quinta-feira, 21 de junho de 2012

Alguém sabe quem é Mordy Ferber?

Você já ouviu falar de Mordy Ferber? Eu não; até a semana passada, pelo menos. Como “a curiosidade matou o gato”, vi um disco dele em que, entre os “sidemen” estavam o baixista Eddie Gomez, o saxofonista Dave Liebman, o baterista Jack DeJohnette, e Naná Vasconcelos na percussão. Atiçou a minha curiosidade. Os outros “sidemen”, menos conhecidos, eram o sax-tenorista George Garzone e o tecladista Brad Hatfield.

O nome do disco pode ser considerado um enigma: Mr. X. O “X” é uma variável, esse senhor pode ser qualquer um ou, resolvida a equação, resultaria no Mr. Morby Ferber. Não existem muitas referências na internet sobre ele, imagine em outro lugar. Os músicos que tocam no disco poderiam ser uma boa pista. Pensei. E não estava errado.

No site oficial de Ferber, está dito que nasceu em 1958. Na adolescência, participou de uma banda de que tocava Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Cream, The Beatles e Santana, dentre outros. “Então, ouvi o grande guitarrista cigano Django Reinhardt no rádio; aquilo me causou um enorme efeito”. Com 18 anos, como é praxe em Israel, seu país de nascimento, teve que servir o Exército por três anos. A única maneira de continuar a tocar guitarra nesse período seria entrar na banda do Exército. Depois disso, passou a gravar e a tocar com outros músicos em Israel, não necessariamente tocando jazz. Com 23 anos foi estudar na Berklee College of Music. Passou a compor: “… a melhor coisa que me aconteceu em Boston foi que, de repente, passei a escrever música”.

Uma observação: quem se interessou em aprender a tocar guitarra e nasceu nos anos 1950 não escapou da poderosa influência do rock e de grandes guitarristas como Eric Clapton, Jimmy Page e Jimmi Hendrix. Os que bandearam para a música instrumental, como Ferber, podem ter tido um “click” com Django Reinhardt ou de terem suas atenções dirigidas a Wes Montgomery, Jim Hall ou Grant Green, mas a força das guitarras no rock foi decisiva para a transformação da linguagem da guitarra no jazz.

Mr. X é de 1995. Quinze anos, para alguns, é muito tempo. Na música, não é. Paul McCartney acaba de fazer 70 anos (em 18 de junho) e seus maiores sucessos ultrapassam em muito a idade de seus ouvintes: os Beatles lançaram o primeiro disco em 1963 e nele foi gravado I Saw Her Standing There. Mas Ferber não era tão jovem em 1995.

Ouvindo-se a primeira faixa – a que dá nome ao disco – a primeira lembrança é 80/81 (ECM, 1981), álbum duplo de Pat Metheny em que o guitarrista é acompanhado pelos saxofones tenor de Michael Brecker e Dewey Redman. O sopro de Liebman é mais parecido com o do primeiro. Metheny e Ferber nasceram no mesmo mês (agosto); Pat nasceu quatro anos antes, de onde pode se concluir que, se a guitarra de Ferber lembra a do americano, é porque deve tê-lo ouvido. Pat, com vinte anos, estava tocando com Gary Burton; em 1976 lançou o primeiro disco como líder, pela gravadora ECM (Bright Size Life). Em 1995, quando Ferber lançou Mr. X, Pat tinha vinte anos de carreira nas costas.

A segunda faixa – Formerly With No One – é um belo tema: destaque para o baixo de Eddie Gomez. A Minor Tune, composição de Ferber, também, é um dos pontos altos, com Silence, original manjadíssimo – e maravilhoso – de Charlie Haden. Os solos de Liebman no sax soprano, o baixo que desenha belas linhas melódicas e a sempre criativa bateria de Jack DeJohnette apenas valorizam a guitarra do israelense. Fred Astaire in Chicago (bom título, não?) é outra de Ferber. A música em si? É boa, mas não tanto quanto a próxima – Zipora (to My Mother) – reflexiva, belos sons de Ferber, acompanhado do piano de Brad Hatfield, enquanto o baixo, a bateria e sons abstratos de percussão a complementam. 21st Century é a última. Pelo nome dá para desconfiar. É a grande peça do disco, ou melhor, seria. Peca pela pretensão. É a mais “tensa”; os sons dos teclados eletrônicos, com seus acordes, são como trombetas de “anunciação” dos novos tempos. Os solos de saxofone são frenéticos, aqui a guitarra também é mais distorcida, e é a única em que Naná participa com a voz. Tem 13 minutos. Não precisava.

Ouça Zipora (to My Mother).



Veja Mordy Ferber tocando com Dave Liebman.




terça-feira, 19 de junho de 2012

Muito estranho, esse Iggy Pop

Iggy Pop em 1973 (esquerda); em 2011 (direita)
É chover no molhado dizer que Iggy Pop é um dos ícones do rock. Famoso pelas performances e mergulhos suicidas sobre o público, da época dos lendários The Stooges, o “iguana” continua vivo e muito bem, como seus pares “stonianos” que, apesar das rugas, mantêm-se esguios, bem ao contrário de muitos dos seus contemporâneos que, além de dinossauros do rock, viraram “baleias” do rock. Até o cabelo está lá sobre seu cérebro, se aquilo não for uma peruca.

Mas… pessoal, hein!, não me senti muito bem na única vez que o vi no palco. Pop (é nome artístico; o real é James Newell Osterberg) sempre gostou de apresentar-se sem camisa, talvez, a chamado de Narciso, para exibir o abdômen definido e bem musculoso (daria até para concorrer a Mr. Universo, dos pobres, não naquele em que Schwarzeneger foi vencedor). Nessa apresentação, Iggy saltava qual um canguru desgovernado, o som estava muito alto e extasiava-se em abaixar a calça de couro preta e mostrar os glúteos brancos para a plateia. Há quem gostou. Eu, não.

Iggy Pop acaba de lançar Après (com apenas meia hora de música, esta à venda apenas para download). O título é ótimo para um disco de covers: “après-Gainsbourg”, “après-Edith Piaf”… Ouvindo o álbum, a primeira conclusão a que se pode chegar é que Pop daria um bom crooner. Voz gravíssima, tem personalidade. Podia ser um cantor de churrascaria, podia embalar muito bem um Baile da Saudade. Manda bem em Only the Lonely, superclássico na voz de Frank Sinatra.

Já que é “Après”, cinco das faixas são francesas e cantadas nessa língua. Uma sexta poderia ser, mas é da dupla Lennon & McCartney; apesar do nome – Michelle –, é inglesa. A que abre é Es si tu n’existais pas, de Joe Dassin e Toto Cutugno. Foi cantada por Johnny Haliday, Mireille Mathieu e Dalida (acho que poucos a conhecem, fora o amigo Mansur Bassit; suicidou-se em 1987, quando tinha 54 anos, mas antes do fato consumado havia tentado uma vez, depois que Luigi Tenco, seu namorado na época, suicidou-se por ter sua composição Ciao Amore, Ciao desclassificada no tradicional Festival de San Remo). As outras, bem conhecidas, são La javanaise, de Serge Gainsbourg, La vie en rose, eternizada por Edith Piaf, Syracuse, e, finalmente, Les passantes, canção de Georges Brassens. Em La javanaise e La vie en rose, a interpretação chega a ser sofrível. A curiosidade no clássico consagrado por Piaf é o solo inicial do trumpete, como a de outra interpretação inesquecível: a de Louis Armstrong. Se Iggy é sofrível nessas duas, nas restantes, se redime. Em Es si tu n’existais pas não faz feio, nem em Syracuse, se bem que é covardia compará-lo a Henri Salvador. Les passantes é a melhor das francesas com o senhor Osterberg soltando o vozeirão. Agora, não se esqueça que Iggy Pop é um americano cantando em francês. Em alguns momentos seu “accent” é de lascar.

As anglo-americanas do álbum são Everybody’s Talkin’, tema de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, grande filme de John Schlesinger, com Dustin Hoffman e Jon Voigt), do companheiro de noitadas regadas a muito álcool de John Lennon, na época em que tinha levado um pé na bunda de Yoko Ono (depois reataram o casamento), Michelle, dos Beatles, e dois standards – Only the Lonely e What Is This Thing Called Love. Canta com competência em todas essas, mas já que citei Yoko Ono, a melhor faixa é I’m Going Away Smiling; não é melhor que o original, mas é bem boa.

É a que você vai ouvir.



Agora, no Youtube há uma interpretação de I’m Going Away Smiling de Yoko e Antony, aquele do Antony & The Jonhsons, de arrepiar. Assista. Se você não conhece Antony (é sem “H” mesmo), está perdendo tempo. Leia sobre ele em http://bit.ly/OCkQyJ (“As relações entre Kazuo Ohno e Antony & The Jonhsons”).