terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Adeus, Primeiro Amor, de Mia Hansen-Løve

“O filme é parado, não tem história, parece até filme francês.” A fala não é exatamente, essa; é algo mais ou menos assim. Esse é o comentário autorreferente em Adeus, Primeiro Amor (Un amour de jeneusse, 2011). Acontece em uma cena em que Camille (Lola Créton) e Sullivan (Sebastian Urzendowsky) estão saindo do cinema.

Sullivan, Camille e o amor no campo
A diretora Mia Hanson-Løve é uma grata surpresa. Não assisti ao seu Pai dos Meus Filhos (Le pèré de mes enfants, 2009). Adeus, Primeiro Amor lembra filmes de Eric Rohmer e um pouco de Maurice Pialat (principalmente, o belo A nous amours, com interpretação marcante de Sandrine Bonnaire), por uma certa crueza – ou frieza, não no sentido de gélido – de como aborda relações humanas. Elas são vistas sem que a diretora tome partido ou se utilize de artifícios para “pegar” o espectador na emoção; ou melhor, não há juízos morais, o que é bom, pois assim exercitamos os nossos e, humanos, podemos considerar certos fatos como normais, abjetos ou circunstanciais.

Camille ama Sullivan. É um amor da adolescência. Sullivan planeja uma longa viagem à América do Sul. Ela disse que se mata se ficar sem ele. Antes da separação, passam uns dias em uma casa de campo à beira do Loire. Essas cenas ocorrem sob o olhar distanciado de Hansen-Løve e nós, espectadores, presenciamos e “vivemos” o amor dos dois.

Sullivan parte e o mundo de Camille fica “negro”. Separam-se no ano de 2000. Três anos se passam. Ele envia cartas e Camille, vai marcando em um mapa os lugares que ele vai conhecendo. Entra na escola de Arquitetura e surge um interesesse mútuo entre ela e Lorenz (Magne Håvard Brekke), um de seus professores. Em um caderno, distraidamente deixado na ocasião de uma das visitas que fazem à Alemanha e à Escandinávia para conhecerem algumas obras arquitetônicas, Lorenz lê uma frase em que Camille revela que seu mundo “enxerga” uma luz depois de anos de escuridão. É mais ou menos assim; mais uma vez, não consigo lembrar da cena com melhor exatidão.

Camille, depois do longo período de “luto” causado pelo “desaparecimento” do seu amor, se envolve com o professor tornando-se sua assistente e, depois passam a morar juntos. Em uma ocasião, num ônibus, encontra-se com a mãe de Sullivan e fica sabendo que ele, há vários anos, voltou e mora em Marselha. Entrega-lhe um pedaço de papel com seu número de telefone.

Em uma de suas vindas a Paris, reencontram-se e tornam-se amantes. O que é incômodo para Sullivan, não representa problema, sob o aspecto moral, para Camille. Ama Sullivan. Este, mais uma vez a abandona. E, como diz aquele amigo, a vida continua. É como a água: flui, percorre seu caminho, os acidentes geográficos são pedras no caminho, das quais se desvia e encontra novas vias. É assim na vida também.

Falo da água só agora. Quem assistiu ou, porventura, assistirá, percebe – ou perceberá – como o elemento “água” está presente em Adeus, Primeiro Amor. Outra coisa: é um filme em que os arquitetos e os que “gostam de” não devem deixar de ver. A “excursão” arquitetônica é deslumbrante: é muito bom ver o legado da Bauhaus nas telas.

Ouça a música que “fecha” (nunca fecha, na verdade, a vida continua como a água percorre seu caminho), sintomaticamente, se chama The Water e é interpretada por Laura Marling e Johnny Flynn.



Há uma resenha muito boa sobre o filme, na revista Cinética (http://bit.ly/xV7kko)

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