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| Os olhos de Anoushka Shankar |
Nos anos 1960, houve um crescente interesse pela cultura oriental. Mas antes ainda, em 1952, o violinista clássico Yehudi Menuhim foi apresentado a Shankar. Encantado com sua música, convidou-o a apresentar-se com ele na antiga União Soviética. Em 1954, sob patrocínio da Fundação Ford, tocaram em Nova York. Em 1967, finalmente, saiu um registro fonográfico do trabalho deles, pelo selo Angel: “West Meets East”.
Veja os dois no documentário “Raga: A Journey into the Soul of India”
Ainda na década de 1950, a cultura hindu e oriental passou a receber a atenção de alguns intelectuais. Um dos pioneiros foi o inglês Alan Watts, introdutor do Zen nos Estados Unidos. Maharishi Mahesh Yogi divulgou a meditação transcendental na América no fim da mesma década e tornou-se queridinho da burguesia americana. Os Beatles não foram então os pioneiros quando foram à Índia praticar a tal meditação, em 1967, com Maharishi. O interesse deles, no entanto, serviu para que um número maior de pessoas se interessasse pelas culturas ocidentais, inclusive, pela música, como foi o caso de George Harrison, considerado o grande responsável para que o mundo conhecesse Ravi Shankar.
Sua primeira participação em um ambiente “pop” foi no Festival de Monterey. A consagração foi no Festival de Woodstock, em 1969, apesar do discurso chato que antecedeu a sua apresentação. Conquistou uma legião de fãs, admiradores e fez novas amizades. Conheceu a produtora Sue Jones e desse relacionamento, em 1979, nasceu Geethali Norah Jones Shankar. Conviveu pouco com o pai. Mas a música estava no sangue. Poderia ter optado pelo sobrenome do pai, que facilitaria para tornar-se conhecida. Mas não: preferiu o sobrenome da mãe.
De seu outro relacionamento, com Sukanya Rajan, em 1981, nasceu, em Londres, Anoushka Shankar. Com Sukanya acabou casando, em 1990. Assim, Anoushka cresceu perto do pai, que foi seu primeiro professor de cítara, aos sete anos.
Aprendeu bem das lições: tocou em público pela primeira vez quando tinha 13 anos, em Nova Délhi, no show comemorativo dos 75 anos do pai. Em 1998, com apenas 16, assinou um contrato com a prestigiada Angel Records e lançou seu primeiro álbum como líder“Anoushka”. Fez mais três por essa gravadora antes de tornar-se artista exclusiva da Deutshe Grammophon, em 2011. O primeiro foi “Traveller”. É uma brilhante fusão da música indiana com a espanhola. No fundo, é um encontro das sonoridades orientais. O domínio dos muçulmanos sobre a Península Ibérica moldou bastante a cultura espanhola em geral, inclusive a música. Tem participações de músicos de ponta: Javier Limón, Pepe Habichuela, Pedro Ricardo Miño e Concha Buika, dentre outros.
No seguinte – “Traces of You” –, de 2013, pela primeira vez em disco, tem-se o registro das duas irmãs juntas. Norah Jones canta em três faixas. Arrasa em “The Sun Won’t Set”, composição de Anoushka e Nitin Sawhney. “Home” (2015), como o próprio título sugere, é um retorno às origens. “Land of Gold” (2016) é um tanto diferente, quase minimalista. Pode-se até considerar um álbum de Anoushka e Manu Delago em razão de a maioria das faixas serem composições dos dois. Há uma faixa com participação de M.I.A., filha de pais hindus do Sri Lanka, meio chatinha, e outra, “fofinha”, com Alev Lenz, na música título: bela, mas meio bobinha.
“Reflections”, lançado em fevereiro, é uma compilação dos álbuns de Anoushka. É uma boa oportunidade de conferir a qualidade e energia de sua música. É claro que não poderiam faltar as que teve a meia-irmã participando. São “The Sun Won’t Say” e “Traces of You”. A primeira, como foi dito no parágrafo anterior, é um dos destaques. Outra muito boa é “Bulería con Ricardo”, brilhante exemplo da fusão Espanha/Índia, com a presença de seu coautor Pedro Ricardo Miño, Juan Ruiz, Bobote e El Electrico. Outra boa, também de seu álbum de estreia, é “Si No Puedo Verla”, um flamenco típico, cantado por Duquende. O som do cajón combina muito com o da cítara. “Voice of the Moon”, de “Rise”, de sua gravadora anterior, é poética e realmente bela. “Reflections” é uma boa síntese da carreira de Anoushka Shankar. Confira.
