quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Seu nome é Julie London

A bela Julie
Um dia – melhor, uma noite –, meu amigo Zeca Leal trouxe um vídeo (era tempo das fitas VHS, anteriores aos DVDs e Blu-rays) com uma apresentação de Julie London. Bem no meio da tela, quase de corpo inteiro, Julie vai se aproximando lentamente, enquanto a câmera vai fazendo um movimento, como as curvas sinuosas que se insinuam através do vestido de tecido brilhante, de alças, glorificando seu belo colo. Aproxima-se de um divã, enquanto canta Cry Me a River e senta com as mãos apoiadas no encosto. Tenho a certeza que não deleita apenas aos homens; causa admiração nas mulheres também. Diferentemente de muitos homens que nunca podem achar os do mesmo sexo belos, elas admiram, e se não admiram, invejam. Quem, porém, resiste a uma bela figura, quase deusa, cantando com aquela voz levemente rouca e quente?

Devo ter visto esse vídeo pela primeira vez há 25 anos, talvez. Marcou. Em certa feita, na casa do Alberico Cilento estava Flavio Mancini, baixista da primeira formação do Nouvelle Cuisine. Ao ver essa apresentação de Julie London, Flavio, simplesmente, enlouqueceu. É: as primeiras vezes podem ser chocantes ou traumáticas..

Julie, em 1947, casou com o ator Jack Webb. Em 1954, com dois filhos para criar, separaram-se. Ficou reclusa. Tempos depois, conheceu Bobby Troup (é ele o compositor de Route 66, sucesso com Nat King Cole e depois com os Rolling Stones) em um clube noturno de Los Angeles. Convém perguntar quem teve melhor sorte. Se Julie, por ter conhecido aquele que catapultou sua carreira como cantora, ou Troup, que se casou com uma das mais deslumbrantes do universo, pelo menos, daquele tempo. Esclarecimento: modelos de mulher eram Marilyn Monroe, Jane Mansfield e Kim Novak (lembro dela, aspirante à cantora, em Pal Joey, de George Sidney, deixando Frank Sinatra “de quatro”, Rita Hayworth com raiva e dor de cotovelo).

Cry Me a River é uma composição de Arthur Hamilton. É, praticamente, compositor de uma canção só, como eden ahbez (é assim mesmo, em minúsculas; saiba por que em http://bit.ly/Anuaym), autor de Nature Boy. Foi o suficiente. Como ahbez, fez um bem ao mundo compondo tão linda canção.

Há vinte e poucos anos, não existia internet e, muito menos, sites com todas as letras possíveis e inimagináveis disponibilizadas. A melhor solução, para músicas cantadas em inglês, era tentá-las decifrar na voz de Frank Sinatra. Pelo menos, essa era a opinião bem-humorada do Zeca Leal. E era verdade. Nunca existiu alguém com dicção tão perfeita. Os primeiros versos de Cry Me a River eram fáceis, mas, chegando na terceira estrofe, travava no verso “You told me love was too plebeian”. Quem me revelou o “plebeu” foi o Zeca. Ele tinha vários cadernos escritos à mão com letras de um número grande de standards e em songbooks dos autores mais conhecidos (Gershwin, Cole Porter, Sammy Cahn, Rodgers & Hammerstein II, Rodgers & Hart, etc.). Revistas antigas de variedades (fotonovelas, guias de programação de televisão, fofocas e notícias de artistas) sempre traziam letras de canções de sucesso. O normal era se copiar em um caderno: todo mundo tinha o seu de letras de música, e não era só coisa de mocinhas. Em tempos em que o que é chamado de xerox (é a “brahma” das cervejas) se chamava “fotocópia”, coisa surgida na década de 1960, não restava outro modo senão copiar letras e receitas de bolo no “caderninho”. Os mais jovens, hoje, quando fazem um cópia em papel, chamam-na de “print” ou “printer” (sic!) e já nem mais devem saber o que é uma “xerox”.

Bom, fiquei comentando outras coisas e estava quase esquecendo de Julie. Isso, no entanto, é impossível. Julie London se encaixaria perfeitamente no conhecido slogan do filme que consagrou Rita Hayworth: “Nunca houve mulher como Gilda.” Basta trocar o “Gilda” por “Julie London”.

A apresentação:



Julie em cores.




Veja um clip divertidíssimo em que, chegando bêbado, coloca um disco de Julie London e passa a vê-la pela casa.




Opções para ouvir Cry Me a River
Há centenas, com certeza. É clássica, também, com Ella Fitzgerald. Não irei me lembra agora das melhores. Vou citar apenas as que estão no iTunes da máquina que uso mais frequentemente, mais para mostrar como “todo mundo” gravou. Explicação: mudo sempre minha lista no iTunes (no meu iPod estão as minhas preferidas de sempre) de maneira que possa conhecer o maior número de interpretações possíveis. Não estranhe, portanto, a citação de nomes um tanto obscuros.
A lista:
• Archie Shepp (Blue Ballads)
• Barney Wilen (My Romance)
• Brad Mehldau (Progression. The Art of the Trio vol. 5)
• J.J. Johnson (First Place)
• Jaimee Paul (At Last)
• Marilyn Scott (Everytime We Say Goodbye)
• Nicki Parrott (Moon River)
• Nicole Henry (Teach Me Tonight)
• Sonji Kimmons (Fine & Mellow)
• Tierney Sutton (Desire)

Das citadas, minha preferida é a de Barney Wilen. Nada como um bom sideman. Kenny Barron é um craque.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Adeus, Primeiro Amor, de Mia Hansen-Løve

“O filme é parado, não tem história, parece até filme francês.” A fala não é exatamente, essa; é algo mais ou menos assim. Esse é o comentário autorreferente em Adeus, Primeiro Amor (Un amour de jeneusse, 2011). Acontece em uma cena em que Camille (Lola Créton) e Sullivan (Sebastian Urzendowsky) estão saindo do cinema.

Sullivan, Camille e o amor no campo
A diretora Mia Hanson-Løve é uma grata surpresa. Não assisti ao seu Pai dos Meus Filhos (Le pèré de mes enfants, 2009). Adeus, Primeiro Amor lembra filmes de Eric Rohmer e um pouco de Maurice Pialat (principalmente, o belo A nous amours, com interpretação marcante de Sandrine Bonnaire), por uma certa crueza – ou frieza, não no sentido de gélido – de como aborda relações humanas. Elas são vistas sem que a diretora tome partido ou se utilize de artifícios para “pegar” o espectador na emoção; ou melhor, não há juízos morais, o que é bom, pois assim exercitamos os nossos e, humanos, podemos considerar certos fatos como normais, abjetos ou circunstanciais.

Camille ama Sullivan. É um amor da adolescência. Sullivan planeja uma longa viagem à América do Sul. Ela disse que se mata se ficar sem ele. Antes da separação, passam uns dias em uma casa de campo à beira do Loire. Essas cenas ocorrem sob o olhar distanciado de Hansen-Løve e nós, espectadores, presenciamos e “vivemos” o amor dos dois.

Sullivan parte e o mundo de Camille fica “negro”. Separam-se no ano de 2000. Três anos se passam. Ele envia cartas e Camille, vai marcando em um mapa os lugares que ele vai conhecendo. Entra na escola de Arquitetura e surge um interesesse mútuo entre ela e Lorenz (Magne Håvard Brekke), um de seus professores. Em um caderno, distraidamente deixado na ocasião de uma das visitas que fazem à Alemanha e à Escandinávia para conhecerem algumas obras arquitetônicas, Lorenz lê uma frase em que Camille revela que seu mundo “enxerga” uma luz depois de anos de escuridão. É mais ou menos assim; mais uma vez, não consigo lembrar da cena com melhor exatidão.

Camille, depois do longo período de “luto” causado pelo “desaparecimento” do seu amor, se envolve com o professor tornando-se sua assistente e, depois passam a morar juntos. Em uma ocasião, num ônibus, encontra-se com a mãe de Sullivan e fica sabendo que ele, há vários anos, voltou e mora em Marselha. Entrega-lhe um pedaço de papel com seu número de telefone.

Em uma de suas vindas a Paris, reencontram-se e tornam-se amantes. O que é incômodo para Sullivan, não representa problema, sob o aspecto moral, para Camille. Ama Sullivan. Este, mais uma vez a abandona. E, como diz aquele amigo, a vida continua. É como a água: flui, percorre seu caminho, os acidentes geográficos são pedras no caminho, das quais se desvia e encontra novas vias. É assim na vida também.

Falo da água só agora. Quem assistiu ou, porventura, assistirá, percebe – ou perceberá – como o elemento “água” está presente em Adeus, Primeiro Amor. Outra coisa: é um filme em que os arquitetos e os que “gostam de” não devem deixar de ver. A “excursão” arquitetônica é deslumbrante: é muito bom ver o legado da Bauhaus nas telas.

Ouça a música que “fecha” (nunca fecha, na verdade, a vida continua como a água percorre seu caminho), sintomaticamente, se chama The Water e é interpretada por Laura Marling e Johnny Flynn.



Há uma resenha muito boa sobre o filme, na revista Cinética (http://bit.ly/xV7kko)