quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dois tempos: “De Manhã” e o show Gemini V, com Pery Ribeiro, Leny Andrade e o Bossa Três

Leny e Pery, anos depois do Gemini V
Em uma casa muito simpática de São Paulo, o Madeleine, na Vila Madalena, todas as quintas feiras apresenta-se o Hammond Grooves, trio formado por Daniel LaTorre, o mestre (e o melhor) do Hammond B-3 no Brasil, Daniel Daibem, na guitarra, conhecido pelos programas na Eldorado FM, e Wagner Vasconcelos na bateria. Tocaram De Manhã, uma das primeiras composições de Caetano Veloso e cantada pela primeira vez, se não me engano, pela irmã Maria Bethânia, em ritmo mais para o samba jazz.

Imediatamente lembrei-me daquela que considero a melhor interpretação dessa canção, a de Leny Andrade, em um disco antológico chamado Gemini V. É a reprodução “ao vivo” de um show na boate Porão 73, no Rio de Janeiro. “Reprodução” porque optaram por registrá-la em estúdio mesmo, “arremedando” um espetáculo ao vivo. Antigamente não havia a facilidade de hoje em se gravar um show de modo decente. O mundo mudou e, com um telefone celular é possível se fazer um filminho com som bem razoável.

Ronaldo Bôscoli e Miele formaram uma dupla invencível em produzir os chamados pocket shows. Havia passado o tempo das produções espetaculares do tempo dos cassinos legalizados até 1946. O roteiro de Gemini V é o de uma viagem musical, inspirada, evidentemente, na era espacial dos Geminis e Sputniks anteriores à expedição Apolo, que desembarcou na lua. Depois disso, alguma poesia se foi.

O sons de um um contrabaixo “desorientado”, no arco, anunciam o início da “viagem”. Entra Pery. Ao fim do medley, Leny pergunta: “Pery… Pery, eu quando vim entrando, eu vi escrito assim: Gemini V… por que Gemini V?” “Ora, Leny – responde Pery –, porque Gemini quer dizer vanguarda e cinco, é só contar. 1, 2, 3, 4, 5.” Leny: “Já estou começando a entender.” Contagem regressiva. Assim é o início de um dos grandes discos da música brasileira.

O dado mais significativo da carreira de Pery é a primazia de ter gravado Garota de Ipanema ou, também, o de ser filho de dois notáveis – Herivelto Martins e Dalva de Oliveira – que, afora seus talentos, viram suas vidas (brigas, infidelidades, etc.) expostas nos meios de comunicação (leia sobre os pais de Pery em http://bit.ly/VGteV6). É imerecido para a bela voz de Pery, que deve ter sofrido um bocado por ser filho deles.

Sendo um marco da bossa nova, assim como Chega de Saudade (1956), somos inclinados a pensar que o primeiro a gravá-la tenha sido João Gilberto. Quando Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram Garota e lançaram-na no show “Encontro”, na boate Au Gourmet, que teve estreia em 2 de agosto de 1962. Quem viu não deve ter esquecido. Reuniu Jobim, Vinícius e João Gilberto. Mas, como em Chega de Saudade, João foi o “segundo”. A primeira gravação aconteceu em Canção do Amor Demais, de Elisete Cardoso, clássico com arranjos de Jobim e acompanhamento ao violão de João. Dizem que ele “vacilou” bem: não queria participar do disco. Garota de Ipanema foi lançada por Pery em 1963 em disco com o Tamba Trio e Os Cariocas.

Voltando ao show, depois da contagem regressiva, é a vez de Leny cantar. E, que grande cantora era, e é. Como a voz de Sarah Vaughan, foi se transformando com o tempo, ganhando peso, ficando mais grave. A Leny de 1966 tinha a voz de menina, e o suingue, tão importante para os intépretes mais jazzísticos, já estava todo lá. Que belas modulações vocais! Nos liner notes do disco, Bôscoli é todo elogios para Pery e Leny: “Pery está perto do total. E que dizer de Leny Andrade? Talvez dizer que ninguém mais a supera. Para mim ela passa a ser, neste LP, a maior cantora do Brasil.”

A conjugação de várias músicas em uma, o que chamam de medley, é mais comum no jazz, e nas apresentações ao vivo é frequente. Gemini V é quase todo assim, de canções que, por sua temática, se “juntam”. Como não podia deixar de ser, a primeira se chama O Astronauta, de Baden Powell e Vinícius de Moraes; o tema “espacial” é seguido por Só Tinha de Ser com Você, Rio de Sol Maior (Luis Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli), Rio (Robero Menescal e Bôscoli), Coisas do Dia (da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Billy Blanco e Antônio Carlos Jobim), Estamos Aí (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck), Feitinho pro Poeta (Baden Powell e Luiz Fernando Freire), e Garota de Ipanema. Estes oito temas perfazem um tempo de seis minutos e vinte e um segundos, incluindo a fala inicial (a citada no parágrafo anterior). É muito para tão pouco tempo. Deixo de citar os outros dois medley, para não ficar tão cacete.

A qualidade maior do show é perfeita sintonia entre Pery e Leny, muito graças ao Bossa Três, do grande pianista da noite Luiz Carlos Vinhas, com Otávio Bally Jr. no contrabaixo e Ronie Mesquita na bateria. Um detalhe: ser pianista da noite não o desmerece; significa apenas que, primordialmente, era um pianista das noites cariocas. O balanço de Vinhas era contagiante. Pode ser conferido em Nanã, de Moacir Santos, primeiro número solo do Bossa Três. A sexta faixa também é do trio de Vinhas. É um Só Saudade (Newton Mendonça e A. C. Jobim), de primeira. Pena que tenha morrido antes de ter feito 60 anos devido a complicações pós-operatórias. De uma levada só, resolvera fazer plástica nos olhos, na papada do pescoço, e cirurgia de duas hérnias, uma no abdomen e outra na virilha. Foi muito. Tem cara de descuido da clínica onde fez as cirurgias.

O ponto alto, pelo menos de Leny, é na faixa seguinte. Seu De Manhã é excepcional. Não existe melhor, nem a do autor, Caetano Veloso, nem da irmã Maria e, muito menos, a de Elis Regina. Leny é internacional: apresenta-se bastante fora do Brasil. Não existe aqui alguém com seu senso de fraseado. Pery é (era, porque já morreu) outro com aquele suingue brasileiro que os estrangeiros não possuem. Não teve o prestígio que merecia. Era o cara certo na hora errada. Submergiu na onda da jovem guarda e do rock’n’roll. Era um tremendo cantor. Isso pode ser conferido em Por Quem Morreu de Amor (Menescal/Bôscoli). Ouça e tire o chapeu.


Ouça também De Manhã por Maria Bethânia.
Veja e ouça com seu autor, Caetano Veloso.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O craque Joe Mooney

Mooney em foto de William P. Gottlieb
A fila de músicos sobre os quais gostaria de falar é enorme; é maior que a dos que foram assunto neste blogue. Chegou afinal a vez de Joe Mooney, que estava lá esperando a sua vez. Não é sujeito muito conhecido, mas vale, e muito, conhecê-lo, digo para os que não sabem quem é ele ou nunca o ouviu. É do time de George Shearing, de Ray Charles e Art Tatum. Têm em comum o fato de todos serem (foram) tecladistas. Tem outra coisa mas, deixa pra lá. Se você quiser saber, leia em http://bit.ly/WFWP0h.

Diferentemente dos três citados, Mooney acabou optando pelo órgão e pelo acordeom. Foi relativamente popular nos anos 1940, pelo menos é o que se diz em sua biografia. Órgão é um instrumento bem específico. Os nomes mais conhecidos são os da turma da Blue Note – John Patton, Jimmy Smith, Larry Young e Jack McDuff (este gravou mais pela Prestige). O estilo de Mooney é diferente porque tocava e cantava ao mesmo tempo. A importância, nesse caso, está na simbiose entre voz e instrumento saindo dos mesmos nervos cerebrais. No caso dos que tocam, exclusivamente, os estímulos se direcionam para as mãos e para os pés, que fazem soar as notas mais graves; é por isso que muitos organistas prescindem de um contrabaixista.

Há uma qualidade muito específica na instrumentação de Mooney, algo que acontece com muitos pianistas/cantores como Bobby Short, Dave Frishberg e Bob Dorough.

O motivo maior de lembrar de escrever algo sobre Joe Mooney se deve ao fato de ter “descoberto” o livro O Caçador das Bolachas Perdidas, de Jorge Cravo, o Cravinho, como é conhecido. Por falta de espaço ou por desorganização, livros relacionados à música e ao cinema estão em uma estante dentro do meu banheiro social, que fica bem frente ao vaso sanitário. Pois estava à procura de um determinado livro e me deparei com o de Cravinho, lançado pela editora Record, em 2002. O Carlos Conde e o Alberico Cilento viviam falando dele e do livro. Comprei não sei há quanto tempo. O certo é que esqueci, mas o que está por aí sempre estará à mão. Bom, iniciei a leitura e, em uma sentada (não foi na privada, é bom esclarecer), li metade dele. Agora, na parte final, quando fala dos seus intérpretes favoritos, há uma parte que é sobre Joe Mooney.

O baiano Cravinho, nascido na pequena Alagoinhas, junto com o irmão Mario Cravo Jr., foi fazer faculdade nos Estados Unidos, facilitado pela boa condição financeira familiar, exportador de café e tabaco. Bom, o Mario Cravo Jr., todo mundo deve conhecer; seu filho Mario Cravo Neto também. Tendo ido morar, primeiro em Syracuse e depois em Nova York, Cravinho assistiu ao vivo uma verdadeira constelação de astros do jazz: Nat “King” Cole, Billie Holiday, Stan Kenton, Anita O’Day, June Christy… bom, é melhor pegar o livro porque a relação é extensa. As edições devem estar esgotadas, mas vale a pena ir atrás de um sebo internético e adquiri-lo. É engraçado, instrutivo e delicioso, mormente aos que se interessam pelo jazz e pelos de bom gosto. Do jeito que é bom e é uma referência, com certeza, voltarei ao Cravinho em outras oportunidades.

Voltando ao Joe, vou dar uma de folgado e transcrever a parte que se refere ao grande cantor/organista/acordeonista. Para contextualizar, a partir de um intertítulo – “Um time invencível” –, Cravinho “monta” um time ideal, posição a posição. Vamos lá:

O meio de campo de minha seleção de pianistas cantores é de uma versatilidade incrível. São tão entrosados que, sem temer qualquer adversário, incluíram um cego! A fera se chama Joe Mooney e é um cego com tanta habilidade e percepção sensorial que desnorteia qualquer esquema inimigo. Joe Mooney atrai para si muita atenção porque canta e toca piano, órgão e acordeom. Ouvi pela primeira vez sua voz e bossa em 1949, no rádio do carro, viajando pelos Estados Unidos. Estava cansado, por vir dirigindo horas seguidas, e eis-me de noitinha ao volante, entre palmeiras enormes, numa avenida de Los Angeles. De repente, ouvi no rádio um cantor e um conjunto pra lá de moderno. O choque foi tanto que quase perdi o controle do carro. “Mas, que é isso?”, eu disse para mim mesmo, só que em voz alta. Meu irmão Mario, que ressonava a meu lado, no assento do carona, acordou sobressaltado e foi logo me advertindo: “Presta atenção no volante, você quase saiu da pista! É a sua falta de atenção quando está ouvindo música!” Aguentei o pito e, finalmente, o locutor deu a dica: “Ouvimos Joe Mooney e seu quarteto.”
Jamais esqueci Joe Mooney e, nos anos 50, fui reencontrá-lo como crooner da Orquestra Sauter-Finegan, cantando o antológico “Nina Never Knew”. Depois, lavei a jega com seus LPs You Go to My Head (Decca), Lush Life (na Atlantic, onde ele novamente castiga Nina Never Knew”), The Greatness of Joe Mooney e The Happiness of Joe Mooney (os dois últimos da Columbia). Todas essas joias já estão em CD e precisam ser ouvidas – são cada vez mais raros os cantores “originais”, e Joe Mooney foi um dos maiores.



Agora, só resta ouvir Nina Never Knew.


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E outra, bem conhecida: Crazy He Calls Me.


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