quarta-feira, 28 de julho de 2010

A desconstrução de Jacky Terrasson

No fim da década de 1980 e início dos 90 surgiu uma geração de pianistas muito bons como não acontecia há tempos. Keith Jarrett reinou absoluto a partir de meados da década de 1970, não apenas por sua habilidade, mas muito pela versatilidade com que enfrentou desafios como o de apresentar números inteiramente improvisados – e de longa duração –, tocar peças eruditas como intérprete clássico mesmo, (Scarlatti, Bach e Shostakovich), gravar discos tocando órgão e compor peças “espiritualmente” ligadas a Gurjieff, além de atuar no terreno mais jazzístico com seus companheiros americanos Charlie Haden, Dewey Redman e Paulo Motian.

Jarrett ficou quase dez anos sem gravar nem apresentar-se em público devido à Síndrome de Fadiga Crônica que o acometeu. Pode ser coincidência, mas nesse hiato surgiu nova geração de pianistas. Havia também uma onda de retorno ao jazz acústico, depois da “onda elétrica” iniciada por Miles Davis e continuada por seus sucessores Herbie Hancock, Chick Corea e Joe Zawinul. De todos, o que mais se destacou foi Brad Mehldau, mas ficavam conhecidos Cyrus Chestnut, Geoff Keezer, Benny Green, Bill Charlap e Jack Terrasson. Esse último, em CD lançado com seu nome como título, em 1990, por um dos selos mais prestigiados do jazz, o Blue Note, causou também ótima espécie. Aparentemente, sua carreira deu uma estagnada: na última eleição dos melhores pianistas do ano, pela revista Downbeat, nem consta entre os dez, nem na categoria “Rising Star”. Nesse album de estreia, no entanto, na primeira faixa já impressiona. Toca um I Love Paris bem diferente e inovador. Começa com uma marcação vigorosa da bateria e o piano vai “construindo” o tema da música. Depois de um tempinho a reconhecemos. Tem um belo My Funny Valentine também.

Esse pianista nascido na Alemanha, de mãe americana e pai francês, mudou-se criança para a França e, mais tarde passou a morar nos EUA, estudou na Berklee School of Music, tocou com a cantora Betty Carter e dividiu créditos com Cassandra Wilson em um álbum da Blue Note, o que não é nada mal como background. Mas deixa a impressão que começou muito bem e não soube “segurar a peteca”. Depois de anos sem ouvi-lo, adquiri o CD Mirror, de 2007. Gostei. É um disco solo e Jacky mostra que não desaprendeu. Pode não fazer o gosto de todos, por exemplo, sua interpretação “barulhenta” de Cherokee, nem seus ataques iniciais em Caravan, de Duke Ellington – com direito a “cacos” de Thelonius Monk –, mas nelas demonstra ótima técnica. Ouçam um tema mais “normal”, o clássico de Carole King, mais conhecida na voz de James Taylor – You’ve Got a Friend:


2 comentários:

  1. Guen,
    Talvez vc se lembre de mim. Estudamos juntos no Paiva. Ouvindo "You've got a friend" me lembrou tanto aquela época deliciosa...E, que arranjo lindo deste pianista que, na verdade não conhecia.
    beijoss
    Marília

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  2. Marilia, claro que me lembro de você. Por onde você anda? A gente tem se encontrado esporadicamente. Venha no próximo. bjs Guen

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