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terça-feira, 28 de julho de 2015

Nina Simone revista e revisitada

Um CD e um documentário na Netflix, lançados neste mês, trazem o nome de Nina Simone à luz da ribalta. O primeiro chama-se Nina Revisited, e o segundo, What Happened, Nina Simone?

Boa pergunta: o que aconteceu com Nina Simone? Ela é uma daquelas unanimidades, uma quase deusa, de quem não se pode falar, sob o risco de ser linchado publicamente. Alguns nomes despertam esse sentimento beatífico. Como Chet Baker, ou, Elis Regina. No caso da brasileira, parece que ninguém se lembra que andou cantando Eu Te Amo Meu Brasil, de Dom e Ravel, e que foi orgulhosa participante dos festejos dos 150 anos da Independência do Brasil, em 1972, época em que a ditadura fazia um bom estrago. Por esse episódio, o humorista Henfil enterrou-a no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô, que era o lugar para onde mandava os afinados ao regime militar.

Nina Simone, pelo contrário, nunca “cantou” ou adulou ditadores. Seu despertar para a segregação racial, aliás, ceifou a carreira ascendente da cantora.

Nina, nascida Eunice Kathleen Waymon, adotou o nome unindo “Nina”, derivado do apelido “Niña” que um namorado lhe dera quando adolescente, e “Simone”, depois de ter visto um filme da atriz francesa Simone Signoret. Coincidentemente, seu primeiro álbum chamou-se Little Girl Blue. Era comnhecida quando casou-se com Andrew Stroud. Este largou a polícia para tornar-se seu empresário.

Andy era um cara esperto. Investiu em um show no Carnegie Hall, Nova York. Foi a virada. Consagrada, a agenda vivia lotada. E o dinheiro veio em pencas. Compraram uma bela casa e tiveram uma filha: Lisa. O marido caiu como uma luva em relação aos seus mais íntimos desejos. Em uma lousa de sua casa estava escrito: “Serei a negra mais rica”’. Além da casa, possuía um carro luxuoso na garagem e tinha prazer em ver estampadas fotos posando em seu possante automóvel.

Se Andrew era bom empresário, como marido não era dos melhores. Batia em Nina com frequência. Pelo jeito, Nina não via isso como problema. Sentia-se esgotada com o número de apresentações que tinha de fazer. Vivia se queixando de cansaço, dormia sob efeitos de soníferos, reclamava, mas ele dizia: se você quer ficar rica tem que trabalhar. Nesse estado, perdera a vontade de fazer sexo.

Os dois tinham ido a uma boate e um admirador deu-lhe um bilhete. Andrew viu-a colocar o papel no bolso. Enfurecido, tirou-a de lá a passou a socá-la. Em casa, continuou, até quando subiam a escada. Apontou-lhe uma arma, amarrou-a na cama, e a estuprou. Não era normal. Em seu diário está escrito: “Adoro violência física, mesmo no sexo e no amor.”

Os distúrbios de setembro de 1963, em Birmingham, depois da morte de quatro crianças negras e 20 feridos em uma decorrência de uma bomba jogada em uma escola cristã, representam uma guinada na vida e na arte de Nina. Revoltada, lança Mississippi Goddam. A cantora que desejava ser a negra mais rica deixou de existir. Era agora a Nina “Passionária”, engajada. A luta pelos direitos civis aproximou-a de intelectuais negros como Langston Hughes, James Baldwin, o cantor Harry Belafonte, ligados ao Partido Comunista americano, ativistas como Martin Luther King e Malcolm X, e artistas e músicos como Sammy Davis, Jr. e brancos como Leonard Bernstein.

Uma das consequências de seu engajamento foi a drástica diminuição de convites para apresentar-se. Os brancos não estavam acostumados com palavrões em rede nacional. “Puta que pariu” (goddam) era um tanto forte. A nova fase representou outra transformação: se antes perdera o apetite para o sexo, nessa nova fase, voltou, e de modo intenso. Isso serviu para a degradação do casamento. Andrew devia ter muitas mulheres, mas não devia estar gostando de ver Nina transando com muitos homens.

Nina deixou os EUA e mudou-se para a Libéria, país na África criada por escravos americanos libertos. Morou também em Barbados, Holanda, Inglaterra, Bélgica e França. Longe da América, viu a carreira declinar. Foram seis anos desde o último até gravar o álbum, em Bruxelas, para a CTI, de Creed Taylor. Eram conhecidas as oscilações de humor de Nina. Desde o início da carreira, passava pitos na plateia e interrompia shows. Dizia que o público tinha de ser como os das salas de concerto. Com o passar do tempo, a instabilidade de humor se agravou. Era quase impossível conviver com a cantora. Replicava a violência física vivida com o marido batendo na filha. Lisa foi embora quando tinha 14 anos. No fim dos anos 1980, Simone foi diagnosticada como bipolar.

O mundo tinha esquecido de Simone. Graças aos esforços do amigo Clifton Henderson, voltou a fazer shows. Não possuía mais o antigo brilho. Mas era cultuada pela crítica, mais pelo seu passado. E o público foi na onda “cult”. A maioria dos fãs de hoje são aqueles que a conheceram quando era uma sombra do que fora. Natural. Quem era fã de Nina Simone no início dos anos 1960 deve ter por volta de 70, 80 anos. Assisti a uma apresentação dela nessa fase final. Entrou vagarosamente – parecia bêbada –, sentou-se ao piano, não olhou uma vez para os que a assistiam, desafinou bastante, e foi embora.

Mais um álbum tributo. Depois do belo álbum Autour de Nina (http://bit.ly/1Hs0L7l), é lançado o tributo americano. Nina Revisited – A Tribute to Nina Simone, uma produção de Lauryn Hill e Robert Glasper. Considerando-se os envolvidos, alguns podem adorar antes de ouvir o álbum e, outros, ficarão com um pé atrás. O ideal é ouvir sem juízos anteriores. Glasper é um pianista rising star. Mostrou competência com seu trio e agradou até aqueles que não são fãs do rap ou do hiphop.

Quem conhece The Miseducation of Lauryn Hill sabe do quanto ela é boa. Inexplicavelmente, sua discografia se resume a este álbum e um ao vivo na MTV. Desde o seu lançamento – 1998 – até agora, passou mais de uma década. A última vez em que se falou de Hill foi quando foi presa, em 2013, acusada de ter sonegado imposto sobre 1,3 milhão de dólares de ganhos.

Quando entrou no projeto de Nina Revisited, sua participação não seria tão grande como acabou acontecendo. Sorte nossa. Lauryn arrasa em vários números.

Ouça Black Is the Colour of My True Love’s Hair.


Ouça a original com Nina Simone.


Grande interpretação de Feeling Good.



A melhor: Wild Is the Wind.



Outro destaque é Gregory Porter – como sempre, ótimo – cantando Sinnerman.



A grande surpresa (boa) é a versão matadora de I Put a Spell on You, com Alice Smith.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morre Bert Stern

Bert Stern é mais conhecido por ter sido o autor das últimas fotos de Marilyn Monroe. Algumas semanas antes da morte da atriz por overdose de drogas, Bert fez milhares de fotos para a revista Vogue. Stern dizia que foi uma “experiência única ter estado com Marilyn Monroe em um quarto de hotel.”

Fotógrafo de profissão, foi ao Newport Jazz Festival “tirar algumas fotos”. Em vez disso, acabou fazendo um documentário. Foi sua única aventura no cinema. Não precisou mais: fez o melhor documentário de jazz da história. Jazz on a Summer’s Day é um clássico. O olhar de fotógrafo capta os músicos, mas, principalmente, o público, cenas de Newport em um belo dia de verão. Pena que não esteja disponível no youtube. Mas alguns trechos estão. Há uma performance inesquecível de Anita O’Day. Veja.




Veja o trailer do documentário e um pedacinho da apresentação de Thelonious Monk.




A abertura do filme. É uma maravilha, com fundo musical de Jimmy Giuffre.




Louis Armstrong.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resposta de Nana Caymmi ao tempo

Em Rio Sonata, Nana Caymmi diz, não lembro exatamente as palavras, mas é algo assim: “na minha vida só teve coisa bonita.” Pois, que privilégio é esse de ser filha de um dos maiores compositores brasileiros, possuir uma voz especial e ter dois irmãos tão talentosos?

Nana, muito tempo atrás, à direita de Gil, na Passeata dos 100 mil
Georges Gachot é o autor de um belo documentário sobre a argentina Martha Argerich. Em Conversa Noturna (2002) – saiu em DVD pela Biscoito Fino – é revelada uma Martha que, sendo uma das maiores virtuoses vivas do piano, parecia inatingível sob aqueles olhos levemente puxados e expressão séria. Ao contrário do que deixa transparecer, é falante, sorridente, e mais, não pinta os cabelos. Vendo-a desse modo, ela nos parece quase “íntima”. A melhor qualidade desse registro é o equilíbrio entre mostrá-la ao público como ela é, com histórias contadas pela própria Martha, e exibindo também performances públicas e ensaios.

Anos depois, Gachot dirigiu Maria Bethânia – Música É Perfume. Agora, em 2010, na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio foi exibido seu mais recente documentário. A protagonista é Nana Caymmi. Chama-se Rio Sonata, título um tanto vago. Uma pergunta: é o Rio de Janeiro pelos olhos da cantora? Nesse ponto, Gachot fica entre mostrar um Rio folclorizado – para turista ver – de belas paisagens, favelas, ruas esburacadas, meninos jogando bola e retratar algumas passagens da vida da cantora. Fica num meio termo que faz dele inferior aos anteriores.

Mas para os fãs mais fanáticos é um documentário essencial. No começo, vemo-la dentro de um carro, câmera fixa nela, falando. Bem naquele esquemão do qual estamos acostumados a ver, amigos dão seus depoimentos, assistimos aos ensaios e gravações num estúdio com o irmão Dori, presenciamos Nana, Miúcha e Maria Bethânia às gargalhadas no camarim (as três cantam, se não me falha a memória, João Valentão, de seu pai), jogando baralho com as amigas etc. E, claro, como não devia faltar, o pai é assunto em várias circunstâncias. Conta de Acalanto, música feita para embalar o sono da filha que tinha nascido. Imagine o privilégio?

Alguns fatos importantes na vida de Nana não são abordados, tais como certas desavenças que teve com o pai conservador, como o episódio do desquite dela do marido Gilberto José Paoli, com quem teve os três filhos, em que Caymmi ficou um tempo sem falar com ela, e do problema de ter de cuidar do filho João Gilberto com sequelas do acidente de moto. Mas não fazia parte do script que Gachot imaginou, afinal, o título do documentário é Rio Sonata. É alegria, nada de momentos problemáticos.

Uma lembrança vem com a citação de Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc e Cristovão Bastos. Foi o tema principal da minissérie Hilda Furacão, exibida pela rede Globo. Das muitas belas letras de Aldir, essa é uma daquelas especiais. É fácil qualquer um se identificar com algum trecho dela. Paulo Caruso, num almoço, comentou sobre um episódio especial de sua vida em que ele e sua namorada ouviam Nana cantando essa música. Ouvindo-se a interpretação de Milton Nascimento no último CD – … E a gente sonhando –, mesmo bela, nos remete imediatamente a Nana, intérprete de alguns clássicos do mineiro como Sentinela, Cais, Ponta de Areia e, especialmente, Boca a Boca. Resposta ao Tempo? É dela e de ninguém mais. É, Nana tem razão quando confessa: “eu me adoro cantando.”

Ouça a clássica Se Queres Saber, de Peterpan, mais antiga e menos conhecida que Resposta ao Tempo, com o irmão Dori.




Bom, não pode faltar Resposta ao Tempo.




O trailer oficial de Rio Sonata.