sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A morte e as 72 virgens

O uso de artefatos explosivos sempre foi a modalidade mais comum nos atentados perpetrados por movimentos considerados terroristas, como o dos bascos, do IRA e dos árabes Causaram muitos estragos e mortes no continente europeu. Eram deixados em logradouros públicos de grande circulação ou em automóveis estacionados e, em vários casos os alvos almejados eram figuras públicas adversárias consideradas inimigas ou adversárias desses movimentos separatistas.

Uma modalidade, porém, pode ser considerada exclusiva dos árabes: a dos homens-bomba. Haveria a promessa de que no Paraíso os mortos seriam recebidos por 72 virgens. Talvez seja por isso a prevalência de homens nessa modalidade, mas até como forma de despistar um ou outro atentado foi praticado por mulheres. Objetivamente, seria mais fácil disfarçar ou esconder as bombas sob as vestes femininas.

Minha quase chegada ao paraíso. Embarcamos bem cedo, do aeroporto de Cumbica, para Montevidéu. Foi minha última viagem em um Boeing-747, minha aeronave preferida. 

O hotel, meio antigo, ficava na avenida da praia, mas próxima da região central da cidade. Depois de andar bastante, de almoçarmos no Mercado, acabamos entrando em um shopping porque ela queria comprar um creme. Preferi dar uma explorada por outras lojas. Uns quinze minutos depois, voltei e ela continuava na loja. Preferi esperar no lado de fora, já um pouco impaciente e irritado com a demora, de cócoras, com as costas encostadas na parede. 

Quando a vi saindo, devo ter levantado rapidamente e ter tido uma queda abrupta de pressão. Desmaiei. Na queda, bati a cabeça com certa violência e foi essa a razão de ter recobrado os sentidos no instante seguinte. Ao abrir os olhos vi três jovens moças agachadas perguntando se eu estava bem. Ela, não sei se pelo susto, nem se abaixou. Vi seu rosto e de mais umas cinco pessoas em pé observando. Fui levado para a enfermaria do shopping. Disse que estava bem e saímos em pouco tempo. 

Mesmo em momentos graves, mantenho um certo senso de humor. “Achei que tinha morrido. Quando vi aquelas três belas garotas, achei que eram as primeiras virgens das 72 que me esperavam no paraíso”, disse. Ela ficou fula com a minha observação. Mas, passou. O resto da viagem foi deliciosa. Um dia volto a Montevidéu. Sem virgens.


Como música é vida, assista a um show da marroquina Amina Aloui, genial. Interpreta canções de raízes muçulmanas, em árabe, em espanhol e em português.

 
 
Quer saber mais sobre ela? Tem um texto no meu blog sobre ela: A viagem de Amina Alaoui


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

De como Samba em Prelúdio foi composta


 

Conta Ruy Castro, em “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1991), que, segundo a lenda, Vinícius de Moraes foi à boate Arpège para prestigiar Tom Jobim, que defendia uns trocados, tocando piano, e lá viu Baden Powell executando “My Funny Valemtine” e “Estúpido Cúpido” na guitarra elétrica. Depois do show, o poetinha o procurou e propôs uma parceria musical.

Lenda mesmo. Tom Jobim, em 1962, já era suficientemente famoso e não precisava tocar em boates para se sustentar. E Baden, não era tão desconhecido. A real é a que Vinícius conheceu Baden por meio de Nilo Queiroz, aluno de violão deste último. Depois de ouvi-lo uma noite inteira na casa do amigo, surgia um novo parceiro. Baden  foi parar no apartamento do ex-diplomata e lá ficou por quase noventa dias, compondo e bebendo. Resultou em 25 canções, muitas delas, hoje, clássicos.

De parte delas, resultou o genial álbum “Afro-Sambas”. A parceria foi regada a whisky Haig, que Vinícius tinha trazido na mala diplomática. A partir de um disco de folclore baiano, dado pelo amigo Carlos Coqueijo, e Baden sem nunca ter ido à Bahia, compuseram clássicos como os Cantos de Ossanha, de Xangô e de Iemenjá. 

Depois dos quase noventa dias de isolamento, internaram-se na Clínica São Vicente para se desintoxicarem.

No programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, Baden conta que ele e Vinícius passavam noites em claro, enchendo a cara e compondo. Uma delas deixou o poeta  injuriado. Disse que não ia colocar letra em um tema plagiado. O violonista alegou que não. “Isso é do Chopin”, dizia, depois de hectolitros de Haig na cabeça. Madrugada, quase amanhecendo, resolveu acordar a mulher, que conhecia bem sua obra do polonês. 

A mulher confirmou que não era. Vinícius resolveu então colocar a letra. Assim nasceu o clássico “Samba em Prelúdio”.

A melhor interpretação, na minha opinião, é a de Odete Lara, no álbum “Vinícius & Odete” (Elenco, 1963).

 
 
 
Veja Elizete Cardoso cantando “Samba em Prelúdio”, com Baden Powell.
 
 
 
 
Veja também a talentosa Andrea Motis cantando esse clássico.