentado, no fundo, era o gênio que sabia mais que ninguém lidar – ou transmitir – com a dubiedade entre  a moral rigidamente religiosa e a sexualidade. Era resultado desse confronto interior. Mas essa vida boa foi interrompida com dois tiros. Chegou ao California Hospital Medical Center morto. Os tiros foram dados por Marin Gay, Sr., seu pai. E ironia do destino: morreu com arma que havia dado de presente ao pai em um Natal.

Veja o clipe de Sexual Healing.




Marvin Gaye era um gênio. Anteontem, 1º de abril, fazem 30 anos que morreu. Parece mentira.

O melhor de Marvin Gaye está em What’s Goin’ On? Ouça na íntegra.