Desde a morte de Ella Fitzgerald, pergunta-se quem é a nova diva do jazz. Passaram-se quatorze anos de seu desaparecimento e não surgiu alguém que merecesse esse título. E vejam que não faltam boas cantoras. Além de Shirley Horn, que não é identificada como cantora, especificamente, pois era excelente pianista, e morreu faz poucos anos, temos Dianne Reeves e Dee Dee Bridgewater, que não podem ser consideradas novas no ramo. Poderiam, por alguns, ser consideradas divas. Não são, no entanto. Talvez, essa classificação, o de diva, esteja fora de moda. Por isso, não existem mais. É possível que existam, digamos, o “rei do soul” (James Brown) ou o rei do blues (B.B. King), mas se dissermos “diva do jazz” ou o “rei do rock”, tais qualificativos parecem fora do tempo.
Mais que cantores, surgem cantoras. Um amigo disse que a preferência maciça por cantoras se deve à imagem do canto das sereias, o canto ao qual Ulisses quase sucumbe. Não há uma razão sexista como a de que homens gostam mais de mulheres e mulheres gostam mais de homens quando nos referimos ao canto. Mulheres se derretem por homens bonitos ou másculos, mas quando o assunto é música, derretem-se por Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan, Marina, Gal Costa e Ana Carolina. Nada contra. O fato é que, quando o assunto é o canto, as mulheres são unanimidade, tanto entre elas, como entre eles. Em relação aos homens, ambos os sexos não são tão volúveis: o reinado de Bing Crosby e de Frank Sinatra foram bem longos e o de Tony Bennett continua. Prestes a completar 84 anos em agosto, Bennett continua ativo e apresentou-se no ano passado no Brasil e mostrou que continua com boa voz. Poucos outros foram capazes de ameaçar o reinado deles.
Provavelmente, em razão de o jazz ser um gênero menos propagado, é difícil o surgimento de um novo nome que vá nos surpreender e fazer-nos pensar que, a partir daquele momento, a música tem um “antes” e um “depois” “tal nome”, como quando surgiu Frank Sinatra, por exemplo. Por essa razão, se verificarmos a lista dos melhores cantores e cantoras pela revista Downbeat, veremos que pouco mudou nos últimos dez anos. Faz muito tempo que Kurt Elling é considerado o melhor cantor de jazz, pelo menos, dez anos. O mesmo, acontece com cantoras: Cassandra Wilson, mais que Dianne Reeves ou Dee Dee Bridgewater, que mereceriam o título de “Melhor cantora do ano” por “antiguidade” – sorry, aí não vai nenhuma preconceito geriátrico – tem sido considerada a melhor na última década. E, merecidamente.
Na mitologia grega, a bela Cassandra tem o dom da profecia e, em contrapartida, ninguém acredita nelas devido à maldição de Apolo. Não conheço ninguém chamado Apolo, ou Caim – Abel, sim –, mas há um número razoável de pessoas que se chama Hermes, Dionísio ou Hércules. Mas não deve ser fácil se chamar Átila, por exemplo,… ou Cassandra. Wilson, se não tem nada da personagem mitológica – que previu a invasão de Tróia e não foi ouvida –, tem, ao menos, o dom de ser uma figura ímpar, pois escapa da classificação mais clássica de cantora de jazz. Seu modo de interpretar músicas de outros compositores é único, sejam standards do jazz como Skylark, You Don’t Know What Love Is ou Strange Fruit, ou músicas do repertório pop, como Love Is Blindness, do U2, ou The Weight, de Robbie Robertson, um dos fundadores do The Band, conhecida por suas conexões com Bob Dylan.
Ouçam Love Is Blindness:
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Drexler no Brasil
Jorge Drexler apresentou-se no Via Funchal, São Paulo, em 23 de julho, para lançar seu último CD. Um dia antes, disponibilizei um texto em que o assunto principal era a qualidade das letras de suas composições.
No site do UOL foram postados alguns vídeos. Veja Tres Millones de Latidos, a música que abre o CD Amar la Trama. Por esse link é possível assistir a alguns outros números.
No site do UOL foram postados alguns vídeos. Veja Tres Millones de Latidos, a música que abre o CD Amar la Trama. Por esse link é possível assistir a alguns outros números.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
A desconstrução de Jacky Terrasson
No fim da década de 1980 e início dos 90 surgiu uma geração de pianistas muito bons como não acontecia há tempos. Keith Jarrett reinou absoluto a partir de meados da década de 1970, não apenas por sua habilidade, mas muito pela versatilidade com que enfrentou desafios como o de apresentar números inteiramente improvisados – e de longa duração –, tocar peças eruditas como intérprete clássico mesmo, (Scarlatti, Bach e Shostakovich), gravar discos tocando órgão e compor peças “espiritualmente” ligadas a Gurjieff, além de atuar no terreno mais jazzístico com seus companheiros americanos Charlie Haden, Dewey Redman e Paulo Motian.
Jarrett ficou quase dez anos sem gravar nem apresentar-se em público devido à Síndrome de Fadiga Crônica que o acometeu. Pode ser coincidência, mas nesse hiato surgiu nova geração de pianistas. Havia também uma onda de retorno ao jazz acústico, depois da “onda elétrica” iniciada por Miles Davis e continuada por seus sucessores Herbie Hancock, Chick Corea e Joe Zawinul. De todos, o que mais se destacou foi Brad Mehldau, mas ficavam conhecidos Cyrus Chestnut, Geoff Keezer, Benny Green, Bill Charlap e Jack Terrasson. Esse último, em CD lançado com seu nome como título, em 1990, por um dos selos mais prestigiados do jazz, o Blue Note, causou também ótima espécie. Aparentemente, sua carreira deu uma estagnada: na última eleição dos melhores pianistas do ano, pela revista Downbeat, nem consta entre os dez, nem na categoria “Rising Star”. Nesse album de estreia, no entanto, na primeira faixa já impressiona. Toca um I Love Paris bem diferente e inovador. Começa com uma marcação vigorosa da bateria e o piano vai “construindo” o tema da música. Depois de um tempinho a reconhecemos. Tem um belo My Funny Valentine também.
Esse pianista nascido na Alemanha, de mãe americana e pai francês, mudou-se criança para a França e, mais tarde passou a morar nos EUA, estudou na Berklee School of Music, tocou com a cantora Betty Carter e dividiu créditos com Cassandra Wilson em um álbum da Blue Note, o que não é nada mal como background. Mas deixa a impressão que começou muito bem e não soube “segurar a peteca”. Depois de anos sem ouvi-lo, adquiri o CD Mirror, de 2007. Gostei. É um disco solo e Jacky mostra que não desaprendeu. Pode não fazer o gosto de todos, por exemplo, sua interpretação “barulhenta” de Cherokee, nem seus ataques iniciais em Caravan, de Duke Ellington – com direito a “cacos” de Thelonius Monk –, mas nelas demonstra ótima técnica. Ouçam um tema mais “normal”, o clássico de Carole King, mais conhecida na voz de James Taylor – You’ve Got a Friend:
Jarrett ficou quase dez anos sem gravar nem apresentar-se em público devido à Síndrome de Fadiga Crônica que o acometeu. Pode ser coincidência, mas nesse hiato surgiu nova geração de pianistas. Havia também uma onda de retorno ao jazz acústico, depois da “onda elétrica” iniciada por Miles Davis e continuada por seus sucessores Herbie Hancock, Chick Corea e Joe Zawinul. De todos, o que mais se destacou foi Brad Mehldau, mas ficavam conhecidos Cyrus Chestnut, Geoff Keezer, Benny Green, Bill Charlap e Jack Terrasson. Esse último, em CD lançado com seu nome como título, em 1990, por um dos selos mais prestigiados do jazz, o Blue Note, causou também ótima espécie. Aparentemente, sua carreira deu uma estagnada: na última eleição dos melhores pianistas do ano, pela revista Downbeat, nem consta entre os dez, nem na categoria “Rising Star”. Nesse album de estreia, no entanto, na primeira faixa já impressiona. Toca um I Love Paris bem diferente e inovador. Começa com uma marcação vigorosa da bateria e o piano vai “construindo” o tema da música. Depois de um tempinho a reconhecemos. Tem um belo My Funny Valentine também.
Esse pianista nascido na Alemanha, de mãe americana e pai francês, mudou-se criança para a França e, mais tarde passou a morar nos EUA, estudou na Berklee School of Music, tocou com a cantora Betty Carter e dividiu créditos com Cassandra Wilson em um álbum da Blue Note, o que não é nada mal como background. Mas deixa a impressão que começou muito bem e não soube “segurar a peteca”. Depois de anos sem ouvi-lo, adquiri o CD Mirror, de 2007. Gostei. É um disco solo e Jacky mostra que não desaprendeu. Pode não fazer o gosto de todos, por exemplo, sua interpretação “barulhenta” de Cherokee, nem seus ataques iniciais em Caravan, de Duke Ellington – com direito a “cacos” de Thelonius Monk –, mas nelas demonstra ótima técnica. Ouçam um tema mais “normal”, o clássico de Carole King, mais conhecida na voz de James Taylor – You’ve Got a Friend:
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Black & White: Louis Armstrong e Jack Teagarden
Louis Armstrong é o jazz. Muitos podem não concordar e eleger Charlie Parker, Miles Davis, Dizzie Gillespie, Sidney Bechet ou qualquer outro músico. Armstrong não viveu 70 anos mas, desde o início do século, foi agente de várias transformações, se não “revolucionárias” como o free jazz de Ornette Coleman ou o bebop, diria que foram “silenciosas” com seu sopro “incendiário” e vibrante, num sentido em que não se constituíram em rupturas radicais e sim, de mudanças evolutivas.
Filho de prostituta, um mal handicap para o futuro (a passagem pelo reformatório por ter dado um tiro para o ar no Ano-Novo, quando tinha 12 anos), seu talento explosivo se anunciou por si. Tocou na banda de “King” Oliver e na de Fletcher Henderson. Foi capital sua união musical/matrimonial com Lil Harding , pianista e compositora. Ela teve aprendizado formal no piano e chegou a frequentar a Fisk University cursando música. Foi importante para o aperfeiçoamento do cornetista e trumpetista, instando-o a tocar um pouco de música clássica, e a se desligar de “King Oliver”, que o pagava mal. Lil e o marido formaram, na década de 1920, o Hot Five e Hot Seven. A banda era constituída pelo grande clarinetista Johnny Dodds, o trombonista Kid Ory e o banjo de Johnny St. Cyr.
As gravações dos Hot’s são clássicas. Tocou posteriormente com o pianista Earl “Fatha” Hines, já separado de Lil, e na década de 1940 montou o Louis Armstrong Jazz Stars. Personalidade carismática, foi convidado para atuar em alguns filmes de Holywood e, a essa altura, era figura de proa na cena musical. Trumpetista de primeira, foi um grande cantor e deixou registrada a sua marca com a voz rascante, “malandra”, cheia de bossa, alternada por scats maravilhosos.
Pode até ser que tal popularidade tenha eclipsado um pouco sua importância na história do jazz. Até críticos conceituados minoram a contribuição de Armstrong, acho que, por preconceito à figura e a popularidade que alcançou. Louis pode ser considerado o pai – e mãe – dos cantores, influenciando desde os antigos até gerações posteriores. Ficou tão conhecido e alcançou vendagens milionárias com Hello Dolly, em plena época de Beatles, Rolling Stones e cia. Seu What a Wonderful World é mundialmente conhecido e utilizado à exaustão em trilhas sonoras e propaganda. É certo que os brancos americanos venderam uma imagem de Armstrong muitas vezes, caricata e até a de um negro alienado de sua condição racial, o que é mentira, pois ele, nascido pobre, filho de prostituta e pai que sumiu, tutorado por uma bondosa família judia, preso aos 12 anos e proibido de frequentar certos lugares tinha consciência muito bem de quem era. Contribuiu para organizações de direitos civis e para a fundação de Martin Luther King, Jr. Fez isso sem alarde. Não precisava. Satchmo, como era também conhecido, excursionou pela África, Europa e Ásia sob os auspícios do Departamento de Estado Americano e foi criticado por isso. Não foi o único e, convenhamos, esse programa, claro, era uma forma de propagação cultural do que tinham de mais forte, a música. Os brasileiros tiveram a chance de conhecer muitos músicos de jazz dessa forma. Quem imaginaria que algum empresário fosse convidar, por exemplo, a cantora Chris Connor para se apresentar em terras nativas?
Em um dos primeiros discos que ouvi de Armstrong, ainda na era dos LPs, fiquei encantado com algumas faixas em que cantava com o trombonista Jack Teagarden (era branco, filho de alemães, mas tinha cara de índio). Perdeu-se no tempo. Custou-me localizar alguma gravação dos dois juntos em CD. Descobri que havia o registro das apresentações ao vivo no Town Hall, em Nova York, e no Boston Hall Symphony Hall, de 1947, em edição lançada na Espanha. São dessas apresentações a antológica Rockin’ Chair, cantada pelos dois. Ouçam-na, e espero que tenham o mesmo prazer que tenho ao ouví-la:
Rockin’ Chair:
Ouçam também St. James Infirmary:
Filho de prostituta, um mal handicap para o futuro (a passagem pelo reformatório por ter dado um tiro para o ar no Ano-Novo, quando tinha 12 anos), seu talento explosivo se anunciou por si. Tocou na banda de “King” Oliver e na de Fletcher Henderson. Foi capital sua união musical/matrimonial com Lil Harding , pianista e compositora. Ela teve aprendizado formal no piano e chegou a frequentar a Fisk University cursando música. Foi importante para o aperfeiçoamento do cornetista e trumpetista, instando-o a tocar um pouco de música clássica, e a se desligar de “King Oliver”, que o pagava mal. Lil e o marido formaram, na década de 1920, o Hot Five e Hot Seven. A banda era constituída pelo grande clarinetista Johnny Dodds, o trombonista Kid Ory e o banjo de Johnny St. Cyr.
As gravações dos Hot’s são clássicas. Tocou posteriormente com o pianista Earl “Fatha” Hines, já separado de Lil, e na década de 1940 montou o Louis Armstrong Jazz Stars. Personalidade carismática, foi convidado para atuar em alguns filmes de Holywood e, a essa altura, era figura de proa na cena musical. Trumpetista de primeira, foi um grande cantor e deixou registrada a sua marca com a voz rascante, “malandra”, cheia de bossa, alternada por scats maravilhosos.
Pode até ser que tal popularidade tenha eclipsado um pouco sua importância na história do jazz. Até críticos conceituados minoram a contribuição de Armstrong, acho que, por preconceito à figura e a popularidade que alcançou. Louis pode ser considerado o pai – e mãe – dos cantores, influenciando desde os antigos até gerações posteriores. Ficou tão conhecido e alcançou vendagens milionárias com Hello Dolly, em plena época de Beatles, Rolling Stones e cia. Seu What a Wonderful World é mundialmente conhecido e utilizado à exaustão em trilhas sonoras e propaganda. É certo que os brancos americanos venderam uma imagem de Armstrong muitas vezes, caricata e até a de um negro alienado de sua condição racial, o que é mentira, pois ele, nascido pobre, filho de prostituta e pai que sumiu, tutorado por uma bondosa família judia, preso aos 12 anos e proibido de frequentar certos lugares tinha consciência muito bem de quem era. Contribuiu para organizações de direitos civis e para a fundação de Martin Luther King, Jr. Fez isso sem alarde. Não precisava. Satchmo, como era também conhecido, excursionou pela África, Europa e Ásia sob os auspícios do Departamento de Estado Americano e foi criticado por isso. Não foi o único e, convenhamos, esse programa, claro, era uma forma de propagação cultural do que tinham de mais forte, a música. Os brasileiros tiveram a chance de conhecer muitos músicos de jazz dessa forma. Quem imaginaria que algum empresário fosse convidar, por exemplo, a cantora Chris Connor para se apresentar em terras nativas?
Em um dos primeiros discos que ouvi de Armstrong, ainda na era dos LPs, fiquei encantado com algumas faixas em que cantava com o trombonista Jack Teagarden (era branco, filho de alemães, mas tinha cara de índio). Perdeu-se no tempo. Custou-me localizar alguma gravação dos dois juntos em CD. Descobri que havia o registro das apresentações ao vivo no Town Hall, em Nova York, e no Boston Hall Symphony Hall, de 1947, em edição lançada na Espanha. São dessas apresentações a antológica Rockin’ Chair, cantada pelos dois. Ouçam-na, e espero que tenham o mesmo prazer que tenho ao ouví-la:
Rockin’ Chair:
Ouçam também St. James Infirmary:
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