Escrevi mais de uma vez, mas serve de introdução para o acordeão. Minha lembrança mais vívida é a de uma senhora que costumava tocá-lo em tardes domingueiras da minha infância em Passos, MG. Associei definitivamente a uma certa melancolia.
A outra associação, mais uma vez me repito, é a do acordeonista cego em um filme de Federico Fellini. Lembro agora do acordeão em algum filme de Emir Kusturica, quando ainda a Iugoslávia existia. Ao fazer um esforço de memória, lembro tambémde Kiki de Montparnasse ao lado de um acordeonista, em foto de Brassaï, um dos que melhor retratou a vida noturna de Paris dos anos 1930.
Lembrei-me de Kusturica por causa de Mario Batkovic. Achei que era um sobrenome de origem dos Balcãs. Correto, mas em seu site (http://www.batkovic.com) nem é dito que nasceu na Bósnia. Apenas que mora na Suiça e que estudou na HochschulefürMusik and Theatre in Hannover, Alemanha, e aprendeu a tocar acordeão com o prof. Elspeth Moser, e graduou-se como “mestre das artes de improvisação em música de câmara”, na MusikAkademie of Basel.
Graças ao amigo Matias José Ribeiro, meu guru, que tem me apresentado músicos que nunca tinha ouvido falar, conheci Mario Batkovic. Não faz muito tempo, mas desde então, ouço e fico fascinado com a sua música.
A primeira associação possível é com a música de Steve Reich e de Philip Glass. Batkovic, depois do aprendizado formal em uma escola, passou a explorar o instrumento até o limite de suas possibilidades, produzindo graves impressionantes, percutindo nos botões e teclas, construindo melodias sobre ostinatos hipnotizantes, que formam a base sonora. Nesse sentido, no desenvolvimento de variações sobre a repetição, assemelha-se um pouco, principalmente, com o autor de “Tehilim” e “Music for 18 Instruments”.
O acordeão, como escrevi em “O sublime e o inusitado com Richard Galliano e Thierry Escaich”, é, grosseiramente falando, um “órgão de bolso”, pois segue o mesmo princípio da passagem de ar para a geração do som, com a diferença de que tem que ser gerado pelo próprio músico mecanicamente. O órgão foi inventado para ser o instrumento dos instrumentos. É a origem dos sintetizadores, que emulam qualquer outro instrumento. O acordeão, como parente próximo, almeja essa completude. Batkovic é O acordeonista, com “O” maísculo, porque explora essas possibilidades, além, é claro, de construir sonoridades belas, tensas e sublimes.
Depois de tanto ouvir música nessa vida, o que você mais quer? Algo que te surpreenda, como quando você ainda era um adolescente? Ao acabar de ouvir “Aria”, diante do inusitado e da beleza, acho que ainda há espaço para boas surpresas.
Galliano é bem conhecido no universo do jazz, tido o melhor acordeonista da atualidade. Parente do bandoneon e mais difundido, não é popular como o piano ou a guitarra. Os que assistiram Federico Fellini devem lembrar-se do acordeonista cego em “Amarcord”.
Lembro bem de uma senhora que sempre tocava acordeão depois dos almoços dominicais que aconteciam em ranchos – em Minas Gerais, pelo menos, assim eram chamadas as chácaras –, fazendas ou casas com quintais enormes. Era um costume bem interiorano e comum em Minas e em São Paulo. São as duas coisas que me fazem lembrar do acordeão: Fellini e almoços dominicais. E também por isso, associo-o a um estado de melancolia, pois não eram reuniões muito aprazíveis para mim, pelo menos.
Depois que mudei-me para São Paulo conheci o “outro lado” do acordeão. Muito popular no Nordeste, por meio dele, executava-se música para dançar em salões de forró e baião. Nomes populares como o de Luiz Gonzaga e Dominguinhos me fizeram ver que a tal da sanfona – mais popular com esse nome – podia ser um instrumento “para cima”, apesar de “Assum Preto” (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira) ou “Lamento Sertanejo” (Dominguinhos, Anastácia).
Semelhanças
O órgão tradicional, considerado o rei dos instrumentos, pela capacidade de gerar uma variedade impressionante de sonoridades, é uma das invenções mais antigas. Associamos à música de igreja. Tanto é que os mais completos e de qualidade são os de locais de culto, católicos, em geral. Por suas dimensões, necessita de espaços grandes como catedrais ou salas de espetáculos. Surgiu depois o órgão elétrico, hoje usados em igrejas e em cultos evangélicos. O Hammond, a mais conhecida o melhor, é o preferido por músicos de jazz, como Dr. Lonnie Smith, Jimmy Smith, Larry Goldings e Joey DeFrancesco. Antes de sua invenção, o harmônio foi o instrumento que fez a ponte entre o antigo e o atual. É o instrumento que tem o som mais parecido com a do acordeão e o da harmônica de boca, a popular gaita, e ainda é tocado em algumas igrejas.
O acordeão é uma invenção do século 19, posterior à do harmônio. É capaz de gerar uma gama enorme de sons. Em uma comparação não muito razoável, diria que é a ”versão de bolso” do órgão e do harmônio.
Não lembro de alguém ter tentado anteriormente juntar os dois instrumetos, como fizeram Galliano e Escaich.
Grandiosidade e melancolia
Thierry Escaich não é muito conhecido pois faz parte do universo da música erudita. Além de organista, é compositor. Lançou no ano passado “Baroque Song”, pelo selo Sony Classical. Não compõe apenas para o órgão. No álbum recente, há uma obra para clarineta e orquestra, uma para cordas (“Erinnerung, pour orchestre à cordes”, 2009) e outras duas para orquestra – “Baroque Song” (2007) e “Suite symphonique de «Claude»” (2014).
Richard Galliano é conhecido no universo jazzístico, porém, nos últimos tempos tem se aventurado pelo “crossover”. Gravou pela Deutsche Grammophon álbuns dedicados a Bach, Mozart e Vivaldi e um quarto ao italiano Nino Rota, autor de muitas trilhas de cinema. O genial de Galliano é não apenas ser um grande instrumentista. Os arranjos nesses discos, em sua grande maioria, são de sua autoria. Faz mágica com um quarteto de cordas e ele a tocar o acordeão ou os seus parentes, a accordina e o bandoneon.
“Aria” não tinha como não ser considerado crossover. Mas essa classificação será sempre dúbia. Nela estão incluídos trabalhos dos “pops” Sting, Paul McCartney e, em sentido inverso, dos eruditos Anne Sofie von Otter, Gidon Kremer e uma infinidade de músicos. É genérico demais. Porém, está combinado: é crossover porque mistura o erudito com o popular. Há obras como “Siciliano” (Bach), “La Folia” (Arcangelo Corelli), “Adagio”, do “Concerto para oboé” (Alessandro Marcello), “Slovanské Tance” (Dvórak) e “Vocalise” (Rachmaninov), assim como composições dos dois, e duas de Astor Piazzolla (“Oblivion” e “Tanti Anni Prima”).
Impressionante a riqueza cromática na combinação dos dois instrumentos. Ouça o clássico “Caruso”, de Lucio Dalla. O órgão utilizado para as gravações foi a da Igreja Francesa de Berna. Construída em 1726, foi reformada em 1991, e totalmente concluída em 2012. Confira.
Publico pelo YouTube apenas para divulgação e não ganho dinheiro com o meu canal. Mesmo assim, fui notificado por infringir a lei de direitos autorais e posso ser suspenso. Ouça “Caruso”, antes que o retirem. Publico a seguir apenas os que já estão disponíveis.
Veja Galliano e Escaich na Igreja Saint-Etienne-du-Monde, Paris.
Comentei antes sobre o álbum de Richard Galliano com a música de Johann Sebastian Bach, lançado pela Deutsche Grammophon, em 2010. Deve ter feito sucesso, pois o francês ataca novamente o repertório do período barroco. O compositor da vez é Vivaldi. É um autor mais popular que o alemão. Até o cara da esquina conhece o veneziano. Quem nunca ouviu, mesmo inadvertidamente as Quatro Estações, ou melhor, Il cimento dell'armonia e dell'inventione. Os quatro concertos são parte de um conjunto de oito.
O acordeon não é usado (nunca diga “nunca”, pois sempre existe algum exemplo) na música erudita. É um instrumento essencialmente popular, pelo que parece, fadado ao desaparecimento. Hoje, existem poucas fábricas. O bandoneón, uma variação, tão popularizada por Astor Piazzolla, é quase exclusivo da Argentina. Como acontece com o acordeon, poucas são as fábricas que o produzem. Li em algum lugar que na Argentina estão disponíveis apenas recondicionados. No Brasil, como disse, é até popular. É forte na tradição nordestina o acordeão e suas variantes, assim como no Rio Grande do Sul.
O acordeon um instrumento quase completo, com muitos recursos. É uma pequena orquestra. Mal comparando, há um certo parentesco com o órgão tradicional. Aos pedais, que produzem os sons graves, no acordeon, a botoneira faz o mesmo.
O primeiro álbum de Richard Galliano pela Deutsche Grammophon foi dedicado a Bach, comentado na publicação passada. No próximo, o escolhido foi Nino Rota, autor de trilhas de filmes de Federico Fellini, Francis Ford Coppola, Luchino Visconti e Franco Zefirelli.
Pode ser uma surpresa ouvir Galliano substituir os solos de violino pelos do acordeon, combinando com a seção de cordas. Em muitos momentos poderíamos jurar que Vivaldi poderia ter composto As Quatro Estações nesse formato.
Completando o álbum, foram escolhidos temas das óperas Arsildo Regina di Ponto e Il Giustino. Evidentemente, são menos conhecidas, no entanto belas. Ouça uma delas: Il Giustino - 'Vedro con mio diletto' (Larghetto).
E, claro, não poderia faltar as “estações”. Confira.
Em alguns almoços domingueiros da minha infância na cidade de Passos, Minas Gerais, uma senhora um tanto gorda pegava seu acordeon e ficava tocando após as refeições. Uma coisa ficou marcada: era um instrumento para pessoas de grande porte.
Quando assisti a um filme de Federico Fellini – não lembro qual foi – uma cena trouxe-me à lembrança a senhora do acordeon. No dia em que peguei um na mão na casa de um amigo de ginásio, percebi que era pesado mesmo. Não era preciso ser grande para tocá-lo, mas era necessário físico para aguentá-lo por um período grande de tempo pendurado por duas alças presas aos ombros.
Não é o instrumento mais popular no jazz, mas alguns nomes se destacam. Um deles é Joe Mooney, organista e acordeonista muito admirado por aqueles que gostavam de seu jeito relaxado de cantar e tocar. Você o conhece? Se não, dê uma espiada em http://bit.ly/1ld4MFp. Mais conhecido que ele deve ter sido Art van Damme.
Em compensação, no Brasil é um instrumento popular, com bons acordeonistas, ou sanfoneiros, como gostamos de chamá-los, na música instrumental como na cantada. O maior nome, sem dúvida, é Luiz Gonzaga. O mais conhecido fora daqui foi Sivuca. Outro albino manda bem no acordeon: Hermeto Pascoal. Os outros são Dominguinhos, Toninho Ferragutti e Oswaldinho do Acordeon.
Os maiores destaques internacionais são o italiano Gianni Coscia, parceiro musical frequente de Gianluigi Trovesi, e o francês de descendência italiana, Richard Galliano, o mais conhecido. O que ele toca não pode ser chamado especificamente de jazz. Cabe melhor o termo música instrumental, apesar de ter participado de gravações com Gary Burton, Paolo Fresu, Jan Lundgren, Michel Portal, Eddy Louiss e Ron Carter. Nos últimos anos, enveredou por um gênero híbrido, entre o erudito e o popular gravando discos com a obra de Vivaldi e Bach, para a Deutsche Grammophon. Abstraindo-se de que é uma das formas de se ampliar o espectro do erudito, coisa que a gravadora alemã tem feito com Elvis Costello, Sting e outros nomes conhecidos, o que se pode dizer é que alguns produtos são bem interessantes. Os de Galliano entram nessa classificação. Hoje, especificamente, trato de Galliano Bach (DG 2010).
Algumas obras de Johann Sebastian Bach são bem conhecidas até pelo leigo em música erudita. Afinal, tanto ele como a Deutsche querem vender. A vantagem é que almejam isso apresentando-nos música de qualidade. A primeira faixa é Badinerie, da Suite Orquestral no.2. Brilhante abertura.
Ouça.
Outra obra conhecidíssima de Bach é a Ária da Suíte em Ré, da Suite Orquestral no.3. Ouça.
Garanto que você conhece. E também essa: Largo, do Concerto para Cravo e Cordas, BWV 1056. Ouça.
Para arrematar, o Prelúdio da 1a. Suite de Violoncelo.
Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.
Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.
O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.
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Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.
Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.
Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton
Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional". Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.
Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.
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Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?
Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.
No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.
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