terça-feira, 21 de agosto de 2012

O “algo a mais” de Cannonball Adderley

Em tempos remotos, o “troca troca” era considerado uma coisa normal. Daí, em Kind of Blue, um dos grandes clássicos de Miles Davis e do jazz, um dos sidemen foi Julian “Cannonball” Adderley. Em contrapartida, Miles foi sideman de um dos grandes discos de um dos maiores saxofonistas alto de todos os tempos. Estou me referindo à Somethin’ Else, gravado em março de 1958, pelo selo Blue Note. Ao afirmar “um dos maiores de todos os tempos”, uma multidão irá gritar. Melhor que Charlie Parker?; melhor que Johnny Hodges?; melhor que Phil Woods?; melhor que Paul Desmond?; melhor que Benny Carter? Bom, Adderley está entre os dez melhores de todos os tempos, o que não é pouco. Woods é o único que está vivo. Cannonball não tinha completado 47 anos quando morreu. Era hipertenso e teve um ataque de coração que lhe foi fatal.

No fim dos anos 1950 e início da próxima, Julian estava impossível. Se você ouviu Kind of Blue, de Miles Davis, gravado pouco depois (as sessões são de 26 de maio de 1958, 2 de março de 1959 e 22 de abril do mesmo ano), sabe do que estou falando. Nunca um sax alto combinou tão bem com um sax tenor. Os dois? Cannonball Adderley e John Coltrane.

Pouco tempo antes Somethin’ Else fora gravado, com Miles no trumpete, Hank Jones no piano, Sam Jones no baixo e Art Blakey na bateria. Comparados, este e Kind of Blue, são perceptíveis muitas semelhanças.

A lembrança deste disco de Adderley está presente em um livro muito bom (até agora), que ora, leio: Cidade Aberta (Companhia das Letras, 2011), de Teju Cole. Das páginas 171 a 175, ele é citado. Julius – coincidência com oprenome do saxofonista? –, o protagonista está em um voo com destino a Bruxelas. Sua vizinha de poltrona é uma médica. A dra. Maillote diz: “Nós conversamos sobre jazz no avião? Acho que foi isso, não foi? Vou lhe falar sobre Cannonball Adderley. Ele foi meu paciente.”

“Na verdade, prosseguiu ela, foi o irmão dele, Nat Adderley, que foi meu paciente na Filadélfia. Tive de retirar alguns cálculos da vesícula dele e foi por intermédio dele que conheci Cannonball, e depois o próprio Cannonball se tornou meu paciente. Tinha pressão alta, entende? De todo modo, por causa dos irmãos Adderley, nós – meu marido e eu – conhecemos muitos jazzistas notáveis dos anos 60. Chet Baker. […] Philly Joe Jones, o baterista, e Bill Evans também. Conhece Art Blakey? Cannonball gostava de apresentar as pessoas umas para as outras e assim conhecemos uma porção de gente por intermédio dele. Assistimos a tantos concertos que nem dá para contar. Já foram menos depois que Cannonball morreu, em meados da década de 1970. Teve um ataque do coração e, a exemplo de outros, era incrivelmente jovem. Quarenta e dois ou quarenta e seis anos, alguma coisa assim.” 

Julius não conhecia muito jazz. Por fim, ela recomenda o disco: “E não deixe de comprar Somethin’ Else, de Cannonball Adderley, disse ela. É o melhor disco dele, um verdadeiro clássico. Prometi que ia comprar.” É um grande disco mesmo. Se você não tem, compre. Vale como recomendação.

Ouça Dancing in the Dark, um dos destaques deste disco.



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Ouça Flamenco Sketches, de Kind of Blue, de Miles Davis. Os músicos são, além do trumpetista, John Coltrane (sax tenor), Cannonball Adderley (sax alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria). Preste atenção ao solo de Adderley, que se inicia aos 3:47 min.

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