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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Opções geniais para se ouvir Nature Boy

ahbez é o barbudo
Três registros novos que relaciono são interessantes de serem vistos/ouvidos. Uma delas abre o filme Moulin Rouge, de Baz Luhrman, que junto com Chicago, de Rob Marshall são os dois melhores musicais da década passada. Esta versão de David Bowie é muito boa, como a maioria das coisas que faz, imprimindo sempre a sua marca. A outra, bem diferente – não vou dizer por quê –, que não existe em CD, é a de Jamie Cullum. Imperdível. A terceira é de uma cantora muito boa, que merece ser “buscada” na Internet para quem não a conhece: Lizz Wright. Existe uma versão no YouTube que deve ser vista.

Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum Straight Life e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em Blue Moods, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.

Ouça a de Miles.




A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.




Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.

Ouça.




A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.




Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.


Bela versão de Bowie:



A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.




Finalmente, Jamie Cullum.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Lizz Wright em estado de graça

A graça de Lizz Wright
Ao contrário de Dee Dee Bridgewater, comentado (leia o post anterior), ao dizer que ser uma “jazz singer” era algo com que sempre sonhara, Lizz Wright, em entrevista à Downbeat (jan, 2017), disse que não se sente confortável em ser classificada como uma cantora de jazz. Afirma que suas influências vêm da música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues, folk, o gospel e o pop contemporâneo.

Curiosamente, Wright afirma que “Grace”, álbum mais recente, lançado agora no dia 15, é uma volta às raízes. No caso de Bridgewater, o retorno se faz por meio de um repertório aparentado ao que ouvia na adolescência na sua estação favorita de rádio, a única que transmitia exclusivamente música afro-americana.

Lizz é bem mais nova que Bridgewater. São quase 30 anos de diferença. Nem tão norte nem tanto ao sul, a referência é a de onde vem. Georgia é um dos estados em que a cultura afro americana foi e continua bem presente, assim como a religiosidade. Lizz é filha de pastor e também diretor musical de sua paróquia. Não é muito diferente do figurino que conhecemos. Lizz saiu da Georgia mas não foi muito longe: divide a morada entre Chicago e Great Smoky Mountains, na Carolina do Norte, onde comprou um terreno de 28 acres, e passa os seus momentos de descanso.

Na música também nunca esteve distante de suas raízes sulistas. Portanto, não é exatamente uma retorno a elas, como afirma. Agora, se considerarmos como um retorno à cultura e sua história, sim, mas no fundo, até nisso, permaneceu fiel a ela.

Desde sua estreia, com “Salt”, em 2003, apesar de lançada pelo selo Verve, não se pode dizer que era um disco de jazz. Fora standards como “Afro Blue”, de Mongo Santamaria, cuja versão mais conhecida e espetacular é a de John Coltrane, e “Goodbye”, de Gordon Jenkins, as restantes, quase todas composições de sua autoria, possuem características que não podem ser classificadas como tal. Os músicos participantes, sim; são desse universo: John Cowherd, Chris Potter, Danilo Perez, Brian Blade e outros mais.

Em “Dreaming Wide Awake”, que inclui as belas “A Taste of Honey”, de Bobby Scott, “Get Together”, de Chet Powers, aquela que os cinquentões conhecem com os Youngbloods, e “Old Man”, de Neil Young, apesar de Scott ter sido um pianista e cantor ligado ao jazz, podem ser classificadas no termo mais genérico de “músicas clássicas do cancioneiro americano”.

Foram quase cinco anos entre “Fellowship” e “Freedom and Surrender”. Foi primeiro na casa nova, a Concord Jazz. Pelo título do mais recente, “Grace”, a primeira suposição é o de que há uma relação entre os dois, pois são duas expressões que nos levam a pensar em redenção, ou algo parecido, que nos remete à religião.

O canto de Wright é universal. Poderia vir do Amapá ou de Cochabamba. Esse é um dom que Deus dá a poucos. Desde “Salt” (Verve), sua estreia em discos, em 2003, sucesso instantâneo, alçado ao segundo mais vendido no chart da Billboard Top Contemporary Jazz, mantém uma linha coerente e fugindo de qualquer rótulo. Há uma evolução, ou construção, de uma linguagem que a torna reconhecível em qualquer música que cante, seja ela de Bob Dylan ou kd lang, presentes no mais recente lançamento.

Grace
“Barley”, de Allison Russell, abre o disco. O ritmo marcante, o violão “beliscado”, árido, e a voz de Lizz cantam paisagens rurais. A segunda é “Seems I’m Never Tired Lovin’ You”, conhecida pela interpretação de Nina Simone. Desde o início, ela nos captura com sua voz cálida e elegantemente sensual em uma espiral emocional que, aos poucos vai nos envolvendo até ficarmos a querer mais e mais.

Ouça “Barley”.



É apenas o começo. “Seems I’m Never Tired Lovin’ You” é um petardo. Veja e ouça nessa apresentação.




Uma coisa que contribui para caracterizar como um álbum em que revisa suas raízes é o recurso estilístico do uso do órgão, massivamente presente nos cultos religiosos, e aqueles coros irresistíveis. Está presente na canção título, de Rose Cousins. Ouça.



Com apenas 37 anos, Wright, em seus cinco álbuns, amealhou apenas elogios da crítica e conquistou milhões de ouvintes. Desde “Salt”, sua estreia, parecia uma cantora pronta. Neste disco, quis, como afirmou para a matéria de Giovanni Russonello, do New York Times, “capturar a delicadeza do Sul e de onde eu vim e a minha experiência disso.” O sul é um lugar que tem “uma cultura e história incríveis, que se baseia em você cultivar a sua terra e importar-se um com o outro. Eu venho de uma família que cresceu produzindo o seu próprio sustento nos tempos da escravidão e o das pessoas ao seu redor. Descobri então, por meio das conversas sobre a terra e sobre a casa com meus vizinhos, muitos pontos em comum”, complementa. É uma cultura que procurou preservar com os seus vizinhos de Blue Ridge Mountains. Tanto é que “Grace” é dedicado a sua “next-door neighbor” de 92 anos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Não canso de ouvir o último de Lizz Wright

Depois de um hiato de cinco anos, Lizz Wright retorna com Freedom & Surrender. Nesse período, comprou um terreno de 28 acres à beira das Great Smoky Mountains, um dos parques nacionais americanos mais conhecidos, no estado da Carolina do Norte, e está de gravadora nova. No meio do caminho não faltaram desilusões amorosas. O sofrimento sempre foi um bom caldo para a inspirações artísticas.

Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.

O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.

O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.

Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.

Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?


Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.

O álbum

Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.

Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.




Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.




Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.




Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY


Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE


Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.



terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Um gostinho de mel com os Beatles, Lizz Wright, Tony Bennett e outros

Bobby Scott na capa de seu último disco
Poucos conhecem Bobby Scott. O Alberico Cilento me deu uma cópia de From Eden to Canaan (Sony, 1976). Dono de uma voz forte e grave, lembra um pouco a de Barry White, ou o contrário, já que lhe é anterior. O repertório é relativamente desconhecido, com exceção de Autumn Leaves, Man of Constant Sorrow e New York State of Mind, de Billy Joel. Não tenho maiores referências: sem a ficha técnica e quase nenhuma informação na internet.

Procurando no iTunes, encontrei For Sentimental Reasons (MusicMasters, 1990), tributo a Nat King Cole, lançado no ano em que morreu, vítima de um câncer de pulmão, aos 53 anos. Na capa, Bobby está com um cigarro na boca. Pesquisando um pouco mais, descobri que, além de cantor, tocava piano e compunha. Pessoas mais bem informadas que eu, como o Alberico, o conheciam pelos discos mais jazzísticos que lançara pela Bethlehem, Verve e Mercury.

Bobby Scott, considerado músico prodígio, começou a estudar composição com oito anos e com onze  passou a se apresentar profissionalmente. Com 15, estava tocando com Louis Prima. Gravou vários discos com participações de músicos como Charlie Mariano, Tom Scott, Gene Krupa, Eddie Bert, Hal McKusick e Milt Hinton, como pianista, compositor e arranjador. No início dos anos 1960, começou a trabalhar com Quincy Jones, afastando-se um pouco do jazz. Foi nessa época que compôs A Taste of Honey. Outro hit de sua autoria é He Ain't Heavy He's My Brother, composto com Bob Russell. A versão mais conhecida é com The Hollies.

Ouça He Ain't Heavy He's My Brother.


Nem lembrava de A Taste of Honey; até ouvir a primeira do álbum Dreaming Wide Awake (2005), de Lizz Wright. Primeira do disco: maravilhosa. E que voz! (http://bit.ly/1hxTBns). Conhecia a música. Mas, de onde?… quando? Em um daqueles lampejos randômicos, lembrei-me dos Beatles. Era, no entanto, algo “não muito Beatles”. Estava no primeiro álbum dos garotos de Liverpool: Please Please Me, de 1963. Vejo no encarte do disco de Lizz que é de Ric Marlow e Bobby Scott. Bobby Scott? Aquele mesmo que o Alberico tinha me dado uma cópia em CD?

Gosto de ouvir a mesma canção com músicos diferentes. Gosto de comparar, sentir como cada um “a entende”. Saí na caça e descubro que é um quase standard. E não são “zé-ninguens” os intérpretes: Tony Bennett, Sarah Vaughan, Chet Baker, Julie London e, evidentemente, Os Beatles.

Ouça a dos Beatles, em primeiro lugar.




Ouça a de Lizz Wright.





A de Tony Bennett. Maravilhosa.




A de Sarah Vaughan. Boa, também.




Chet Baker.





A versão mais conhecida de A Taste of Honey, no entanto, é a instrumental de Herb Alpert e The Tijuana Brass. Veja.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A presença do Senhor na vida de Eric Clapton

O reencontro de Clapton e Winwood, em 2010
Um dia, em um muro, próximo a uma estação de metrô londrina, surgiu grafitada a frase “Clapton is God”.

Com menos de vinte anos, Eric Clapton foi membro de uma das bandas seminais do rock britânico, o Yardbirds. Para se ter uma ideia da importância histórica dela, basta dizer que por ela passaram, além de Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck. Pouco depois, em 1965, foi ser guitarrista da John Mayall & The Bluesbreakers. O blues era, e é, a paixão primeira dele. A pichação é dessa época.

O próximo passo foi criar o primeiro “power trio” da história, o Cream: ele, Jack Bruce no baixo e Ginger Baker na bateria. Egos inflados ou incompatibilidade de gênios mesmo, resultou em vida breve e alguns clássicos como Sunshine of Your Love e White Room.

Na cena efervescente da capital britânica surgiu, como que do nada, um alienígena. Subitamente, um guitarrista americano que se apresentava em um clube transformou-se no “talk of the town”. Daí para a frente, todos os guitarristas poderiam almejar a ser, no máximo, o “segundo melhor do mundo”. Em vez de inveja, Clapton curvou-se ao talento inconteste de Jimi Hendrix. Pete Townshend, do The Who, pelo contrário: ficou fulo com aquele negro que, além de exímio em seu instrumento, era carismático e produzia aquele som todo sem caras e bocas, contorcionismos espetaculares e(ou) esgares faciais e corporais. Executava solos dos mais intrincados com a maior naturalidade, enquanto mascava chicletes, com um cigarro aceso preso na cabeça da guitarra.

As atuações surpreendentes de Hendrix deixavam Townshend mordido. Ficava planejando algo mais espetacular ainda. Pete era (com a idade, menos) o guitarrista das performances teatralizadas, pulando como um sapo nos palcos, girando os braços em movimentos circulares, como os da hélice de um heiicóptero, quebrando guitarras, jogando-as contra os amplificadores Vox. No Festival da Ilha de Wight, se não me engano, Pete fez o diabo, achando que Hendrix não poderia fazer algo mais absurdo. Enganou-se: Jimi jogou álcool na guitarra e botou fogo. Hendrix morreu cedo, é impossível saber o que teria feito a mais. Clapton sobreviveu às loucuras da época e está entre nós até hoje, e bem. É um milagre. Se milagre é coisa de Deus, Clapton deve ter uma dívida com Ele.

Depois do Cream, fez parte de outro supergrupo. Com ele, lá estava seu antigo companheiro do glorioso power trio. Com Ginger Baker na bateria, completavam a banda o baixista Rick Grech e Steve Winwood. Seguindo a sina dessas formações, o Blind Faith teve vida mais curta ainda. O produtor era Jimmy Miller (trabalhou com os Rolling Stones também) e, quando foi lançado, causou celeuma por motivos extramusicais. A capa era para escandalizar: uma menina, que não aparentava ter mais do que 13 anos, com os seios à mostra, ainda em formação, segura algo como um objeto (meio fálico) feito de metal, parecido com um avião. Em 1969, Clapton não ousava cantar ainda. No Cream, os vocais principais eram de Jack Bruce, e no Blind Faith, de Steve Winwood, um talento também no piano, no Hammond B-3 e na guitarra. Precoce, entrou na Spencer Davis Group com 14 anos; e mostrava seus dotes como compositor: é coautor de Gimme Some Lovin’, sucesso que chegou ao segundo lugar nas paradas, em 1966. Em 1967, formou com Jim Capaldi, Chris Wood e Dave Mason, uma das melhores bandas britânicas de todos os tempos, o Traffic.

Das seis músicas do álbum do Blind Faith, Winwood era autor de três. A única composta por Clapton se chamava Presence of the Lord. Curioso, não? Em 1965, Eric era “Deus”. Quatro anos depois compõe uma canção que trata do Senhor. Um amigo disse uma vez que as pessoas tendem a procurar Deus ou a religião depois de um revés amoroso ou financeiro. Citou o caso de um primo dele que, depois de falir entrou para uma igreja e mais tarde tornou-se pastor. Lucrou: ficou rico com seu novo mister graças ao bom Deus.

Por quais razões Clapton teria composto uma música com esse título e que, na letra, diz que encontrou “por fim um lugar onde viver/ Como nunca antes tinha conhecido”, e completa: “Sei que não tenho muito para dar/ Mas não tardarei a abrir seja que porta for/ […]/ Encontrei por fim um lugar para viver/ Na presença do Senhor.”

Não li a autobiografia de EC. Deve haver alguma referência sobre esse assunto. A minha pergunta é se Deus surge em razão de algum revés. Uma geração inteira de talento chafurdava no álcool e no consumo de drogas pesadas. Fazia parte do espírito da época. Se isso e problemas familiares abalaram Clapton a ponto de ter que se afastar é outra pergunta. Dizem que a morte prematura de Jimi Hendrix o deixou profundamente abalado, também. É um terceiro fator.

A exemplo de muitos, cresceu imaginando que seus avós eram seus pais, quando, na verdade, soube mais tarde, sua irmã mais velha era a sua mãe de fato. É um caso semelhante ao do do ator Jack Nicholson. É um bom prato para a disfuncionalidade emocional. Não deve ter sido fácil para o inglês. Retirou-se da cena musical por uns tempos e retornou por meio da ajuda dos amigos, principalmente de Peter Townshend, com uma apresentação que virou disco: Eric Clapton’s Rainbow Concert, em 1973. Produzido por Glyn Johns, subiu ao palco com um elenco de estrelas. Além de Pete, lá estavam seus amigos Ron Wood, Steve Winwood, Rick Grech, Jim Capaldi, Jimmy Karstein e Rebop. Contratado pela Island Records, de Chris Blackwell, voltou a gravar regularmente. Um dos destaques é, justamente, Presence of the Lord.

No show do Rainbow, como na original, no Blind Faith, é cantada por Steve Winwood.




Uma interpretação muito boa é a de Lizz Wright. Está no álbum Fellowship (Verve, 2010). Se você tiver curiosidade, leia mais sobre Lizz em http://bit.ly/WkImI5 e http://bit.ly/SjW47j.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os “obrigados” de Led Zeppelin, Duran Duran e Lizz Wright

Page à frente; Bonham, Plant e Jones, atrás
Ao escrever sobre Lizz Wright, lembrei-me de Thank You, original de Jimmy Page e Robert Plant. Essa canção é um dos destaques do The Orchard, seu terceiro disco solo.

A Thank You é a quarta faixa de Led Zeppelin II. A banda, desde o início, virou um fenômeno. O primeiro disco é uma coleção de grandes músicas; não tem uma única “média”; todas são ótimas. Não sei quais são as minhas preferidas. You Shook Me? Dazed and Confused? I Can’t Quit You Babe? Communication Breakdown? Talvez, Babe, I’m Gonna Leave You. É um disco com certa predominância do blues.

Alguns meses depois, ainda em 1969, lançaram o segundo. Como no primeiro, o som é pesado. Começa com Whole Lotta Love, “viajante” em distorções de guitarras e vozes. Na época dos LPs, era possível registrar-se por volta de 40 minutos de música, no máximo. Eram gravados nas duas faces do vinil. Nunca inventaram um aparelho tocador de LPs em que era possível a leitura dos dois lados sem interrupção. Quando terminava o lado “A”, tinha-se que tirar o LP e virá-lo para ouvirmos o lado “B”. Thank You era a última do lado A. Funcionava como uma pausa para o que viria a seguir, no lado B: Heartbreaker, Living Lovin’ Maid, Ramble on, Moby Dick, e Bring It on Home. Apenas a última é menos pesada, aliás, começa lenta, com a voz de Plant distorcida, uma forte marcação de baixo, meio blues, com uma harmônica de boca “preguiçosa” e, na metade final, tem um solo pesadíssimo de Page.

Thank You é música lenta do disco. É uma declaração de amor (“Se o sol se recusasse a brilhar/ Ainda estaria amando você/ Quando as montanhas desmoronam rumo ao mar/ Ainda assim haverá você e eu”), é feita de imagens “climáticas” (“Pequenas gotas de chuva, sussurros de dor/ Lágrimas de amor se perdem com o passar dos dias”) e é uma promessa (“E, então hoje, meu mundo sorri/ De mãos dadas, nós caminhamos quilômetros/ Graças a você isso será feito/ Para mim, você é a única”).

Led Zeppelin foi a “banda da vida” de muitos. Era rock pesado, mas nem o som nem a música eram “burras”. Para uma geração que não teve, na adolescência, os Beatles, os Rolling Stones e Bob Dylan como ídolos, tiveram os “instintos” despertados pela banda formada por Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham. Existiam, é certo, nesse pequeno espaço entre eles e a banda de Lennon e Paul McCartney e a de Mick Jagger e Keith Richards, Jimmi Hendrix e Janis Joplin. Os anos anteriores ao surgimento de Led Zeppelin foram ricos. Fora um pouco do contexto mais “rock”, surgia uma espécie de terceira via: o rock progressivo. Mas, essa é uma outra história.

Duran Duran. O que valia era o estilo
Duran Duran. Numa certa altura, o termo “rock” ficou pequeno para classificar a música dita popular. Primeiro que, “pop” havia se tornado uma coisa e “rock”, outra. O rock virou “hard-rock”, glitter-rock”, “glam-rock”, “art-rock”, “punk-rock” “progressive-rock” e outros “roques”. Esse termo ficou insuficiente e surgiram intérpretes e bandas classificados como “new wave” e “new romantic”. O Duran Duran deve ter sido o representante maior dessa coisa chamada “new romantic”.

A espinha dorsal da banda inglesa, surgida em 1978, cujo nome foi inspirado em um personagem do filme Barbarella – Dr. Durand Durand –, segundo o Wikipedia, é formada pelo tecladista Nick Rhodes e pelo baixista John Taylor (começou como guitarrista), e teve como vocalista definitivo o estiloso Simon Le Bon. Durante os anos 1980, a música britânica foi contaminada pela moda e pelo design; a música popular tinha virado “business” total, com astros emergentes como Michael Jackson e Madonna, recebendo milhões de dólares das “majors”.

Um dos ícones do rock britânico, David Bowie, pode ser considerado um dos artífices dessa tendência a valorizar o lado visual. Inventou um personagem andrógino chamada Ziggy Stardust (o primeiro a pintar os olhos e assumir ares andróginos, acho que foi Little Richards, na década de 1950), isso no fim dos anos 1970, bem antes do surgimento do Duran Duran. Sem tantos exageros, sem encarnar outras personas, Mick Jagger e Keith Richards carregaram no rímel e no blush (era a onda glitter) e nos macaquinhos cor de rosa cravados de lantejoulas; até o maldito Lou Reed andou caprichando no visual homossexual – ou bi – usando camisetas justas e bonés de couro, e na vida real, arrumou um namorado travesti (hoje, mais sossegado, está casado com a performer e cantora Laurie Anderson).

O rock virou um negócio mais que musical. Alguns, como Malcolm McLaren, vislumbraram a possibilidade de explorar a imagem dos músicos como celebridades. “Inventou” uma banda extravagante nos EUA – New York Dolls –, que ficaram mais conhecidos por vestirem-se de mulheres em apresentações do que pela música, e, na Inglaterra, seu lance mais certeiro, o Sex Pistols. Não estava só na empreitada: tinha a companhia de sua então namorada, a estilista Vivienne Westwood. Com ela, montara uma loja chamada Let It Rock. O Sex Pistols chegaram para fazer muito barulho. Gravaram uma canção chamada God Save the Queen, tinham um cantor cujo nome artístico era Johnny Rotten (o nome real era John Lydon) e um baixista chamado Syd Vicious que, apesar de saber empunhar um baixo elétrico com classe, era péssimo. McLaren empresariou outras bandas além dos Pistols, sempre explorando algo além da mera música.

De certo modo, Duran Duran faz parte dessa “linha evolutiva”. Com o som calcado na instrumentação eletrônica, são autores de Rio, A View to a Kill, Save a Prayer, Notorious e Hungry Like a Wolf. Vestiam roupas da Armani, namoravam lindas modelos e eram também competentes. Em 1988, quando se apresentaram no Brasil, no Hollywood Rock, confesso que os vi a contragosto: fui como convidado. Para minha surpresa, foi um dos melhores shows a que já assisti. Os caras eram bons de palco. Foi, a partir daí que passei a prestar um pouco mais de atenção neles. Possuo apenas dois álbuns deles: Decade, que é uma coletânea, e um outro de covers, chamado Thank You. Esse, comprei em razão das músicas, uma verdadeira salada misturando The Doors, Led Zeppelin, Bob Dylan, Sly and The Family Stone, Grandmaster Flash, Elvis Costello, um certo James Osterberg (nome real de Iggy Pop), e Lou Reed. É um disco que, até hoje, quando ouço, me dá enorme prazer. As mais agitadas (I Wanna Take You Higher, Success, 911 Is a Joke, do Public Enemy, White Lines) são perfeitas, mas as lentas são superlativas (Perfect Day, Lay Lady Lay, Thank You e Crystal Ship).

Bom, a razão de toda essa tergiversação é para apresentar os três “obrigados” que conheço; a original, a de Duran Duran, e a de Lizz Wright.

O Thank You original:



Com Duran Duran.



Com Lizz Wright.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma nega chamada Lizz Wright

Primeiro, perdoe-me pelo “nega”: é carinhoso (a referência é Jorge Benjor). E, que nega bonita! Minha primeira vez com Lizz Wright aconteceu por causa da amiga Ellen Leite. Sempre generosa, toda vez que viajava para a Europa (duas vezes por ano, no mínimo), trazia uma lembrança, um presente. Dois deles estão na galeria da minha vida: são duas litofanias Bernardaud em porcelanas de Limoges. Explico melhor. Litofanias são desenhos em porcelanas translúcidas “em que os claros e as sombras se obtêm por gradual espessamento da massa.” (a definição está em Novo Dicionário da Língua Portuguesa Universal, Texto Editores, 2007). As peças são em formato circular (veja a imagem ilustrativa; mais fácil assim para entender) e abrigam uma vela que, acesa, realça o desenho e exala deliciosa fragrância).

A litofania Bernardaud, de Limoges
Mas, sabendo do meu gosto pela música, presenteou-me com dezenas de CDs. Pelo fato de ter muitos – muitíssimos, na verdade –, dar discos ou DVDs para mim, é tarefa difícil; se não são lançamentos recentíssimos, a probabilidade de que eu já o tenha é de 99%. Nos últimos tempos, tenho comprado bem menos – música popular, raro; jazz, pouco; música erudita, mais. Apesar de ter cerca de 800 CDs de clássicos, sempre existem lacunas. No meu caso, são os russos, um pouco, por preconceito, que está sendo quebrado – culpa do Armênio Guedes. Têm sido gratas as “descobertas”: Shostakovich, Prokofiev e Rachmaninov. A obra pianística deste último, então, tem tornado minha vida mais prazerosa. Seus Moments Musicaux, na interpretação de Vladimir Ashkenazy, têm sido a coisa que mais ouvi nos últimos seis meses. Paulatinamente, descubro que existem mais russos que apenas Stravinsky e Mussorgsky.

Com tantos discos que tenho, nesses anos todos, a Ellen me surpreendeu com discos que desconhecia. Foi assim com, por exemplo, o grupo português Madredeus. Em uma de suas viagens, em Paris, ouviu a voz de Teresa Salgueiro na loja de Issey Miyake – ou foi na Comme des Garçons? Quase ninguém os conhecia em 1990, quando foi lançado o disco que me trouxe: Existir. Era o segundo lançamento. Se Madredeus não era ainda internacionalmente conhecido, efetivamente, passou a ser depois que Lisbon Story, dirigido pelo alemão Wim Wenders foi lançado. Aparecem em várias ocasiões cantando ou ensaiando. Não é apenas uma participação especial: com Rütiger Vogler, que faz o papel de um engenheiro de som de um filme sobre Lisboa, o Madredeus é coprotagonista.

Além de Existir (me emociona até hoje ouvir No Pomar das Laranjeiras), lembro do primeiro do Gotan Project, desconhecido aqui naquele tempo, e também de Salt, primeiro CD de Lizz Wright. É dela, depois de alguns parágrafos de rodeios e volteios, que quero falar alguma coisa, por sugestão da amiga Marisa Marcondes Leal.
Lizz Wright
Lizz é contratada da Verve Forecast, a mesma que abrigou durante um tempo Toninho Horta. É meio que uma segunda linha (sem que signifique ser inferior) da gravadora Verve, mais direcionada ao jazz. A Forecast abriga um elenco mais crossover, algo com “cheiro” de jazz, porém com fortes pitadas de outros gêneros. No caso de Lizz, percebe-se a força da influência da gospel music (não essa – desculpe – coisa horrorosa dos “crentes” brasileiros) e alguns toques de folk e country americano. Aos primeiros sons de Lizz, nota-se que estamos diante de uma rainha – não da linhagem da britânica Elisabeth ou de alguma herdeira dos Bourbons –, tal a majestade quase impositiva de seu canto. Visualmente, é majestática. Tem presença e lembra, por seu aspecto cool, outra cantora negra: Cassandra Wilson.

Salt, o primeiro, lançado em 2003 tem como um dos produtores Tommy LiPuma, craque que tem em seu cartel Miles Davis, Diana Krall, Natalie Cole, Barbra Streisand e Anita Baker. O disco abre com um clássico de Chick Corea, que teve a brasileira Flora Purim como sua primeira intérprete: Open Your Eyes, You Can Fly. Não tem o calor da de Flora, ritmico e elétrico por conta do belo baixo elétrico de Alphonso Johnson, teclados de George Duke e percussão do marido Airto Moreira. Arranjada por John Cowherd, é ritmada também, com um sabor meio bossa-novista, um Hammond B3 colorindo em econômicas intervenções a voz morna de Wright. A primeira, do repertório do jazz, é o clássico Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr. Aqui, mais uma vez, dá um tratamento mais cool, sem a extroversão latina do original, mas é bem interessante o arranjo de Brian Blade, com o piano de Danilo Perez.

O próximo standard é Goodbye, de Gordon Jenkins. Interessante: os arranjos e a concepção subvertem o original, e por isso, são originais, diferentes. Aqui, o clima de balada se dilui em ritmo mais acelerado; é menos dramático. A próxima – Vocalise/End of the Line – é reflexiva, com lindo solo de violoncelo. Fire, a nona faixa, é um original de Wright, boa canção em que sua chama passeia, preguiçosamente, em volta dos sons de um Hammond B3. Os originais restantes de Wright – Blue Rose e Silence – são bons também. Salt, quando lançado, alcançou a segunda posição no Billboard Top Contemporary Jazz, em 2004. Bom começo.

Lizz passou bem pelo teste da “segunda vez”. Muitos que fazem um grande disco de estreia passam por isso: é a expectativa de fazer algo melhor ou ser a decepção do “sorte de principiante”. Em Dreaming Wide Awake, cabe a Taste of Honey, de Rick Marlow e Bobby Scott, abri-lo; e que abertura! Hit the Ground, com o violão de Chris Bruce e guitarra de Bill Frisell (acho que é dele), é outra bela música. Seu Old Man, de Neil Young, é outro destaque. Começa simples, com violão e pouca instrumentação. Cresce no refrão com brilhante e elegante mistura de violões e guitarras distorcidas e sobreposições de vozes. É a minha preferida. A seguinte, Wake Up, Little Sparrow, de Ella Jenkins, é outro ponto alto. A instrumentação do álbum inteira é sempre sóbria e cada intervenção sonora é realizada na medida certa. Esse é um dos trunfos do disco: combina perfeitamente com a voz contida de Lizz.

Quem conhece Get Together, original de Chet Powers (é de 1964), cantada por uma banda chamada Youngbloods? Esses americanos não fizeram muito sucesso, mas essa música foi o ponto alto de suas carreiras, isso em fins dos anos 1960. Em seu segundo CD, esse clássico é a nona faixa. Compete com Old Man: é uma belíssima interpretação. O disco tem como “bonus track” a bela Narrow Daylight, parceria do casal Elvis Costello/Diana Krall.

The Orchard (2008) é menos jazz que os outros, se é que se pode dizer que há algo de jazz na música de Wright. Certo é que transita numa senda que divisa o pop do jazz, inventada pelo mercado, ou mais especificamente, pelas gravadoras especializadas em jazz e até em música erudita (principalmente a Deutsche Grammophon, que andou lançando discos “crossover” de Sting, Elvis Costello e Cia.). Lizz Wright é, de algum modo, a “opção” da Verve, assim como Norah Jones, Amos Lee, e até Marisa Monte são Blue Note, sua maior concorrente na área do jazz..

No terceiro álbum, não há nenhum standard jazzístico. Várias composições são da lavra de Lizz, em parceria, principalmente com o violonista/guitarrista Toshi Reagon, membro da banda. Exceções mesmo são I Idolize You, de Ike Turner, e Thank You, de Jimmy Page e Robert Plant, do Led Zeppelin. O CD vale por duas baladas matadoras: When I Fall, e Speak Your Heart.

Fellowship, de 2010, é parecido com The Orchard. Talvez seja mais “negro”. O meddley gospel (quinta faixa) é matador. A seguinte, a tradicional Sweeping Through the City é quase uma canção a capella, com Lizz e um backing vocals, não fosse uma discreta percussão. All the Seeds é um vocalise dobrado com participação de Angelique Kidjo. Dura exatos 1:18 minuto: perfeito para abrir Presence of the Lord, clássico de Eric Clapton. O Senhor está onipresente desde a quinta faixa. É uma sequência extraordinária. É quebrada com uma interpretação totalmente original e acústica (violões, percussão e palmas) de In from the Storm, de Jimi Hendrix. Em outra incursão – Oya –, Angelique Kidjo (em All the Seeds divide a autoria também) desvela suas raízes africanas (nasceu no Benin). Nesse disco em que o “Senhor se apresenta”, não poderia faltar Amazing Grace… de arrepiar.



Get Together, com Lizz Wright




Ouça Get Together, com os Youngbloods.




Lizz Wright canta Old Man, de Neil Young