quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Vinícius Cantuária virou mexicano

Até a capa é “mexicana”
Depois de tanto tempo sem ouvir falar de Vinícius Cantuária, pensei que tinha virado mexicano. Pelo menos, foi a primeira impressão, ao começar a ouvir seu mais recente disco. Nas duas primeiras faixas, Cantuária canta na língua hispânica. A terceira é instrumental, e a quarta se chama Lágrimas Mexicanas… cantada em português.

Lágrimas mexicanas é o título do disco, lançado em 2010, que foi realizado com o americano Bill Frisell. Faz tempo que Cantuária o conhece, tendo participado de, pelo menos um disco dele – Tucumã (1989) –, lançado pelo selo americano Verve. Esse guitarrista é deveras eclético. Com seu nome ligado ao jazz, está sempre a variar de gêneros. Basicamente instrumentais, gosta de fundir gêneros como o country e o folk. Seu estilo de tocar não segue a tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall. Tem predileção por distorções discretas e não faz o tipo “o mais rápido do Oeste”.

Cantuária passou a ser mais conhecido tocando com Caetano Veloso, apesar da experiência anterior como membro da banda de rock progressivo O Terço. Era o baterista da Outra Banda da Terra, que acompanhou Caetano na época de Muito (1978). Na turnê e no disco, tocava violão também. Sua faceta compositora se popularizou – principalmente pelo número de ouvintes – com Só Você, sucesso e parte da trilha sonora de uma novela, cantada por Fabio Jr.

A outra é a doce Lua e Estrela, gravada por Caetano Veloso, em Outras Palavras (1981). Quem não se lembra dos versos singelos e delicados dessa música? “Menina do anel de lua e estrela/ Raios de sol no céu da cidade/ Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde/ Penso em você, fico com saudade”. O seu talento foi reconhecido e gravou dois discos pela RCA Victor. Tem mais em terras brasileiras, mas “desapareceu”. Mudou-se para os EUA e prosseguiu na carreira como artista e compositor, e o foco mudou. Não abandonou a música brasileira: é, ainda, essencialmente, um brasileiro que mora e grava lá.

É o que se depreende, a partir de Tucumã (tenho-o em casa, nunca mais ouvi, no entanto) e do recente Lágrimas… Curioso que sou, vi no site da Amazon e comprei fiando-me naqueles samples de 15 segundos cada. É difícil um juízo a partir disso: corri o risco. E o bom é quando as expectativas se superam. Uma amiga a quem fiz ouvir o disco disse ter gostado e comentou da variedade rítmica das faixas. É verdade: essa é a riqueza dele. Ninguém é estrela nesse disco tocado por dois apenas; nem a guitarra de Bill Frisell está tão característica. Antes da primeira audição, a pergunta que surgiu foi exatamente: onde o som meio “havaiano” do americano iria se encaixar com o estilo do brasileiro? E combinam muito bem. Conta-se o tempo em que se conhecem e por terem gravado anteriormente.

A multiplicidade se justifica no produto resultante desse projeto. É um som híbrido, cantados em espanhol, português e em inglês, e algumas instrumentais. É a própria expressão da cultura multiétnica de um lugar como Nova York e, crescentemente, do resto do país norte-americano. Depois das “lágrimas mexicanas” serem vertidas em português, vertem-se na mesma língua, as Lágrimas de Amor. Nessa doce canção, Cantuária se apresenta por inteiro no que parece característica maior: um lirismo presente desde Lua e Estrela.

Cafezinho é um baião “americanizado”, apenas instrumental, com uma levada irresistível, mas não para ser dançada num salão. A sexta faixa, El Camino, é maravilha pura, com belos acordes etéreos de Bill. Aquela Mulher é um sambinha bem ao estilo de Cantuária, com uma batida econômica e voz contida sobre um ritmo fundido à guitarra quase sem efeitos do americano. Depois de Brigas de Namorados, o CD termina com Forinfas, cantado em português. Despojada, lembra vagamente Nostalgia, a última faixa de Transa, de Caetano Veloso, aquela que é cantada pelo baiano e Gal Costa, só que num ritmo bem menos rocker.

Quem está com saudades de Vinícius Cantuária vai se esbaldar com o CD Lágrimas Mexicanas. Ouça a maravilhosa El Camino.




Veja os dois em Lágrimas Mexicanas.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Georges Arvanitas e o jazz de grego

Dizem que o berço da cultura ocidental é a Grécia; berço da filosofia, da literatura, da ciência, e até da democracia. Como é coisa de tempos imemoriais, podemos nos perguntar sobre o peso cultural mais recente da Grécia.

O cinema é uma arte nova, e nesse quesito, tem dois nomes a ser considerados. o primeiro é o cinematógrafo Michael Cacoyannis, diretor de Zorba, O Grego, inspirado na obra de Nikos Kazantzakis, autor de Cristo Recrucificado também. É um clássico. Quem fez o papel do grego foi o mexicano Anthony Quinn, marcado para sempre por esse personagem tão inesquecível.

Outro, esse sim, genial, é o ateniense Theo Angelopoulos. Há controvérsias. Conheço pessoas que o acham um chato metido a fazer cinema pretensamente intelectual. Faço parte dos que gostam da “lentidão” dos filmes de Andrei Tarkovski, da densidade e violência emocional de um Bergman, e Theo está na lista dos meus eleitos. Até parte da crítica especializada o tem como um “cineasta de festival”, ou seja, faz filmes para serem premiados e serem solenemente ignorados pelo público. Desse time fazem parte Abbas Kiarostami, e o tailandês Apichatpong Weerasethakul, ganhador da Palma de Ouro, em 2010, com o estranhíssimo e belo O Tio Booonmee, Que Se Lembra das Suas Vidas Passadas. Quebrou-se a escrita, no entanto, com a exibição de Poeira do Tempo (I skoni tou hronou, 2008): pelo jeito, o júri não se encantou no Festival de Berlim de 2009. Mas, antes desse, dirigiu alguns belos filmes: Viagem a Citéria, A Eternidade e Um Dia e Paisagem na Neblina. O primeiro da trilogia, O Vale dos Lamentos (2004), foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Longo – três horas –, a parte bela são os longos planos-sequências (a cena, não lembro agora se é de um casamento ou de um enterro, em que as personagens se locomovem na água sobre canoas é perfeita); o lado ruim, digamos, é a ambição (pretensão é a melhor palavra) de construir um panorama épico e político da Grécia.

Com exceção da banda Aphrodite’s Child, surgida no fim dos anos 1960, e o sucesso internacional de dois de seus componentes – o cantor Demis Roussos e o tecladista Vangelis – em carreiras solo, e da cantora Nana Mouskouri, pouco se conhece de algum outro intérprete que tenha ficado mais conhecido fora da Grécia. Num outro segmento, está Mikis Theodorakis, autor da trilha sonora de Zorba, O Grego. O compositor Iannis Xenakis pode ser considerado uma exceção das exceções, pois que, apesar de ascendência grega, é romeno de nascimento, naturalizado francês: é figura de proa entre os admiradores da música erudita contemporânea.

Até em países “fechados” em razão do domínio da União Soviética, floreseceu o jazz. Os bares de jazz na antiga Tchecoslováquia eram famosos. Nos anos 1960 e 70, “exportaram” o baixista Miroslav Vitous e o tecladista Jan Hammer. Nasceram na Hungria os guitarristas Gabor Szabó e Atilla Zoller, e o baixista Aladar Page. Da Polônia, despontaram o trumpetista Tomasz Stańko, a cantora Urszula Dudziak, os violinistas Michał Urbaniak e Zbigniew Seifert, e também o tecladista Adam Makowicz. A antiga Iugoslávia “produziu” um grande trumpetista: o bósnio Dusko Goykovich.

Arvanitas por Esther Cidoncha
Depois de tanta tergiversação, chego no nome de Georges Arvanitas. Apesar do nome grego, nasceu em Marselha, França. Os pais vieram de Istambul, portanto, devem ter fugido ou sido expulsos pelo governo turco.

Não é lá muito conhecido. É, no entanto, excelente pianista. É um daqueles nomes do universo do jazz francês, que como Pierre Michelot, Michel Legrand, Martial Solal e Barney Wilen, “trocaram figurinhas” com os músicos americanos expatriados. A não citação de Django Reinhardt e Stéphane Grapelli é porque são anteriores; Michel Benita, Erik Truffaz, Jean-Luc Ponty, Jean-MIchel Pilc, Michel Petrucciani, Eddy Louis e de Richard Galliano são mais jovens.

Como alguns, conheço apenas dois álbuns. Um deles é o Plays… George Gershwin (1993). Técnica e musicalidade estão enfatizadas, principalmente, nos solos de Nice Work If You Can Get It, Someone to Watch Over Me e no tributo ao quase xará, From Georges to George.

Ótimo disco também é o duo que fez com o americano David Murray em 1991: Tea for Two – George Arvanitas Presents… The Ballad Artistry of David Murray (grafado sem o “s” no primeiro nome). Apesar do nome de Murray estar mais associado ao jazz avant-garde em decorrência de ter sido um dos componentes do World Saxophone Quartet e também pela série de álbuns lançados pelo selo italiano Black Saint, é mestre em baladas. Os discos gravados em duo com o piano são espetaculares. Além desse com Arvanitas, tem um com John Hicks (Sketches of Tokyo), e outro com Mal Waldron (Silence).

Arvanitas e Murray gravaram Chelsea Bridge, Polka Dots and Moonbeams, Star Eyes, Body and Soul, Tea for Two, I’m in the Mood for Love, Blues for Two e La vie en rose. Ouça a última.



O prodígio técnico de Arvanitas em NiceWork If You Can Get It.


Curiosidade arqueológica. Os sons do órgão Hammond que embalam os gemidos e sussuros de Jane Birkin no clássico Je t’aime moi non plus, de Serge Gainsbourg, são de Georges Arvanitas.