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| Bill e Rosnes; à direita, a mãe Sandy |
Nem tudo segue esse determinismo. É o caso de Dewey Redman e seu filho Joshua Redman, ambos saxofonistas excepcionais. É certo que Joshua cresceu longe do pai. Outro é o de Kenny Drew. Seu filho – Kenny Drew, Jr. – é pianista, como foi o pai, tão bom quanto ele.
O Drew “sênior” nasceu em Nova York, tocou com uma turma “allstar” (John Coltrane, Howard McGhee, Coleman Hawkins, Charlie Parker) e, como muitos bons músicos que tiveram problemas com drogas, e outros, por conta do segregacionismo racial, mudou-se para a Europa. Lá, tiveram boa acolhida e foram idolatrados pelos amantes do jazz. São clássicos os inúmeros discos que gravou com o baixista Niels-Henning Ørsted Pedersen. O Drew filho tem um estilo bem diferente, muito em razão do aprendizado iniciado na música clássica. Possui um estilo bem diferente. Em ambos os casos, é de se examinar com lupa: por que escolheram os mesmos instrumentos que tornaram seus pais conhecidos? Joshua podia ter virado pianista e Drew Jr., saxofonista; ou baterista, como o filho de Thelonious Monk; seria o melhor modo de se escapar de constrangedoras comparações.
Bill Charlap vem de uma família de músicos. O pai, Moose Charlap, foi compositor e tem o nome creditado como autor de composições de musicais da Broadway como Peter Pan, Alice Através do Espelho e Kelly. A mãe, Sandy Stewart é cantora, participou da banda de Benny Goodman e do programa de televisão de Perry Como. E como se não bastasse, é primo distante de Dick Hyman por parte de pai. É quase natural que fizesse alguma coisa ligada à música. E mais: desde 2007, está casado com a pianista Renee Rosnes.
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| A imagem que ilustra a capa de Double Portrait |
Renee gravou o primeiro disco em 1989 pela EMI Toshiba. Contratada pela Blue Note, lançou vários álbuns que chamaram a atenção da crítica e tiveram boa receptividade de público. Bill lançou seu primeiro solo em 1993. Explica-se: ela é um pouco mais velha (é de 1962, e ele, de 1966). A parceria não é apenas doméstica: gravaram Double Portrait (Blue Note, 2010).
Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.
Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.
Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).
Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.
A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.
Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.
Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.
Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).
Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.
A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.


