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quinta-feira, 21 de março de 2019

Nancy Wilson e o jazz na era rock’n’roll

Um dos melhores lugares para se ouvir música era na antiga casa de Alberico Cilento. Amante do jazz e bom conhecedor de música erudita e, contraditoriamente para alguns, de bolero, tinha uma extraordinária discoteca. Como bom colecionador, sabia onde estava cada título. Tinha um Steinway na sala e outro de um quarto de cauda também, de marca alemã, que não lembro, em uma segunda sala, que era onde ficavam os discos e (muitos) livros.

Tinha uma coleção incrível de DVDs e Laserdiscs. Na sala da frente, assistíamos aos vídeos, próximos ao belo Steinway, que era tocado apenas por amigos profissionais, como Moacyr Peixoto, João Donato e Michel Freidenson. Por isso tinha um segundo piano: o outro era para ele tocar, ou melhor, brincar de tocar.

Em um domingo qualquer, estávamos eu e o amigo Renato Mello vendo um show de Nancy Wilson. Nisso, entra o Bruno, seu filho. E diz: “Pô, ela sempre canta com o mesmo vestido?” Não tinha percebido. Acho que aquele longo amarelo era um dos seus preferidos. Era o mesmo de outro vídeo.

Quando fiquei amigo do Alberico, percebendo meu interesse por conhecer novos cantores e cantoras, sempre quando ia lá, colocava algum CD de alguém que eu não conhecia. Foi assim que ouvi Nancy Wilson pela primeira vez.

Comparando com o que ele ou o Carlos Conde tinham, minha coleção era um nada. Mas já causava inveja nos amigos. Virei até matéria de duas páginas na revista IstoÉ. No setor dos vocais tinha um número considerável de CDs: tudo de Bllie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, além de alguns de Anita O’Day, Doris Day, Dinah Washington, June Christy, Chris Connor, Carmen McRae. Helen Merrill veio depois; foi ele quem me “apresentou”.

Do começo à aposentadoria
Depois de vencer um concurso local, em Ohio, o WTVN-TV, aos 15 anos, entrou para a banda de Rusty Bryant. Conheceu logo depois Cannonball Adderley, que aconselhou-a a tentar a sorte em Nova York. Auxiliada pelo empresário do saxofonista, John Levy, assinou um contrato com a Capitol Records.

Tendo Billy May como arranjador e músicos do quilate de Benny Carter e Ben Webster a acompanhá-la, logo emplacou o primeiro sucesso: “Guess Who I Saw Today”. Seu LP de estreia foi “Like in Love” (1960), seguido de “Something Wonderful”. Depois, lançou um com seu mentor: “Nancy Wilson/Cannonball Adderley”.

Na década de 1960, com a “invasão” do rock, caíram as vendas de álbuns de jazz. Foi uma década difícil. Mesmo assim, Nancy, emplacou várias músicas nas paradas da Billboard. Sinal dos novos tempos, era um repertório com standards e coisas mas novas. Qualquer músico, se quisesse fazer algum sucesso, não poderia fechar os olhos para as novas tendências, inclusive para a emergente bossa nova. Nancy soube usar bem um meio novo, que a tornou ainda mais popular: os programas de TV. Teve até um seu por cerca de um ano: “The Nancy Wilson Show”. Fez também participações como atriz em séries como “I Spy”, “Hawaii 5”, “Room 222” e “The FBI”.

A intérprete que a revista Time escreveu que “é, ao mesmo tempo cool e sweet, ao mesmo tempo cantora e contadora de histórias”, seguiu uma carreira de sucesso, apesar das pressões comerciais como a de quando a Capitol queria que gravasse um disco com uma pegada mais soul, mais funky. Na era disco, continuou com seu repertório mais focado no jazz.

A partir dos anos 2000, começou a ter problemas respiratórios. Fez o último concerto em Ohio, sua terra natal, em 10 de setembro de 2011. Ofereceram 100 mil dólares para uma única apresentação, depois que retirou-se. Recusou.

Como Nancy Wilson não era tão conhecida no Brasil, não saiu uma linha quando morreu. Tardiamente, quando peguei a Downbeat de março deste ano, fiquei sabendo que morreu em 13 de dezembro do ano passado.

Ouça “The Masquerade Is Over”, do álbum “Nancy Wilson/Cannonball Adderley”. Se for possível uma comparação, sua voz lembra a de Dinah Washington.




Ouça também o “People”, de “Funny Face”, lançado em 1965. Fez um super sucesso.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

O “algo a mais” de Cannonball Adderley

Em tempos remotos, o “troca troca” era considerado uma coisa normal. Daí, em Kind of Blue, um dos grandes clássicos de Miles Davis e do jazz, um dos sidemen foi Julian “Cannonball” Adderley. Em contrapartida, Miles foi sideman de um dos grandes discos de um dos maiores saxofonistas alto de todos os tempos. Estou me referindo à Somethin’ Else, gravado em março de 1958, pelo selo Blue Note. Ao afirmar “um dos maiores de todos os tempos”, uma multidão irá gritar. Melhor que Charlie Parker?; melhor que Johnny Hodges?; melhor que Phil Woods?; melhor que Paul Desmond?; melhor que Benny Carter? Bom, Adderley está entre os dez melhores de todos os tempos, o que não é pouco. Woods é o único que está vivo. Cannonball não tinha completado 47 anos quando morreu. Era hipertenso e teve um ataque de coração que lhe foi fatal.

No fim dos anos 1950 e início da próxima, Julian estava impossível. Se você ouviu Kind of Blue, de Miles Davis, gravado pouco depois (as sessões são de 26 de maio de 1958, 2 de março de 1959 e 22 de abril do mesmo ano), sabe do que estou falando. Nunca um sax alto combinou tão bem com um sax tenor. Os dois? Cannonball Adderley e John Coltrane.

Pouco tempo antes Somethin’ Else fora gravado, com Miles no trumpete, Hank Jones no piano, Sam Jones no baixo e Art Blakey na bateria. Comparados, este e Kind of Blue, são perceptíveis muitas semelhanças.

A lembrança deste disco de Adderley está presente em um livro muito bom (até agora), que ora, leio: Cidade Aberta (Companhia das Letras, 2011), de Teju Cole. Das páginas 171 a 175, ele é citado. Julius – coincidência com oprenome do saxofonista? –, o protagonista está em um voo com destino a Bruxelas. Sua vizinha de poltrona é uma médica. A dra. Maillote diz: “Nós conversamos sobre jazz no avião? Acho que foi isso, não foi? Vou lhe falar sobre Cannonball Adderley. Ele foi meu paciente.”

“Na verdade, prosseguiu ela, foi o irmão dele, Nat Adderley, que foi meu paciente na Filadélfia. Tive de retirar alguns cálculos da vesícula dele e foi por intermédio dele que conheci Cannonball, e depois o próprio Cannonball se tornou meu paciente. Tinha pressão alta, entende? De todo modo, por causa dos irmãos Adderley, nós – meu marido e eu – conhecemos muitos jazzistas notáveis dos anos 60. Chet Baker. […] Philly Joe Jones, o baterista, e Bill Evans também. Conhece Art Blakey? Cannonball gostava de apresentar as pessoas umas para as outras e assim conhecemos uma porção de gente por intermédio dele. Assistimos a tantos concertos que nem dá para contar. Já foram menos depois que Cannonball morreu, em meados da década de 1970. Teve um ataque do coração e, a exemplo de outros, era incrivelmente jovem. Quarenta e dois ou quarenta e seis anos, alguma coisa assim.” 

Julius não conhecia muito jazz. Por fim, ela recomenda o disco: “E não deixe de comprar Somethin’ Else, de Cannonball Adderley, disse ela. É o melhor disco dele, um verdadeiro clássico. Prometi que ia comprar.” É um grande disco mesmo. Se você não tem, compre. Vale como recomendação.

Ouça Dancing in the Dark, um dos destaques deste disco.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Flamenco Sketches, de Kind of Blue, de Miles Davis. Os músicos são, além do trumpetista, John Coltrane (sax tenor), Cannonball Adderley (sax alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria). Preste atenção ao solo de Adderley, que se inicia aos 3:47 min.