quinta-feira, 7 de abril de 2016

Bill Charlap, próximo da perfeição

É só olhar qualquer foto de Bill Charlap para se concluir: Bill nasceu velho; isso, apesar da cara de eterno adolescente. Parece que Bill nasceu vestindo terno. Não deve ter cometido alguma travessura quando menino. Com a sua aparência, é difícil imaginá-lo endemoniado como Cecil Taylor ou Hermeto Pascoal.

Na vida real, parece que vive em outro tempo. Há dez anos, não possuía nem um computador em casa. Seu empresário vivia a reclamar  da dificuldade de encontrá-la por ele não ter um telefone celular. A única pessoa que sei não possuir um celular, fora o nosso ex-presidente Lula, é o meu amigo Takashi Fukushima. Quando ganhou um de presente de Natal dos filhos, recusou-se a recebê-lo.

Por ser essa a sua imagem, Charlap é visto por muitos como o epítome do jazz careta, ou melhor, mainstream. Mas, olhando-se um pouco além da superfície, podemos ter algumas surpresas. Bill é a música em si e é um tremendo pianista. Filho de Sandy Stewart, cantora veterana com quem chegou a gravar dois álbuns – Love Is Here to Stay e Something to Remember – e do compositor de musicais da Broadway, Moose Charlap, primo distante de Dick Hyman, é ainda casado com a também pianista Renee Rosnes. Juntos, gravaram Self-Portrait (Blue Note, 2010).

O que parece e não é
Julgando um pouco pelas aparências, não me interessei em ouvir Bill. O que me fez mudar de ideia era o entusiasmo de Carlos Conde, dono de um programa semanal de jazz na rádio Cultura, e de seus amigos por ele. Fã do formato trio piano, baixo e bateria, comprava tudo o que era lançado pela Venus Records. Apesar da preponderância de álbuns nesse formato, com pianistas do primeiro time como Kenny Barron, Roland Hanna, Stefano Bollani e Steve Kuhn, constam em seu catálogo outros instrumentistas, como Barney Wilen, Nikki Parrott, Peter Bernstein e Archie Shepp, mas com repertório mais orientado ao chamado mainstream. Em sua maioria, por esse selo, são creditados como sendo do New York Trio, liderado por ele, mas que tiveram baixistas e bateristas diferentes ao longo da sua existência.

A imagem do “certinho” não funciona muito no meio da música. Virou senso comum de que o artista tem de ser um maluco. Criativos são doidões, drogados e imprevisíveis. Mas nem tudo é assim. O mito do artista maluco, que parecia ser a norma, que morria cedo e Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison são os exemplos, foi rareando. É certo que que, de tempos em tempos, surge alguém para rememorar o mito, como foi o de Amy Winehouse. Existe um preconceito contra esses certinhos, até na política, como estamos vendo por esses tempos. Certinho é o “coxinha”, termo inventado pelos paulistas, e, por conseguinte, de direita, o que é uma tremenda bobagem. Para parecermos “moderninhos” ou joviais devemos amar o rebelde. É uma atitude que se reflete até no jazz. Quando surgiu Wynton Marsalis, logo o reconheceram como grande instrumentista, mas muitos torceram o nariz, principalmente por suas declarações em favor de resgates de valores do jazz tradicional e pelo seu jeito de certinho, sempre de terno e gravata. Para piorar, os músicos que o rodeavam também eram assim, pelo menos, por fora. Quando emergiu outro membro da família, o irmão Branford, este representou o oposto, apesar de vestir-se do mesmo modo. Com a cabeça mais aberta, foi tocar com o pop Sting e ainda montou a banda Buckshot LeFonque. Eu preferia Branford, até porque prefiro o som do saxofone ao trumpete.

O reconhecimento
Nas listas dos melhores pianistas que saem anualmente, Bill Charlap é pouco lembrado. Vendo as duas últimas da Downbeat, estão os “emergentes” Vijay Iyer, Jason Moran e os veteranos Keith Jarrett, Kenny Barron e Ahmad Jamal. Na de 2014, ficou em 18º, e na de 2015, em 11º lugar.

Em 2015, Charlap lançou, com Tony Bennett, The Silver Lining. A crítica foi unânime em classificá-lo como um dos melhores do ano. Recebeu cinco estrelas pela Downbeat.

Agora, no mês passado, saiu Notes from New York. Tendo seus últimos álbuns lançados pela Blue Note, este é o primeiro pela Impulse!, selo conhecido por ter tido Bob Thiele como diretor e John Coltrane, Charles Mingus e McCoy Tyner no seu plantel. Esta é a terceira vez, se não me engano, que o selo é reativado. Dessa vez, estão caprichando. Lançaram discos Jim Hall, Charlie Haden, Gonzalo Rubalcaba, John Scofield, Dave Holland, Kenny Barron e Ran Blake, mas estão investindo em novos talentos como o de Sarah McKenzie, Indra Rios-Moore e Sullivan Fortner. 

O trio de Bill Charlap é completado por Peter Washington no contrabaixo e Kenny Washington na bateria. Não é exatamente uma nova fase de Bill. É apenas a continuação de seu trabalho cada vez mais refinado no gênero trio. Allen Morrison, em recente crítica, em que deu cotação máxima, é só elogios. Toca na questão do termo “mainstream”: “O termo mainstream deixa de ter significado quando alguém considera a maestria técnica de Charlap, sua sutileza e incansável invenção melódica – ou deveria dizer, reinvenção.” Diz ainda que o disco é um “masterclass” e diz ainda que I’ll Remember April, a primeira faixa já vale o preço dele. Outra coisa boa é a de que Bill gosta de standards, mas não fica só em temas batidos.

Ouça I’ll Remember April, a faixa que vale o preço pago.



A minha preferida é outro conhecido standard. Ouça Too Late Now.



On the Sunny Side of the Street, a faixa de encerramento, é excepcional também. É um solo ao piano em que Bill subverte a melodia, tocando em andamento bem lento.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A morte precoce de Roger Cicero

No dia 26 de março, morreu Roger Cicero, devido a um acidente vascular cerebral, com apenas 45 anos Coincidentemente, seu pai, Eugen Cicero, faleceu com a mesma moléstia. Meses antes, Cicero tinha sido diagnosticado com síndrome de fadiga crônica aguda com suspeita de miocardite. Depois de internado, não recuperou a consciência.

Imagino que seja um desconhecido para a maioria que não é alemã. Filho de pais romenos ligados às artes, pai pianista conhecido de jazz e mãe dançarina, partiu para a carreira de músico ainda adolescente. Estudou música em Amsterdam e fez carreira na Alemanha, seu país natal.

Voltado mais ao jazz, tocando com o pai Eugen, participando do Festival de Montreux, como crooner da banda Jazzkantine ou formando a Roger Cicero Quartet, em vez de fazer como a maioria de seus conterrâneos que escolheram o gênero como caminho, preferia cantar em alemão. Essa escolha, provavelmente, dificultava que se tornasse mais conhecido em outros países. De certo modo, com jeito de galã, como Michael Bublé, mais talentoso até do que o canadense, deve ter sido a opção que fez. Poderia ter virado uma astro internacional.

Roger e Julia
Como conheço Julia Hülsmann, que grava pela ACT e pela ECM, acabei “descobrindo Roger Cicero. Apesar de a maioria dos discos de Julia seguirem o formato instrumental, gravou três com cantores europeus. Conheci primeiro o com Rebekka Bakken (ACT, 2003), logo depois, Good Morning Midnight (ACT, 2006), com Cicero, e, mais recentemente, A Clear Midnight – Kurt Weill in America (ECM, 2015), com o cult, natural da Alemanha também, Theo Bleckmann, radicado em Nova York. Os três têm em comum serem cantados em inglês.

Curioso em conhecer outros discos de Roger Cicero, o primeiro que ouvi, fora o que gravara com Hülsmann, ouvi There I Go (Jazzsick Records, 2005). Como não me interessei pelos cantados em alemão, ouvi depois Cicero Sings Sinatra: Live in Hamburg (Sony/RCA 2015) e The Roger Cicero Jazz Experience (Wave Music, 2015). Os três são muito bons. Ele cantando Sinatra é um pouco menos porque lembra muito as incursões de Michael Bublé pelos standards. Passa aquela impressão de “já visto”, mesmo sendo melhor que o canadense.

Em There I Go, Roger canta vários standards, mas nem tudo é tão comum. Temos as batidas My Favorite Things, No Moon at All, mas outras como Red Top, Joy Spring e Bluesette são temas mais executados instrumentalmente e pouco cantadas, por serem mais específicas do jazz. São obras que exigem maior familiaridade dos cantores com esse gênero.


Roger mostra que é do ramo em Bluesette. Ouça.




Há um vídeo de Roger no Festival de Montreux cantando Bluesette com uma bigband, mas que não pode ser compartilhada. Se você quiser ver, vá para https://www.youtube.com/watch?v=nx4js_dNqBI

O recente The Roger Cicero Jazz Experience é o melhor testamento. O álbum é impecável. Como em There I Go, neste canta coisas do repertório moderno como Shower the People, de James Taylor, 50 Ways to Leave Your Love, de Paul Simon, From the Morning, de Nick Drake, The Long and Winding Road, de John Lennon e Paul McCartney, e Tom Traubert’s Blues, de Tom Waits. As mais antigas, como Moody’s Mood e Benny’s from Heaven, são essencialmente jazzísticas, tanto que as letras são de autoria de Eddie Jefferson que, como Jon Hendricks, notabilizou-se por colocar letras em temas bebop.

Um dos temas que pode se destacar é Keep It Loose Keep It Tight. A referência a essa composição é proposital, porque Roger lembra muito Amos Leee, o autor dessa composição. Confira.




Veja Cicero no Leverkusener Jazztage 2013, cantando com seu Jazz Experience. Além de standards, interpreta clássicos modernos como The Long and Winding Road, de Lennon e McCartney, e Shower the People, de James Taylor.