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| Leny e Pery, anos depois do Gemini V |
Imediatamente lembrei-me daquela que considero a melhor interpretação dessa canção, a de Leny Andrade, em um disco antológico chamado Gemini V. É a reprodução “ao vivo” de um show na boate Porão 73, no Rio de Janeiro. “Reprodução” porque optaram por registrá-la em estúdio mesmo, “arremedando” um espetáculo ao vivo. Antigamente não havia a facilidade de hoje em se gravar um show de modo decente. O mundo mudou e, com um telefone celular é possível se fazer um filminho com som bem razoável.
Ronaldo Bôscoli e Miele formaram uma dupla invencível em produzir os chamados pocket shows. Havia passado o tempo das produções espetaculares do tempo dos cassinos legalizados até 1946. O roteiro de Gemini V é o de uma viagem musical, inspirada, evidentemente, na era espacial dos Geminis e Sputniks anteriores à expedição Apolo, que desembarcou na lua. Depois disso, alguma poesia se foi.
O sons de um um contrabaixo “desorientado”, no arco, anunciam o início da “viagem”. Entra Pery. Ao fim do medley, Leny pergunta: “Pery… Pery, eu quando vim entrando, eu vi escrito assim: Gemini V… por que Gemini V?” “Ora, Leny – responde Pery –, porque Gemini quer dizer vanguarda e cinco, é só contar. 1, 2, 3, 4, 5.” Leny: “Já estou começando a entender.” Contagem regressiva. Assim é o início de um dos grandes discos da música brasileira.
O dado mais significativo da carreira de Pery é a primazia de ter gravado Garota de Ipanema ou, também, o de ser filho de dois notáveis – Herivelto Martins e Dalva de Oliveira – que, afora seus talentos, viram suas vidas (brigas, infidelidades, etc.) expostas nos meios de comunicação (leia sobre os pais de Pery em http://bit.ly/VGteV6). É imerecido para a bela voz de Pery, que deve ter sofrido um bocado por ser filho deles.
Sendo um marco da bossa nova, assim como Chega de Saudade (1956), somos inclinados a pensar que o primeiro a gravá-la tenha sido João Gilberto. Quando Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram Garota e lançaram-na no show “Encontro”, na boate Au Gourmet, que teve estreia em 2 de agosto de 1962. Quem viu não deve ter esquecido. Reuniu Jobim, Vinícius e João Gilberto. Mas, como em Chega de Saudade, João foi o “segundo”. A primeira gravação aconteceu em Canção do Amor Demais, de Elisete Cardoso, clássico com arranjos de Jobim e acompanhamento ao violão de João. Dizem que ele “vacilou” bem: não queria participar do disco. Garota de Ipanema foi lançada por Pery em 1963 em disco com o Tamba Trio e Os Cariocas.
Voltando ao show, depois da contagem regressiva, é a vez de Leny cantar. E, que grande cantora era, e é. Como a voz de Sarah Vaughan, foi se transformando com o tempo, ganhando peso, ficando mais grave. A Leny de 1966 tinha a voz de menina, e o suingue, tão importante para os intépretes mais jazzísticos, já estava todo lá. Que belas modulações vocais! Nos liner notes do disco, Bôscoli é todo elogios para Pery e Leny: “Pery está perto do total. E que dizer de Leny Andrade? Talvez dizer que ninguém mais a supera. Para mim ela passa a ser, neste LP, a maior cantora do Brasil.”
A conjugação de várias músicas em uma, o que chamam de medley, é mais comum no jazz, e nas apresentações ao vivo é frequente. Gemini V é quase todo assim, de canções que, por sua temática, se “juntam”. Como não podia deixar de ser, a primeira se chama O Astronauta, de Baden Powell e Vinícius de Moraes; o tema “espacial” é seguido por Só Tinha de Ser com Você, Rio de Sol Maior (Luis Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli), Rio (Robero Menescal e Bôscoli), Coisas do Dia (da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Billy Blanco e Antônio Carlos Jobim), Estamos Aí (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck), Feitinho pro Poeta (Baden Powell e Luiz Fernando Freire), e Garota de Ipanema. Estes oito temas perfazem um tempo de seis minutos e vinte e um segundos, incluindo a fala inicial (a citada no parágrafo anterior). É muito para tão pouco tempo. Deixo de citar os outros dois medley, para não ficar tão cacete.
A qualidade maior do show é perfeita sintonia entre Pery e Leny, muito graças ao Bossa Três, do grande pianista da noite Luiz Carlos Vinhas, com Otávio Bally Jr. no contrabaixo e Ronie Mesquita na bateria. Um detalhe: ser pianista da noite não o desmerece; significa apenas que, primordialmente, era um pianista das noites cariocas. O balanço de Vinhas era contagiante. Pode ser conferido em Nanã, de Moacir Santos, primeiro número solo do Bossa Três. A sexta faixa também é do trio de Vinhas. É um Só Saudade (Newton Mendonça e A. C. Jobim), de primeira. Pena que tenha morrido antes de ter feito 60 anos devido a complicações pós-operatórias. De uma levada só, resolvera fazer plástica nos olhos, na papada do pescoço, e cirurgia de duas hérnias, uma no abdomen e outra na virilha. Foi muito. Tem cara de descuido da clínica onde fez as cirurgias.
O ponto alto, pelo menos de Leny, é na faixa seguinte. Seu De Manhã é excepcional. Não existe melhor, nem a do autor, Caetano Veloso, nem da irmã Maria e, muito menos, a de Elis Regina. Leny é internacional: apresenta-se bastante fora do Brasil. Não existe aqui alguém com seu senso de fraseado. Pery é (era, porque já morreu) outro com aquele suingue brasileiro que os estrangeiros não possuem. Não teve o prestígio que merecia. Era o cara certo na hora errada. Submergiu na onda da jovem guarda e do rock’n’roll. Era um tremendo cantor. Isso pode ser conferido em Por Quem Morreu de Amor (Menescal/Bôscoli). Ouça e tire o chapeu.
Ouça também De Manhã por Maria Bethânia.

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