quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dose dupla de Bill Charlap: duas mulheres e duplo arco-íris

Bill e Rosnes; à direita, a mãe Sandy
Seguir os passos dos pais se, principalmente, geniais, é um bocado difícil. É um peso tremendo. É a velha história de o filho querer ser melhor que o pai – ou a mãe –, ou do filho carregar o peso dos anseios, frustrações e projeções paternas. Agora, imagine se o seu pai é Frank Sinatra… ou Pablo Picasso? Fico a pensar por que o filho de Sinatra (o Jr.) resolveu virar cantor; ou sua filha Nancy. Pelo menos, Nancy teve seus momentos de glória. “Explodiu” com These Boots Are Made for Walking. Na memória “mais fresca”, aloja-se a música Bang, Bang, inserida em Kill Bill I, de Quentin Tarantino. Ótima. Mas, glória mesmo foi quando mostrou algo além dos dotes vocais: posou nua na revista Playboy quando tinha 55 anos de idade. Ótima, repito. Mas, Frank Sinatra Jr.? Valha-me Deus… e ainda emulando o pai sagrado.

Nem tudo segue esse determinismo. É o caso de Dewey Redman e seu filho Joshua Redman, ambos saxofonistas excepcionais. É certo que Joshua cresceu longe do pai. Outro é o de Kenny Drew. Seu filho – Kenny Drew, Jr. – é pianista, como foi o pai, tão bom quanto ele.

O Drew “sênior” nasceu em Nova York, tocou com uma turma “allstar” (John Coltrane, Howard McGhee, Coleman Hawkins, Charlie Parker) e, como muitos bons músicos que tiveram problemas com drogas, e outros, por conta do segregacionismo racial, mudou-se para a Europa. Lá, tiveram boa acolhida e foram idolatrados pelos amantes do jazz. São clássicos os inúmeros discos que gravou com o baixista Niels-Henning Ørsted Pedersen. O Drew filho tem um estilo bem diferente, muito em razão do aprendizado iniciado na música clássica. Possui um estilo bem diferente. Em ambos os casos, é de se examinar com lupa: por que escolheram os mesmos instrumentos que tornaram seus pais conhecidos? Joshua podia ter virado pianista e Drew Jr., saxofonista; ou baterista, como o filho de Thelonious Monk; seria o melhor modo de se escapar de constrangedoras comparações.

Bill Charlap vem de uma família de músicos. O pai, Moose Charlap, foi compositor e tem o nome creditado como autor de composições de musicais da Broadway como Peter Pan, Alice Através do Espelho e Kelly. A mãe, Sandy Stewart é cantora, participou da banda de Benny Goodman e do programa de televisão de Perry Como. E como se não bastasse, é primo distante de Dick Hyman por parte de pai. É quase natural que fizesse alguma coisa ligada à música. E mais: desde 2007, está casado com a pianista Renee Rosnes.

A imagem que ilustra a capa de Double Portrait
Renee gravou o primeiro disco em 1989 pela EMI Toshiba. Contratada pela Blue Note, lançou vários álbuns que chamaram a atenção da crítica e tiveram boa receptividade de público. Bill lançou seu primeiro solo em 1993. Explica-se: ela é um pouco mais velha (é de 1962, e ele, de 1966). A parceria não é apenas doméstica: gravaram Double Portrait (Blue Note, 2010).

Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.

Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.

Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).

Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.

A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O amor de Stefano Bollani pelo Brasil

A Itália ama o Brasil e a recíproca é verdadeira. Barbara Casini gravou compositores brasileiros e cantando na nossa língua. Se é Tom Jobim, tudo bem: o mundo grava Tom. Quando se entra no terreno do samba ou do chorinho, a coisa é um pouco mais específica.

O “brasileiro” Bollani
Stefano Bollani queria ser cantor. Moleque ainda, gravou uma fita cassete (para quem não sabe o que é isso, imagine que é uma fita magnética em que se gravava, como nos CDs de hoje) e enviou-a ao seu ídolo Renato Carosone. Recebeu como resposta um aconselhamento: que ouvisse bastante blues e jazz. Foi o que fez. O próximo passo importante para a futura carreira de pianista – cantor, bem ocasionalmente – foi ter conhecido Enrico Rava. O trumpetista convidou-o para acompanhá-lo em uma apresentação em Paris. Disse-lhe: “Você é jovem e não tem família. Assuma o risco, desista do pop e abrace a música que você ama.” Jazz; que fique subentendido que era esse o gênero. Explicação suplementar: quando criança, o gosto de Bolani era pela música popular, e, como é natural, ampliou-se.

Falando de Amor, disco de 2003, de Stefano Bollani, é dedicado a Tom Jobim. O compositor de Garota de Ipanema é tão internacional que podemos dizer que o primeiro disco verdadeiramente brasileiro do italiano é Carioca, de 2008. Basta observar a lista das canções gravadas: Luz Negra, Ao Romper da Aurora, Choro Sim, Valsa Brasileira, A Voz do Morro, Hora da Razão, Segura Ele, Doce de Coco, Folhas Secas – não vou citar tudo –, Samba e Amor, Tico-Tico no Fubá, Caprichos do Destino, Trem das Onze. É uma bela amostragem: vai de samba, de choro, de Chico Buarque, Nelson Cavaquinho, Zequinha de Abreu, de Monica Salmaso e Zé Renato em participações vocais, do divino violão de Marco Pereira, e da percussão de Marçalzinho. Carioca é, essencialmente, brasileiro.

E, não para por aí. No CD Stone in the Water, pela ECM, em 2009, temos Dom de Iludir e Brigas Nunca Mais. Para completar, Bollani gravou um emocionante Retrato em Branco e Preto no álbum que divide com seu mentor, o trumpetista Enrico Rava, em Third Man (sobre esse assunto, leia: http://bit.ly/orcz9X).

Tico-Tico no Fubá foi gravada por Charlie Parker, mas alguém imaginaria que um “estrangeiro” fosse gravar A Voz do Morro, de Zé Keti? Incomum, não? Mais ainda, alguém gravar o clássico paulista Trem das Onze… e cantar, em português (e italiano na segunda parte). Curioso que não é a primeira vez que grava essa canção tão consagrada por Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa. Em Småt Småt, de 2004, há uma excelente interpretação de Bollani de Trem das Onze (no título há um complemento: Figlio mio). É a que você vai ouvir.